91 – Final
Great
Dois meses depois do casamento do Dao e do Fon, quando o Fai foi a casa dos Vongsawat por ter saudades da mãe e do sobrinho, foi uma surpresa para ele descobrir que a Liu e o Paul tinham decidido adotar o Great. Explicaram-lhe a situação, e ele apoiou a decisão. E, como já não queria mais surpresas destas, primeiro o Benny, agora o Great, o Fai encarregou o Smart de ficar de olho na família. Qual não foi o seu espanto quando, um mês mais tarde, o assistente lhe reportou que o filho mais velho do Lien se tinha casado… O Smart confirmou que o Nan sabia, e que, por isso, quando os vinha visitar, se calava com diplomacia sobre o que sabia.
No aniversário do Lien, o Tawin foi oficialmente apresentado a todos como marido do Dial. E, depois de o Smart já ter visto o rapaz em pessoa e reunido informação sobre ele, invadiu, por ordem do chefe, as imagens das câmaras do «Kamarati». Sabia que o ex do rapazinho era um animal, mas tratar assim alguém tão mais fraco e vulnerável do que ele era demais até para o Smart. Por isso o Fai tirou o auricular e guardou-o no bolso, para não estragar o ambiente nem a si nem aos outros.
Quando o pequeno Win perguntou pelo Great, toda a gente começou a ficar aflita. O Fai reparou que as câmaras do perímetro estavam viradas para as próprias paredes, e não para a estrada; por isso, quando disseram que o Great tinha escapulido por uma das saídas de serviço, o Smart pôs-se logo à procura do rapazinho ou de um táxi.
Só que o assistente não encontrou nem o Great nem nenhum táxi, mas ficou desconfiado de um convidado, num Nissan Armada branco, que afinal nunca chegara a entrar. Pela matrícula, nas câmaras da saída para a cidade, o Smart já sabia quem ia ao volante, e que o Great estava com esse homem.
Quando estacionaram junto ao hospital, o Fai disse ao Nan onde procurar o desaparecido, mas não lhe disse com quem o Great estava. Os homens do Nanfa e o Lien foram eles próprios ao hospital, a pedir que entretivessem os pais até voltarem. E, enquanto conversavam com os pais, e o jovem casal lhes contava a história de como se conheceram e casaram, o Smart reportou que o Great tinha aceitado ir para casa, mas só com o Akara; e, de caminho, enviou um vídeo do quarto do hospital, em que o rapazinho ria às gargalhadas. O Cachorrinho reencaminhou o vídeo aos rapazes, para que não ficassem muito zangados com o Ari. Depois de uma conversa com a psicóloga, o Hima e o Fai decidiram voltar para casa.
🍃 🍃 🍃
Uma semana depois, o rapazinho foi apanhado de surpresa por uma chamada do Lien, que voltava a pedir-lhe ajuda. Só que, desta vez, era preciso pôr a ponto um edifício vazio numa semana e transformá-lo num presente para o Win e o Dial. O Fai foi logo ter com os Twix, para, com eles e com o Smart, encomendar o equipamento necessário, e, de caminho, pensar em como ocupar os filhos do Lien no princípio. A seguir, um jantar-surpresa para o Dial, e o rapazinho, em lágrimas, tornou-se diretor da «Future DT». O Orphie e os Twix propuseram várias ideias interessantes de pequenos dispositivos robóticos.
🍃 🍃 🍃
Um mês depois, a Kalliou e o Paul confessaram oficialmente aos filhos que se tinham casado logo em Las Vegas, no dia a seguir ao casamento do Dao e do Fon.
No Ano Novo, o Fai, o Hima, a Tirak, o Fon e o Dao voaram até Moscovo para visitar os pais, decididos a fazer-lhes uma surpresa. Só que, nessa viagem, uma surpresa bem desagradável os esperava… O atentado contra o Anton, e a verdade sobre o pai dele. O Fai ofereceu ajuda ao Benny, a perceber perfeitamente o que ia por dentro do Lírio. O dia em que dois cavaleiros do Apocalipse varreram Moscovo e os arredores ficou célebre no mundo inteiro dos círculos da máfia e do crime, a provar que não é o diabo que mete medo… é a cria dele.
(N. da T.: trocadilho russo com o ditado «não é o diabo tão feio como o pintam», aqui, «como o seu pequenino»: o Anton é temível, mas o «pequeno» Lírio é pior ainda.)
Depois disto, o Fai acrescentou ao código do Smart mais uma condição: se lhe acontecesse alguma coisa a ele e ao Hima, o Smart passaria para o controlo do Orpheus.
🍃 🍃 🍃
Dois anos e meio depois
Quando o Fai recebeu uma chamada do Win a dizer que a mãe se tinha sentido mal, ele e o Hima largaram tudo e correram a casa dos Vongsawat. E foi aí que uma surpresa verdadeiramente chocante os esperava a todos! Ninguém contava com o aparecimento de um bebé em casa! Decidiram chamar-lhe Rachini. A Tirak ficou com ciúmes da tia mais nova, porque, quando os avós vinham com ela, os papás davam toda a atenção à Rachini. Como sempre, quem salvou a situação foi o esperto do Sakda, a quem a Rak queria como a um irmão mais velho. O rapaz explicou-lhe que os pais dela estavam com ela todos os dias e eram só dela, ao passo que a pequena Chini vinha poucas vezes, mas que isso não queria dizer que a amassem menos do que antes. A menina deixou de chamar «Mamã» ao Hima, e passou a ter dois Papás, que trazia enrolados no dedo mindinho.
🍃 🍃 🍃
O Quinto Aniversário do Casamento do Dao e do Fon
Quando os membros da família, já enorme, se juntaram às mesas do jardim das traseiras da mansão dos Kittichat, com as crianças a brincar no parque infantil, cada adulto percebia: Isto é que é a felicidade!
Toda a gente felicitava os rapazes, só que o casal trocava uns olhares meio suspeitos.
O Dao levantou-se, ergueu o copo e começou a falar:
— Há cinco anos, tomei a decisão mais acertada da minha vida: disse «sim» num casamento. Não me arrependi nem por um minuto de ter escolhido este esposo! Por isso… queremos pedir desculpa a todos por vos termos escondido uma coisa…
— Ó grande Buda! Não nos deixes em suspense! — interrompeu a Kira o filho, a perceber que aqueles dois tinham claramente tramado alguma.
— Vocês já sabem que, depois do jantar, vamos ao porto? — continuou o Fon, porque o tinham dito uns dias antes. — Eu e o Dao não vamos lá por acaso… Falta uma semana para o parto da nossa barriga de aluguer, e por isso ela decidiu não viajar de avião e preferiu o ferry. Daqui a cinco horas, a Divina está em Banguecoque.
— Falta uma semana para o quê? — perguntou o Nai, sem perceber bem do que se falava.
— Para o parto, pai. O Fon andava muito preocupado por nós não podermos ter filhos. Ou melhor: por os meus pais terem morrido e o único filho deles ser gay. Por isso, no último aniversário, falámos muito sobre o assunto e decidimo-nos pela maternidade de substituição. O Fon levou imenso tempo a escolher o país de onde viria a mãe, e o aspeto que ela teria… Lembram-se de que fomos a Itália, ao Brasil, à Austrália e às Filipinas? No fim, o meu pequenino escolheu a Divina, uma filipina. E assim… muito em breve, a nossa grande família vai ter mais uma criança… — explicava o Dao, enquanto todos ouviam calados, e só o Fai e o Hima sorriam, porque, ainda na véspera, tinham pedido ao doutor Dew que preparasse um quarto na unidade perinatal, e já tinham contactado a equipa de obras para fazer um quarto de bebé no compartimento ao lado do quarto do Dao e do Fon.
— Vou ser avó outra vez! — alegrou-se a Kira, porque os pais já tinham voltado para Banguecoque havia um ano.
A família toda foi ao porto receber a rapariga. E ela ficou tão nervosa que começaram as contrações.
Convencidos de que podiam ser as contrações de treino, as de Braxton Hicks, decidiram mostrar a Divina a um ginecologista. Durante o exame, rebentou a bolsa de águas, e aí ficou claro: as obras eram para já! Os avós tomaram a decisão de mandar todas as crianças com os pais para casa dos Vongsawat, enquanto, pela noite dentro, os operários tratavam de transformar o compartimento num quarto de bebé.
De manhãzinha, um choro agudo e sonoro anunciava o novo membro da família Yamnam. Uma menina saudável, de três quilos e meio e cinquenta e um centímetros, dava-se a conhecer bem alto. O nome já estava escolhido havia muito, tanto para menino como para menina. Ficaram com a pequena Savika dois dias na clínica, para as vacinas e os exames, e os rapazes ficaram com ela. O Fon olhava para a menina que lhe tinham posto nos braços e emocionou-se até às lágrimas quando a Savika abriu os olhinhos e ele percebeu que tinha nas mãos uma cópia em miniatura do amado.
🍃 🍃 🍃
Dezoito anos depois
As três crianças de casa dos Kittichat foram sempre um por todos e todos por um. O Sakda não deixava ninguém magoar as raparigas. A Savika e a Rachini eram as melhores amigas, porque só a alguém que não vivia naquela casa é que a mais nova podia confiar os seus segredos. Sobretudo o segredo de que, havia já muito tempo, gostava do Sakda.
A Tirak tratava dos negócios oficiais da família, ao passo que ao rigoroso e meticuloso Sakda tinham confiado o lado escuro deles, mas todas as decisões eram tomadas em conjunto com a Rak.
A Tirak já tinha vinte e seis anos, mas nem sequer pensava em casar. Por estranho que pareça, os rapazes não a atraíam, e, das raparigas, nenhuma lhe agradara ainda o suficiente para ficar com ela mais de meio ano. Não era mimada de mais, bem pelo contrário. Em casa havia tantos exemplos de amor verdadeiro e sincero que a rapariga farejava logo qualquer fingimento e falta de sinceridade. Os tios preferidos, os Twix, e o Orpheus em especial, diziam-lhe sempre que não vale a pena andar à procura do amor: é ele que nos encontra, quando menos se espera…
Quem diria que esse «menos se espera» ia acontecer hoje… Na pausa do almoço, a Tirak decidiu ir ela mesma ao restaurante preferido, a falar pelo caminho com a Timka por videochamada. O semáforo estava verde, e a rapariga não abrandou, certa de que dava para passar o cruzamento antes do vermelho. Só que, à frente dela, saltou de repente de uma esquina uma rapariga de bicicleta…
O toque da buzina, o guincho dos travões e o baque do embate, tudo aconteceu tão depressa que o airbag disparou. Ao saltar do carro, viu, sentada no asfalto, uma rapariga que se preparava para se levantar.
— Desculpe, Khun, a culpa foi minha! Diga quanto é, que eu pago o arranjo! — dizia a loira, a olhar em redor à procura do seu amigo de duas rodas.
— O quê? — ficou a Rak de boca aberta,afinal fora ela a atropelar a outra.
— Diga-me quanto custa pintar o para-choques e eu transfiro-lhe o dinheiro. Desculpe, estou com muita pressa; importa-se de me dizer depressa a quantia? — a levantar do chão a bicicleta, que não ficara muito danificada, a rapariga sacudia-se.
— Não é preciso nada… — disparou a Tirak. Mas, quando a ciclista se virou, aqueles grandes olhos verdes olharam-na mesmo até ao fundo da alma.
— Obrigada, Khun! Desculpe lá!
Assim, sem mais nem menos… montou e foi-se embora… — ficou a Rak pasmada, a olhar para as costas daquela beleza.
Bip bip!
A buzina do carro de trás trouxe a rapariga de volta à realidade, e ela voltou para o volante. Só que decidiu não ir ao restaurante, e foi atrás da feiticeira de olhos verdes. Mas não encontrou dela rasto nenhum, como se nunca tivesse existido. Ao chegar a casa, à noite, a primeira coisa que fez foi ir ter com o papá adorado, aquele que nunca lhe conseguia dizer que não…
— Papá… gosto tanto de ti… — a agarrar-se à mão do loiro, falava a raposinha.
— E o que é que a minha menina quer? — adivinhou logo o Papá adorado, porque só com ele é que ela se armava assim, quando precisava de alguma coisa.
— Pede ao vosso assistente que encontre uma pessoa? — sorriu ela, a espreitar os olhos azuis.
— Quem? Nome? Apelido? — insistiu o Hima; mas ouviu um suspiro pesado.
— Se eu soubesse, também pedia ao tio Orphie… — desanimou a Tirak.
— Conta lá…
Com a cabeça pousada no ombro do pai, no escritório, a Tirak contou-lhe a história da estranha desconhecida que atropelara nesse dia. Não sabia que o Fai estava à porta aberta, a ouvir tudo. E houve qualquer coisa que lhe soou estranho na história da Tirak, que tanto se escudava no desejo de se certificar de que a rapariga estava bem. O Fai pediu ao assistente que descobrisse se a matreira estava a mentir.
Qual não foi o seu espanto quando, no vídeo, apareceu uma rapariga a sério, tal e qual como a Rak a descrevera. O Smart encontrou toda a informação sobre ela e reencaminhou-a para o telemóvel do Fai.
No dia seguinte, depois do jantar, o Fai chamou a Tirak ao escritório e perguntou-lhe o que estava disposta a dar em troca daquela informação…
— Fazemos assim… eu dou-te a informação sobre a tua ninfa de cabelos de ouro, e tu… convences o Sakda a trazer a namorada cá, para a conhecermos… — sorriu o matreiro, a olhar os olhos da Tirak.
— És sempre assim! O Papá é que nunca me pede nada em troca, porque me ama só por me amar! — fez ela beicinho. Mas o Fai abraçou-a logo.
— E eu também te amo só por te amar, porque tu existes. Mas tu sabes muito bem, tudo tem o seu preço… e isto é uma troca pequenina… mas, se não precisares… — provocava o Tigre a filha, porque sabia perfeitamente que, se ela aceitasse, era porque o interesse pela rapariga não era nada de simples.
— Está be-e-em… falo com ele… mas não prometo nada!
📩 Tlim
Chegou um ficheiro ao telemóvel da Tirak, e o Papá deixou-a sozinha no escritório…
Então… Josie… — pensou ela, a olhar com um sorriso para a foto da rapariga. — Desculpa, Savika… adiei o inevitável o mais que pude…
Mas isso… já é uma história completamente diferente.
*********
Nota da autora:
Quando comecei a escrever este livro, nunca imaginei que ele viesse a ser o primeiro de um universo de histórias de quatro mafiosos. Foi a minha primeira criação. Queria que tivesse tudo aquilo de que eu e os leitores gostamos: enredo, protagonistas interessantes e, logo à partida, muitos casais diferentes, para que se pudesse acompanhar não só a relação do casal principal, mas também a dos outros. A uns escondi, a outros mostrei logo, e a outros ainda separei e dei-lhes o meu carinho. Um enorme obrigada a vós, meus leitores adorados, por me terem apoiado nesta aventura quando eu tinha tanto medo… Foi precisamente graças ao vosso apoio que hoje já tenho mais do que um livro. Umas histórias estão terminadas, outras ainda se escrevem e outras estão ainda em projeto. Se quiserem, conto-vos as histórias da Savika, da Tirak e do Sakda, mas só depois de terminar a história da geração mais velha. E ainda temos o Tadao com o Jah, que mal começaram, e o Anton com o Benny, quase a meio da história… Mas ainda vos esperam os especiais, por isso não nos despedimos de vez das personagens que tanto vos ficaram no coração.