87 – Ambos os dois
Com o grito dos rapazes, os pais e o Stas saíram a correr, a ver a sala de estar: o Fai e o Kai a tentar levantar do chão o Leo e o Gui em histeria, o Mix a passar quase a correr por eles nas escadas, o Hima a percorrer com o dedo uma lista no ecrã da televisão.
— O que acontece? — o tom sério do pai chamou a atenção do Fai, que ergueu para eles um olhar triste…
— O avião para o qual o Orfeu comprou bilhete caiu… De acordo com dados preliminares, não há sobreviventes… — o cachorrinho respondeu. O Nai agarrou o coração, e o Gui perdeu os sentidos nos braços do Leo.
— Querido! — a Kira gritou, a segurar o marido em choque.
— Não voou nem quinze minutos… Caiu na floresta. — o Fai continuou, enquanto levava o Leo para o escritório no primeiro andar. O Kai carregou o Gui.
— Não… Ele foi-se! — o Hima gritou. Mas a porta do escritório já se fechara, e o Var entrava a correr com a mala de serviço.
Enquanto o Var dava ao Gui uma injecção de sedativo, e de seguida ao Leo, o Hima entrou a correr no escritório
— Ele não foi! — ele sorriu, a olhar para as pessoas no escritório que se voltaram para ele quase em simultâneo. — Não está na lista de passageiros!
— Stas, traz o «Baby Buer», e depressa! — a Kira ordenou. O homem saiu a correr do escritório.
— O que é o Baby Buer? — o Fai perguntou, a apertar contra si o Leo a soluçar, a acariciar-lhe as costas na tentativa de o acalmar, a repetir que o Dark não estava na lista de mortos.
O Var trouxe o Gunnar de volta aos sentidos com amoníaco, e ele rebentou a chorar de novo, ao ouvir a dor vibrante na voz do Leo a rebentar, que abafava todos os sons no espaço. Diante dos rostos aflitos das pessoas que tentavam chamar a atenção dos rapazes, o zumbido nos ouvidos de ambos não lhes permitia sequer ouvir, quanto mais perceber o que queriam deles. Até a pequenina Tirak foi acalmar os rapazes. Ao ver que os dois seguravam o mesmo peluche, ela decidiu que os tios choravam porque não conseguiam partilhá-lo. A rapariga saiu a correr do escritório para o quarto.
— A-a-a-a… Hi-i-i-i… — o Leo soluçava, a enlouquecer ao perceber que a culpa era deles…
A culpa era deles. Não foram ao aeroporto buscá-lo. Confessaram o amor, embora soubessem que isso podia assustá-lo. Ainda não o tinham parado na garagem. Decidiram que podiam conquistar o coração de um chefe manhoso, mas falharam miseravelmente. E agora… A dor que matava o coração e a alma: mereciam. Ele foi-se. Já não existe. E tudo o que os Twixes tinham era o peluche que o Orfeu tanto adorava.
— E achas que eu te encontrei ti e o Fon como, hem? — ela sorriu, satisfeita com a forma como o Diabinho a olhava agora.
O Stas entrou no escritório com um pequeno tablet, a entregá-lo nas mãos da Kira. A digitar rapidamente algo no ecrã, os olhos da mulher arredondaram-se, e ela olhou para todos na sala.
— Então, o que se passa, mãe? — o Hima preocupou-se, a aproximar-se.
— Não pode ser… — os dois ficaram agora em choque. E a entreolharem-se, o Hima passou dois dedos pelo ecrã a ampliar…
— Se acreditarmos na localização, o Orphi está em casa. — a Kira disse, a olhar para o ecrã.
— Em casa, mãe? Talvez ele tenha deixado a localização, e saído sem ela? — o Fai expressou o pensamento — porque ele próprio o fizera.
— Esta argola ele nunca tira, porque é o meu primeiro presente para ele. — a mulher respondeu.
O sedativo fizera efeito, e agora os dois estavam sentados, a soluçar nos braços um do outro.
Quando a porta do escritório se abriu, todos se voltaram para quem entrara. Excepto o Leo e o Gui, sentados no sofá de costas para a porta…
Manhã do Orfeu no dia 26
Desde cedo notara uma espécie de tristeza nos olhos dos Twixes. E embora sorrissem, a tentar agir como sempre, sentia que algo estava errado. O Leo e o Gui estavam hoje mais ternos do que de costume. Depois do pequeno-almoço, o Gunnar decidiu consertar o corta-relva da mãe, e o manhoso foi com ele. Ali, o Orfeu adorava observar o Gui a fazer qualquer coisa: a mexer no carro, a consertar electrodomésticos, ou a reparar a torneira a pingar na casa de banho. Mais de uma vez se surpreendeu a pensar como o rapaz é bonito nesses momentos, como é sexy, como o excita.
— Pi, ajuda-me, hem? — ao ouvir o pedido, o Dark olhou para ele sonhadoramente. — Segura esta mangueira? Está a embaraçar. Por causa dela não consigo desapertar a porca.
O Orphi aproximou-se, a agachar-se ao lado do Gunnar, a pegar numa mangueira fina nas mãos, enquanto absorvia a forma como os músculos dos braços fortes se moviam, e o quão sedutor era o cheiro do homem. Completamente distraído, decidiu endireitar os caracóis que lhe caíam sobre os olhos, e soltou a mangueira com o resto do óleo, que salpicou os dois.
— Pi! — o Gui gritou, a cobrir com as mãos o rosto do homem bonito. — Não atingiu os olhos? — a tirar as mãos do rosto, agora sujo, o rapaz perguntou com cuidado ao chefe favorito, que de imediato rebentou a rir com a situação.
Uma pessoa normal tê-lo-ia repreendido por não ajudar em nada e ter estragado tudo. E a primeira coisa que o Gui perguntou foi se estava ferido.
— Gostava de poder ouvir o teu riso para sempre… — o Gunnar disse sem pensar. O Orfeu parou de rir.
— Para sempre não dura assim tanto… — o homem bonito disse a sério, a lembrar-se de como a Clara também dissera que o amaria para sempre. O «para sempre» dela durara seis meses.
— Oh… Vamos, sujaste a t-shirt… precisas de banho e de roupa limpa. — o Gui sorriu, a mudar de assunto.
Levou o amado para o duche, e a dizer que ia acabar de consertar o corta-relva, foi para a garagem. Ao descer as escadas, viu o Leo e a mãe na sala, a pedir-lhe de passagem que vigiasse o manhoso.
Quando o Orphi saiu do duche, o Leo já o esperava no quarto. Normalmente o Gunnar escolhia o que vestir, mas agora os olhos do homem foram atraídos pela camisa verde do Gui, e ele atirou-a para si, a pegar as calças pretas. Na cama estava o peluche de que o Dark tanto gostava. Apertava-o ou acariciava-o a qualquer oportunidade. O Leo ajudou o amado a vestir-se, a olhar para ele com tanto amor que fazia as entranhas do Orfeu contraírem-se, e o coração bater mais depressa.
O Leo e o Dark ajudaram a mãe com o almoço enquanto o Gui consertava o corta-relva. Depois do almoço, quando os três estavam prestes a ir buscar a Fa, o Leo iniciou na garagem uma conversa importante…
— Pi Dark… — ele começou com hesitação.
— Hm?
— Quero que saibas. — o Leo disse, a olhar nos olhos do amado. — Amo-te… Amo-te mais do que a vida… Tu e o Gui sois as pessoas mais importantes para mim…
— Talvez aches que não somos sinceros, mas o que sentimos por ti não é diferente do que sentimos um pelo outro. Tudo o que pedires, concordamos com tudo, só nos deixa ficar ao teu lado para sempre… — o Gunnar continuou, embora visse o medo a crescer nos olhos do Orfeu.
Plaf…
Uma bofetada na face do Gui do Dark, que não sabia o que fazer com essas confissões. Quando durante o sexo o chamavam de favorito, parecia um jogo engraçado. Mas agora… Agora os dois confessaram-lhe o amor, e o medo da traição voltou a tomar conta do homem. Lembrava-se perfeitamente de cada dia na clínica, de como fora difícil recuperar das palavras falsas da Clara. A chamada repentina da mãe, como ele acreditava, salvou-o. Mas ela parecia estar do lado dos rapazes, e fazia essas perguntas provocatórias.
A dizer à mãe que ia para o aeroporto, o Orfeu vasculhou nervosamente o telemóvel alguns minutos, e atirou-o ao chão como um psicopata, a arrancar as chaves do carro das mãos do Gui.
— Se me amam a sério, deixem-me em paz! Voo para Berlim, e vocês vão para a mansão, já não precisam de me guardar! Odeio isto. — o Dark gritou, a bater com força a porta do carro. O carro saiu de casa segundos depois.
O Gui via o medo e o desprezo nos olhos do chefe amado, as lágrimas a correr pelo rosto ao perceber que por causa deles o Orfeu se sentia assim.
— Gui…meu amor, vamos entrar em casa… — o Leo pôs o braço à volta dos ombros do amado. E o Gui rebentou a chorar no ombro dele.
E embora o Leo estivesse igualmente magoado, tinha de ser forte agora por causa do Gui. Pena de si próprio podia ter a sós. O Gunnar precisava dele agora. A ligar primeiro à Fa, avisou-a que teria de voltar a casa sozinha porque eles partiam de volta. Depois foi a chamada para a mãe, que fora ao mercado. E a última pessoa a quem ligou foi o Fai, a explicar a situação.
A encontrar um sedativo na caixa de primeiros socorros, deu uns comprimidos ao marido, a chamar um táxi… E enquanto o Leo fazia as malas, o Gui não largava o peluche favorito do chefe.
O Orfeu, mal saiu para a auto-estrada fora da cidade, parou o carro. Porque a dor nos olhos dos Twixes, do «odeio» atirado descuidadamente, não lhe dava paz. E embora não estivesse a falar dos rapazes, mas daquele sentimento a roer a alma, na cabeça percebia como soava, e o que eles pensaram. O coração apertou-se no peito, e o carro cheirava aos rapazes. No assento estava a jaqueta de ganga do Leo, e o próprio Dark vestia uma camisa do Gui.
A convencer-se da correcção da decisão, passados alguns minutos continuou a caminho do aeroporto. A fazer depressa o check-in, o homem aguardava o anúncio do embarque. Enquanto esperava, aterrou um avião de Taipei, e ele via casais felizes que simplesmente brilhavam ao encontrarem-se.
Não vêm atrás de mim, pois não? — ele pensou com melancolia, a olhar à volta, sentado na zona fotográfica com pedras grandes. — Fui eu que lhes disse para irem a casa sozinhos…
— Pi, toma. — uma menina de cinco anos estendeu-lhe um chocolate Twix, a sorrir com suavidade.
— Hm?
— Não chores… O pai diz que o doce melhora o humor… toma! É para ti! — a rapariga, a corar, pôs o chocolate no colo do homem enquanto ele passava a mão pelas faces molhadas, e correu.
Agora sim está doce… — vieram-lhe à cabeça as memórias de um beijo doce com o Leo, e depois o olhar do Gui na garagem, como o de um homem a morrer.
Dentro do Orfeu havia agora uma guerra verdadeira… Como uma fera em gaiola, a alma agitava-se no peito, enquanto a razão exigia pensar com clareza. A seguir a rapariga, reparou numa loja de electrónica, e quase correu para lá. A comprar um portátil e auriculares, passados dez minutos o Dark já via dois pontos de localização a mover-se a meio caminho para Banguecoque. A invadir os telemóveis dos rapazes, soube que o Leo chamara um táxi, e que iam agora para a mansão. A activar a possibilidade de ouvir pelo microfone do telemóvel do Leo, ouviu os soluços que lhe apertavam o coração.
Porquê, Leo? Snif… Porque é que dói tanto? Snif… Magoámos os sentimentos dele… Snif… Será que amá-lo é errado? A-a-a-a… Não quero voltar! Não! Odeia… snif… ele odeia-nos...
Oh, meu amor… A minha alma também não está no lugar… Por favor, não a rasgues mais com as tuas lágrimas? Já falámos sobre isto… O que quer que ele decida, aceitamos a escolha… mesmo que doa… Não se força o amor… Tudo o que podemos fazer é o que ele pediu… Sim, não estará por perto, mas estará sempre cá dentro… aqui… Percebes? Amar à distância também não é mau… O principal é que esteja bem…
Quanto mais o Dark os ouvia, mais queria estar ao lado deles, abraçá-los e dizer que estavam errados!
Que ele é que estava errado!
A repôr as configurações do portátil, a enxugar as lágrimas, encontrou a mesma rapariga e com as palavras:
— Pelas boas acções há sempre recompensa. Toma, bebé, obrigado! — entregou-lhe o portátil, a enfiar o chocolate no bolso.
Anuncia-se o embarque para o voo com destino a Berlim. Caros passageiros, não se esqueçam dos pertences na sala de espera… — o Orphi já não ouviu mais nada, porque já corria para fora do terminal.
A sentar-se ao volante, o Dark foi para a mansão, a pensar pelo caminho no que diria aos Twixes. No carro havia o silêncio que o homem tanto gostava nos momentos em que precisava de pensar. Não ligou a música nem o rádio, para não assustar os próprios sentimentos. O Orfeu pensou que ao partir para longe sentiria o mesmo de antes, antes do quarto cinco.
Oh, deves saber… Este quarto tem uma vibração especial… não te queixes depois… — recordou as palavras do Hima, que o irmão lhe dissera na despedida de solteiro.
O que começara no quarto cinco como tentativa de se livrar das babás, transformou-se numa necessidade subconsciente de ver constantemente essas mesmas babás ao lado dele… Para que o olhassem com aquele fervor, amor e reverência, tão caros ao coração do Orfeu e apreciados pelo seu membro. A dor que vira nos olhos deles antes de entrar no carro é tão familiar para ele… Vira-a mais de uma vez no próprio reflexo quando o abandonaram… As vozes dos Twixes, que ouvira enquanto os rapazes iam de táxi, atormentavam a alma do homem, a obrigá-lo a aceitar que assim não sofrem os que planeiam abandoná-lo, enganá-lo ou traí-lo… E embora para outros a decisão de voltar pudesse ser fácil, para o Dark, que há tantos anos não se permitia sentir algo bom pelas pessoas, foi uma grande conquista.
A caminho de casa pensou que precisava primeiro de esclarecer as coisas com os Twixes, depois falar com os pais, e nas mãos seguras e suaves do Leo e do Gui, poderia continuar a ter um bocadinho menos de medo.
A apanhar um engarrafamento estranho na saída em direcção ao aeroporto de Banguecoque, o homem passou na estrada quase hora e meia em vez de uma hora. Ao entrar no recinto, decidiu estacionar na garagem, porque ficava mais perto das escada, e havia menos probabilidade de se encontrar com familiares na sala, que o bombardeariam de imediato com perguntas desnecessárias. A escorregar despercebido até ao terceiro andar para o quarto dos Twixes, esperava-o um silêncio inesperado. Não havia ninguém na sala, e a julgar pelas janelas com as cortinas fechadas, os rapazes não voltaram aqui desde que partiram há nove dias…
Não pode ser… Vieram de táxi para casa… E onde estão os meus Twixes? — o Orfeu ficou em choque, a sair do quarto e a descer para o segundo andar para o seu, a decidir que podiam ter ido para lá.
Na escada, a Tirak saiu a correr de um quarto, a embater nele com vários peluches ao colo, que ele conseguiu segurar antes de a menina cair de rabo.
— Desculpa, tio Orfeu. — ela pediu desculpa, a tentar juntar as mãos em wai por entre os animais nos braços.
— Para onde corres assim, hem? E se caíres? Não vês nada por detrás dos peluches! — o Orfeu repreendeu a menina. Mas ela nem ficou ofendida, porque estava com muita pressa.
— O tio Leo e o tio Gui choram tanto, tanto! Com força! Eles têm um peluche para os dois… Por isso vou trazer mais, para não chorarem! — a Tirak disse emocionada, genuinamente preocupada com os homens.
— Deixa-me ajudar, milagre sem penas… E tu levas-me. — o Dark sugeriu, a tirar a maioria dos peluches das mãos da rapariga, que de imediato se agarrou à mão livre dele, a puxá-lo escada abaixo.
— Não tenho penas. — a menina ficou indignada. O Orphi apenas sorriu com a ingenuidade infantil dela.
Ao abrir a porta do escritório, não esperava ver tanta gente: todos se voltaram para ele, excepto os Twixes, sentados a soluçar no sofá.
— Orphi… — a Kira sussurrou, sem acreditar ela própria que ele estava ali.
— E que reunião é esta? Alguém morreu? — o Dark brincou animado, porque ainda não sabia o que acontecera ao avião em que devia voar…
Ao ouvir uma voz assim tão familiar e amada, os rapazes voltaram-se para a fonte. O Gui respirava de forma entrecortada, sem acreditar nos próprios olhos. O Leo quase correu para o Orfeu, a tocar-lhe e a rodá-lo de todos os lados com tanta força que os peluches caíram das mãos do homem.
O Fai expirou, a pegar na Tirak ao colo e chamar o Var, saiu do escritório, a perceber que ia rebentar agora uma bomba emocional.
— És mesmo tu… snif… estás vivo… hah… — a espremer até ao estalar dos ossos o amado, o Leo soluçava, a inalar o cheiro do corpo do Orfeu, a enterrar-se no pescoço dele.
— Vivo! — o Leo gritou, ao perceber que podia tê-lo perdido por uma histeria estúpida na garagem.
O Leo foi tomado pelas emoções que escondera o dia inteiro, até de si próprio.
Bam… Bam… Bam…
— Tu! Idiota histérico! Sou eu, e então?! — o Leo gritava, a bater com a palma no peito do amado, que estava parado sem perceber.
A Kira foi ter com o Orphi, a afastá-lo um pouco, a abraçar o filho para o proteger, ao ver o olhar perdido dele adivinhou que não sabia nada do que acontecera.
— Nong Leo! — a apontar o dedo para o rapaz, ela chamou-o com severidade pelo nome, a apertar o Dark mais contra si.
— O quê?! Que Nong Leo?! Há vinte e quatro anos sou Nong Leo! Mato-te eu próprio! Faço-te múmia e guardo-te no armário para que não fujas para lado nenhum! — ele começou a gritar em resposta à Kira, a avançar na direcção deles. Mas o Hima agarrou-o de imediato, a segurá-lo, porque entendia a histeria.
— Tu! Pensávamos que tinhas morrido naquele avião! Snif… Idiota… snif… — a voz foi ficando mais baixa, e o tremor no corpo mais forte.
O Gui levantou-se do sofá, a cambalear e a soluçar, a caminhar para o Dark. E mal a mão tocou a face macia do amado, soluçou, a puxá-lo para fora dos braços da Kira, a apertar-lo firmemente contra si.
— Do que estás a falar? — o Orfeu não entendia. E virou-se para a mãe: — Do que ele está a falar, mãe?
O homem que não entendia nada, como um boneco vivo nesses cinco minutos, saía de um abraço e caía noutro.
— Amo-te tanto… — o Gunnar soluçava, a cobrir de beijos o rosto do Orfeu, sem ligar aos outros no escritório.
A Kira acenou ao filho, e ele largou o Leo, que de imediato correu para o amado, a abraçá-lo. E no rosto do Dark ficou congelada uma pergunta em silêncio.
— O avião em que devias voar para Berlim caiu após treze minutos de voo… Não há sobreviventes… Quando os teus rapazes chegaram a casa, estávamos a ver as notícias… — o Hima explicou baixinho. O Orfeu ficou com pele de galinha.
— Então eles…? — o Dark perguntou. O Hima acenou.
A Kira indicou com os olhos a porta ao filho, e ele saiu concordando com ela do escritório.
— Como gostais de me surpreender, meus filhos… — ela sorriu, a pegar no braço do Hima. — E agora? Temos de encomendar uma cama maior para eles… Vamos ver na internet?
— Desculpem… — o Orphi disse baixinho a agarrar-se aos dois rapazes a tremer e a soluçar. — Não fujo mais…
Pela primeira vez na vida prometeu algo, embora estivesse com muito medo. Mas ao tentar perceber o que os rapazes sentiam, imaginou-os naquele avião… O coração parou nesse momento, e foi cem vezes mais terrível do que a traição da Clara. O homem bonito apertou os Twixes com mais força, a mover-se devagar com eles para o sofá.
Sentou os rapazes, e sentou-se ele próprio de joelhos, a pôr os seus entre as pernas deles, a enxugar as lágrimas a correr pelas faces.
— Voltei por causa de vocês… Gui… Leo… meus meninos… — a olhar para os olhos inchados, ele dizia com carinho, a deixar beijos suaves nos lábios secos. — Precisam de mim… os dois são necessários… Sou um possessivo terrível, egoísta e cobarde… E se ainda não mudaram de ideias, podem… ficar comigo?
Choque sobre choque, é provavelmente a melhor descrição do que havia nos corações nesse momento.
Em poucas horas conseguiram sentir toda a gama de emoções negativas que um ser humano pode sentir.
Mas quando o homem que ao almoço gritara sobre ódio disse tais palavras estavam prontos para lhe perdoar tudo…
Em vez de palavras, os rapazes apertaram-no contra si, a beijar com suavidade o pescoço amado de lados diferentes. Ficaram assim sentados algum tempo, a segurar nos joelhos a felicidade manhosa, a inalar o cheiro dela.
— Os meus bons… Os meus queridos… Os meus zelosos… — o Dark acariciava os cabelos dos dois. E depois…
— Já não quero ser o Dark para vocês… Devem chamar-me simplesmente pelo nome… Orfeu… Sem Khun e sem Pi… Sem essas formalidades estúpidas… — ele pediu quase a sussurrar, a corar. — Não consigo dizer-vos agora essas três palavras importantes… Mas… Sem vocês não preciso de Berlim… Nem de nenhuma outra cidade do mundo… Convosco sinto-me em casa…
Soluço.
— Não podes mudar de ideias… Não podes fugir nem ir a algum lado sozinho… — o Gui disse, a erguer a cabeça do ombro do Orfeu, a olhar nos olhos da cor do céu de tempestade. — Aceito tudo… snif… faz birra, sê egoísta, grita, xinga, ri, tem medo, fica com raiva, parte pratos, bate-me, mas imploro-te, não me largues…
— O meu suave Gunnar… — a beijar um nos lábios, ele voltou-se para o outro. — E o meu zeloso Leo… Vão ter de aturar uma entalha no traseiro como eu por muito tempo…
— Não vamos aturar ,vamos amar-te, Orfeu. — o Leo respondeu, a passar a palma pela face do Dark.
Os três ficaram ainda quase uma hora no escritório, simplesmente a oferecer ternura um ao outro em silêncio. E depois o manhoso levou-os para o seu quarto, mas ao ouvir as vozes dos pais no escritório do Hima, decidiu pôr os pontos nos ii de uma vez.
A segurar nas mãos os Twixes, ele entrou sem bater no escritório, onde os pais e o Hima e o Dao olhavam para algo no portátil.
— Mãe, pai, estes dois são meus e já não trabalham para o Hima! E o quarto no terceiro andar já não precisam! Os Twixes mudam-se para o meu! — o Orfeu declarou no tom manhoso do costume, a corar.
As quatro pessoas ergueram o olhar para ele, ele ouviu qualquer coisa como «pois» em resposta, e voltaram a olhar para o ecrã.
— Mãe! Acabei de dizer que fico nesta casa! Para sempre, mãe! — o homem bonito ficou indignado ao ser assim tão abertamente ignorado. Os Twixes coraram até às orelhas.
— Sei. Só um tolo não perceberia depois de tudo o que houve no escritório, Orphi. — a mulher olhou para o filho com um suspiro. E depois voltou-se para os rapazes atrás: — Não tragam as coisas para o quarto dele…
— Mãe! Mas porquê?! — o Dark interrompeu, a sentir a dor do ressentimento de que a mãe parecia ser contra.
A Kira endireitou-se, e aproximou-se do filho manhoso, nos olhos do qual brilhavam lágrimas, e as mãos apertavam ainda mais as palmas dos rapazes.
Shlag!
Uma pancadinha suave de dois dedos na testa, e gotas salgadas caíram das pestanas do homem bonito.
— Porque não foi assim que te criei! Interromper a mãe antes de ela acabar é feio! — ela falou com severidade, e suspirou, a continuar: — Não tragam as coisas para o quarto dele até ao casamento do Dao e do Fon… Porque… ALI PRECISA DE OBRAS! E de mudar a mobília! A equipa de construção, que já vinha fazendo reparações, está ocupada com outra obra até ao dia 2. No que achas que estamos aqui ocupados, hem? Já escolhi o design do quarto, mas pedi aos rapazes que ajudassem com a mobília…
📩
O telemóvel do Hima recebeu uma mensagem do Nan…
— Não façam planos para o dia 31, Twixes… O Nan convidou-te para o casamento, finalmente convenceu o Lien a assinar a certidão! — o loiro sorriu, a olhar para o irmão estupefacto. — Há cada coisa… Descobri aqui… Onde preferes ir, Tibete, Nepal ou Butão?
— Do que fala, Khun Hima? — o Leo perguntou. Mas foi de imediato atingido na testa, como o Dark, pela mãe ao lado.
— Ei! — a Kira gritou, a apontar o dedo: — Se chamares qualquer um de nós de Khun outra vez, mando-te para uns cursos longe destes dois por uma semana, percebeste?
— Sim, Khu… Madame. — o Leo deixou escapar, sem querer ficar longe dos amados.
— Oh… Lembrem-se, os dois! — a Kira zombou dos Twixes, a apontar para todos no escritório. — Pai, Pi'Hima, Pi'Dao, mãe… Faz sentido?
— Mãeeeee. — a largar as mãos dos rapazes, o Orfeu correu a abraçar a mãe, com lágrimas.
— Amo-te , Orphi. — ela disse com suavidade, a acariciar os cabelos do filho. — E não me importa com quem gostas, nem quantos… Só quero que sejas feliz…
O Leo e o Gui olharam para as pessoas a sorrir na sala, e ficaram imensamente gratos. Nem todos os pais estão prontos para aceitar a escolha dos filhos, independentemente do sexo, estatuto e idade dessa pessoa. Mas aceitar dois… Este é de facto um presente do destino…