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71 – O Tigre e a Fera (parte 2 de 2)

Entretanto, em casa dos Kittichat


Assim que os rapazes saíram, Dark ergueu a cabeça para a mãe e começou a reclamar em voz alta:


— Mãe! Que sabujo do inferno com cara de labrador foi este que trouxeste para casa? Que raio está a fazer aqui a dar ordens? Não, percebo que é uma espécie de mulher do Hima, mas mesmo assim… que merda é esta?
— Devias aparecer mais em casa! Sabias que o Hima esteve no hospital, e nem foste visitá-lo! Sei que não gostas de pessoas, mas podias ser mais atento para com a família. O Dao mandou-te convite para jantar, e tu não apareceste! Então talvez seja eu a perguntar,  que merda é esta, Orfeu?! — Kira começou com calma, e foi subindo o tom a cada palavra. — Tu nem sabes que os teus irmãos se vão casar! — Kira deixou escapar, e logo cobriu a boca com a mão.
— Os dois? — Dark ficou em choque. Kira acenou.


Gui e Leo ficaram em silêncio a observar a discussão,  quando de repente Gui sussurrou:


— Imaginas como ele deve gemer de forma excitante…
— Gui! Quando encontrarem o menino… faço-te eu a ti gemer! — Leo ameaçou no mesmo sussurro, a apertar discretamente a nádega do rapaz.


Orfeu reparou como o Gui corou, e no olhar devorador do outro.


— Romeu e Julieta! Tragam-me douradinhos com creme de pasteleiro! — Dark disse de repente. Os rapazes olharam para ele.
— Vou pedir à tia que prepare. — Gui baixou a cabeça, embora achasse os caprichos do novo chefe espantosos.
— O Khun Fai pediu que fizesse a pesquisa, Khun Dark. — Leo lembrou o homem, e baixou o olhar.
— O teu chefe não me dá ordens! — Dark protestou, mas tratou do assunto na mesma.
— Vou ver como está a netinha, e tu… — Kira disse a Leo, e depois apontou o dedo para Orfeu: — Não convém puxar os bigodes ao Tigre, a menos que tenhas uma vida extra de reserva. Não te deixes enganar pela aparência inocente do meu rapaz… Basta ver o contrato que assinou com Masushimaru Koji… E depressa com a informação,  a criança tem de ser encontrada o mais rapidamente possível!


Kira subiu para junto do Korn e da Rak, e Leo ficou a olhar para o homem à frente: graça e refinamento em cada movimento dos dedos esguios no teclado, uma expressão indiferente no rosto que mostrava abertamente o interesse pelo que fazia. Postura nobre, movimento elegante e leve da mão que ajeitava os óculos na raiz do nariz. Assim que Orfeu ergueu os olhos para o rapaz, o revestimento anti-reflexo dos óculos brincou com a luz, tornando os olhos do homem quase azuis. Leo engoliu em seco, a perceber que concordava com o amante… Aquele homem bonito deve gemer de forma muito sedutora. Dark sorriu levemente, a examinar o rapaz à frente com um olhar malicioso, a morder o lábio inferior. O olhar de Orfeu prendeu-se no fecho das calças do rapaz, que deixava bem claro o entusiasmo.


— Se continuares a olhar assim para mim, o teu marido vai ter ciúmes… — Dark disse, a baixar de novo os olhos para o ecrã do portátil. Leo estremeceu.
— Desculpe, chefe… — Leo pediu desculpa, a corar levemente.
— Por que é que te desculpas comigo, quando devias pedir desculpa ao teu marido por te teres excitado com outro? — a voz calma e ao mesmo tempo brincalhona interessava Leo, mas o interlocutor olhava para o portátil, a passar a língua pelos lábios, a humedecê-los.


Gui entrou na sala de estar a dizer que a tia teria tudo pronto em quinze minutos, e ficou ao lado de Leo. 

Os rapazes olhavam para o Dark, e ele não suportava que ficassem de pé à volta.


— Oh, sentem-se, seus cãezinhos amestrados! — Orfeu irritou-se. Os rapazes sentaram-se nas cadeiras perto do sofá.
— Assim está melhor. — Dark lançou um olhar arrogante para os dois, e voltou à pesquisa.


Quinze minutos depois, Leon trouxe uma bandeja da cozinha e pousou-a na mesinha à frente do sofá.


— Khun, mais alguma coisa? Sumo, água, chá ou algo mais forte? — Leon perguntou, a olhar para o homem bonito à frente.


Dark apenas ergueu um leque de pestanas para quem perguntava. Pegou num douradinho, mergulhou-o no creme e deu uma dentada, sem esconder no rosto o prazer. Os rapazes acharam aquilo insanamente erótico, especialmente a gota de creme branco no canto da boca, que Orfeu lambeu com a língua.


Para um homem assim daria… ou tomaria… qualquer coisa, contanto que me olhasse assim, como esses palitos… — Leon pensou, já a imaginar outra coisa na boca do homem…


Dez minutos depois, Pakorn desceu as escadas.


— Quero ajudar… — disse em voz baixa. Dark ergueu os olhos para o homem choroso.
— Ó senhor, se não sabe o que liga a sua mulher ao raptor, não tem nada com que ajudar. — Orfeu disse com firmeza — mas ao mesmo tempo com uma certa compaixão pelo homem à frente.
— Eu sei. — Ti respondeu, a sentar-se no sofá ao lado de Dark. — A Mukda conheceu o Long num dia de apresentações na universidade. Disse que se apaixonou à primeira vista e escolheu onde ia estudar por isso. A meio do primeiro ano já namoravam, mas ele recusava-se a conhecer os pais, dizia que era cedo. A Mukda ficou grávida. Quando lhe contou, o Long deu-lhe alguns milhares para fazer um aborto com as palavras: «Não devo nada a ninguém. Talvez nem seja meu!» Fiquei tão furioso que o bati e deixei aquela cicatriz na sobrancelha. Um mês depois ele abandonou a universidade,  e a Mukda não sabia o que dizer aos pais. Éramos amigos desde crianças e ela sempre me cobria. Os meus pais eram muito conservadores, se soubessem que o filho era gay, ter-me-iam arrastado pelos hospitais. Quando a barriga começou a ver-se, os pais descobriram a gravidez. Fazer um aborto era tarde, e o único homem perto dela era eu. Por isso os nossos pais decidiram que eu era o pai e organizaram rapidamente o casamento. Sempre vivemos como vizinhos, não, mais como irmão e irmã. Eu tinha uma cobertura para a minha orientação e uma forma de me livrar de parceiros inconvenientes. Depois descobri a depressão pós-parto, e a nossa vida foi a pique… — Ti contou. Orfeu enviou o áudio da história para Fai.


🍃   🍃 🍃


11h30 junto à casa de Tipakorn


— Então estás a dizer que os cobradores pararam de ir lá, mas apareceu um tipo? — Mukda perguntou à Apple no carro.
— Sim! Vi eu própria, beijou-o no carro! Primeiro o Sakda,  e depois o Ti! Talvez seja um pervertido! — a rapariga estava furiosa, porque gostava do Ti há muito tempo e sabia que ele e a Mukda viviam apenas como amigos.


Então vendeste o filho a algum tipo para saldar as dívidas, Ti? — Mukda estava furiosa.


— Long,  tens de me ajudar a tirar o Sakda de lá! — a rapariga implorava, a apertar a mão do homem ao volante — que fumava e olhava para a casa.
— Ajudo, mas o que fazer com ele decido eu, está bem? — Long respondeu, e lembrou-se de um cliente. 

Mukda, a sorrir, deu-lhe um beijo na face.
— Não viste nada, Apple… Se eu souber que falaste com alguém… — o homem disse com rispidez, a mostrar à rapariga o que lhe faria à garganta se falasse.
— Sim, sim, percebi. — Apple correu para dentro e fechou as portas e as cortinas.


Long e Mukda saíram do carro e foram para a casa. Ela abriu a porta com a chave,  e um Sakda sorridente saiu a correr ao encontro deles a gritar:


— Pai!


O sorriso desapareceu de imediato ao ver o homem de aspecto intimidante atrás da mãe. O rapazinho recuou enquanto a Mukda caminhava a sorrir na sua direção.


— Pai! Pai! — a criança gritou. Ti saiu da cozinha ao ver os convidados indesejados.
— Sakda! Vai para o teu quarto! — Pakorn disse em voz alta. O bebé saiu obedientemente.
— Por que vieste? E trouxeste-o também! — Ti perguntou, com um medo enorme do filho por dentro.
— Este é o meu filho! Vou levá-lo! — ela gritou, a ver que não era bem-vinda.
— Estás fora há quase um ano! Pensaste nele uma única vez? Pensaste em como ele se sentiu quando foste? O quanto chorou? O que comeu, se é que comeu?! — Ti gritava com raiva e ressentimento. — És uma vaca sem coração que trocou o filho pelas drogas! E agora? Vais também vendê-lo por uma dose? Sai daqui! Esta já não é a tua casa! — o homem gritou. Ao ouvir as palavras, Mukda atirou-se a ele.


A fúria e a raiva tomaram conta da mente da mulher, e ela empurrou Ti com toda a força. Ao cair, ele bateu com a cabeça na beira da mesa da cozinha e perdeu os sentidos. Ao ver que Pakorn não se mexia, ela ainda o chutou várias vezes, e foi ao quarto buscar o filho.


Ao entrar, Mukda viu o menino a tremer na cama e foi até ele. Mas ele começou logo a chorar e a chamar pelo Papá.


— Vais viver comigo, Sakda! Vem! — ela agarrou a criança pela mão, mas ele debatia-se.
— Quero viver com o Papá! Não! Não vou! Onde está o Papá?! — Sakda gritava entre soluços, o que enfurecia a mãe.
— O teu Papá está morto! Vens comigo! Se não acreditas, mostro-te! — a agarrar a criança pelo pescoço, a mulher furiosa arrastou-o para a cozinha a mostrar-lhe o Ti deitado no chão.
— Papá! Acorda, Papá! Não quero ir com ela! PAAAAAAI! AHHHH!!! — Sakda gritava em histeria, a tentar tocar no Pakorn.


Plaf!!!


Um golpe na face pequena por uma mão masculina forte fê-la desmaiar.


— Ei! O que estás a fazer?! — Mukda gritou, a perceber que o filho estava inconsciente.
— Idiota! Queres que os vizinhos chamem a polícia por causa dos gritos? Está na hora de ir embora! Reza para que esse idiota morra aqui sozinho, senão, se chamar a polícia, mato-o eu mesmo! — Long rosnava, a pegar na criança e a sair de casa.


A pôr o Sakda no banco de trás, os dois saíram rapidamente da rua.


— Para onde vamos, Long? — a mulher perguntou com carinho ao homem que amava desde a universidade.
— Primeiro para o armazém no porto. Esperamos uns dias e depois vamos para Bali, como querias! — Long disse. Mukda apressou-se a beijá-lo.
— Fica quieta, estou a conduzir! Queres ir para o hospital em vez de ir para Bali? — o homem afastou-a. 

Ela ficou quieta.


Ao chegar ao armazém, disse à Mukda que levasse o menino para o escritório, e ele foi telefonar a um cliente.

📞— "Bom dia, Mr. Charles. Tenho o que pediu." — o homem sorria satisfeito, a antecipar algumas centenas de milhões na conta.

📞— [Onde posso ver a mercadoria?] — soou uma voz.

📞— "No armazém do porto. Quando posso esperar?"

📞— [Se conseguir acabar os negócios mais cedo, estou lá em hora e meia! Ah, conheces o procedimento, não é? Certifica-te de que não haja problemas! E se eu puder experimentar um virgem já preparado, duplico o valor!] — o homem satisfeito desligou sem sequer se despedir.


Ha! Se houver problemas com aquela idiota, atiro-a ao cais. Quem vai notar a falta de alguém que já desapareceu há quase um ano? — Long pensou ao aproximar-se da guarda.


— Dentro de hora e meia chega um cliente! Deixem o carro entrar,  ele não gosta de ser desconfiado! Eu fico no escritório, acompanhem-no lá. — Long ordenou. Os rapazes acenaram.


Ao voltar ao escritório, viu a Mukda a olhar pela janela para o oceano, com o Sakda desmaiado no sofá.


A conhecer o diagnóstico da mulher, decidiu prepará-la para que não o atrapalhasse, usando os ciúmes e o delírio paranóico para a manipular a concordar com o que planeava fazer à criança.


De repente…


Bum…


A porta foi aberta com tanta força que quase saiu dos gonzos. Quatro homens entraram no escritório, a apontar armas para os dois presentes. Mix,  ao ver o Sakda nas mãos de Long sem as calças, pareceu enlouquecer de fúria.


— Quem são vocês? — Long disse, sem ver o Hima atrás da porta aberta.
— Larga o meu filho! — Mix trovejou, a avançar para o homem, a decidir não disparar para não assustar mais o filho.


Bum!


Long foi atirado contra o encosto do sofá, e o menino a soluçar quase caiu, mas Mix apanhou-o.


— Lon! Prende-o! E tu, não te mexas, vadia! Um movimento e tens mais dez gramas de metal no cérebro! — Fai ordenou, a apontar a arma para a mulher.


Filon imobilizou Long,  enquanto Hima entrava tranquilamente no escritório e se sentava na cadeira.


— Desculpa, pequenino meu! Desculpa… tenho tanta culpa… desculpa… amo-te tanto… — Mix embalava o bebé a soluçar,  a vesti-lo enquanto soluçava ele próprio.
— Papá… snif… O meu Papá… tive tanto medo… snif… — Sakda agarrava-se ao peito do homem.


Mix ergueu a cabeça do filho, e ao ver no rosto a marca da palma e o lábio rasgado, estava pronto a despedaçar Long.


— Estás à espera do Mr. Charles? Esperemos juntos. — Hima disse, a olhar para Long.


Mix deu ao filho um golo de água de uma garrafa para o acalmar. Cinco minutos depois, Sakda já dormia sob efeito de Menpo, e Mix deitou-o no sofá.


— Tu… ousaste… tocar… no meu… filho?! — a cada palavra, Mix ficava ainda mais furioso, a aproximar-se de Long.


Assim que Mix chegou ao pé do homem, foi dominado pela fúria. Os golpes intensos não pararam mesmo depois de Long perder os sentidos,  e o rosto parecia uma massa sangrenta.

— Chega! Vais matá-lo! — Mukda gritou, a esquecer-se de Fai com a arma.
— Tu! Vadia! Segues-te tu! — Mix rosnava, a fitar a mulher.
— Não! Não! Não te atreves a bater numa mulher! — com voz trémula e cheia de medo, Mukda tentava manipular.
— Não há mulheres aqui! Só um animal que feriu a minha família… E cadelas raivosas são abatidas! — com estas palavras, ele agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a para o corpo de Long.
— Por tua causa… os meus meninos choraram… Agora és tu… — a tirar as braçadeiras do bolso, Mix prendeu-lhe os braços atrás das costas e as pernas.


Ela quis protestar,  mas recebeu uma bofetada e gritou.


— Lon,  leva o meu filho para o carro. Não quero que ele durma a ouvir os gritos deles. — Mix pediu em tom frio. Filon olhou para Fai, que acenou, e tirou o bebé do sofá.


Assim que Lon saiu pela porta, Mix empurrou a mulher para o chão.


— O Sakda é meu filho! O Pakorn e tu não são o pai dele! São dois pervertidos! Ainda bem que ele está morto! — Mukda não parava.


Plaf.


Depois de dar uma bofetada na mulher, Mix foi à secretária e apanhou um abre-cartas.


— O meu marido está vivo,  só que não consegue dizer uma palavra sem o filho… Khun Fai, se não quiser assistir, pode ir para o carro do Filon. — Mix sugeriu, a lembrar-se de que em casa do San o tinham mandado para o hospital.
— Fico. Só não a batas muito enquanto o cliente não chegar. Quero ver a cara dela quando souber a verdade. — Fai respondeu com calma, a olhar para a mulher.


Depois do que se seguiu, de que Fai foi testemunha,  Mix cravou o abre-cartas na mão de Long no chão. O homem gritou de dor e voltou a si.


— Long!
— Senta-te e cala-te! — Fai rosnou, a apontar a arma para a mulher.
— Muito bem! Diverte-te, Mix! — Hima sorriu.
— Quero que saibas uma coisa antes de morreres, Long. Quem faz mal à minha família acaba por servir de comida para tubarões… As lágrimas do meu filho e do pai dele transformam-me num monstro com um único instinto,  matar! E tu… — Mix disse com voz que gelava a alma, a torcer o abre-cartas na mão de Long à última palavra. — Tu tentaste vender o meu Tesouro a um pedófilo.


O que se seguiu foi uma punição que Fai assistiu em silêncio, e de que saiu com o rosto inexpressivo, embora por dentro pesasse.

— Diabo! Diabo! Vou contar à polícia! Vão prender-te! — ela gritava, a tremer com o que vira.
— Ahahahaha… Claro que vais! Na próxima vida, se te lembrares. — Hima riu, a olhar para a mulher.


A sala encheu-se de cheiro metálico de sangue.


Nesse momento, um homem acompanhado de dois guarda-costas entrou pela porta.


— Khun… Hima… — ao ver o loiro, Charles ficou branco.
— Fecha a porta, Charlie. Há conversa… — Hima disse com firmeza. O homem acenou aos guarda-costas.


Ao dar um passo à frente viu o quadro completo do escritório: Mix de pé sobre o corpo mutilado de Long, a não muita distância uma mulher amarrada sentada no chão. Sentado na cadeira estava Hima, e encostado à beira da secretária ao lado um rapazinho com uma arma na mão.


— Estavas a tentar comprar uma criança, Charlie? Aconselho a responder honestamente, a minha mulher não tolera mentiras. — o Gatão falou. O homem desviou o olhar para Fai.
— S… Sim… O Long foi ele a contactar-me! — o homem justificava-se, a olhar alternadamente para Hima e para Fai.
— Agora ouve-me, Charles. Aviso só uma vez: ou mudas para parceiros adultos, ou vai para a prisão e… isto… — Fai disse, a apontar para o que estava à frente de Mukda. — Ah, se achas que estou a blefar, enganas-te. Aqui, este é um dos teus vários vídeos com menores… — a reproduzir um deles, o Tigre mostrou-o ao Charles que ficou pálido. — Se eu tirei esta imundície da tua colecção assim tão facilmente,  imagina quanto tempo demoro a saber de um novo menor… Deixa-me responder já para não forçar a tua única neurona... trinta segundos. Precisarei de trinta segundos e mais trinta para enviar o clipe à polícia e aos meios de comunicação.


Fai decidiu dar uma hipótese a Charles, porque ele escolhia habitualmente rapazes entre quinze e dezassete anos, não os forçava, era gentil, mas comprava-os com dinheiro, e depois, com uma soma generosa, deixava-os ir quando se fartava.


O grito de Long fez o Charlie estremecer. O homem ficou enjoado ao ver o que Mix fazia a seguir, a dizer com cada gesto o que pensava de quem tocara na criança.


— O que tem, Charles? Não se sente bem? — Hima troçou. O homem tapou a boca com a mão e abanou a cabeça.
— A polícia está aqui em vinte minutos… Se não quer dar declarações, é melhor ir embora. — Fai respondeu. Charles e os homens saíram a correr do escritório.
— Querido, dá-me um comprimido. — o cachorrinho estendeu a mão. Hima ficou surpreendido.
— Mix,  termina. O Ti em casa está preocupado. — Fai continuou. O homem acenou, mas Fai travou-o antes.
— Para. Não és tu que fazes isso.


Fai aproximou-se de Mukda,  e com tom severo e autoritário deu-lhe instruções precisas sobre o que devia fazer quando a polícia chegasse, usando o LSD para garantir que o estado mental da mulher, já fragilizado, completaria o quadro sem testemunhas inconvenientes. Enquanto falava, Mix ficava coberto de arrepios de terror, e Hima de excitação.


— Sim.
— Está na hora, a polícia já enviou uma patrulha. — Fai disse com mais suavidade quando a rapariga pegou no abre-cartas.


Os rapazes saíram do escritório, e a mulher fechou a porta atrás deles.


— Como sabias que eu tinha o comprimido? — Hima perguntou, a pôr o braço à volta da cintura da mulher.
— Como é que eu sei de alguma coisa, querido? — Fai sussurrou. Hima sorriu.


Ao aproximarem-se do carro, Filon saiu, a mudar para o volante. Mix olhou para o filho, a ir para o lugar ao lado do condutor.


— Mix,  vai para o banco de trás. Assim que nos afastarmos um pouco do armazém e lavares as mãos, pegas no filho. — Hima ofereceu. Mix conteve as lágrimas com dificuldade.


Saíram da zona, e o Smart apagou o vídeo de vigilância do porto. Assim que um carro de polícia com sirene e pisca-pisca passou por eles, Fai pediu para parar, para o Mix lavar as mãos do sangue. Ao voltar ao carro, o pai embalava o filho adormecido nos braços, a acariciar os cabelos, a face vermelha, e a enxugar as lágrimas que corriam pela própria face.


Quando voltaram para casa, um Ti a andar de um lado para o outro esperava-os já na sala de estar. Filon, assim que entrara no carro com o bebé, enviara uma mensagem a todos a dizer que o Sakda fora encontrado e estava em segurança.


— Sakda! — Pakorn gritou ao ver o filho adormecido nos braços de Mix, e correu.
— Está bem, só a dormir. — Mix tranquilizou o marido, a entregar-lhe o filho.
— Estás bem? — Ti perguntou ao notar o sangue nas mangas do homem.
— Ah, não é meu… Vou trocar de roupa. — Mix respondeu, a ir para a escada.
— Obrigado, Khun Fai… — Pakorn ajoelhou-se à frente do jovem com o filho ao colo, a soluçar.
— Não há de quê, Ti. Qualquer um teria feito o mesmo no meu lugar. O importante é que o bebé está bem. — Fai sorriu, a levantar o homem. — Mas se me queres agradecer, não deixes o meu guarda-costas preocupar-se tanto. — Fai deu uma palmadinha no ombro,  e olhou para Pakorn.
— Mix,  o terceiro quarto no segundo andar à esquerda é para o Sakda. Mostra ao teu marido,  o bebé vai dormir mais umas oito horas de qualquer forma. Podem conversar no quarto dele ou no ao lado. — Fai sugeriu. Mix voltou-se.
— Chefe… mas… o segundo andar é só para membros da família e pessoas importantes… — os olhos de Mix arregalaram-se ao ouvir as palavras de Fai.
— Pois… E o Kai e o Var mudam-se para o quarto em frente ao vosso. — as palavras do cachorrinho fizeram os olhos de Kai encherem-se de lágrimas.
— Khun Fai… — Kairos começou a dizer, mas a voz tremia tanto que ficou em silêncio.
— Uau! Estamos com um golpe de palácio… — Dark disse, em choque com o atrevimento do cachorrinho.
— Oh, senhor Sabujo: o teu quarto ninguém lhe tocou, mas estou a ponderar mudá-lo para o terceiro andar… — Fai provocou com tom sério.
— Não te atrevas! Hima,  diz que isso não vai acontecer! — Orfeu procurou o apoio do irmão. Mas ele apenas sorriu em resposta.


Mix e Ti subiram ao segundo andar,  e quando o Papá abriu a porta para que Pakorn entrasse com o filho ao colo, os dois ficaram imóveis.


Uma cama com a forma de um grande urso fofo, prateleiras de livros embutidas sob o parapeito da janela a transformar-se em estante. Do lado oposto, entre as duas portas para a casa de banho e o roupeiro: um armário de brinquedos, um cantinho desportivo, um mini-sofá e um grande cesto de lego de vários tamanhos. No chão ao centro do quarto uma estrada pintada para os carros, e num canto uma caixa com várias pistas para montar.


— Grande Buda… O Khun Fai não tem limites… — Ti disse, a olhar em volta.
— Ainda não viste a sala de brinquedos e o quarto da Tirak… — Mix respondeu, a entrar.


Tipakorn deitou o filho na cama, e puxou o marido para se sentar ao lado. Abraçou-o,  e chorou baixinho.


— Peço-te, não chores… Está tudo bem… Estás a ouvir-me? O bebé está bem… Estão em segurança… A propósito,  por que é que o Khun Fai te convidou esta manhã? — Mix tranquilizava o marido, porque não conseguia ver as lágrimas dele.
— Não sabias? Pensei que tivesses sido tu a pedir-lhe que me oferecesse emprego… Ele… propôs que nos mudássemos para cá para eu tomar conta da Tirak, mas recusei… Sou tão estúpido, Mix… snif… tão idiota… se tivesse aceitado, o Sakda não teria sido raptado… snif… ele deve ter tido tanto medo… snif… sou um pai horrível… pus o meu orgulho à frente dele… snif… que parvo… — Ti começou a dizer. Mas quando Mix abanou a cabeça, o homem voltou a chorar.
— Vamos lá, meu bom querido… O Sakda é um menino corajoso… vai ficar bem… Sei que queres tomar as tuas próprias decisões, e não pediria isso ao chefe. Vou dizer ao Khun Hima que me despejo. Depois de hoje… não consigo trabalhar descansado sem saber que estão em segurança. Sabes como me assustei ao ver-te desmaiado no chão? E quando percebi que o bebé tinha desaparecido, achei que enlouquecia… — Mix abraçou e beijou o marido.
— Não precisas de sair. Aceito a proposta do Khun Fai. Sei que tu vas… — Korn falou, mas foram interrompidos pelo som de uma mensagem no telemóvel de Mix.


O homem tirou-o, e viu que era uma mensagem de Fai com um link. A abrir com o som baixo, viram a notícia:


📩 <A polícia deteve uma mulher que matou o próprio amante com extrema violência. Trata-se de uma moradora desaparecida de Banguecoque, Mukda Diloknavarit, 24 anos. Espancou o homem e cortou-lhe os órgãos genitais e os dedos num acesso de ciúme. A mulher confessou o crime…>


A seguir chegou outra mensagem:


📩 Se quiseres sair e viver com a família, falo com o meu marido.


— Obrigado por me deixares estar ao teu lado… — Mix beijou o marido, a abraçá-lo com mais força.
— Obrigado por teres aparecido na minha vida… — Ti sussurrou, a aconchegar-se no homem.

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