66 🔞 – Não vás (parte 1 de 2)
Dez dias antes, em casa de Tipakorn
— E contigo… ainda nĂŁo terminámos… Papá… — Mix sussurrou, a passar a lĂngua da orelha atĂ© Ă borda da t-shirt. Ti ficou coberto de arrepios.
— Para lá. Foi um momento de fraqueza. — Pakorn protestou, sem querer parecer acessĂvel.
— Ah, é assim… Acho que já me vou. — Mix fingiu ofender-se ao sair do quarto.
No corredor deparou-se com o rapazinho que voltava da casa de banho, e ao ver o Papá a sair do quarto, correu até ele.
— Snif… Não vás… Papá… snif… Vou portar-me bem… snif… — a agarrar a perna de Mix, ele não a largava, a olhar para cima com os olhinhos húmidos, e o coração do guarda-costas apertava-se com a voz trémula e as lágrimas.
Claro que Ti viu e ouviu tudo ao sair do quarto.
— Pequenino, ouve. Venho ver-te… — o homem disse com carinho. A criança ao ouvir isto começou a soluçar.
— Não… Aaaaah… Vais embora como a mãe… E… Aaaaah… Abandonas-me… — o choro estava a transformar-se em histeria, e quando Pakorn ouviu estas palavras do filho, não aguentou.
— Sakda, ele só saiu para ver onde estavas. — Ti mentiu. Mix olhou para ele.
— Não te acredito… tu… Aaaaah… tu disseste que a mãe… voltaria… Aaaaah… Mas ela já não me ama… — o rapazinho não parava. Mix não aguentava mais.
O homem tomou o bebé ao colo, a acariciar as costas e a embalar nos braços.
— Sh-sh-sh… Sakda, não te abandono, estás a ouvir? Não sou a tua mãe. Mas tenho uma casa e tenho trabalho. Venho visitar-te. — Mix tentava convencer o filho.
— Casa? Posso viver em tua casa? E o pai também? Snif… Por favor… Espero-te quando vieres do trabalho… Snif… Obedeço ao pai! Palavra de honra, palavra de honra! Só não me abandones… — Sakda soluçava, a apertar com força os bracinhos no pescoço do Papá.
— Oh… O meu pequenino… Não chores… — a apertar mais a criança contra si, Mix beijou-lhe os cabelos — e uma lágrima correu pela face do homem.
E porque é que me sinto agora o último canalha? Oh… Está bem…— Ti pensou, a ver o filho a convencer o homem a ficar.
— Podes ficar. O quarto da Mukda está vazio de qualquer forma, mas só por esta noite! — Pakorn cedeu.
O rapazinho voltou-se de imediato para ele com um sorriso.
— A sério? — Sakda perguntou a soluçar.
— A sério, só que temos de ir à loja buscar mantimentos, não chega para o jantar de três. — ele confirmou, a virar-se e a ir para a cozinha.
— Podemos encomendar pizza para não ter de cozinhar? — Mix sugeriu. O menino nos braços acenou vigorosamente.
— Ah, façam o que quiserem… Na minha própria casa sou o último a decidir… — Pakorn bufou, a ir para o quarto.
— Pizza! Pizza! Pizza! Vou comer pizza com o Papá! — a beijar Mix na face, a criança alegrava-se como se não fosse ela que estivera a chorar baba e ranho dois minutos antes.
— Vai lavar a cara,que eu encomendo. A propósito, sabes de que pizza o pai gosta? — Mix disse, e depois perguntou ao filho quase em sussurro.
— Sim! O pai gosta com bacon e cogumelos, e eu gosto com chouriço. — o menino respondeu também baixinho, a correr de volta para a casa de banho.
Mix tirou o telemóvel e encomendou a pizza pela aplicação; prometida em meia hora, mas escolheu a entrega para as seis da tarde. Sakda saiu a correr da casa de banho, agarrou a mão do homem e levou-o para o quarto da mãe.
— Aqui, Papá! Este quarto. — o menino apontou para a porta, mas quando Mix a abriu e entrou, Sakda não entrou.
— O que há, rapazinho? — Mix preocupou-se ao ver a criança hesitante no corredor.
— NĂŁo entra neste quarto desde que a Mukda foi embora. — o homem que saĂra do quarto em frente respondeu.
— Está tudo bem, vamos para o teu quarto, Sakda. — Mix sorriu, a deixar o casaco de ganga na cama de solteiro.
E isto é estranho… porque é que um casal tem quartos separados? Uma cama para um… — o guarda-costas pensou, a perceber que algo ali não batia certo.
Mix lançou a Ti um olhar de julgamento. Se sabia que Sakda não entraria no quarto e lho oferecera para dormir, claramente ainda não confiava nele. Mix e o filho sentaram-se na cama do quarto de Sakda, e a criança satisfeita, sentada ao colo do homem, desenhava no caderno.
Desenharam, leram livros, brincaram com carros, e Ă s seis bateram Ă porta. Mix e o filho saĂram a abrir.
O estafeta entregou as pizzas e saiu em silĂŞncio.
— Pakorn, vem jantar! — Mix gritou.
— Papá, vamos comer! — o menino repetiu. Mix sorriu e desgrenhou-lhe o cabelo.
Foram para a cozinha, e quando Ti entrou, viu a cena mais adorável: o filho sorridente a pĂ´r os copos na mesa, que Mix tirava do armário. Enquanto o homem tirava garrafas de água do frigorĂfico, o rapazinho tirava os pratos do escorredor e punha-os na mesa.
Mix sentiu o olhar, e sem se virar disse:
— Os comprimidos que são para tomar durante a refeição, Ti!
Pakorn estremeceu de surpres, mas tirou um blĂster do bolso.
— TambĂ©m Ă©s o meu Papá, Ă©?! — murmurou o dono da casa, a caminhar para a mesa, a pousar o blĂster sobre ela de forma ostensiva e a sentar-se.
— Vamos, rapazinho, jantar, passeio, duche e cama! — Mix disse com suavidade mas firmeza, enquanto o menino mastigava a pizza com prazer, a acenar.
— Ei, isso vale para ti também! O ar fresco e as caminhadas ajudam a recuperação! E tens um parque a duas ruas de casa. — o guarda-costas continuou, a olhar para o homem envergonhado à mesa.
— É como ter uma esposa rabugenta em casa… — Ti murmurou para si mesmo. Mix ouviu.
— Se falares demais, ponho-te uma mordaça! — Mix ameaçou, a apontar para o homem corado com um triângulo de pizza.
— Pai, o que é uma mordaça? — o rapazinho perguntou de imediato. Pakorn engasgou-se.
— É uma coisinha especial para pais teimosos e traquinas que falam demais! — o homem respondeu sem o menor pudor, a meter a lĂngua na face por dentro para apenas Ti ver.
— Mix! — Ti ralhou, porque desde a primeira vez que ouvira a palavra «mordaça» pensara exatamente no mesmo.
— O quê? Menos palavras, mais ação. Mastiga. — o homem respondeu com toda a calma, a dar uma dentada na pizza.
Tipakorn decidiu nĂŁo discutir, comeu em silĂŞncio. Depois do jantar, Mix mandou os homens trocar de roupa para o passeio, enquanto arrumava a cozinha.
— Papá! Estamos prontos! — o menino gritou entusiasmado, a correr e a abraçar o homem que enxugava as mãos numa toalha.
O menino trazia um fato de treino, e Mix sorriu ao ver Pakorn de calças e t-shirt da mesma cor, mas sem casaco. Os trĂŞs saĂram de casa, e Sakda, assim que Ti tirou a chave da fechadura, agarrou as mĂŁos dos dois homens.
— Oh, Ti, Sakda! Há tanto tempo que nĂŁo vos via,estĂŁo bem? — gritou uma vizinha que saĂra da casa em frente, mais ou menos da mesma idade de Mix.
Sakda franziu de imediato as sobrancelhas, o que nĂŁo escapou a Mix, e Pakorn suspirou baixinho e respondeu seco:
— Olá, Apple — está tudo bem.
— Tudo bem, pequenino? — Mix agachou-se à frente de Sakda, a perguntar baixinho.
— Ouvi-a a falar com a tia Melon que a mãe fugiu porque estava cansada de mim e do pai… — o menino admitiu em voz baixa. Mix franziu as sobrancelhas por alguns segundos, e depois sorriu.
— Anda, leãozinho, queres ir a pé até ao parque ou vamos de carro? — a tomar a criança ao colo, Mix perguntou em voz alta. Os olhos do menino acenderam ao ouvir falar do carro.
— De carro, de carro! Papá, vamos! Posso abrir a janela? Posso sentar à frente? Deixas-me buzinar? Por favor, por favor, por favor! — o menino feliz despejava perguntas no homem, a agarrar-lhe as faces e a olhá-lo nos olhos.
— Sakda! — Ti elevou o tom.
— Entra no carro, Pakorn, não me faças repetir o que disse ao jantar! — Mix ordenou com suavidade mas autoridade. Ti corou, mas entrou no carro em silêncio.
— Ti, quem é este? — a rapariga perplexa olhava para o homem que segurava o bebé ao colo, mas Pakorn já não ouvia a pergunta.
— É o meu Papá! — Sakda anunciou em voz alta e com orgulho, a mostrar a lĂngua Ă Apple quando Ti já estava no carro.
Mix sorriu, satisfeito com as palavras do rapazinho, e, a abrir a porta do condutor, sentou-se ao volante com o bebé ao colo.
— Buzina, rapazinho. — o guarda-costas sorriu. Sakda com um sorriso enorme premiu o meio do volante.
Bip! Biiiip! Bip! Bip! Bip!
— Contente? — Mix perguntou, a dar um beijo na face do filho.
— Simmm… — a criança respondeu quase sem fôlego, a continuar a premir a buzina.
— Senta-te com o pai. Siri, rota para a loja mais próxima onde posso comprar uma cadeirinha auto. — Mix entregou Sakda a Pakorn, enquanto o assistente de voz traçava o percurso.
— Não precisas… — Ti começou. Mas ao ver o olhar sério do homem, ficou em silêncio.
Descobriram que havia uma loja de peças e acessórios perto. Mix comprou a cadeirinha, instalou-a no banco de trás e pôs Sakda nele.
— Mete a etiqueta no porta-luvas, por favor. — e estendeu a Pakorn uma pequena etiqueta de cartão.
Ti pegou nela, e ao ver o preço ficou em choque:
— Estás louco? Custa quase vinte mil!
— Também queres uma cadeirinha? A não ser que prefiras que te prenda com o cinto… — Mix provocou o homem.
Que raio… corei mais num dia do que no ano passado inteiro… — Pakorn pensou, a sentir as faces a arder.
Mix prendeu o filho na cadeirinha, a mostrar-lhe o botão de baixar o vidro na porta, a sorrir. Ao voltar ao volante, o homem travou as portas para que a criança não as abrisse por curiosidade, e foi para o parque próximo. Depois de estacionar, o par e a criança satisfeita foram dar uma volta pelo passeio. Sakda indicava com entusiasmo as árvores, o lago e os ciclistas enquanto caminhavam sem pressa, quase sem falar entre si. Mix sorria ao ver a criança contente, e respondia de bom grado às perguntas.
Porque é que tenho a forte sensação de que já vi esta situação algures… — Pakorn pensava para si, a olhar para o homem que segurava a mão do filho.
— Pai! Olha! Há escorregas! Posso ir? — o menino apertou a mão de Mix e voltou-se para Pakorn.
Ti acenou, e Sakda correu para o parque infantil, enquanto os dois homens o seguiam sem pressa.
Mix e Ti sentaram-se num banco nĂŁo muito longe dos escorregas, enquanto o rapazinho explorava a cidade de cordas entre eles.
— Por que vieste? — Tipakorn perguntou em voz baixa, sem tirar os olhos do filho.
— Estava preocupado.
— Porquê?
— NĂŁo sei… porque ele estava a chorar quando saĂste… — disse a primeira coisa que lhe veio Ă cabeça.
— Vais a casa de todas as crianças que choram?
— Só a ele…
— Porquê?
— Não quero que ele chore.
Lá fora já começava a escurecer, soprava uma brisa fresca, e Ti estava só de t-shirt. Mix reparou que o homem estremecia ligeiramente, tirou o casaco de ganga e pô-lo pelos ombros de Pakorn.
— Não podes adoecer. — Mix disse em voz baixa, a olhar nos olhos do homem que se voltara.
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O parque infantil estava iluminado pelos candeeiros, e no banco, os dois homens olhavam um para o outro como se o mundo inteiro Ă volta nĂŁo existisse.
— Vamos a casa… — Ti engoliu, a voltar-se para o filho no parque: — Sakda, é hora de ir a casa!
— Sim, Papá! Posso descer mais uma vez? — o rapazinho gritou. Pakorn acenou.
Sakda desceu pelo escorrega e correu para os pais que se levantavam do banco. Mix tomou o bebé ao colo e levou-o até ao carro. O menino exausto adormeceu no carro — por isso Mix e Ti ficaram em silêncio durante todo o caminho. Ao pararem em frente à casa, Mix notou a cortina entreaberta e a silhueta da rapariga na casa da vizinha. Estavam parados debaixo de um candeeiro que iluminava o interior do carro.
Ti tentou desapertar o cinto, mas assim que premiu o botão, a mão de Mix estava no braço dele. Foi como se uma descarga elétrica percorresse o corpo de Pakorn, e ele ergueu os olhos e viu a luz a refletir de forma hipnotizante nos olhos do homem à frente.
— Ti… — Mix só teve tempo de dizer quando os lábios dele capturaram os seus num beijo fundo mas gentil.
A puxar o homem para si, Mix meteu a mão nos cabelos dele, a sentir as calças a apertar.
— Ah… — um gemido quase inaudĂvel escapou da garganta quando os lábios de Pakorn foram para o pescoço — e as mĂŁos puxavam o homem pela t-shirt.
— Ti… ah… estamos no carro… — Mix conteve-se o que pôde.
— Como se não tivesses feito isto no carro… — Pakorn afastou-se do pescoço de Mix, a deixar ali uma marca vermelha viva.
— Não à frente do menino… — o guarda-costas travou-o, a respirar pesado.
Os dois olharam para o espaço entre os bancos, onde Sakda dormia docemente no assento de criança.
— Vai abrir, eu carrego-o. — Mix disse em voz baixa, a desapertar o cinto e a abrir a porta do carro.
Os dois saĂram do carro, a tentar fechar as portas o mais silenciosamente possĂvel. Mix tomou o rapazinho adormecido ao colo, que entreabriu os olhos, viu o pai e fechou-os de novo com um sorriso. Mix levou a criança ao quarto, a ajudar Pakorn a vestir o pijama a Sakda com cuidado.
— Consegues a partir daqui? Posso usar o duche? — Mix perguntou em voz baixa. Ti acenou.
Mix saiu de casa para o carro, a tirar roupa lavada do porta-bagagens. Normalmente ficava lá para o caso de alguém ficar ferido e precisar de trocar. Nunca pensara que fosse precisar dela hoje. De volta a casa, Mix foi diretamente para o duche. A água pouco quente revigorou ligeiramente e aliviou a tensão acumulada no carro.