top of page

65 – Plano B (parte 3 de 3)

No dia seguinte, Fai ficou todo o dia com a Rak, e Hima foi tratar de assuntos. O Smart contou que o rapaz saíra a correr do quarto de hotel em lágrimas quinze minutos depois de entrar na véspera. Lien saíra quase uma hora depois e fora para a mansão Wongsawat. Lá não o deixaram entrar, e o homem espancou quatro guarda-costas antes de se dirigir ao restaurante do hotel. O Smart enviara-lhe um vídeo do bar a ser destruído, e a forma como os guardas observavam tudo em silêncio era suspeita. Quando Lien desfaleceu, Nan chegou e carregou-o ao colo até ao carro do desordeiro, a levá-lo a casa. E então Fai percebeu tudo…


Ao voltar perto das quatro horas à clínica, Hima trouxe para a menina um caderno e lápis, porque os dela tinham acabado. Meia hora depois chegou Kira com os fatos, a decidir substituir os novos pais.


— Avozinha! — Rak exclamou, a sorrir amplamente.
— Oh, minha pequenina! Como te sentes? — Kira sentou-se ao lado na cama, a perguntar com carinho.
— Para onde é que o Papá e a Mamã se estão a arranjar? — perguntou ela, ansiosa, ao ver os rapazes a vestir-se.
— Papá e Mamã? — perguntou a mulher, surpreendida. Hima decidiu responder por ela.
— Temos de ir tratar de uns assuntos. Voltamos já, não te preocupes. A avó fica contigo. Queres que eu compre um quadro bonito para o teu novo quarto? — o Gatão explicou, e depois decidiu perguntar, porque de qualquer forma iam à galeria.
— Sim, Mamã! Quero, quero, quero! E vai ser bonito? — a menina concordou. Mas a avó ficou sem palavras ao ouvir chamarem Mamã ao Hima.
— Então… o Fai é o pai? — Kira voltou a si. Rak trepou para o seu colo e acenou vigorosamente.
— Já vamos, pequenina. Vem cá. — Fai aproximou-se de Tirak e Kira, a inclinar-se para dar um beijo na face da menina, que o retribuiu.


Hima fez o mesmo, e ainda beijou a mãe. Os rapazes chegaram à galeria quinze minutos antes do início — e Fai, a andar de braço dado com Hima, procurava Lien com o olhar.


— Smart, porque é que o Lien está atrasado? — Fai perguntou baixinho.


📡 ‹Chefe, houve um acidente na estrada. Um peão foi atropelado. O Lien parou para ajudar o ferido. Esperou pelos médicos de urgência e já está a entrar no carro. Chega à galeria dentro de dezassete minutos.›


— Querido, temos dezassete minutos para falar com o Nanfa. Vamos? — Fai disse rapidamente, a arrastar o marido na direção do homem de quem acabara de falar.
— Khun Nan, é bom vê-lo aqui. Onde está o Lien? — Fai perguntou, a observar como o homem ficava nervoso.
— Devia estar aqui… Talvez tenha mudado de ideias? — o homem ponderou em voz alta. Hima via a inquietação.
— Então é verdade? Como é que foste parar a um homem da lei? — Hima brincou, a tentar aligeirar o ambiente.
— Roubei-o. — Nan sorriu, e lembrou-se da primeira vez que se encontraram e do rabo exuberante com laços brancos ao lado.
— O que fizeste? É a brincar? — Hima perguntou. Nan abanou a cabeça.
— Sabes que não estou a brincar, Hima. Roubei-o mesmo… E agora aquele rabo rabugento não me dá descanso. — Nan respondeu, a suspirar.
— Não se preocupe, Khun Nan, o Lien já chega. Assim que o vir, trago-o cá. — Fai sorriu.
— Podemos dispensar as formalidades,  já que és a esposa do Hima. E… obrigado pela ajuda. — Nanfa sorriu. O cachorrinho acenou.


Hima e Fai foram procurar um quadro para a Rak, e dez minutos depois o Smart informou que o Lien estacionara. Fai viu Lien a entrar, a examinar a sala com o olhar. Ao ver o olhar parar em Nanfa a conversar com o Akara, o rapazinho decidiu aproximar-se do homem.


— Chegaste tarde, Lien. — Fai disse com um sorriso, a aproximar-se de braço dado com Hima.
— Já vi… — o homem concordou, a olhar para Nanfa e para o rapaz que lhe segurava a mão.
— Na verdade referia-me à hora de chegada, não ao Nan. Não precisas de te preocupar: o Nanfa não veio com ele...é o Akara que o segue por todo o lado… Talvez já seja altura de reivindicar o que te pertence? — Fai explicou, a sorrir docemente.
— Houve um acidente na estrada, parei para ajudar a vítima até a ambulância chegar, por isso me atrasei. — Lien respondeu, sem tirar os olhos do Nan.
— Vamos, Pi'Lien. — Fai agarrou o pulso de Lien e arrastou-o até ao Nan, que estava de costas para eles.
— Khun Nan, boa noite. — Fai cumprimentou de novo. Nan voltou-se, a fingir que não tinham falado antes no evento.


Ao ver Lien, deu um passo para longe do ex, mas este ainda não lhe largava a mão.


— Khun Fai, Khun Hima, boa noite. — ele cumprimentou os homens, mas não tirava os olhos do próprio Lien.
— Encontrei uma Madre Teresa errante em versão masculina. Chegou tarde porque estava a ajudar um peão atropelado na estrada antes de chegarem os médicos. Ah, Raed, permita que te apresente: Khun Akara, filho de senador e ex-namorado do Khun Nan. — Fai sorriu. Akara franziu as sobrancelhas com as palavras.
— Muito prazer, está com excelente aspeto, Khun Raed. — Akara sorriu, a dar um passo à frente. — Onde comprou essa camisa, Khun Raed? — Akara fez a pergunta.
— No roupeiro,  como todas as outras coisas. Porquê? — Lien sorriu, a ver o olhar de Nanfa sobre ele.
— Pi'Nan! Não te queres explicar? — Akara protestou, a virar-se para o homem. — Porque é que a camisa que te ofereci está noutra pessoa? — o rapaz lamentava-se, a sentir-se magoado.
— Ah, tem bom gosto. Talvez me monte um guarda-roupa cápsula,  nem roupa tenho para ir despejar o lixo. — Lien propôs com cara séria.


Hima e Fai continham com dificuldade o riso, e o Nan também. Fai deduziu que essa camisa fora oferecida a Nan pelo Akara, e agora estava no roupeiro de Lien.


— Tu! — Akara gritou, a apontar o dedo para Lien.
— Vieste cumprimentar, cumprimentámo-nos. Tenho coisas a tratar, desculpa. — Nan interrompeu. Akara bufou e foi embora.


Lien, ao que pareceu a Fai, mal se continha até o peru pomposo se ir embora. A agarrar Nan pelo braço, arrastou-o na direção da casa de banho.


— O que estás a fazer, Lien? — Nan perguntou, mas deixou que o homem alto e bonito o conduzisse.


Minutos depois, Nan saiu da casa de banho com o casaco de Lien, seguido por Kin.


O leilão começou, e Fai e Hima, ao ver o quadro, entreolharam-se e perceberam que era exatamente aquele que queriam comprar para o quarto de Tirak.


Era um coelhinho branco adorável com florezinhas à volta das orelhas, sentado num cogumelo.


Quando chegou a vez do quadro «Anjo da Terra», Fai observou Lien atentamente. Preocupava-se com ele, se este homem seria capaz de largar a dor e começar a viver de verdade em vez de apenas existir. O cachorrinho via o olhar preocupado de Nanfa e o Kin que apenas abanava a cabeça. E embora Fai achasse os métodos deles cruéis, não podia negar que eram os mais rápidos. Quando Kin levou o amigo à casa de banho, Nan saiu.


— Smart, para onde é que o Nan vai? — Fai preocupou-se com o estado em que Lien ficaria quando não visse o Nanfa.


📡 ‹O Nan foi para o apartamento do Lien. Comprou-lhe o quadro. Depois parte para Busan. Há um problema com o empreiteiro de lá. Precisa estar presente. Não, o Lien não sabe da viagem.› — o Smart adiantou-se aos pensamentos de Fai, que ia exatamente perguntar isso.


— Voltemos, amor. Vejo bem como te custa estar de pé. — o marido segurava o braço de Fai, a convencê-lo a voltar.
— Sim, vamos. — Fai respondeu com tristeza, preocupado com o amigo.


Voltaram à clínica perto das dez da noite. Tirak já dormia enrolada no cobertor de peluche, e Kira estava sentada ao lado.


— Como foi a noite, jovens pais? — ela sorriu, a perguntar aos dois quase em sussurro.
— O teu filho amado, sabes o que fez? — Hima perguntou, a ajudar Fai a tirar o fato, enquanto Kira erguia uma sobrancelha questionadora.
— Voltou a ser cupido, mãe! E não com qualquer um ...com o Nanfa Wongsawat! — o Gatão entregou a esposinha de bandeja.
— E então? Resultou? — a mulher sorriu, a olhar para Fai.
— Saberemos quando o Nan voltar da Coreia. Estou cansado, posso descansar? — Fai respondeu honestamente, enquanto Hima o despia.
— Claro, rapazinho. És o meu herói, e os heróis precisam de descansar! Vou já, meninos.. boa noite. — Kira deu um beijo na testa dos meninos e saiu do quarto.
— Amo-te tanto, meu menino bom. — Hima abraçou Fai na cama, a deitar-se ao lado dele.
— Eu também a ti, minha felicidade. — Fai beijou Hima nos lábios e deitou a cabeça no ombro dele, a adormecer.


🍃 🍃 🍃


Na semana seguinte, Hima arranjou como pôde motivos para ir ao «trabalho», a deixar Fai no hospital com a Rak. Os dois já se sentiam bem, mas mesmo com os novos medicamentos a ajudar a medula a recuperar e a enxertar, era cedo demais para dizer se enraizara e começara a produzir células próprias. 

Dew e Var diziam porém que com esses medicamentos o resultado já se poderia saber no dia 14. E se estivesse tudo bem, a Tirak teria autorização para sair do quarto, mas só com máscara. Hima ficou satisfeito com as palavras, porque o alegrara o facto de que no dia 15 a princesinha já poderia ir ao casamento deles.


O Smart, por sua vez, ia relatando ao preocupado Fai a informação sobre Lien. Na quinta-feira, Fai já estava prestes a ir ter com ele para conversar,  quando o Smart lhe disse que Lien fora autorizado a entrar na mansão pela governanta. Horas depois o assistente acrescentou que o Nan voltara a casa. Fai respirou aliviado, porque sabia que o Kin ia relatando tudo ao Nan, e disse ao Smart para não os vigiar mais.


Na segunda-feira, perto de uma da tarde, enquanto Tirak dormia, Fai mudava de canal e deparou-se com a notícia sobre a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A lei fora aprovada por maioria de setenta e dois por cento dos votos. Sorriu, a pensar que seria bom casar com Hima aqui,  e não no estrangeiro. Fai ligou a Hima para partilhar a novidade, mas o marido respondeu de forma estranhamente seca, o que preocupou o cachorrinho. Assim que desligou, Fai pediu ao Smart que lhe dissesse o que o Hima estava a fazer assim tão ocupado que não queria falar com ele.


O assistente não sabia mentir, mas aprendera a evitar respostas diretas. Ao explicar que o Hima tinha uma reunião importante naquele momento,  na qual precisava de estar concentrado, a ansiedade de Fai diminuiu um pouco. O Smart não mentira: naquele momento o Hima estava na câmara municipal, a tratar da papelada do casamento, a persuadir os funcionários a compreender que o noivo estava no hospital com uma criança. A «persuasão» em forma de uma quantia considerável resultou, e, como o Smart dissera, a cerimónia foi marcada para o dia 15, às três da tarde.


Depois de tratar de tudo, Hima voltou à clínica,  onde o esperava um Fai ofendido, enquanto a menina estava nas consultas.


— Ei, Papá, o que aconteceu? Porquê essas sobrancelhinhas num lacinho? — Hima preocupou-se, com medo de que o Smart tivesse contado o casamento.
— Hoje não quiseste falar comigo… — Fai deixou escapar. O Gatão sorriu, a aproximar-se da esposa e a abraçá-lo.
— Desculpa-me, meu amor. Tinha uma conversa importante, não me podia distrair… Mas agora… sou todo teu… — a erguer o rosto do cachorrinho pelo queixo, Hima beijou-o sem pressa, a penetrar a boca caprichosa.


De repente…


O beijo foi interrompido pelo toque do telemóvel de Fai. O jovem tirou o aparelho e atendeu:


📞— "Sim, Lien — tens saudades?"

📞— [Disseste que podia ligar-te e pedir ajuda com qualquer coisa, certo?] — a voz agitada do homem pôs Fai em alerta.

📞— "O que aconteceu?" — Fai perguntou com seriedade, a ligar o altifalante e a olhar para Hima.

📞— [Preciso de saber onde está o Wei Xin agora.] — Lien disse com voz trémula, quase a implorar.

bottom of page