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64 – Plano B (parte 2 de 3)

Fai e Hima passaram o dia todo no hospital com Rak. O Gatão não os deixava levantar. Carregou Rak ao colo até à casa de banho, e Fai, com os constantes murmúrios, apenas convenceu o marido a ampará-lo. 

Passaram a noite na clínica. Na manhã seguinte, Hima ainda não deixava Fai levantar-se, e sugeriu que procurasse opções de cama para a menina. Afinal, tinham de fazer um plano: como transformar o antigo quarto de Fai num quarto de criança.


Fai entusiasmou-se depressa, e o Smart ofereceu-lhe a opção de remodelar o quarto: reduzir o roupeiro e aumentar o quarto. Fazer obras, repintar as paredes e o teto, trocar o pavimento por carpete macio, colocar luzes noturnas no teto… Em suma, ocupou o rapaz desprevenido por quase um dia inteiro. 


Enquanto o cachorrinho organizava o quarto e procurava empreiteiros, o Smart calculou que se a lei fosse aprovada no dia 13, no dia 15 já poderiam registar o casamento. Ao enviar a mensagem para o telemóvel de Hima; que a leu de imediato; o homem acenou. O Smart criou um convite eletrónico que enviou para o e-mail de todos os amigos íntimos e familiares de Fai; incluindo a mãe de Fai e Lien; a explicar que seria uma boda-surpresa para Fai e que não deviam dizer-lhe nada. Por cautela, programou um reenvio via Line para o dia 13, depois do anúncio dos resultados da votação.


No sábado, Fai convenceu Hima a ficar com a menina enquanto ele ia à loja ver a cama para Tirak. Hima tentou várias vezes convencê-lo a ficar no quarto, mas Fai fingiu ofender-se e o Gatão cedeu.


📡 ‹Chefe, o Lien enviou uma mensagem à amiga a dizer que vai ao Paragon buscar um fato. Se quiser apanhá-lo lá, tem de sair dentro de uma hora.›


— Ah, está bem… Vai, mas leva o Kai! Para não ficares sozinho! — o homem autorizou. Fai sorriu amplamente.
— Obrigado, Mamã! — o cachorrinho deu um beijo na face do marido e foi trocar de roupa.
— Mamã, para onde vai o Papá? — Rak subiu para os braços de Hima, a perguntar.
— Vai à loja comprar a cama que tu querias. — Hima decidiu contar. Fai voltou-se para ele.
— Hia! Era para ser surpresa! — Fai protestou, mas a menina sorriu amplamente.
— Papá, compras-me um elefantezinho? E um moranguinho? Sim? Sim? Sim? Quero-os muito-muito! — a menina voltou-se para Fai, e Hima levantou-se com ela ao colo, a aproximar-se da esposa.


Rak abraçou Fai pelas faces, sem sair dos braços de Hima, e a olhá-lo nos olhos continuou:


— Compras?


Fai olhou para aquelas duas turmalinas negras, e tudo o que conseguiu dizer foi:


— Claro que sim, pequenina.


Percebeu porque é que Hima lhe cedia tudo, porque recusar com aqueles olhinhos a olharem para si era impossível. A menina beijou Fai nos lábios e abraçou Hima de novo.


— Mamã, vês desenhos animados comigo? — ela mudou de assunto para o loiro. Fai, depois de acabar de se vestir, saiu do quarto.
— Kai, pega no carro,  vamos ao Paragon. — Fai ordenou. O jovem à porta acenou.


🍃   🍃 🍃


Ao chegar ao Paragon, o Smart informou que o Lien acabara de subir de elevador para o andar com a loja de fatos. Fai sentia um ligeiro desconforto nas costas, mas não o impedia de andar. Ao entrar na loja, encontrou de imediato um homem alto e bonito para quem a consultora sorria docemente.


— Não esperava vê-lo aqui, Khun Lien. — Fai sorriu docemente, a interromper prontamente o flirte óbvio da rapariga.
— Khun Fai, certo? — o homem confirmou. Fai acenou.
— Kai, vai dar uma volta — um amigo faz-me companhia. Ligo-te se precisar. — Fai sorriu ao voltar-se para Kai, e o jovem, pelo olhar sério, percebeu que era melhor não discutir; inclinou a cabeça e foi.
— Oh, querido, mudaste de ideias e decidiste foder comigo? — Raed sorriu com atrevimento, a passar o dedo indicador pelo ombro de Fai.
— Ahahahaha, queres o «tu», está bem. Desculpa, Lien, o teu charme não funciona comigo. Só posso ser teu amigo: eu tenho marido, tu tens marido. Se dormirmos juntos, meia cidade acaba nos teus «pacientes silenciosos»,  queres assim tanto trabalho? A propósito, vieste buscar fato para a exposição de amanhã? — Fai riu, a observar como a surpresa no rosto de Lien se tornava cada vez mais evidente a cada palavra.


E ele é de facto uma pessoa muito interessante… É uma pena que a morte daquele rapaz o tenha afetado tanto… — Fai pensou, a observar o homem.


— Como sabes que vou à exposição? — Lien perguntou, a olhar desconfiado para o cachorrinho.


📡 ‹Chefe, a pessoa que está a falar com o vendedor é o ex-namorado de Nanfa.› — o Smart ajudou.


— Oh! Sei muitas coisas… Por exemplo… — Fai examinou a loja e acenou com a cabeça para o rapaz bonito que estava ali com o vendedor. — Olha — é o ex do Nanfa. Parece nada de especial… — sorriu o cachorrinho, enquanto o Smart ia contando a Fai sobre a discussão recente em casa de Nan e resumia o encontro no clube com Kin e Ni.


Fai percebia que Lien estava traumatizado com a morte do Fox. Apesar do sorriso constante e das piadas, por dentro o homem era um campo de cinzas. E Fai, mais do que ninguém, sabia que tudo era uma fachada e um mecanismo de defesa. As muralhas de Lien eram tão altas e bem guardadas que durante oito anos ninguém chegara a menos de meio metro. E Nan não se limitara a aproximar-se, cavou um buraco, entrou descaradamente e acendeu um novo fogo que o sistema de defesa tentava apagar.


— Exatamente! Nada de especial! Substituto de silicone! — Fai via com que ciúme Lien examinava o rapazinho, e apenas sorriu.
— Chama-se Akara. Vinte e quatro anos. O Nanfa namorou-o há um ano. Separaram-se porque havia eleições para o Senado e o pai do rapaz não queria que a orientação do filho lançasse uma sombra sobre a reputação na campanha. O Nan gostava muito dele, mas creio que se não fosse o pedido do pai do Akara, ainda estariam juntos. Provavelmente o Akara soube que o Nan estaria na exposição amanhã e decidiu arranjar-se… — Fai repetia o que o Smart lhe ia dizendo, a decidir apoiar o plano do trio e ajudar Lien.
— E de onde vêm essas informações assim tão detalhadas, Fai? — o homem perguntou, a continuar a olhar para o Akara.
— Tenho um assistente muito capaz. Além disso… o San Kahlan está a tentar persuadir o Nanfa a casar-se com a filha dele. Ficcionalmente, claro, mas o facto em si… Ofereci-me para ajudar o teu marido com o San, mas ele disse que resolvia sozinho. — Fai continuou a atirar lenha para a fogueira, a observar a reação de Lien.
— Ele não é meu marido. — o homem alto e bonito continuava a negar — o que só fazia Fai rir.
— Ora, ora… «Não é marido»,  e que atravessou meia cidade de manhã para te comprar chocolate e café? E depois os levou ao teu apartamento? — o cachorrinho não parava.


📡 ‹Chefe, a julgar pelos sintomas externos, o Lien está a entrar em ataque de pânico. É melhor mudar de assunto antes que piore.›


— Está bem… Vamos assim: eu ajudo-te com o fato, e tu ajudas-me com a cama de criança? — Fai mudou de assunto.
— Cama de criança? Estás grávido? — Lien deu uma gargalhada, a acariciar a barriga de Fai.
— Na verdade é difícil de explicar, mas se quiseres ouvir, posso contar. — Fai decidiu abrir-se com o homem, a achar que isso podia ajudar Lien.
— Há quatro anos, o meu pai deixou-me a mim e à minha mãe por outra mulher. Depois de ele ir embora, os papéis do divórcio chegaram um mês depois. — Fai começou com calma, a pegar num fato do expositor e a estendê-lo a Lien. — Deixou-nos com dívidas e um empréstimo da casa. A mãe aguentou o que pôde até perder o emprego. Então fui trabalhar num clube noturno para a ajudar de alguma forma. No início ela tentava ser a mesma, mas com o tempo passou a sorrir menos, enquanto os agiotas apareciam com mais frequência. Depois alguém lhe ensinou que o casino era uma excelente forma de ganhar depressa uma soma grande… — o cachorrinho continuava enquanto Lien experimentava o fato.
— No fim, as dívidas foram crescendo e o dinheiro não chegava. A mãe começou a beber. Um dia cheguei a casa depois da universidade — e tínhamos «visitas». Só tive tempo de os cumprimentar antes de a mãe me oferecer como pagamento da dívida. — Fai sorriu. Lien olhava para ele surpreendido.
— É a tua mãe! Como podia dar o próprio filho?! E porque estás a sorrir?! — o homem ficou genuinamente indignado.
— A última coisa de que me lembro naquele dia foi a caminhar debaixo de chuva até ao carro. Acordei numa casa magnífica. O Hima não me deixou ir à universidade uma semana até o médico autorizar. O Hima arranjou-me emprego no clube dele, mas só trabalhei lá uma semana… até… — Fai fez uma pausa, a decidir que por agora não valia a pena contar a Lien toda a verdade sobre o quarto cinco. — Até um dos clientes decidir drogar o Hima, e o copo fui eu a beber. Desde essa noite não voltei a trabalhar no clube… mas tornei-me a esposa dele. — Fai sorriu, a continuar.
— Ele violou-te com drogas?! Por que não apresentaste queixa na polícia? — Lien interrompeu, indignado de novo.
— Lien, eu queria-o mesmo antes desse incidente… provavelmente desde o primeiro dia em casa dele. — Fai admitiu, a corar ligeiramente.
— Este gosto-me! Fica excelente e a cor é invulgar! — o cachorrinho interrompeu a história, a avaliar o fato no homem.
— Tens razão! A cor é fantástica! — Lien concordou a sorrir — e disse um pouco mais alto para o vendedor: — Levamos este!


A rapariga acenou, e os rapazes, depois de comprar o fato, foram ver a cama. No caminho, Fai continuou a história.


— Depois… eu e o meu amigo fomos raptados pelo mesmo que tentara drogar o Hima. A mãe dele resgatou-nos. Mulher incrível! E a forma como maneja as facas… Mas isso não vem agora ao caso… 

Depois desse incidente decidi que não permitiria que algo assim se repetisse. Pedi-lhe que me explicasse os detalhes do trabalho, para estar pronto para tudo e poder ajudá-lo. Oh, olha, esta é fantástica! A Rak pediu uma cama-gato. O que achas? — de repente Fai mudou da história para a cama, parado ao lado de uma cama-Totoro.
— Ela é uma rapariga,  e essa é mais opção para rapaz. — Lien parou ao lado dele, a examinar a loja.
— Em frente, mulher de mafioso. — o homem sorriu, a indicar a secção das camas.
— Depois voámos para Roma para o leilão… foi uma aventura maravilhosa! Parecia-me que nada podia estragar a minha felicidade. Pensei assim exatamente até ao dia em que defendi o projeto final na universidade. O Hima prometeu levar-me à minha mãe depois da defesa… Fiquei tão contente! Mas a alegria durou pouco… perto da casa da minha mãe, dispararam sobre nós. O Hima cobriu-me com o corpo… — a voz de Fai mudou de imediato,  nela sentia-se dor e medo. — Ele morreu nos meus braços durante longos oito minutos intermináveis enquanto a ambulância chegava… A cada respiração esperava e temia que fosse a última… Depois uma longa operação e três dias de coma… — Fai parou, a sentir o nó na garganta.
— Ei, podes não continuar se dói assim tanto, Nong. — Lien pôs-lhe a mão no ombro. Mas Fai voltou-se para ele — e sorriu.
— Enquanto ele estava em coma, eu morria por dentro a cada segundo, e para me distrair de alguma forma, fui tratar dos negócios dele. Uma reunião com o Koji e um investidor da Austrália. E depois com o San Kahlan. O que ele julgava ser uma filhinha adorável tinha contratado um homem e conspirara com o guarda-costas do Hima, que naquele dia deu um passo atrás, a dar espaço ao atirador. Coloquei uma condição ao San: ou mandava a Yufa para o estrangeiro e, enquanto não se casasse e não engravidasse, não voltava à Tailândia, ou podia trancá-la em casa e rezar para que eu não chegasse lá e a matasse. 

Claro que, como pai amoroso, escolheu a primeira opção. — Fai ligou o Tigre. Lien percebeu de que é que o Nan falara.
— Farias isso mesmo? Matá-la-ias? — o homem perguntou. Fai sorriu.
— E esta? A raposa é fofa. — o cachorrinho indicou uma cama.
— Acho que… aquela fica melhor. — Lien apontou para uma cama do outro lado da secção. Fai foi até lá.
— O meu assistente e eu tínhamos a certeza de que ele escolheria a primeira opção. Depois a revelação pública da verdade diante de todos em casa do Hima, e foi nesse dia que ele acordou… Pensei que nunca mais veria os olhos azuis nem ouviria a voz dele… Fiquei tão contente por ele ter acordado… E depois… o pai ligou… Em vez de perguntar como eu estava e como estava a mãe, começou a implorar-me para salvar a filha. Imaginas? Curioso… Se a Tirak não tivesse leucemia, provavelmente nem me teria ligado… Estava tão zangado com ele que recusei de imediato. Ah... tens razão, é fantástica. No limite digo que é uma gatinha ruiva. — Fai mudou de assunto abruptamente como de costume. Lien apenas se surpreendia.
— Olha! Que fixes! Achas que uma rapariga precisa de muitos brinquedos no quarto? — o cachorrinho apontou para os brinquedos na secção ao lado.
— Não sei, depende do tamanho do quarto. Por que recusaste? — Lien sorriu, a ver com quanto entusiasmo o rapazinho escolhia.
— Bem, tinham passado só alguns dias desde que fiz a tatuagem, e depois disso o prazo mínimo para a doação é três meses. E os meus pontos ainda eram recentes. — Fai respondeu.
— Espera... pontos? Também ficaste ferido? — o homem travou o jovem. Ele acenou, a pegar em dois carrinhos grandes e a empurrar um para Lien:
— Ajuda-me...em nossa casa não há absolutamente nada para a criança.
— Ah, está bem,  rapaz irrequieto. — Lien concordou. Os dois andaram pela loja de brinquedos, a deitar nos carrinhos tudo o que poderia agradar a uma criança de três anos.
— Há alguns dias, ligou o hospital de Kanchanaburi a dizer que o pai e a mulher sofreram um acidente. A mulher morreu no local,  e ele morreu no hospital quando já tínhamos chegado. Os avós maternos da Rak culparam a menina, como se ela fosse responsável pela morte da filha… Recusaram-na. Eu não sabia o que fazer… Naquele momento o meu cérebro não funcionava… O Hima quis visitá-la, e fomos ao quarto dela. Enquanto eu estava sentado com ela, o Hima e a mãe já tinham decidido que a levavam para Banguecoque… Percebeste? Quando ele não conseguia tomar decisões e estava em coma, eu fui forte por ele, e quando eu não sabia o que fazer, ele tomou as coisas nas próprias mãos… Trouxemos a Rak para cá… Anteontem fizemos o transplante de medula óssea… E agora aqui estamos nós, a escolher brinquedos enquanto ela está no hospital com o meu marido. — Fai sorria, a meter cada vez mais brinquedos no carrinho.
— Deve ser bom quando alguém consegue compreender-te e aceitar-te como és… com todos os defeitos e falhas… — Lien disse com tristeza.
— Estás com fome? Comemos qualquer coisa? — Fai sugeriu,  depois de pagar as compras e encomendar a entrega em casa. Lien concordou.


Sentados no café, ao café e aos bolinhos, Fai decidiu fazer uma discreta sessão de psicoterapia.


— Sei que o que vives desde a morte do Fox é difícil. Quando o Hima estava em coma, achei que morreria sem ele… Percebo o que sentes. Mas acredito que és mais forte do que pensas, Lien. Sim, o Nan pode estar em risco de morte, mas cada novo dia é como um presente do destino. O facto de esconderes os sentimentos de ti mesmo neste momento só te piora as coisas a ti. Imagina que o Nan desaparece da tua vida. De todo. Nunca mais o verás, nunca mais ouvirás a voz dele, nunca mais sentirás o calor do corpo dele. Não te arrependes de não teres estado perto dele? O meu amigo é muito parecido contigo… só que ele se divertia com rapazes na medida dos próprios mimos, não como tu, a esconder a dor por trás disso. Mas quando conheceu o Dao, tudo mudou. Antes de fazeres ou dizeres qualquer coisa, imagina: se o Nanfa fizesse isso, o que sentirias? — Fai falou com sinceridade, e pelo olhar sério do homem sentiu que estava a resultar.
— Não és demasiado adulto para a tua idade, pequenino? — Lien provocou, a tocar-lhe discretamente na testa com o dedo.
— Não é a idade, Pi'Lien, é a experiência. A propósito, dá-me o teu Line. Se precisares de ajuda com qualquer coisa, seja o que for, para encontrar alguém ou descobrir algo, podes escrever-me ou ligar. A propósito… Na exposição, sugiro que prestes atenção ao quadro «Anjo da Terra». Dizem que é maravilhoso, mas infelizmente já foi comprado. Invejo a pessoa cuja casa vai ser decorada com ele… — o jovem continuava a pôr as ideias do homem no sítio quando Kai se aproximou.
— Chefe, a cama para a jovem senhora já foi enviada para a mansão. O Mix ligou a dizer que no treino com o Lon tinha… «picadas de mosquito» no corpo. Não percebi bem tudo porque o Sakda estava a rir ao lado dele. — Kai relatou. Fai acenou.
— Ah, claro! Obrigado, Lien. Sem saberes, ajudaste o menino e os dois pais dele. — Fai agradeceu, porque sabia que os setenta milhões entrariam em breve na conta de Tipakorn assim que o banco processasse a transferência.
— O quê? Quando é que eu fiz isso? — Lien perguntou, sem perceber.
— Lembras-te de quando fui a vossa casa? Fui falar sobre trabalho. Os homens comprados pelo Wei Xin tentaram violar um rapazinho de cinco anos à frente do pai para incriminar o Nan. Eu e os meus rapazes chegámos mesmo a tempo. O menino está bem, o pai está a recuperar. E o teu marido transferiu setenta milhões para a conta dele: trinta e cinco da parte dele e trinta e cinco da parte da esposa. Agora o Sakda e o Ti estão seguros e não devem nada a ninguém. — Fai explicou. Lien lembrou-se da conversa ao pequeno-almoço.
— O Nan perguntou-me quanto dinheiro daria por uma tentativa de violação de uma criança. Eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça. Portanto não tenho mérito nenhum nisso. Agora espera… o que é que o Mix tem a ver com isso? Se percebi bem, o pai do Sakda é o Ti? — o homem fingiu não ter qualquer ligação, mas depois fez a pergunta.
— És bem atento, senhor médico legista. O Mix acompanhou-me quando fui a vossa casa, lembras-te dele? Agora é o Papá preferido do Sakda; o que deixa o Ti louco de ciúmes por causa do filho. — Fai sorriu. O telemóvel tocou.


📞— "Sim, Hia…"

📞— [Voltas em breve?] — o marido perguntou.

📞— "Já vamos a caminho do hospital." — Fai sorriu.

📞— [Não foste sozinho, pois não?] — Hima perguntou. Fai ouvia a voz fina de Rak ao fundo.

📞— "Não; um amigo ajudou-me a escolher a cama e o mobiliário a combinar para o quarto." — o cachorrinho admitiu honestamente, a olhar para Lien.

📞— [Papá, não te esqueceste do moranguinho?] — a menina ansiosa falava agora para o telefone.

📞— "Claro que não, pequenina. O Papá não se esqueceu do moranguinho." — Fai respondeu com carinho, a sorrir.

📞— [E do elefantezinho?] — Tirak insistia.

📞— "E do elefantezinho."

📞— [Chegas logo?] — a criatura curiosa continuava a despejar perguntas.

📞— "Sim, meu sol" — chego logo.

📞— [Espero-te muito-muito, Papá!] — a vozinha satisfeita alegrou Fai.

📞— "Dá o telefone à mamã."

📞— [O que compraste? Vi o valor debitado no cartão. Compraste-lhe a loja quase toda?] — Hima provocou a esposa.

📞— "Querido, entusiasmei-me um pouco com os brinquedos… por isso vai ter de se fazer uma sala de brincar. Comprei o elefantezinho" — é um baloiço com escorrega. Só não lhe contes, está bem?

📞— [Como se eu fosse língua comprida!] — o homem protestou, enquanto Fai ouvia ao fundo a Rak a cantarolar uma música de desenho animado.

📞— "Ai! Tu sempre cedes a tudo o que ela quer! Só quero fazer-lhe surpresa quando chegar a casa." — o cachorrinho ralhou com Hima, enquanto Lien o olhava a sorrir.

📞— [Andaste muito? As costas doem?] — Hima preocupava-se.

📞— "Não, não andei muito. As costas não doem nada. Tinha o Lien e o Kai comigo".

📞— [Então se eu perguntar ao Kai, ele diz-me o mesmo?] — o marido pressionava Fai.

📞— "Hia! Não acordes o tigre!"

📞— [Está bem, está bem. Acredito em ti — não te zangues. Voltas logo ao hospital?]— o loiro cedeu.

📞— "Sim, já estamos a sair."

📞— [Amo-te, Fai.] — Hima disse com suavidade. O cachorrinho ouvia que estava a sorrir.

📞— "Eu também a ti." — Fai terminou. Lien olhava para ele com um sorriso.


— Mamã? O teu marido… mamã? — Lien provocou Fai,  que apenas olhou para o homem com ar satisfeito.
— A mãe sempre me disse que me pareceria muito com o pai. Talvez seja por isso que a Rak me chama de pai. Quando crescer, terá dois pais. E agora o Hima não se ofende, eu diria até que lhe agrada… — Fai sorriu;e a última frase saiu com grande ambiguidade.


📩


Uma mensagem chegou ao telemóvel de Lien, e ele tirou depressa o aparelho com um olhar aceso que se apagou de imediato.


📡 ‹Na mensagem para Lien, o rapaz lembra-lhe que têm encontro daqui a duas horas no hotel.›


Fai franziu as sobrancelhas, a perceber que Lien decidira de novo esconder-se dos sentimentos.


— Tenho de ir, Pi'Lien. Espero que não chegues tarde… Vemo-nos na galeria. — o jovem despediu-se, a tentar dar uma dica discreta sobre o atraso com o Nan.
— Até logo! — Lien sorriu e encaminhou-se para o estacionamento.


Oh… espero que a nossa conversa te ajude a perceber que esse não é o caminho… — Fai suspirou.


— Vamos, Kai. O meu marido já está todo preocupado que andei muito por aí. Se alguém perguntar, andei pouco — e tu estiveste comigo o tempo todo. — Fai avisou. O jovem acenou.


📩 <Smart, quero saber como corre o encontro do Lien.> — Fai enviou mensagem via Line.


📡 ‹Sim, chefe. Mas não há câmaras nos quartos, o máximo que posso fazer é ligar-me à câmara do corredor.› — o Smart respondeu pelo auricular. Fai acenou.


Fai e Kai pararam no mercado para comprar morangos para Tirak,  e ele separou um elefantezinho de peluche da montanha de brinquedos que compraram. De volta à clínica, o cachorrinho confirmou com o Dew se a Rak podia comer morangos,  e ele só autorizou depois de os escaldar.


Fai fez como o médico mandou, e reparou entretanto num chupão de cor viva no pescoço do Dew.


— Doutor Dew… devia usar uma pulseira contra mosquitos, senão o pescoço vai-lhe ficar todo vermelho… embora… suspeite que seja um mosquito especial… que não quer matar… — o cachorrinho provocou com um sorriso manhoso.

— Nong Fai! Diga-me honestamente,  contratou-o de propósito para me atormentar? O que é que eu lhe fiz? — o Dew não aguentou mais e perguntou de frente.
— Oh, doutor Dew… lembra-se… o senhor estava a examinar-me em casa e falou de tiro com arco… e o Hima ouviu… por isso achei que a boca do senhor devia estar ocupada com algo para falar menos! — Fai sorriu, a afastar-se do médico chocado com a franqueza, e a entrar no quarto da Rak.


Enquanto estivera fora, aparecera mais uma cama no quarto. Fai entrou e viu a menina a dormir na cama, abraçada a Hima, que se virou ao ouvir o som da porta.


Levantou-se devagar, cobriu a Rak com o cobertor e foi para a cama ao lado, a chamar Fai com um gesto. 

O cachorrinho sentou-se na cama, a pôr na mesinha os morangos e o elefantezinho. Hima puxou-o, e assim que Fai se deitou percebeu que estava cansado e que as costas doíam.


— Sei que estás cansado. — Hima deitou-se ao lado de Fai e abraçou-o, a beijar-lhe a testa.
— Hm… de facto estou cansado… — Fai bocejou, a perceber que o sono o dominava.
— Dorme, meu menino. Fizeste tantas coisas hoje… — Hima acariciou os cabelos do amado, porque lá de casa já tinham ligado a contar a dimensão das compras do rapazinho.


Assim que Fai adormeceu, Hima escreveu à mãe a dizer que o filho estaria no hospital o dia todo amanhã, e só ao final do dia iriam a um evento na galeria. Por isso pediu-lhe que trouxesse dois fatos,  um para ele e um para Fai. O cachorrinho dormiu até de manhã,  mas Hima esteve até às dez da noite a trocar mensagens com os conspiradores, a ajudar nos detalhes.

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