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57 – Dragão (parte 1 de 2)

— Rak, querida. Quero dizer-te uma coisa importante… — começou Fai, e Hima segurava-lhe a mão.
— Hã? — estranhou a pequenita, enquanto Kira se sentava na cama com ela ao colo.
— Coelhinho, não te quero mentir. A mamã e o papá já não vão poder vir ver-te… — começou Fai com doçura, atento à reação da menina.
— Porquê? Cansaram-se por causa da minha doença? — perguntou ela baixinho, e olhou para Kira.
— Não, Coelhinho. Eles tiveram um acidente… — respondeu Fai, e a menina olhou para Hima, enquanto os olhinhos se lhe enchiam de lágrimas.
— Eles… morreram? — perguntou a soluçar, e Fai acenou.
— Podes chorar, pequenina. Está tudo bem, a avó está aqui. — Kira apertava a criança contra si, enquanto ela chorava.
— Rak, eles vão olhar sempre por ti. Em breve, as almas dos teus pais entram na roda do Samsara, à espera do renascimento. E na próxima vida vão voltar a estar todos juntos, Coelhinho… — dizia Hima com meiguice, e ela ergueu a cabeça do peito de Kira.
— E com quem é que eu vou viver? Com os avós, em Kanchanaburi? — de repente, a criança fez uma pergunta de adulto que ninguém esperava ouvir naquele momento.
— Não, Rak. Enquanto estiveres doente, ficas neste quarto. Nós vamos vir cá à vez para estar contigo. Hoje fico eu e a avó. O Fai tem trabalho. — respondeu Hima, e Fai acenou.
— Não me vais abandonar, pois não? — a passar dos braços de Kira para os de Hima, dois grandes carvõezinhos negros fitavam os olhos azuis.
— Não vou. Diz-me, Coelhinho: de que cor queres o teu quarto? — perguntou Hima, a tentar afastar a criança do negativo, e todos no quarto se entreolharam.
— Verde como a relva! Com um castelo grande com uma princesa na parede e um Dragão bondoso. E também florzinhas, e um solzinho, e um elefantinho, e um riozinho! E quero uma cama como a do anúncio — um gato cinzento grande e fofinho! — enumerava a menina, entusiasmada.
— Está bem, está bem. Ah-ah, vai ser tudo como tu quiseres, pequenina. — concordou Hima com um sorriso.


Var entrou no quarto, de bata, e Rak virou-se para ele.


— Olá, Rak. Chamo-me doutor Var; eu e o doutor Dew vamos tomar conta de ti. Khun Fai, podemos sair um momento? — sorriu Var à menina.


Fai levantou-se da cama, e Kira saiu com ele.


— Khun Fai, precisa de fazer as análises antes do transplante. Se as fizer hoje, depois de amanhã já podemos realizar a operação. — avisou Var, e Fai sorriu.
— Mãe, quando é que é a lua cheia? — perguntou Fai de repente mas, enquanto esperava a resposta da mulher chocada, o Smart já lhe dissera que era precisamente depois de amanhã.
— Não interessa, vamos, Pi'Var. Ah, não — espera um minuto, vou dizer ao Hima que saio. Hoje ficam ele e a mãe com a Rak, para ela não se sentir sozinha.


Fai entrou no quarto e ficou surpreendido: a cama estava cercada de homens, todos a competir por adivinhar o animal que a pequenita imitava. O Cachorrinho sorriu, aproximou-se do marido e sussurrou-lhe ao ouvido: 


— Amor, vou fazer as análises para o transplante e depois vou com o Mix e o Kai tratar do assunto da dívida. O Leon fica contigo. Prometo manter o Tigre sob controlo…


Hima acenou, e Fai beijou-o ao de leve na bochecha; depois inclinou-se e fez o mesmo à Rak.


— Coelhinho, vou trabalhar. Olha quantos tios ficam hoje contigo, e ainda a avó. Faz com eles tudo o que quiseres! — a afagar o cabelo da menina, Fai saiu do quarto, onde Var o esperava.


Feitas as análises, Fai desceu com os rapazes ao estacionamento e, já no carro, abriu o tablet para rever a informação sobre o devedor. Hima e Fai tinham decidido na véspera que, enquanto Rak estivesse no hospital, trabalhariam por turnos. Dois dias antes, o gestor dos empréstimos ligara a Hima a dizer que não conseguiam cobrar a dívida a um homem. Ele queixava-se constantemente de que outros agiotas lhe levavam o dinheiro, normalmente um dia antes da data de pagamento, e prometia liquidar tudo o mais depressa possível. Hoje era exatamente o dia em que, segundo o homem, os agiotas da outra firma deviam aparecer.


O Smart levantou a informação sobre o devedor: Tipakorn Diloknavarit, 27 anos, casado. Cria sozinho o filho, Sakda, de 5 anos. A esposa, Mukda, 24 anos, desapareceu no ano passado. Segundo os registos do hospital, foi-lhe diagnosticada depressão pós-parto quando o Sakda tinha pouco mais de um ano. Vários anos de tratamento, mas nesse período primeiro ficou dependente dos antidepressivos e depois passou às drogas. O Smart encontrou informação de que, antes de desaparecer, Mukda levara de um traficante uma remessa de droga para revenda, e dois dias depois sumiu. Como é óbvio, foram cobrar o dinheiro ao marido. Foi então que ele recorreu aos agiotas. O homem não tinha bens: alugavam uma casinha.


Pouco mais de uma hora depois, o carro de Fai parou na morada certa. No relvado, diante da casinha, já estava um carro estacionado sem cerimónia nenhuma. Os três rapazes saíram e, ao ouvirem sons de luta e gritos lá dentro, entraram.


Sacaram depressa das pistolas e apontaram-nas a cinco homens: dois despiam um rapazinho lavado em lágrimas, e os outros três davam pontapés num homem que implorava que não tocassem no filho.


— Se não largarem a criança em três segundos, vão ficar com mais um buraco na cabeça! — proferiu Fai em tom severo, a apontar a pistola aos dois homens que seguravam a criança, a começar a contar devagar, em silêncio.
— E tu, quem és? Desanda daqui, antes que te dispam a ti também! — virou-se o homem para Fai, e o Smart disse que era o Don.


Bang!


Soou um disparo e um dos que seguravam a criança desabou. O menino desmaiou de medo; os bandidos, esses, viraram-se para Fai, enquanto os miolos do tipo escorriam pela parede.


— Eu não repito duas vezes! É do teu interesse desaparecer daqui, Don, ou a próxima bala vai para a tua cabeça! — a aura sombria de Fai apavorou os homens, que saíram de casa a correr.
— Mix, verifica o rapaz. — ordenou Fai, e Mix acenou em concordância.
— Quem são vocês? — perguntou Tipakorn, quase inaudível, a soerguer-se a custo para ver o filho.


Fai aproximou-se do pequeno deitado no sofá, voltou a vestir-lhe as calcinhas brancas às bolinhas e tomou-o ao colo. O Smart disse que o Sakda tinha perdido os sentidos e devia acordar em breve.


— Chamo-me Fai Kittichat, Khun Tipakorn. Pediste dinheiro emprestado numa das minhas organizações. Mas nos últimos meses notámos problemas com os pagamentos, por isso vim eu próprio. — falava Fai com calma.
— Perdoe-me, Khun Fai. Eu… eu não vos conseguia pagar, porque queria salvar o meu filho… — dizia Pakorn baixinho, a sentar-se e a encostar-se à parede.
— Khun, comecemos por uma pergunta importante… — continuou o Cachorrinho, a olhar para o homem calado.
— Onde é que está o estojo de primeiros socorros nesta casa? — a pergunta de Fai deixou em choque todos os presentes, sobretudo o dono da casa.
— Na cozinha, no armário de cima, à direita… — respondeu Ti, hesitante, e Fai acenou a Mix.

Mix foi buscar o estojo e pôs-se ao lado de Fai.

— Mix, não fiques aí especado… ajuda-o a tratar as feridas. Bem sabes que eu não gosto de sangue… — ao ouvirem estas palavras de Fai, todos ficaram imóveis — porque fora precisamente ele quem, ainda agora, fizera saltar os miolos ao tipo, a deixar na parede um padrão de sangue e massa cinzenta…


Mix aproximou-se do homem e, acocorado diante dele, começou a tratar-lhe as feridas. O lábio muito rebentado, marcas de botas nas pernas até ao sangue, e tinha a certeza de que, debaixo da t-shirt, não havia um centímetro de pele intacta. Enquanto Mix tratava as feridas, Fai afagava o cabelo do menino, que continuava inconsciente nos seus braços.


— Quero saber o que se passa aqui. — disse Fai, baixo e sereno, de olhos postos na criança.
— A minha mulher era dependente; há sete meses, desapareceu. Depois disso, vieram ter comigo traficantes, a afirmar que ela lhes tinha levado mercadoria no valor de quatro milhões de baht e deixara de dar sinal. Ameaçaram incendiar a casa enquanto dormíamos, se eu não entregasse o dinheiro em três dias. Numa financeira só me deram dois milhões, mas aqueles tipos exigiam a quantia toda de uma vez. Lembrei-me de que um amigo meu da escola, o Phuto, emprestava dinheiro… — contava Pakorn, enquanto Mix lhe tratava as feridas das pernas.


Nos primeiros tempos, Pakorn ia pagando os juros e uma pequena parte do capital,  até o Don tomar conta do assunto. De repente, os juros subiram e a dívida já não era de pouco menos de dois milhões, mas de três. Pior: o Don e os homens dele apareciam constantemente lá em casa, destruíam tudo, ameaçavam levar o menino por conta da dívida e espancavam o homem. Ti entregava-lhe todo o dinheiro, a guardar apenas o mínimo para a comida do Sakda. Hoje, o Don voltara a aparecer, a exigir a dívida toda, ou a criança. Quando Ti disse que o filho não o entregava, começaram a bater-lhe, e o pequeno, que saíra do quarto com o barulho, foi parar às mãos de dois homens. O Don mandou-os despir o menino e preparava-se para o violar diante do pai. Foi exatamente no momento em que esse plano ia ser posto em prática que Fai entrou com os rapazes. O homem contava tudo isto com lágrimas nos olhos, sem desviar o olhar da criança nos braços do estranho. A cada palavra de Ti, a raiva ia inundando Fai. Mix viu o olhar do chefe e, sem querer, apertou com mais força o braço do homem — mas este nem se mexeu, porque só olhava para o filho.


— Eh, o chefe não lhe faz mal nenhum. Descontrai. — sossegou Mix o homem em voz baixa, a afrouxar o aperto.
— Quanto é que lhes deves? — quis saber Fai, a desviar o olhar da criança para Pakorn.
— Hoje o Don disse que a dívida, com juros, vai em 3,5 milhões… Eu… ainda tentei ligar ao Phuto antes disto, mas ele não atendia. — a voz do homem tremia.


Fai pegou no telemóvel e escreveu ao Smart: encontrar toda a informação sobre aquela firma de empréstimos, quem era o dono e os contactos dele.


— Consegues levantar-te? — as perguntas de Fai surpreendiam Tipakorn, mas ele acenou que sim.
— Ai… — gemeu Ti, porque o corpo lhe doía todo; enquanto estivera sentado, não o incomodara tanto.


Mix pegou-lhe pelo cotovelo, a ajudá-lo a erguer-se, e o rapaz, a cambalear, caiu-lhe nos braços.


— Desculpe… A cabeça anda-me à roda… e as pernas doem… — desculpava-se Ti, mas Mix não o largou.
— Kai, ajuda o Mix e liga ao teu marido, que prepare um quarto. — ordenou Fai, a levantar-se do sofá com a criança ao colo.
— Pa… para onde levam o Sakda? — quase gritou Ti, a empurrar os rapazes, mas tinha pouca força.
— Acalma-te, Pakorn. Vais com ele para o hospital. — disse Fai, a olhar para o homem. — Desculpa, mas a criança não ta ponho nos braços. Tu próprio disseste que a cabeça te anda à roda; se caíres com ele, magoam-se os dois.


Quando Fai entrara na casa e vira o homem espancado que, mesmo naquele estado, tentava proteger o filho, o coração despedaçara-se-lhe de dor. Lembrou-se de como também a ele lhe tinham batido, por causa das dívidas da mãe, mas ninguém atentara contra a sua honra. E ali… iam violar uma criança… 

Desde que Hima saíra do coma, o Cachorrinho não usava a arma. Sim, trazia-a sempre consigo, mas nunca a sacava. Hoje, fizera-o pela primeira vez em muito tempo.


— Mas… e aqueles tipos? — preocupava-se Ti, porque hoje não lhes pagara e temia que, de noite, incendiassem a casa.
— Não te preocupes com eles; pensa em ti. Queres que o menino veja isto tudo? — Fai virou-se para a parede e para o cadáver, e o homem abanou a cabeça.


Quando entraram no carro, Fai pousou o Sakda nos braços de Ti, e este abraçou o menino.


— Mix, liga aos rapazes: que ponham a casa em ordem. — ordenou Fai, e Mix, a acenar, marcou o número.

Uma hora depois chegaram ao hospital; à entrada já os esperavam, aflitos, Hima e Var. O Cachorrinho viu o Gatão preocupado e percebeu que ninguém lhes tinha dito para quem era o quarto… Mal o carro parou, Var e Hima avançaram logo na direção dele. Fai tomou o menino ao colo e saiu do carro; atrás dele, Mix ajudava Pakorn a sair.


— Estás bem, Fai? — perguntava Hima, mas ficou imóvel ao ver a criança nos braços da esposa.
— Bebé… não achas que é um bocadinho cedo para o segundo filho? — gracejou Hima, já sem preocupação.
— Doutor Var, ali está o seu paciente. Pode ter um traumatismo. O doutor sabe o que fazer. — disse Fai em voz baixa, enquanto Mix levava para dentro o homem apoiado no seu ombro.
— Fai… foste falar com um devedor e voltaste com eles? O que é que aconteceu lá? — ia perguntando Hima, a caminhar ao lado da esposa até ao quarto.


Fai deitou o menino na cama, levou o marido a sentar-se no sofá e contou-lhe o que se passara. Hima ficou tão furioso como a esposa, ao ouvir a parte da criança.


— Se a memória não me falha, o Don trabalha para o Nanfa Wongsawat. Nunca tivemos conflitos com ele, porque acordámos pacificamente a divisão dos territórios de influência. Tanto quanto sei, ele não é homem para isto. Mas esperemos pela informação do… teu assistente. — explicava Hima, mas fez uma pausa e substituiu o nome do Smart por «assistente».
— O que planeias fazer a seguir? — quis saber Hima, a olhar para a esposa.
— Primeiro quero falar com o Nanfa. Se ele se recusar a resolver o problema, trato eu do assunto… — disse Fai com seriedade.
— Queres que vá contigo? — propôs Hima, a abraçar o seu Cachorrinho.
— Não é preciso, hoje ficas tu com a Tirak*. Parece-me que ainda nunca te deixei ficar mal, querido. — Fai beijou o marido na bochecha.


(N. da A.: Tirak, ที่รัก — «querida», «meu amor» em tailandês; carinho que joga com o nome da Rak, รัก, «amor».)


Enquanto os rapazes ficavam no quarto, Mix acompanhou Pakorn, com o doutor Var, ao exame, à ecografia e à TAC. Ia olhando de vez em quando para o homem e perguntava-se: porque é que ele, simplesmente, não mudou de casa? Podia ter alugado um apartamento ou uma casinha noutra cidade. E o que teria acontecido, se eles hoje não tivessem aparecido? Mal Mix imaginou aquele rapazinho nas garras daqueles canalhas, a mão apertou-se-lhe, por instinto, com força no antebraço do homem.


— Podia… não apertar tanto? — pediu Ti baixinho, e Mix virou a cabeça para ele.


Mix afrouxou o aperto, a pedir desculpa.


— Obrigado… — agradeceu Ti, com lágrimas nos olhos.


Agora que a adrenalina lhe baixara no corpo e percebera que aquelas pessoas tinham salvado o seu menino, o mínimo que podia fazer era, simplesmente, agradecer.


— Porquê? — não percebeu Mix, convencido de que lhe agradeciam por ter deixado de apertar o braço.
— Se não fossem vocês… nem quero pensar no que podia ter acontecido… Eu… vou pagar a dívida, garanto; só que agora, neste momento, não consigo. — continuava Pakorn, a conter as lágrimas.

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