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56 – Novas pessoas (parte 2 de 2)

Rak


— A criança não nos diz respeito. Se o pai dela não sobreviver, não vamos assumir a responsabilidade por ela. Essa miúda está ela própria a morrer e levou a nossa filha com ela! — gritava o homem, e Fai enfureceu-se num instante.

— Eh! A menina não tem culpa nenhuma de a vossa filha ter sofrido o acidente! Culpem o condutor e culpem-se a vocês mesmos! — retorquiu Fai com severidade, sem se virar para eles.

— Quem te deu o direito de falar assim com os mais velhos?! Nós é que temos a culpa? — gritou o homem, a levantar-se.

— Se tivessem educado a vossa filha como deve ser, ela ainda estaria viva! — continuou Fai.

— Fedelho! Perdemos a nossa filha e tu ainda nos culpas a nós?! Como te atreves! — o homem lançou-se na direção de Fai mas, ao ouvir o ruído, Hima levantou-se.

— Senta-te já no lugar, ou serás tu o próximo paciente do médico! — os olhos de Hima brilhavam de raiva e a sua aura sombria pregou o homem à cadeira no mesmo instante.

— Se tivessem educado a vossa filha como era devido, ela não se teria envolvido com um homem casado, não teria destruído uma família e, talvez, ainda estivesse viva. Mas que admira, com uns pais destes… A vossa carne e sangue pode ficar órfã, e vocês comportam-se como se ela fosse o animal de estimação da vossa filha, e não filha dela! Perdoe-nos, doutor, por termos falado tão alto, mas com estes dois não há outra maneira. — Kira não se conteve, e depois pediu desculpa ao médico.


O médico acenou e retirou-se. Hima e Kira voltaram aos lugares, e o casal atrás deles não disse mais nada — foi buscar as coisas da filha. Uma hora depois, o Smart informou Fai da morte do pai; cinco minutos mais tarde, o médico saiu para a sala de espera.


— Familiares do senhor Chairat? — Fai levantou-se e o homem aproximou-se dele.


Hima e Kira seguravam as mãos do jovem enquanto o médico falava da morte. Fai não sabia o que sentia naquele momento. Apenas vazio por dentro. O Cachorrinho não conseguia pensar em mais nada senão na mãe. Deveria contar-lhe? Ficaria ela triste ao saber? Os pensamentos sucediam-se na sua cabeça, um atrás do outro, até que, de repente, a voz de Hima o arrancou das divagações.


— Em que quarto está a filha dele? — perguntou Hima, para surpresa de Fai.

— No 16, podem ir vê-la. Mas provavelmente já está a dormir. — respondeu o médico, a olhar para Fai.

— Obrigado, doutor. Ainda assim, vamos vê-la. — insistiu o Gatão, a apertar a mão da esposa.

— Lili, acompanha-os à pediatria. São familiares da Rak. — pediu o médico à enfermeira, para que lhes mostrasse o caminho.


A rapariga acenou e fez-lhes sinal para a seguirem. Chegaram ao quarto, mas a menina lá dentro não dormia. Rak estava sentada na cama com um elefantinho de peluche nas mãos. Hima abriu a porta e os três entraram. A menina franziu o sobrolho e apertou o boneco com força.


— Olá, pequenina. Trouxe-te dois príncipes. — brincou Kira, a sorrir para a pequenita e a falar com voz doce.

— Pi'Fai… — disse a menina baixinho, e Fai ficou surpreendido por ela o conhecer de vista.

— Sabes quem eu sou? — perguntou, a entrar no quarto e a sentar-se na beira da cama. A menina acenou com energia.

— Hum-hum, o mano mais velho. O papá contou. Olha, vê. Tenho isto. — por estranho que parecesse, a menina falava com toda a clareza e, a esticar-se para a mesinha, tirou uma fotografia da gaveta.


Rak estendeu-lhe a foto em que ele estava no pódio, pela vitória numa competição de muay thai. Kira e Hima aproximaram-se de Fai para verem a fotografia.


— Oh, estás tão fofo aqui, filho, olha só estas bochechas redondinhas. — sorria Kira, com a mão pousada no ombro dele.

— Pequenina, sabes porque é que estás aqui? — perguntou Hima, e a menina olhou para ele.

— Estou doente. Não… estou a morrer. Ouvi a mamã e o papá a falarem disso no corredor. — disse a menina, com voz calma e baixinha.


De repente, entrou no quarto a médica que, ao ver três desconhecidos, ficou de pé atrás.


— Quem são vocês? A hora das visitas já passou há muito. Têm de sair. — disse com seriedade, a dirigir-se à menina.

— É a médica da Rak? Podemos falar lá fora? — pediu-lhe Hima, a olhar para a mãe.

— Doutora, este é o meu mano, o Fai. Não é bonito? — sorria a miudinha, e a mulher, depois de olhar para os três, aceitou sair.


Ia dizer à criança que os pais não voltariam, mas, quando a menina falou do irmão, a médica decidiu falar primeiro com eles.


Já no corredor, Hima e Kira afastaram-se com a médica para longe do quarto, para que a menina não os ouvisse.


— O que quer que fosse dizer à menina, não diga. Doutora, responda-me: a Rak aguenta a viagem até Banguecoque? — Hima tomou a palavra, e a mãe olhava para ele com espanto.

— Filho, o que queres dizer com isso? — perguntou ela, embora já tivesse adivinhado.

— O Fai é irmão dela. Os pais da mãe rejeitaram a Rak. Quero levar a menina para a clínica de Banguecoque, para não termos de estar sempre a vir até cá. — o Gatão falava com a médica, e Kira sorria.

— A questão é que… compreendam, é preciso resolver o assunto com os serviços de tutela, e além disso… há uma dívida do tratamento no hospital. — explicava a médica.

— A questão da tutela resolvo-a eu. A criança vem connosco. Diga o valor. E responda de uma vez à pergunta do meu filho: como levamos a menina para Banguecoque? — Kira começou a pressionar a médica, que se atrapalhou.

— 574 mil. O melhor seria de helicóptero, mas o nosso é só para emergências… — balbuciou a médica, e Kira tirou de imediato o telemóvel do bolso.

— Dew, manda o piloto voar para o hospital com o Var. Ou quem dos dois estiver menos ocupado. 


Preparem um quarto para a irmã do Fai. — ordenou Kira e, ao ouvir a resposta afirmativa, desligou.


— Preparem a menina para a alta e a fatura para pagamento. Se houver problemas com a tutela, podem encaminhá-los para a clínica «Polar». E quanto aos pais… dizemos-lhe nós. — continuou Kira, e a médica retirou-se.

— Filho, tens noção de que uma criança é uma grande responsabilidade, e uma criança doente é a dobrar? — perguntou Kira ao filho.

— Mãe, eu sei. Então não queres uma neta? Acho que eu e o Fai vamos conseguir. Assim que ela melhorar, quero mostrar-lhe a neve. — sorriu Hima, e a mulher abraçou o filho.

— Snezhochek* moy, já estás tão crescido… — disse Kira em russo, cheia de orgulho do filho. 


(N. da A.: Snezhochek — diminutivo carinhoso russo de «neve»; algo como «meu floquinho de neve».)


— Mã, voltemos ao quarto. Temos de contar à Rak e… ao Fai… — hesitou o Gatão, receoso da forma como a esposa receberia a iniciativa.


Entraram no quarto, onde Rak já estava sentada ao colo de Fai a mostrar-lhe os seus desenhos e a contar o que era cada um.


— Rak, queres ir para um palácio grande? — perguntou Hima. A pequenita levantou a cabeça e os olhos brilharam.

— Quero, mas… eu estou doente… — entristeceu-se logo a menina, e Fai olhou para Hima.

— Então faz as malas, querida. A avó vai levar-te para outro hospital e, depois, leva-te para a casa grande! — sorria Kira. Fai sentou a criança na cama, levantou-se e arrastou o marido para fora do quarto.

— O que significa isto tudo? — perguntou Fai quase num sussurro, já no corredor, quando a porta do quarto se fechou.

— A Rak vem connosco. O Dew já mandou o helicóptero. A médica foi preparar a alta. — respondeu Hima com franqueza, e Fai ficou a olhá-lo em silêncio.

— Bebé, diz alguma coisa…


Snif…


— Eh… Não chores. Desculpa não ter falado contigo primeiro e ter decidido sozinho… — Hima abraçou Fai.

— Porquê… snif… Porque é que Buda me mandou um marido tão perfeito… — soluçava o jovem no peito do Gatão, que apertou ainda mais o abraço, a sorrir.

— Não sei… talvez pelo mesmo motivo por que a mim me mandou uma esposa perfeita? — gracejou o homem em resposta, a erguer a cabeça do seu menino e a limpar-lhe as lágrimas: — Não chores, senão temos de mentir à criança sobre o porquê de teres os olhos vermelhos.

— O que lhe dizemos sobre os pais? — perguntou Fai de repente.

— Por agora dizemos-lhe que eles deixaram que a levássemos e, depois, aconselhamo-nos com um psicólogo. Se quiseres, um da clínica; se quiseres, o Fon… — propôs Hima, e levou a esposa de volta ao quarto.


Ao entrarem, ficaram surpreendidos ao ver a mãe, sorridente, a ajudá-la a arrumar os desenhos e os brinquedos numa mala. Logo a seguir entrou a médica e estendeu a Fai a alta com a fatura.


— Oh, doutora, esse papelinho é para mim. — Hima tirou a fatura das mãos da esposa e levou a médica para fora do quarto.— Diga-me, posso pagar com cartão? Ou é melhor cheque? Como for mais cómodo? — perguntou Hima, a olhar para a mulher espantada.

— Pode pagar pela aplicação: digitalize o código e pague… — respondeu ela, e Hima liquidou a fatura no mesmo instante, a mostrar à médica a transação concluída.

— Doutora, aterrou um helicóptero, mas não é o nosso! — informou um rapaz da receção.

— Vou lá apressá-los. Obrigado, doutora. — Hima deu meia-volta e regressou ao quarto.


Rak já estava pronta e até sorria, contente por ir andar de helicóptero. Hima pegou na menina ao colo e saiu do quarto, enquanto Kira dava o braço a Fai e seguia o filho, a sorrir.


— Mãe, não te importas? — perguntou Fai baixinho, a apontar com a cabeça para o marido com a criança ao colo.

— Porque haveria de me importar? Olha como ela é encantadora! Vou ter um pretexto para vos visitar mais vezes, ou até para voltar de vez a Banguecoque! Dos meus filhos, claramente, herdeiros diretos não vou ter… bom, a menos que seja por barriga de aluguer… e esta miudinha é tão parecida contigo! Otimista e lutadora como tu! — respondeu Kira igualmente baixinho, para que só Fai a ouvisse. — O pai vai ficar em choque… — brincou ela: — O importante é não lhe contarmos enquanto estiver a beber café, senão ainda se engasga.


No heliporto já os esperavam o doutor Var e Kai; Hima tapava as orelhinhas da menina por causa do barulho das pás. Já dentro do helicóptero, Hima convenceu Rak a dormir para chegarem em segurança ao hospital, com a promessa de que, assim que ela melhorasse, a levaria a andar de avião, de helicóptero, do que ela quisesse. Entusiasmada, a criança aceitou logo, e Var estendeu-lhe uma garrafa de água à qual Dew adicionara Menpo, na dose adequada ao peso e ao estado dela. A menina adormeceu depressa nos braços de Hima e, 35 minutos depois, aterraram no heliporto da clínica, onde o doutor Dew os esperava com uma maca, mas Hima disse que levava a criança ao colo.


— Podem ir para casa, chefe. Hoje o turno da noite é meu, eu fico a tomar conta dela. Vai dormir pelo menos até às 10 da manhã. O quarto já está preparado. Var, obrigado por teres voado no meu lugar, vai descansar. Vemo-nos amanhã de manhã. — disse Dew de imediato, e Var e Kai acenaram.

— Ah, é verdade! Já me esquecia: doutor Var, amanhã chega o novo guarda-costas. Abram-lhe uma ficha médica e tudo o que for preciso para isso: análises, exame, essas vossas coisas de médicos. Conto consigo, doutor Dew. — lembrou-se Fai, e sorriu.

— Sim, chefe. Eu trato de tudo. — acenou Dew, enquanto caminhavam para o quarto; mas o risinho abafado de Kira e de Hima deixou o homem desconfiado.


Hima deitou a menina na cama, e Fai olhava para ele a conter as lágrimas. Nunca tinha visto o marido assim. Terno, meigo, cuidadoso. Sim, com ele também era assim, mas visto de fora era diferente. Foi por este Gatão que ele se apaixonou pela segunda vez… ali mesmo… Os rapazes e a mãe foram para casa e, ao chegarem, foram logo dormir, porque Leo já tinha chegado e contado tudo aos que esperavam. Dao e Fon decidiram falar com os rapazes de manhã, preocupados com o estado emocional de Fai.


🍃   🍃 🍃


Manhã seguinte


Hima e Fai foram para o hospital com Lon, Kai e Var. A mãe prometeu chegar ao hospital um pouco mais tarde, com o marido e todos os outros. Chegados às 9 da manhã, Fai e Hima foram diretamente ao quarto de Rak com Lon e Kai. Var foi trocar de roupa para render Dew, que estava precisamente no quarto.


— Doutor Dew, como está ela? — quis saber Fai, a olhar para a pequenita adormecida.

— Melhor do que eu esperava, na ver… dade… — Dew virou-se para quem falava, e a mão ficou-lhe imóvel no regulador do soro quando viu o rapaz ao lado de Kai.


Fai, satisfeito com a reação de Dew, sorriu e deu uma leve cotovelada ao marido.


— Ah, Dew, este é o Lon, o novato. Foi dele que o Fai falou ontem. Podes… largar o regulador, se faz favor? — disse Hima como se nada fosse, e Dew largou o regulador, a tirar uma caneta do bolso.

— Bom dia, doutor, muito prazer. — Filon deu uns passos em frente, a apresentar-se.


As mãos unidas em wai, um sorriso sedutor só de um canto dos lábios e uma voz grave e segura de si acabaram com Dew… A caneta escorregou-lhe das mãos e rolou até aos pés de Lon. O rapaz agachou-se, pegou na caneta e, sem se levantar, perguntou, de cabeça erguida e a olhar Dew nos olhos: — Doutor, está cansado? O turno deve ter sido pesado, para lhe cair tudo das mãos.


— Des… desculpe… Estou um pouco cansado, Khun Hima… e se… se calhar o doutor Var podia ocupar-se dele? — gaguejava Dew, a esforçar-se por não olhar para aqueles olhos diabólicos.

— Doutor Dew… Parece-me que pedi que fosse o doutor a ocupar-se do Lon, e ontem aceitou. Ou não gosta do meu guarda-costas? — perguntou Fai com severidade, a acentuar o «o doutor».

— Gosto… ai… quer dizer… sim, eu faço-o. Vamos à sala de observação, Nong Lon… — Dew já nem percebia o que estava a dizer, mas sentia perfeitamente as bochechas a corar.

— A sua caneta, doutor Dew… — Filon estendeu-lha, e Dew pegou nela, a roçar sem querer os dedos quentes do rapaz, a sentir uma corrente elétrica atravessar-lhe o corpo.

— Obrigado… — conseguiu dizer Dew, depois de engolir em seco, e saiu do quarto, com Lon logo atrás.


O doutor tem a sua piada. Tão envergonhado, parece mesmo um adolescente… — pensava Filon, enquanto seguia o médico até ao elevador.


Dew amaldiçoava-se por ter aceitado na véspera fazer o exame ao novato, e amaldiçoava Fai pelas suas manipulações com as palavras, que o tinham posto corado como um miúdo.


E onde é que ele foi desencantar este rapaz… Ah… O Nong Fai parece estar a gozar comigo de propósito… — pensava Dew, até que uma mão firme lhe tocou as costas, a empurrá-lo para a frente.


— Doutor Dew, está mesmo bem? O elevador já está aberto há um bocado, vamos? Não ouviu o som da porta a abrir? — o tom preocupado, o toque suave — e Dew sentiu que estava prestes a cair, porque os joelhos lhe tremiam.

— Eh! Cuidado! — Filon amparou o corpo de Dew, já dentro do elevador.

— Que andar, doc? Parece que até o doutor precisa de um médico… — riu-se baixinho Lon, enquanto Dew se apoiava de costas no peito dele.

— Segundo… Estou bem, já podes largar-me, Nong. Só me deu uma tontura. — inventava desculpas Dew.


Filon largou Dew e premiu o botão do 2.º andar, a olhar para o homem com preocupação. Saíram no andar certo e dirigiram-se à sala de observação, só que não sabiam que, todo aquele tempo, Fai e Hima tinham estado a observá-los com a ajuda do Smart…


🍃   🍃 🍃


De volta ao quarto


Fai pediu ao Smart que passasse no ecrã as imagens das câmaras, para verem a reação de Dew.


— Ah, meu pequeno malandro, decidiste deixar-me sem médico? Ele ainda tem um ataque cardíaco por causa do teu rapaz! És tão cruel, bebé… — provocava Hima a esposa, a abraçá-lo por trás e a ver o vídeo com ele.

— Hummm… — soou uma vozinha de criança, e os rapazes sentaram-se cada um de seu lado da cama onde Rak acordava.

— Bom dia, dorminhoca. Tens fome? Trouxe-te khao niao mamuang*. Queres? — perguntou Fai com um sorriso terno, mas a miudinha estendeu os bracinhos para Hima.


(N da A: khao niao mamuang — arroz glutinoso com leite de coco e pedaços de manga.)


— Deita-te comigo… — a vozinha ensonada puxou Hima pela mão, e ele obedeceu, a abraçar a menina.


Fai tirou o telemóvel, a fazer uma foto e a sorrir.


— E o papá e a mamã? — perguntou Rak, a levantar a cabeça.

— Rak, querida… Que tal comeres primeiro e, depois, quando o tio Fon chegar, falamos da mamã e do papá, está bem? — propôs Hima, e a pequenita nos seus braços acenou.

— E ali só tem pedaços de manga, ou também tem lam yai*? — quis saber Rak, e Fai sorriu.


(N da A: Longan (lam yai) — fruto do longaneiro, árvore de folha perene comum na China, em Taiwan, no Vietname e na Indonésia. A casca é fina e firme, mas na verdade descasca-se com muita facilidade. A cor varia entre o castanho e o vermelho-amarelado; a polpa é translúcida, branca ou rosada, sumarenta, doce e muito aromática, com um travo característico a almíscar. Faz lembrar a líchia — os dois frutos são, de resto, muito parecidos — e, tal como ela, contém uma semente dura, vermelho-escura ou preta. O longan cresce em cachos, em árvores que podem atingir dez a vinte metros de altura.)


— És uma fada? Como é que sabias que ali tem lam yai, hã? — perguntou Fai, a fingir sincero espanto, embora tivesse sido ele próprio a pedir à tia que juntasse lam yai — segundo as informações do Smart, era a fruta preferida de Rak.

— Que tal lavarmos primeiro os dentinhos e a carinha, e só depois tomarmos o pequeno-almoço? — Hima sentou-se com a menina ao colo, e ela acenou com energia.


Levou-a à casa de banho do quarto, ajudou-a a lavar a cara e a escovar os dentes e depois, sempre ao colo, voltou com ela para a cama, enquanto Fai passava o pequeno-almoço para um prato e servia sumo num copo.


— Sabes que muito em breve vais ficar boa? — dizia Hima, com a criança sentada nos joelhos enquanto ela comia, porque a mesinha era alta demais para o tamanho dela.

— Verdade, verdadinha? — perguntou de boca cheia, a virar-se para Hima.

— Hum-hum. Sabias que o Fai é feiticeiro? Na lua cheia… torna-se um grande mago e, quando o doutor te levar para a sala de operações, o Fai expulsa a tua doença! — contava Hima, como quem fala do herói de um conto de fadas.

— Não fales de boca cheia, que te engasgas. E tu, não a provoques durante a refeição! — disse Fai com doçura à irmã, mas a ralhar com Hima.

— Sim, mamã, prometo que não faço mais… — respondeu Hima, num tom de arrependimento completamente fingido, e Fai não conseguiu deixar de sorrir.


Entraram no quarto, de uma vez, várias pessoas desconhecidas da menina, e ela virou-se de imediato para Hima, agarrada ao casaco de ganga dele com as duas mãos, a esconder o rosto.


— Olá, querida. Ai, desculpa, assustaram-te? Não tenhas medo, anda à avó… — Kira aproximou-se e, a afagar o cabelo de Rak, estendeu-lhe os braços com um sorriso meigo.


A pequenita reconheceu a voz, e gostava tanto daquela senhora de cabelo branco que, sem pensar duas vezes, se estendeu logo para os braços dela.


— Olha, Rak. Este é o avô Nai. E estes são os teus tios: o tio Fon, o tio Dao, o tio Ja, o tio Anton e o tio Tadao. Queriam trazer-te fruta, mas eu achei que não ias conseguir comer tantos cestos enormes, por isso compraram-te isto… — Kira apontou para os sacos nas mãos de Nai e de Ja.

— Queres saber o que lá está? — a mulher afagava o cabelo da menina, e ela acenou.

— Então venham cá… vamos lá ver o que temos aqui… — provocava Kira a menina, a abrir os sacos devagarinho.

— Oh, olha, um tigrinho e um dragãozinho, e ainda uma girafa e um gatinho. Gostas? — a mulher ia tirando os peluches dos sacos, e os olhos da menina brilharam logo.

— O dragãozinho! O dragãozinho! — Rak estendeu as mãozinhas para o boneco e, mal o agarrou, apertou-o contra o peito…

— Ahahah… parece que já percebemos quem é o papá preferido… — brincou Tadao, a olhar para Hima e Fai.

— Não gosto da tua camisa… é tão aborrecida… olha, a avó comprou-te novas. Com um elefantinho, com gatinhos, com um coelhinho, e olha lá que maravilha — esta com rebuçados! — Kira abriu o segundo saco e foi tirando de lá pijaminhas.

— Este! Quero este e as meias a condizer! — Rak agarrou o pijama do coelhinho e, a remexer no saco de papel, tirou de lá as meias certas.

— Vamos trocar de roupa, sim, querida? — perguntou Kira.

— Sim, sim, sim! — acenava Rak, abraçada ao pescoço da mulher.

— Nós, as meninas, vamos à casa de banho mudar de roupa; vocês esperem aqui entretanto. — Kira fez um aceno a Fon e a Fai, a dar a entender que tinham algum tempo para combinar como e quando contar à pequenina o que acontecera aos pais.


Os rapazes discutiram, todos juntos, que o melhor era não esconder nada e dizer a verdade, mas com delicadeza. E fazê-lo já, porque, depois da operação, o estado emocional seria uma componente importante da recuperação. Passado algum tempo, Kira saiu com Rak ao colo, de pijama e meias novos, e sentou-se com ela na cama.


— Rak, querida. Quero dizer-te uma coisa importante… — começou Fai, e Hima segurava-lhe a mão.

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