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55 – Novas pessoas (parte 1 de 2)

Filon


Dez dias depois, Kai teve alta da clínica; tinha uma bronquite aguda; e o doutor Var mudou-se para a mansão. Já não podia deixar o seu Solzinho, nem queria. Fai e Hima concordaram logo: assim haveria quase sempre um médico em casa. Das razões da mudança do doutor só sabiam Hima, Fai, Fon, Dao, Mix e, claro, o doutor Dew. Nos primeiros dias, as empregadas ainda tentaram namoriscar com Var, até Kai se fartar e beijar o seu Papá em público. Var e Dew ajudaram Fai com o teste de compatibilidade de medula óssea e, afinal, ele era mesmo compatível. Var estava encantado com o novo trabalho, com os colegas e com os patrões.


Fon e Dao passavam quase todo o tempo na pista. Dao e Prem assinaram um contrato: a pista de Prem passava a contar como a segunda pista da empresa «Drive Star». Nada mudou na pista de Prem, além dos homens de Dao para a segurança, um deles era o Non. Depois daquele caso com o Pert, Non tencionava despedir-se, mas Fai propôs outra solução, e o Smart ajudou-o a redigir o contrato para a união documental das duas pistas.


Hima e Fai ocupavam-se dos fornecimentos de armas e de equipamento para o Anton e o Ja. Agora iam juntos ao escritório e às reuniões. Passados quase três meses, Dao pediu a Ja, a Tadao e a Anton que viessem cá a casa, e convidou também os pais. A casa Kittichat voltou a ganhar vida e encheu-se de gente.


— Filho, aconteceu alguma coisa? — quis saber o pai, porque não tinham vindo só os pais.
— Ao jantar ficas a saber tudo, pai. Tanta impaciência porquê? — sorria Dao.


Kira olhou para Dao e pareceu adivinhar do que se ia falar. Perto da hora do jantar chegaram os pais de Fon, que finalmente conheceram os novos parentes.


Ao jantar, na grande sala, respirava-se um ambiente caseiro e acolhedor. De repente, a tia trouxe duas garrafas de licor D'Amalfi Limoncello Supreme, e os presentes entreolharam-se. Quando todos encheram os copos, Dao levantou-se e, a sorrir, começou a falar:


— Hoje reuniram-se na nossa casa as pessoas a quem posso, com orgulho, chamar família. A mãe, o pai, os amigos que são para mim como irmãos. Obrigado, pais, por me terem acolhido quando os meus pais partiram. Vocês são a família que Buda me mandou. Ja, Tadao, Anton, posso chamar-vos irmãos porque, aconteça o que acontecer, estendem sempre a mão e dão apoio. Hima… lembro-me do dia em que, no ginásio, decidimos que eu ia para a pista do Prem e tu para a casa Chairat. Obrigado por teres tomado a decisão certa. Fai… se não tivesses aparecido nesta casa, a nossa vida seria aborrecida e monótona. Se não fosses tu, eu teria andado muito mais tempo à procura do meu tesouro. Mamã Tânia e papá Athit… obrigado pelo vosso filho. Educaram um rapaz extraordinário — aquele por quem me apaixonei. Fon… obrigado por te ter na minha vida. És aquele sem quem não imagino a minha vida. Vou passar o resto dos meus dias a implorar-te perdão pelas palavras que disse naquele dia, ao sair do teu apartamento. Amo-te, amo-te tanto que até uma hora sem ti me parece uma eternidade… — Dao dirigia-se aos presentes, que erguiam os copos a sorrir; só Fon continha as lágrimas a custo.

— Filho, vai lá direto ao assunto, olha que o pequeno está quase a desatar a chorar! — travou-o Kira, a olhar para Fon.
— Pedi-vos que viessem porque quero que sejam os primeiros a saber… — disse Dao e, nesse momento, Fai fez sinal a Kai, parado à porta, para apagar a luz e ligar o projetor.


Dao não estava à espera daquilo: na parede diante da mesa começou a passar a gravação do momento em que ele pedira Fon em casamento, no leilão em Roma. Os pais viam aquelas imagens pela primeira vez, e nem Dao nem Fon faziam ideia de que, visto de fora, o momento era tão comovente. Fon levantou-se da cadeira e abraçou de imediato o marido, em lágrimas.


Quando a gravação terminou, Dao abraçava Fon, mas sem deixar de falar:


— Eu e o Fon decidimos casar. Oficialmente. Tadao, disseste que podíamos fazê-lo em Nova Iorque, mas é preciso apresentar um pedido oficial e há mil e uma complicações. Por isso pensámos e decidimos fazê-lo em Las Vegas. Falta pouco mais de um mês para o Songkran* e convidamo-vos para o nosso casamento, em Vegas, a 13 de abril. Quero pedir ao Ja e ao Tadao que nos ajudem com o espaço para o banquete e com o hotel para nós e para os convidados, e Ja e Tadao acenaram.


(N. da A: Songkran — Ano Novo tailandês, celebrado de 13 a 15 de abril.)


— Querido, tens de me comprar aquela boutique. — riu-se Kira, e o marido acenou em concordância.
— Que boutique? — quis saber Fon, entre soluços.
— Bom, eu e o pai apostámos sobre qual dos nossos filhos decidiria casar primeiro. E… ele perdeu. — ria-se Kira.
— Mãe! — indignou-se Hima, mas Fai pousou-lhe a mão na perna, por baixo da mesa.
— Não temos pressa nenhuma, querido, temos a vida toda pela frente. — sorriu Fai, a acariciar com ternura a perna do marido, a subir até à braguilha.
— Oh, agora a Rossi vai finalmente ter uma companheira! — concluiu o pai e, de copo erguido, continuou: — Fon, fico feliz por ter um filho como tu. Só tu consegues fazer o nosso filho sorrir com tanto brilho.

Hima olhava para as pessoas à mesa e percebia que, com a chegada de Fai e de Fon, a casa deles ganhara vida, como se sempre tivesse tido cortinas espessas fechadas e eles as tivessem conseguido abrir, a deixar entrar a luz e o calor. Pousou a mão sobre a mão de Fai e sorriu-lhe com ternura.


A noite inteira foi alegre e animada. Os pais contavam histórias da infância de Fon e de Dao, a fazer corar os rapazes. Fai olhava para os dois casais de pais e lembrou-se dos seus antes do divórcio: também eram assim, queridos, mas depois… o pai conheceu a Poy e abandonou-os. Tinham passado quase três meses desde o telefonema do pai, e Fai acompanhava permanentemente o estado de Rak através do Smart. A menina estava a piorar, e Fai não podia fazer nada, não naquele momento. Via as fotografias da miudinha pelas câmaras do hospital: era gira e espevitada.


📡 ‹Chefe, chegou o guarda-costas novo. O Mix mandou que não o deixassem entrar sem a sua autorização.› — informou o Smart, e Fai estremeceu com o susto.


— Desculpem, tenho de me ausentar um bocadinho. Tenho um assunto a tratar. — desculpou-se Fai, a levantar-se da mesa e a dirigir-se à saída de casa.


Hima ergueu as mãos em wai e saiu atrás dele. Fai sentia o olhar de Hima em cima de si e parou, à espera de que o homem o alcançasse.


— O Smart disse-te que eu vinha atrás de ti? — perguntou Hima baixinho, a abraçá-lo pela cintura.
— Não. O meu rabo é que sente o teu olhar lascivo. — brincou o Cachorrinho, e retomou o passo.
— Aonde vamos? — quis saber Hima, sem parar de andar.
— Já vais ver. Ali, depois da curva, o Mix vem ao nosso encontro.


Ao virar da esquina encontraram, de facto, um Mix surpreendido,  ele bem sabia que estavam todos no jantar importante.


— Chegou o guarda-costas novo, não foi? — sorriu Fai, e Mix acenou.
— Deixa-o entrar. É o substituto do Kris.
— Mas… — Mix olhou para Hima, que abanou a cabeça: — Sim, chefe.


Mix transmitiu pelo rádio que deixassem o rapaz entrar, e os três ficaram à espera de que ele aparecesse.


— Porque é que não me disseste que querias um homem novo? — perguntou Hima ao ouvido de Fai.
— Porque o Smart andou quase três meses à procura deste rapaz. Imagina como ele é, se até o Smart precisou de tanto tempo… — respondeu Fai baixinho, com um sorriso matreiro.
— Esse sorriso não augura nada de bom… De quem é o rabo que vais arrumar desta vez? — Hima lia a esposa como um livro aberto.
— Quando o vires… vais perceber de quem. — enquanto Fai falava, o rapaz apareceu ao virar da esquina.


Um homem alto, de fato preto com pequenos apontamentos vermelhos, uns 30 anos à vista, cabelo castanho, um carisma arrasador e um sorriso diabólico nos lábios e nos olhos.


— Boa noite, Khun. — a voz grave e aveludada não condizia nada com a sua aparência suave.
— Boa noite, Filon. Foi difícil chegar cá? Mix, mostra-lhe isto tudo. Assim que o jantar terminar, falamos, está bem? — sorriu Fai, satisfeito com o achado do Smart.
— Sim, chefe. Eu sou o Mix; anda, começo por te mostrar a propriedade. — concordou Mix, e estendeu a mão em frente, a convidar o rapaz a caminhar.
— Ele não faz o género do Mix, sabes disso, certo? — quando os rapazes se afastaram, perguntou Hima, a caminho de casa.
— Claro que sei. Ele não é para o Mix. — sorriu Fai, e os dois voltaram para a mesa.


Pouco mais de uma hora depois, os pais de Fon prepararam-se para regressar a casa, e Dao e a esposa foram acompanhá-los. Nesse momento, entraram em casa Mix e Filon. Ambos inclinaram a cabeça perante os que saíam, e Dao olhou para o novato.


— Filho, quem é este? — quis saber Kira, a examinar o recém-chegado.


Filon uniu de imediato as mãos em wai e cumprimentou, a sorrir. Kira mediu o rapaz de alto a baixo.


— Mãe, pai, este é o Filon. É o novo guarda-costas. Acabou de chegar da província de Nong Khai*. — explicou Fai.


(N da A: a província de Nong Khai fica no nordeste da Tailândia.)


— Mix, mostra-lhe o quarto do Non e o do Kris. Que escolha um. Filon, podes ir tomar um duche, deves estar cansado da viagem. Depois o Mix mostra-te onde fica o meu escritório; eu e o Fai esperamos lá por ti. — continuou Hima, ao ver a mãe a sorrir de orelha a orelha.


Os rapazes ergueram as mãos em wai e subiram ao 2.º andar.


— Faaai! Porque é que lhe fazes isto? Ele ofendeu-te? — mal os rapazes subiram, Kira fez a pergunta.
— Ele não sabe estar de boca calada. Por isso… passei três meses à procura de alguém capaz de ocupar aquela boca faladora. — sorriu Fai, satisfeito por a mãe ter percebido logo quem era a vítima daquele Diabo.
— Mãe, de quem é que estão a falar? — Hima não percebia, mas a mãe limitou-se a sorrir e a dar-lhe uma palmadinha no ombro.
— Já vais saber, filho. Fai, este rapaz é um acerto de 100 em 100! Como é que o encontraste, sequer? — continuava Kira.
— O meu assistente andava à procura de pessoas adequadas e deu com este pugilista. Liguei-lhe e ofereci-lhe trabalho em troca do pagamento dos estudos da irmã na universidade e de 10 milhões. Achas que dei pouco, mãe? — perguntou Fai, mas a mulher só se riu.
— Quando o teu plano resultar, dou mais 30 milhões à família dele — pela impossibilidade de terem netos deste borracho. — a mulher deu o braço ao marido e subiu com ele ao 1.º andar.
— Fai! Fai! Quem era aquele? — Fon entrou a sacudir o braço do amigo.
— O guarda-costas novo. E tu, porque estás assim tão entusiasmado? Tens marido, já agora! — ralhava o Cachorrinho com o amigo.
— Parvo! Precisas de ajuda? Já tenho um plano! — indignou-se logo Fon, a olhar para Fai.
— Não me digas que também já percebeste para quem é o rapaz novo? — perguntou Hima, e Fon acenou.
— Estão a gozar comigo?! — queixou-se Hima, mas Fai beijou-lhe logo a bochecha.
— Anda ao escritório, que eu conto-te tudo…


Fai levou Hima para o escritório, e Dao e Fon foram para o quarto. Quinze minutos depois, Filon entrou no escritório, de camisa simples e calções compridos.


— Desculpe, Khun Hima, não sabia que não gostava da cor preta. — desculpou-se Filon quase à entrada.
— Está tudo bem, senta-te. Gostava que falasses de ti. Quem és, de onde vens e porque decidiste trabalhar para a minha família? — perguntava Hima, a querer ouvir as respostas do homem.
— Chamo-me Filon Kavila; podem chamar-me Lon. Tenho 30 anos, nasci e cresci na província de Nong Khai. O meu pai morreu há quatro anos; vivo com a minha mãe e a minha irmã mais nova, ou melhor, vivia: ela entra este ano para a universidade. A Dori quer ser médica, mas não temos dinheiro para pagar o curso. Na semana passada, o Khun Fai ligou-me e ofereceu-me trabalho, com a promessa de pagar os estudos da minha irmã e de deixar dinheiro à minha mãe. Uma quantia destas, eu não a ganho nem em dez anos, a trabalhar como instrutor de tiro e treinador de boxe. E além disso… gostei de não haver preconceito quanto à… minha orientação. Sou gay. — contava Lon.
— Vais ficar surpreendido, Lon. O Fai é a minha esposa, e aqueles dois com quem te cruzaste à porta casam-se daqui a um mês. O Kai e o doutor Var vivem juntos, tal como o Gui e o Leo, e o Rey e o Ket. Que quarto escolheste? — enquanto Hima falava, os olhos de Filon iam-se arregalando.
— O Mix disse que era o quarto do Non… — disse o homem baixinho.
— O Non mudou-se daqui há muito pouco tempo; o namorado dele é dono de uma pista de motociclismo. — continuou Hima.
— Aqui arranja-se esposa para toda a gente? — perguntou Filon sem rodeios, e Fai desatou a rir.
— Precisas de uma esposa? Tenho um candidato excelente para ti, mas vais ter de adivinhar sozinho quem é… — provocava-o Fai com um sorriso matreiro.
— Amanhã vais com o Kai e o Var à clínica; o doutor Dew que te tire análises e faça os exames necessários. Quando voltares a casa, o Rio mostra-te a carreira de tiro e o campo de treino. Escolhe tu quem será o teu parceiro de sparring. A única coisa que te peço é lealdade à minha família, porque traição eu não perdoo. — Fai falava a sério, e Filon acenou.
— Fai, está tudo bem. Não é preciso assustá-lo; acalma lá o Tigre… — Hima pousou a mão no ombro do Cachorrinho, e o olhar dele suavizou-se de imediato.
— Desculpa, Lon… Quero que saibas isto por nós. Há três meses, dispararam contra nós. O meu marido esteve três dias em coma por causa do ferimento. Não quero que nada ameace a vida dele. — disse Fai com a voz a tremer.
— Falas como se só eu tivesse saído ferido. Desculpa, o Fai ficou demasiado cauteloso depois desse episódio. Acho que… os restantes mexericos contam-tos os rapazes… — sorriu Hima, e o seu Cachorrinho olhou para ele de sobrancelha erguida.
— Vai descansar, tiveste uma viagem longa e amanhã acordas cedo. — dispensou-o Hima.
— Sim, chefe. Boa noite. — sorriu o rapaz, e saiu do escritório.
— E agora confessa, bebé: para que é que ele há de ir à clínica, se o Smart te pode dar todas as informações sobre ele? — perguntava o Gatão, a puxar Fai para o colo.
— Ele tem de conhecer a esposa, não tem?… — todo satisfeito consigo mesmo, Fai beijava o pescoço de Hima.
— O Dew? Trouxeste este rapaz do Norte para o Dew? — espantou-se Hima, e Fai fez «hum-hum», sem parar de beijar o marido.
— Eu julgava que ele era hétero… ah… bebé… não estamos no quarto… — era cada vez mais difícil para Hima manter o controlo, enquanto os lábios da esposa lhe desciam para o peito.
— O teu doutor Dew é gay, mas tem um gosto interessante — e este homem encaixa na perfeição. 

Aparência, idade, feitio e, acima de tudo, a voz. O Smart descobriu tudo sobre o Dew. — as mãos de Fai desabotoavam a camisa, enquanto o homem por baixo dele gemia baixinho.


📡 ‹Chefe, desculpe interromper, mas é importante. O seu pai e a mulher dele deram entrada no hospital de Kanchanaburi em estado grave. Um condutor embriagado invadiu a faixa contrária e embateu de frente no carro deles, quando iam a caminho do hospital, ver a filha. A seguir à mulher, o chefe é o segundo contacto de emergência dele. Em breve vão ligar-lhe do hospital.›


Fai afastou-se do pescoço do marido, a tremer, com as lágrimas a assomarem-lhe aos olhos.


— Bebé, o que aconteceu? — Hima abraçou de imediato o corpo trémulo da esposa. — Smart, o que é que lhe disseste? — Hima levantou o tom, e o Smart repetiu o que dissera. — Fai, chhh… Meu pequenino, estou aqui. Aconteça o que acontecer, estou ao teu lado. — Hima apertava o jovem contra si, a afagar-lhe o cabelo.


📲 Trim, trim, trim.


— Smart, reencaminha a chamada para o meu telemóvel. — pediu o Gatão, ao perceber que o seu menino não estava em condições de atender.


Ouviu-se o toque do telemóvel dele, e Hima atendeu.


📞— "Estou a ouvir."
📞— [Boa noite, estou a ligar do hospital de Kanchanaburi. Posso falar com Fai Chairat?] — a voz da rapariga era extremamente suave.
📞— "Diga. Estou a ouvir."
📞— [O senhor Singh Chairat e a esposa deram entrada no hospital em estado grave. O senhor está indicado como segundo contacto. É necessário que venha ao hospital.] — continuava a rapariga, enquanto Fai soluçava no peito de Hima.
📞— "Lamento, mas não conseguimos chegar depressa. Vivo em Banguecoque. Mesmo que saíssemos agora, precisaríamos de hora e meia para chegar ao hospital. Façam o que tiverem de fazer. Iremos assim que pudermos."— respondeu Hima, sem parar de afagar o cabelo do Cachorrinho.
📞— [Está bem, Khun Fai. Até já.] — despediu-se a rapariga e desligou.


— Eu não vou… snif… Não vou… Não… — soluçava Fai, agarrado ao peito do marido.
— Não te obrigo a nada, bebé. Disse-lhe aquilo só para despachar a conversa. — Hima abraçava a esposa com mais força, sem compreender aquelas emoções.


Escreveu depressa uma mensagem a Dao, para que ele e os pais viessem ao escritório. Dois minutos depois, entraram todos, preocupados.


— Filho, o que aconteceu? Porque é que o Fai está a chorar? — aflita, perguntou Kira — ele só chorara quando Hima estivera no hospital.
— Ligaram agora do hospital de Kanchanaburi. O pai dele e a mulher tiveram um acidente. Estão em estado grave. — explicava Hima, enquanto Fai apenas soluçava.
— Fai, eu compreendo… Tens medo e não sabes o que fazer. Ele portou-se pessimamente convosco, mas é teu pai. As tuas emoções estão ao rubro e estás confuso. Eh, Fai, olha: nós somos a tua família, estamos aqui contigo, prontos para te apoiar e ajudar. — Fon pegou na mão do amigo e falava num tom meigo, a fazer sinal com a cabeça para os outros se aproximarem.


Todos se aproximaram, a abraçar Fai e a afagá-lo. Ele sentia o calor e a sinceridade, e chorou ainda mais.


— Filho, seja qual for a decisão que tomares, ninguém te vai censurar, ouviste? Se não quiseres ir, ficas em casa.
— Ir para onde e porquê? — perguntou Anton, a entrar no escritório com Ja e Tadao.


Dao explicou a situação em poucas palavras, e Anton pediu a todos que saíssem, para ficar a sós com Hima e Fai. Já que os abraços em grupo não tinham conseguido acalmar o jovem, decidiram dar a vez a Anton.


— Fai, eu sei o que estás a sentir. Passei por uma situação parecida. O meu pai primeiro vendeu-me ao Alexei e depois abandonou a minha mãe por uma miúda nova. Tive tanta raiva dele… mas depois percebi que o papá Liocha* tinha razão. A raiva, a dor e o medo não são o que nos deve governar. Mas são o que nos torna mais fortes. Aguentaste três dias com o teu marido em coma, não foi? E isso foi cem vezes mais assustador e doloroso do que perder um pai que não presta. És mais forte do que pensas, Fai. É ele quem deve arrepender-se dos erros que cometeu, mas tu não tens de agir mal por causa dele. Tens família e amigos; estamos sempre por perto, prontos a apoiar-te. Eu sei que és um rapaz inteligente e bom, Fai, e que vais tomar a decisão certa. — ao terminar, Anton deu uma palmadinha no ombro do jovem e saiu do escritório.


(N. da A.: Liocha — diminutivo carinhoso russo de Alexei.)


Hima baloiçava-se na cadeira com Fai, como quem embala uma criança ao colo. A afagar-lhe o cabelo e a dar-lhe palmadinhas nas costas, beijava com ternura a têmpora de Fai.


— Obrigado… por teres aparecido na minha vida, meu amor. Obrigado pela família e pelos amigos. O Anton tem razão. Não vai doer tanto, porque te tenho a ti. Eu vou, mas tu e a mãe vão comigo. — Fai quase parara de soluçar e, a afastar-se do peito do marido, beijou-o nos lábios.
— Claro, meu amor. Por ti faço tudo. Mãe, prepara-te, vamos a Kanchanaburi! — respondeu Hima com doçura a Fai e, depois, gritou um pouco mais alto para a mãe.
— Para quê ir de carro, se podemos voar? A clínica tem um helicóptero médico, para o caso de ser precisa uma hospitalização em Banguecoque. Aprovam o voo depressa. Acho que conseguimos lá chegar em uns 40 minutos. — dizia Kira, enquanto Dao já ligava a Dew para autorizar a descolagem.


📡 ‹Chefe, se estivessem agora na clínica, seria mais rápido. Mas até lá são 47 minutos sem trânsito — e agora é hora de ponta, o que, pelos meus cálculos, demora cerca de 72 minutos, mais 35 de voo. Em termos de tempo, se forem de carro agora mesmo, chegam cerca de 63 minutos mais cedo.›


— De carro é mais rápido. O Leo não é de Kan? Que conduza ele. — Fai entrou em modo Tigre; todos repararam, mas ninguém disse nada.


Pouco mais de uma hora depois, chegaram ao hospital de Kanchanaburi. Três pessoas entraram.


📡 ‹Chefe, a Poy faleceu durante a operação, devido a uma rutura da aorta. O seu pai ainda está no bloco operatório. Tem um traumatismo craniano grave; a julgar pelos indicadores, o cérebro está seriamente afetado. Probabilidade de sobrevivência: 14,53%.›


Fai ficou imóvel ao ouvir aquilo; por um instante, os olhos brilharam de lágrimas, mas recompôs-se e dirigiu-se ao balcão da receção. A rapariga indicou-lhe onde podiam esperar pelo médico e ele sentou-se na sala de espera. Hima e Kira sentaram-se junto dele, um de cada lado, a segurar-lhe as mãos. Fai encostou a cabeça ao ombro do marido e repetiu-lhe baixinho as palavras do Smart. Dois minutos depois, saiu um médico que passou por eles e se dirigiu a um casal de idosos.


— Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Um estilhaço de vidro atingiu a aorta. Os meus sentimentos pela vossa perda. — dizia o médico em voz baixa, enquanto o casal chorava.

— Sei que a vossa neta está internada neste hospital e que o senhor Singh está em estado grave… — o médico nem teve tempo de terminar: o homem interrompeu-o.

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