53 – O peixe e a coroa de flores (parte 1 de 2)
Depois da festa pela vitória de Fon na sua primeira corrida, Prem e Non começaram a namorar. Non passou a sorrir mais vezes, mas nem por isso se tornou menos exigente com os funcionários da pista... Non mudou-se para casa do seu Papá. O Husky convenceu o marido a deixar Non ir à noite ter com Prem à pista dele. Dao ainda fez menção de protestar, mas Fon ameaçou-o: deixava de ir com ele à pista deles, e só se veriam em casa, e, ainda assim, apenas umas horas antes de dormir. Como é óbvio, isso não convinha nada a Dao, e ele viu-se obrigado a aceitar.
De dia, Prem aparecia muitas vezes na pista para ver Non, e para os trabalhadores isso já se tinha tornado normal. Quando Dao, inesperadamente, pediu a Non que fosse ao escritório, Prem estranhou, porque Dao anda sempre com vários guarda-costas. Foi com o seu menino, porque aquilo lhe pareceu esquisito. Dao pediu a Prem que levasse a Kawasaki para a pista, para os rapazes avaliarem o trabalho de recuperação da pintura. Prem via perfeitamente a fúria silenciosa em que Dao estava, percebendo que aquilo não era, claramente, por causa de dois riscos numa mota.
Umas horas mais tarde, Non ligou a Prem a pedir notícias da mota de Fon, quaisquer que fossem. Prem transmitiu-lhe as palavras dos rapazes da oficina: resolviam tudo em três dias, porque a tinta tinha de ser encomendada pelo site. O Bebé pediu-lhe que o esperasse na pista, para irem juntos para casa. A pista já estava aberta e quem quisesse podia participar nas corridas.
— Pi'Prem... Não está na pista nem o Khun Dao nem o Pi'Non, e temos aqui um problema. Liguei ao Non e ele disse para te pedir ajuda. — dirigiu-se-lhe Eit, porque Non tinha saído de repente.
— O que aconteceu? — franziu Prem o sobrolho, percebendo que não lhe pediriam ajuda por ninharias.
— Bem... chegou um rapaz que quer uma corrida com alguém dos nossos dentro de dez minutos. Mas o Khun Dao disse que o jovem chefe hoje não pode correr, porque está lesionado... — deixou escapar o rapazinho, e Prem carregou o sobrolho.
— O Non só chega daqui a uma hora... Pi, por favor, ajuda. Senão o Khun Dao arranca-me o escalpe... — implorava Eit, olhando para o homem.
— Está bem, vamos lá. — suspirou Prem, percebendo que não queria deixar o seu rapaz na mão.
Ao sair ao encontro do rapazinho que queria a corrida, Prem avançava com passo confiante, com as mãos enfiadas nos dois bolsos das calças. Atrás dele seguia Eit, sentindo-se culpado por o dono de outra pista ter de resolver problemas ali. O visitante olhava para Prem, e o homem caiu-lhe no goto. Prem trazia uma t-shirt cinzenta e um casaco de ganga coçado, com várias aplicações; as calças cinzentas realçavam-lhe a figura e as mãos nos bolsos esticavam o tecido de tal maneira que o membro do homem se desenhava através das calças. O cabelo escuro, penteado para trás, sublinhava-lhe o rosto oval, sobre o qual caía uma madeixa da franja.
— Algum problema? — perguntou Prem logo de entrada, e o rapaz mediu-o com um olhar avaliador.
— Dizem por aí que, a qualquer hora, enquanto a pista estiver aberta, se pode desafiar os representantes da pista para uma corrida, mas aquele fedelho ali disse que o vosso piloto de topo não pode aceitar o meu desafio... Mas... se fores tu no lugar dele, estou disposto a fechar os olhos ao desrespeito pelos visitantes. — o rapaz deu um passo em frente e, em jeito de provocação, passou o dedo pelo peito de Prem.
Zás!
— Quietinhas, as mãozinhas. Queres uma corrida? Ótimo. Mas apalpar-me, isso não autorizei. — proferiu Prem com voz severa, afastando a mão do jovem do seu peito.
— Quanto queres apostar? — continuou Prem, e o rapaz limitou-se a sorrir.
— Cem mil por duas voltas. Mas, pela vitória, não é dinheiro que eu quero... — sorria o rapaz.
— O que é que tu queres? — franziu Prem o sobrolho, percebendo que aquelas palavras não traziam nada de bom.
— Um jantar contigo. — de olhos em brasa, o rapaz percorria Prem da cabeça aos pés.
Todos ficaram imóveis, à espera da resposta de Prem.
E agora? Se recuso, correm boatos sobre a pista; se aceito e perco... oh... o Non vai ficar furioso de certeza... — ponderava Prem as opções.
— Pi... Se o Pi'Non descobre, mata-me com requintes de malvadez. — sussurrou Eit a Prem, sem lhe dizer o nome.
— Foi ele mesmo que pediu que eu tratasse disto, não foi? — acalmava-o Prem, sentindo por dentro um tremor inexplicável.
Prem não conhece a pista, e o adversário também não. Mas o problema é que Prem há muito que não corria de mota. Habituou-se a gerir a pista; das corridas, ocupavam-se outros. Sim, antigamente também andava, mas na sua pista e na sua mota. E aqui... nem sequer sabia em que mota ia ter de correr.
— Eu acho que... a corrida deve ser justa, por isso vamos em motas iguais. Não quero que depois digas que fiz batota. — acrescentou o rapaz, ao ver o olhar inseguro do homem à sua frente.
— Está bem, aceito. — proferiu Prem, e Eit agarrou-se-lhe logo ao casaco de ganga.
— Nong... — dirigiu-se Prem ao adversário, e este apresentou-se com um sorriso:
— Pert. Chamo-me Pert.
— Nong Pert, deixas que seja o Eit a escolher as motas, não te importas? — perguntou Prem, e o rapazinho assentiu.
Eit foi à garagem e, cinco minutos depois, estavam na linha de partida duas motas, MV Agusta F3 800, uma vermelha e uma branca. Prem vestiu um fato de corrida branco com apontamentos pretos no gabinete de Non, e o rapazinho um fato preto, no balneário comum.
— Oh, Pi... Ficas tão bem de fato; acho que devias ir na mota branca. — atirou Pert o galanteio, ao que Prem soltou um leve bufo, montando na mota branca.
Os rapazes ligaram os motores e nos postes acenderam-se as luzes vermelhas... Com o verde, as duas motas dispararam, deixando atrás de si uma coluna de fumo branco. Na primeira volta, os rapazes estudaram a pista, e só tinham a segunda volta para vencer a corrida. Pert estava decidido a ganhar: queria muito jantar com aquele Pi bonito e inacessível, cujo nome nem sequer sabia. Enquanto conduzia, Pert já tinha pensado no clube a que ia levar o homem. O rapaz seguia atrás de Prem por muito pouco, menos de meio corpo de mota, mas na reta da meta Pert cortou o caminho ao homem, e este aliviou ligeiramente a velocidade, pelo que Pert cortou a meta um nadinha antes de Prem. Tivesse Prem mais uns cinquenta metros, teria ganho, mas não foi o que aconteceu.
Prem estava furioso consigo por ter caído na provocação do rapazinho quando este o cortou, percebendo que mais valia ir jantar com ele do que ficar no hospital cheio de fraturas. Só que não era claro o que o seu Bebé levaria melhor, o hospital, ou um jantar com outro rapaz... E será que, depois desse jantar, o hospital não ia ser preciso na mesma? Prem desceu da mota, e ao lado já estava um Eit pálido.
— Pi, desculpa... A culpa é minha... O Pi'Non vai ficar furibundo quando souber... — quase sussurrou o rapazinho a Prem, quando um Pert todo satisfeito consigo mesmo se aproximou deles.
— Deves-me um jantar. Hoje. Agora. Tens dez minutos para te mudares, Pi, e depois vamos ao Trinity. — proferiu o rapaz, entusiasmado, claramente à espera de algo mais do que um simples jantar.
— Só o jantar. Não contes com mais nada além de comida, Nong. — avisou Prem, encaminhando-se para o gabinete de Non.
Pert ligou para o clube e reservou um quarto privado. Prem estava contrariado por ter de comer com um rapaz desconhecido e, ainda por cima, ter depois de explicar aquilo a Non. Mudava de roupa mergulhado nos seus pensamentos, a matutar em como contar ao seu Bebé o que tinha acontecido.
Prem tinha sido, pura e simplesmente, encurralado: não podia recusar a corrida, não quis arriscar a vida na pista e, agora, tinha de ir jantar com aquele rapaz, porque disso dependia a reputação da pista. Prem saiu do gabinete e, junto à entrada do edifício, já o esperava um Pert sorridente.
— Anda, Pi. Já reservei mesa. — todo satisfeito consigo mesmo, o rapaz agarrou a mão de Prem.
— Eh! Eu aceitei comer contigo, mas não autorizei que me tocasses! — indignou-se Prem, arrancando a mão do aperto do rapaz.
— Pronto, pronto. Não te enerves, não toco enquanto tu próprio não pedires. Mas... posso ao menos saber o nome da pessoa com quem vou comer? — quis saber Pert, olhando para o homem atraente e carrancudo.
— Não me parece que precises de o saber, porque este é o primeiro e último jantar comigo. Segundo não vai haver. Despacha-te; não quero chegar tarde a casa. — proferiu Prem com calma, sem olhar para o interlocutor, encaminhando-se para a saída da pista.
— Pi... — chamou-o Eit, mas Prem limitou-se a abanar a cabeça.
Prem entrou no carro de Pert. Diga-se que era um Audi RS7, de um agradável tom acobreado. Um automóvel de luxo, de grelha larga, faróis estreitos e uma aerodinâmica apelativa. Tudo como Prem gosta. Fosse isto há um mês, Prem não teria recusado continuar a conhecer o rapazinho, só que agora tem o Non.
Prem foi calado quase todo o caminho até ao clube, a pensar em como não se zangar com Non por causa daquele jantar. Pert, por seu lado, ia lançando olhares ao homem e já pintava, em sonhos, a continuação da noite: as bochechas vermelhas do álcool, os olhos a brilhar, as mãos de Pert a vaguearem por baixo da t-shirt cinzenta de um homem bebido e a gemer... quanto mais olhava para Prem, mais lhe apetecia dormir com ele.
Já estavam quase a chegar ao clube quando Prem começou a vasculhar os bolsos, aflito, à procura do telemóvel. Soltando um suspiro pesado, percebeu que o telefone tinha ficado no balneário, e ficou ainda mais abatido. Nem sequer podia escrever ou ligar ao seu menino, para o avisar e lhe dizer onde estava.
O carro parou no estacionamento e Pert, em cavalheiro, saiu para abrir a porta a Prem. Só que Prem abriu-a ele mesmo e saiu, encaminhando-se para a entrada do clube. Pert seguiu-o em silêncio e ficou espantado quando o segurança da entrada cumprimentou o homem com um aceno de cabeça.
— Vens aqui muitas vezes, Pi? — quis saber Pert, mas Prem não respondeu.
— Em que salão é a mesa? — perguntou Prem, seco, e Pert dirigiu-se ao balcão do administrador; disse o seu nome, e a rapariga entregou-lhe o cartão do quarto dois do salão VIP.
Prem franziu logo o sobrolho, percebendo que aquilo não podia ser coincidência. Seguiu em silêncio para o quarto, sabia perfeitamente onde ele ficava. Pert ficou surpreendido quando o homem parou à porta do quarto certo, diante da qual já estava um empregado.
— Khun Pert, posso servi-los? — quis saber o jovem, e olhou para Prem.
— Podes anotar o pedido e sair; depois desenrascamo-nos sozinhos. — proferiu Pert e entrou no quarto, certificando-se de que o empregado o tinha percebido.
Pert entrou e sentou-se no sofá; Prem corou, lembrando-se do que ele e Non tinham aprontado naquele quarto. O homem sentou-se na poltrona, sem com isso surpreender Pert minimamente.
— A ementa, Khun Pert. — o empregado estendeu as ementas aos dois.
Prem pediu para si apenas peixe em molho agridoce com arroz, e pediu que trouxessem água. Pert olhou para o homem e pediu ostras e camarões, e uma garrafa de Domaine Ramonet Montrachet Grand Cru, um vinho branco que custa à volta de cinquenta mil baht a garrafa.
— Estás a gastar dinheiro à toa, Nong Pert. Isto é uma edição única. É só um jantar; estou apenas a cumprir as condições da aposta. — avisou Prem, e o jovem olhou para o homem.
— Talvez mudes de ideias quando provares o vinho. É muito bom. — sorriu o jovem, e Prem limitou-se a abanar a cabeça, vendo que não o ouviam.
O empregado saiu do quarto e Pert chegou-se para mais perto de Prem, tentando meter conversa. Prem não tencionava fazer-lhe sala, porque considerava que a corrida não tinha sido justa. O homem sabia perfeitamente em que clube estavam e não queria que as pessoas dali pensassem que ele andava a trair Non.
Passado algum tempo, trouxeram para o quarto a comida e a garrafa de vinho. Contudo, ambos ficaram surpreendidos quando o empregado pousou diante de Pert um prato com peixe-balão cru — o fugu —, em complemento ao pedido.
— O que é isto? Eu não pedi isto. — proferiu o jovem, desorientado, mas o empregado limitou-se a olhar para Prem com um sorriso.
— Oh, isso... É um complemento ao pedido, por conta da casa. — respondeu o jovem, dando a entender a Prem quem tinha completado o pedido, e saiu do quarto.
Prem soltou uma risadinha, percebendo que o jantar ia ser, claramente, rápido. Por isso decidiu atirar-se logo à comida, antes que o seu marido chegasse. Começou a comer o peixe, adiantando-se ao rapaz, e encheu o copo com água, em vez de vinho.
Prem ficou sentado a fazer contas: da casa dos Kittichat até à pista são trinta minutos de carro, e de casa até ao clube quarenta a quarenta e cinco; da pista ao clube, eles tinham demorado trinta e cinco minutos... A julgar por, à chegada deles, o quarto dois já estar pronto, o seu menino já sabia que vinham para ali. Portanto... tinha, no máximo, uns dez minutos para comer. Pert decidiu ignorar o peixe à sua frente e pousou uma ostra no prato de Prem, com as palavras:
— Prova, Pi, são deliciosas.
— Obrigado, mas tenho alergia a ostras. — Prem devolveu a ostra à travessa comum e continuou a comer o peixe.
De repente...
A porta abriu-se e o mesmo empregado trouxe para o quarto... uma coroa de flores naturais, daquelas que habitualmente se levam aos funerais, e colocou-a atrás de Pert. Prem engoliu em seco, percebendo que o seu menino estava claramente furibundo, e que aquela noite não ia acabar nada bem.
— Tu endoideceste?! Porque raio trouxeste uma coroa fúnebre para o nosso quarto? Aqui não morreu ninguém! Enganaste-te no quarto! — indignou-se Pert, olhando para o empregado.
— Não, não me enganei. É para o senhor. E aqui está ainda o bilhete da entrega. — o empregado passou o bilhete ao jovem.
📝‹Um só toque nesse homem, e esta coroa vai parar às mãos dos teus pais, no funeral do filho deles, Pert!›
Pert empalideceu, amarrotou a folha e atirou-a ao empregado.
— Que brincadeira é esta? Vou apresentar queixa de vocês! — não se conteve o rapaz.
Prem levantou-se e apanhou o bilhete do chão, desdobrando-o para ler. Agora, não conseguia conter o riso perante o que estava escrito na folhinha. Prem ria-se, percebendo que o seu menino tinha ciúmes a tal ponto que não se poupou ao trabalho de encomendar uma coroa de flores e de tratar da entrega expressa no clube.
— Qual é a graça, Pi? — Pert olhou para o homem sem perceber nada, enquanto este, de folhinha na mão, se voltava a sentar no seu lugar.
— Nong, tu não tens o telemóvel contigo, pois não? Pede à Candy que traga um telefone; preciso de fazer uma chamada urgente, antes que entreguem aqui também o caixão. — dirigiu-se Prem ao empregado, que assentia e que também mal continha o riso ao sair porta fora.
O empregado trouxe o telefone dois minutos depois e Prem, marcando o número de Non, ouviu que o número estava indisponível. Ligou mais umas quantas vezes, e o resultado foi o mesmo. Prem ficou preocupado a sério, olhando para o relógio: pelas suas contas, Non já devia ter chegado ao clube havia dez ou quinze minutos.
Que estejas bem, Bebé... aceito qualquer castigo, mas que estejas bem... — afligia-se Prem, devolvendo o telefone ao empregado.