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51 🔞 – Poder (parte 1 de 2)

— Isto não pode ser verdade! — proferiu Kate, olhando para o homem de quem gostava nos braços de outro.


Kai desprendeu-se do peito do doutor e virou-se para a agradável voz feminina. Kate era uma mulher bonita, aparentando uns trinta anos, de cabelo castanho apanhado num rabo de cavalo, peito farto e figura esbelta.


— Pi'Var... Além de namorado, também tens namorada? — quis saber Kai, medindo a mulher com um olhar avaliador.
— Eh! Vê lá o que dizes! — atirou Kate, de tom alterado, apontando para a cara de Kai.
— Eu só te tenho a ti, Nong. A Kate é apenas uma colega. — respondeu Var, e com estas palavras Kai corou.
— Ah! Bem me parecia! Armar um teatrinho à minha frente? Achas que eu sou completamente parva, Var? — disse Kate com escárnio, ao reparar em como Kai tinha corado.
— Teatrinho? Não sei do que estás a falar. — Var encolheu os ombros com toda a calma.


Nem o próprio Kai percebia porque queria continuar aquele teatro diante de Kate. Provavelmente, por causa do «sonho» que tinha tido.


— E isto, acha que também é teatro? — perguntou Kai, voltando-se de novo para Var.


O jovem agarrou o doutor com uma mão pela nuca e puxou-o para si, beijando-o nos lábios. Var não esperava aquilo de Kai. O jovem guarda-costas irrompeu com a língua pela boca do doutor e, quando Var correspondeu ao beijo, veio à cabeça de Kai a memória do beijo daquela noite. Eram exatamente as mesmas sensações vertiginosas.


Bum


O som da porta fechada com força distraiu-os do beijo. Var foi o primeiro a afastar-se do rapaz, respirando com dificuldade, porque já estava excitado.


— Desculpa... — disse Kai baixinho, baixando a cabeça.
— E porque estás a pedir desculpa? — perguntou o doutor com um sorriso, passando o dedo pelos labiozinhos húmidos de Kai.
— Bem... eu não sou teu namorado... e ainda... pelo beijo. — proferiu o jovem, de cabeça baixa.
— Queres ser meu namorado? — perguntou Var, erguendo a cabeça de Kai pelo queixo e olhando-o nos olhos.


Apanhado de surpresa por semelhante proposta, Kai limitava-se a pestanejar, incapaz de dizer uma palavra. Na cabeça, ponderava o que responder — o doutor tinha-o apanhado desprevenido.


— Eu... — Kai não conseguia, naquele momento, inventar uma resposta.
— Não é preciso, Nong, está tudo bem. Eu compreendo. — disse Var com um sorriso leve, retirando a mão do seu queixo.
— Vá... tens de comer, e eu, entretanto, trato dos relatórios. — levantando-se da cama, o doutor aproximou de Kai a mesinha com a comida e mudou-se para a poltrona ao canto do quarto.


Var decidiu ocupar-se do trabalho, porque não queria pensar que se tinha precipitado. Kai começou a comer a papa e ia espreitando o doutor sentado na poltrona, sentindo que no seu peito se instalara uma pedra que não conseguia remover. Kai acabou de comer e afastou a mesinha. Sentia calafrios e deitou-se na cama, tapando-se com o cobertor. A febre, de novo a subir, venceu o rapaz, e ele adormeceu. Var terminou os documentos e, ao ver que Kai dormia, saiu do quarto em silêncio, para ir entregar o relatório. De caminho, o doutor foi também confirmar a hora dos exames de Kai.


— Doutor Var... Ao meu gabinete. — soou a voz do diretor do hospital.


Var suspirou, percebendo que Kate já se tinha ido queixar, e que agora lhe caberia ouvir os sermões da chefia. O doutor entrou no gabinete do diretor clínico, que, com um gesto, lhe indicou a poltrona. Var sentou-se em frente e o diretor, olhando para ele, estendeu-lhe um documento.


— O que é isto? — perguntou Var, esticando a mão para pegar na folha.
— Isto... é o teu pedido de demissão por iniciativa própria, que vais assinar agora, Var. — disse Khun Navi, suspirando.
— A Kate, não foi? Está bem, eu assino. — Var pegou na caneta em cima da mesa e apôs a assinatura no mesmo instante. — Ah, o paciente do 528... eu falo com o superior dele e, depois dos exames, pago o tratamento e levo-o comigo. — disse Var, sabendo perfeitamente que, se deixasse Kai ali, Kate não o largaria.
— Ele vale-te mais do que o emprego, Var? A sério? — insistiu Navi, olhando para a assinatura que Var tinha posto sem hesitar.
— Há pouco tempo disseram-me que a vida é demasiado imprevisível e que, se não fizermos o que o coração manda, podemos vir a arrepender-nos amargamente da decisão. Pois bem... eu não me arrependo. — respondeu Var, levantando-se da poltrona.
— Posso falar com o diretor do hospital ZNB, e eles recebem-te lá. Tu compreendes que eu não posso fazer de outra maneira. O pai da Kate é o principal investidor do nosso hospital. — disse o homem, com ar de culpa.
— Não é preciso, Khun Navi. Eu compreendo. Os exames do Kai estão marcados para as 10h30. Vou arrumar as minhas coisas. Foi um prazer trabalhar consigo. — disse Var com um sorriso, erguendo as mãos num wai, sentindo um peso enorme a cair-lhe dos ombros.


Var saiu do gabinete e dirigiu-se ao quarto de Kai. Ao abrir a porta, viu o rapaz sentado na cama, pálido.


— Kai, o que aconteceu? Estás mal? Porque não carregaste no botão ao pé da cama? — Var aproximou-se dele a toda a pressa e, tocando-lhe na testa, percebeu que a temperatura estava outra vez alta de mais.
— Eu carreguei... mas não veio ninguém... — disse Kai com a voz seca, a tremer com força.


O homem deitou Kai na cama. Var mediu depressa a temperatura com o termómetro sem contacto e o aparelho marcou 39,4. Var carregou no botão junto à cama mas, de facto, ninguém apareceu no quarto.


O doutor pegou no telemóvel e ligou a Bank.


— Bank, antipirético intravenoso no 528, urgente! Despacha-te! — ordenou Var e, três minutos depois, Bank entrou no quarto com os medicamentos.
— Porque raio é que o botão de chamada não funciona? Verifica-o! — indignava-se Var, enquanto administrava os medicamentos a Kai.
— Ele... funciona. A doutora Kate proibiu que quem quer que fosse viesse aqui. — respondeu o rapaz, com ar de culpa.


Var lançou um olhar furioso a Bank e, colando o penso no local da picada no braço de Kai, pegou no telemóvel. Kai ficou deitado, segurando a mão do doutor, e adormeceu.


— Prepara os documentos da alta do Kai; vou levá-lo daqui. — ordenou Var, enquanto esperava que atendessem a chamada.


📞— "Khun Fai... bom dia, é o doutor Var. Vou levar o Kai do hospital." — disse Var logo de entrada, em tom irritado.
📞— [Aconteceu alguma coisa?] — quis saber Fai.
📞— "Sim. Peça ao doutor Dew que me envie a morada da clínica onde trabalha." — pediu Var, olhando para Bank, que saía do quarto de cabeça baixa.
📞— [Não é preciso; a morada já foi enviada para o seu número. Quando chegarem, estarão à vossa espera, com o quarto preparado.] — respondeu Fai, apanhando Var de surpresa.
📞— "Obrigado, Khun Fai. Posso pedir que marquem já os exames?" — pediu Var com alguma insegurança, porque sabia que havia uma fila a respeitar.
📞— [O caminho até à clínica leva cerca de uma hora. Às 11h45 há uma vaga. O doutor Dew estará à vossa espera; eu próprio lhe ligo e explico tudo. E o doutor vai precisar de emprego... Talvez queira trabalhar lá?] — Fai levantou, de repente, uma questão de que ninguém sabia, exceto Var e o seu chefe.
📞— "Como é que soube?" — insistiu Var, verificando a temperatura de Kai.
📞— [Não importa como soube. Se aceitar, gostaria que se tornasse o segundo médico da nossa família e que trabalhasse com o Dew na clínica privada que o meu marido patrocina. Não precisa de responder agora, eu compreendo. Neste momento está preocupado com o seu menino, e por isso não quer tomar decisões precipitadas.]— resumiu Fai, e Var percebia que o rapaz do outro lado da linha tinha razão.
📞— "Obrigado, Khun Fai." — agradeceu Var, e desligou.


Olhou para o jovem na cama e, esperando que Bank voltasse com a alta, pediu-lhe que ficasse de olho em Kai enquanto ia mudar de roupa. Var saiu do quarto e foi ao vestiário. Mudou de roupa, recolheu os pertences do cacifo, trouxe o carro até à entrada e voltou ao quarto de Kai. O jovem dormia.


— Doutor Var, ele... — começou Bank, mas não teve tempo de acabar.
— Já não precisas de me chamar doutor. Eu já não trabalho aqui. — interrompeu-o Var, erguendo nos braços o corpo escaldante de Kai, depois de pendurar a mochila ao ombro.


Var saiu do quarto carregando Kai, cujos braços lhe envolviam o pescoço. Os funcionários olhavam para eles, segredando entre si, mas Var estava-se nas tintas. Se, para poder estar com a pessoa de quem gosta, Var tinha de se despedir, estava pronto para isso. Var sentou Kai no carro, no banco do passageiro, e apertou-lhe o cinto. Enquanto contornava o carro, Kate saiu a correr para a rua.


— Var! — gritou ela, e ele virou-se para ela com um olhar de desagrado.
— Já estás contente, Kate? Fixa bem isto: ninguém me vai obrigar a desistir dele! — disse Var, entrando no carro sem ouvir absolutamente nada do que a mulher dizia.


Var ligou o motor e seguiu para a morada que Fai lhe tinha enviado. Tal como Fai dissera, o caminho levou pouco menos de uma hora. Às portas da clínica esperavam-nos já dois homens. Mal o carro parou e Var retirou Kai lá de dentro, os rapazes de bata cumprimentaram-nos com um sorriso e aproximaram uma maca. Na receção, esperava-os Dew, com um tablet.


— Var, o vosso quarto é no terceiro andar, o 309. Podes ir subindo; nós levamos o Kai aos exames que não houve tempo de fazer no outro hospital. Não te preocupes, ele está em boas mãos. Eu fico com ele. Vai para o quarto. — Dew deu-lhe uma palmadinha no ombro, e Var assentiu.


Ficou a ver as pessoas a afastarem-se. Var aproximou-se do balcão da receção para tratar do internamento de Kai, mas a rapariga disse-lhe que o doutor Dew já tinha tratado de tudo, pelo que o homem decidiu subir ao quarto e esperar lá.


Se calhar devia aceitar a proposta do Fai? — pensou Var, sentando-se no sofá do quarto.


Var ficou algum tempo sentado, a ponderar o que fazer a seguir. Amava o seu trabalho, gostava de ajudar as pessoas. Mas as grades em que o encurralavam no hospital anterior pesavam sobre o doutor.


🚪 Clique


A porta abriu-se e Dew entrou no quarto, segurando-a para deixar passar a maca.


— Não é preciso, eu trato disto. — Var deteve os rapazes, quando estes se preparavam para passar Kai para a cama.


Dew sorriu e fez sinal aos rapazes para se afastarem. Var passou Kai para a cama com todo o cuidado, sentindo o calor do seu corpo, e tapou-o com o cobertor.


— A temperatura está agora nos 38,4. Os pulmões estão limpos, não é pneumonia, podes respirar de alívio. Toma, podes ver tudo tu mesmo. O Khun Fai enviou-me os dados do hospital. — Dew estendeu o tablet a Var, que estudou a informação.


— Obrigado, Dew. Eu... posso ficar aqui com ele? — disse Var, e Dew sorriu.
— Claro. O Khun Fai disse para escolher um quarto de maneira a que pudesses... tomar conta dele. — Dew sorriu, atrapalhando-se um pouco, e decidiu não dizer que Fai tinha mandado escolher um quarto sem ninguém nos quartos vizinhos — e Dew bem percebia porquê.
— Pi'Var... — gemeu Kai, e Var devolveu o tablet a Dew, sentando-se na beira da cama do jovem.
— Vamos, rapazes. Var, se precisares de alguma coisa, sabes onde está o botão. — Dew saiu do quarto com os dois rapazes, deixando Var e Kai a sós.
— Está tudo bem, Kai. Estou contigo. — Var afagava-lhe o cabelo.


Kai abriu os olhos a custo e percebeu que era um quarto diferente. Virou a cabeça na direção da voz e viu Var em roupa de todos os dias, e não de bata de médico.


— Onde estamos? — perguntou o jovem com voz rouca, e Var esticou-se para a mesinha, em busca do copo de água.


Var aproximou a palhinha dos lábios de Kai, e este bebeu, sôfrego, meio copo, porque tinha a garganta seca.


— Estamos na clínica do doutor Dew. — respondeu Var, pousando o copo na mesa.
— Despediste-te? — perguntou Kai, e Var, algo desconcertado por Kai saber, assentiu.
— Como é que sabes? — perguntou Var.
— A Kate veio ao quarto enquanto não estavas. Disse que não tinha acreditado no teatro. E que o poder dela no hospital é maior do que eu posso imaginar. Que, se me escolhesses a mim, perdias o emprego... — disse Kai baixinho, com voz de culpa. — Pi'Var... — chamou o jovem, pegando na mão de Var. — Tu não devias perder o emprego por minha causa. Isso não está certo. — proferiu Kai, mas Var não queria ouvir aquilo.
— Não está certo? Pequenino, o que não está certo é usar a posição do pai para conseguir o que se quer. 

Ou não ser capaz de dizer não à filha do principal investidor. Eu não quero trabalhar num sítio onde não me valorizam como profissional, ou onde me obrigam a escolher entre ti e o emprego. Hospitais, em Banguecoque, há muitos; mas tu és um só, Nong Kai... — respondeu Var, afagando a mão de Kai.
— Mas... — tentou objetar Kai, porque se sentia culpado.
— Nada de "mas", Kai. Se o meu emprego te preocupa assim tanto, ligo já ao teu chefe e digo-lhe que aceito a proposta dele. — Var tirou o telemóvel do bolso e marcou o número de Fai, pondo em alta voz.


📞— [Doutor Var, chegaram bem? Como se sente o Kai?] — quis saber Fai.
📞— "Khun Fai, estamos no quarto, obrigado. Ele voltou a ter febre alta, mas depois da injeção começou a baixar. Eu... aceito a sua proposta." — disse Var, e olhou para o seu Solzinho.
📞— [Fico contente. Pois bem... Façamos assim... O diretor da clínica já está ao corrente e preparou-lhe o contrato; pode lá ir assiná-lo. Mas... se calhar, é melhor começar a trabalhar quando o seu menino estiver recuperado. Entretanto... cuide do meu guarda-costas.]— respondeu Fai, visivelmente satisfeito consigo mesmo, e desligou.


— Estás a ver? Eu tenho emprego. Podes ficar descansado: o teu chefe... não, o nosso chefe tratou de tudo. — Var olhava com um sorriso para as bochechinhas vermelhas do jovem, sabendo perfeitamente que não eram da febre, mas de Fai ter dito «o seu menino».
— Deita-te. Tens de descansar, para melhorares mais depressa. Eu, entretanto, vou assinar o contrato. Prometo que volto já. — continuou Var, ajeitando o cobertor.


Kai assentiu e Var saiu do quarto. O telemóvel vibrou-lhe no bolso e ele viu o nome [Kate]. Var rejeitou a chamada e carregou em «bloquear», voltando ao balcão da receção para saber onde podia encontrar o diretor da clínica. A rapariga explicou-lhe com amabilidade e Var subiu ao andar certo. Depois de conversar algum tempo com o diretor e de assinar o contrato, o doutor regressou ao quarto. Kai dormia, e ele tocou-lhe na testa e no pescoço, verificando a temperatura.


— Desculpa, pequenino. Eu não te devia ter pedido para seres meu namorado. Tu és um rapaz novo e bonito, e eu nem sequer perguntei se tens namorada, ou namorado. Eu... Ah... Sou velho de mais para ti. Passei dos limites. Não volta a acontecer. Eu desisto. Perdoa-me. — dizia Var baixinho, julgando que Kai dormia; mas o jovem tinha acordado com o toque no pescoço e, simplesmente, não conseguia abrir os olhos por causa da doença.


Sim, Kai tinha-lhe agradado à primeira vista mas, enquanto estivera ali sentado no quarto, à espera dele, Var começara a matutar: e se ele tivesse alguém? Nesse caso, o que fizeram naquela noite tinha sido errado. E, ainda por cima, aquele pedido de namoro e o silêncio de Kai tinham-lhe semeado na alma um bichinho da dúvida que, a cada minuto, se enterrava mais fundo.


Var levantou-se da cama e mudou-se para o sofá. Tinha dormido pouco e, por isso, decidiu dormitar um bocado, já que o seu Solzinho dormia. O doutor tirou do armário um cobertor e uma almofada e, tapando-se, deitou-se a dormir.


Kai ficou deitado, a ruminar as palavras do doutor. «Não volta a acontecer.» — a frase ecoava na cabeça do jovem e, sem ele próprio saber porquê, lembrou-se logo dos beijos de Var.


Apanhaste-me desprevenido... O que é que eu havia de responder? Eu... raios, és tão inconstante... Fazes-me sempre isto... Primeiro beijas-me, deixas-me todo baralhado, e depois transformas-te num icebergue. Irritas-me. — pensou Kai, soerguendo-se na cama e olhando para o doutor adormecido.


Kai levantou-se e sentou-se com cuidado no sofá, ao lado de Var. Observava com atenção o homem adormecido. O queixo afilado, as maçãs do rosto largas, as pequenas rugas nos cantos dos olhos, que, ainda assim, lhe davam um charme especial, a barba ligeiramente por fazer, a testa alta e os olhos castanhos, agora fechados, e os lábios finos que, há tão pouco tempo, o tinham beijado.


— Quem é que disse que tu és velho? — Kai passou a mão pela bochecha do doutor e sentiu o coração estremecer.


Eu só quero confirmar uma coisa... E mais nada... — pensou Kai, debruçando-se sobre o homem adormecido.

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