top of page

46 🔞 – Ignorar (parte 1 de 2)

Acordando de manhã cedo, Hima levantou-se da cama com cuidado, pegou no telemóvel e desceu à cozinha para pedir à tia Nari que preparasse para Fai um pequeno-almoço leve e qualquer coisa para a ressaca. Depois disso, dirigiu-se ao seu gabinete, ainda de pijama.


Hima fechou a porta, sentou-se na poltrona diante da secretária e ligou o portátil.


— Smart!


📡 ‹Estou aqui, segundo chefe. Em que posso ajudar?›


— Quem era o cúmplice do Kris?


📡 ‹O segundo chefe lembrou-se do dia do tiroteio?›


— Sim. Lembro-me de ter visto o reflexo do sol na pistola. De o Kris ter dado um passo atrás mesmo antes disso, e de ter dito ao Fai que não agisse sem provas. — respondeu Hima com franqueza.


📡 ‹Enviei para o seu e-mail o vídeo da atuação do Chefe.›


Hima entrou no e-mail pelo portátil e abriu o vídeo, no qual o seu doce menino não tinha nada de doce. O dia em que Fai, diante de toda a gente da casa, revelou o que Kris tinha feito. O tom com que o fez e o olhar que tinha nesse momento ecoavam com uma dor lancinante no coração do Gatão. O que verdadeiramente o surpreendeu foi ver que até a mãe obedecia a Fai. E aquela mulher, nem o pai dele a conseguia travar.


Hima viu o vídeo da casa até ao fim e perguntou de imediato:


— Mostras-me o vídeo do tiro com arco?


Blimk


Chegou ao e-mail a notificação de uma nova mensagem, e Hima abriu-a.


Diante dos seus olhos estava o vídeo em que Fai, com o braço ferido, puxava a corda do arco. Hima reparou logo que Fai murmurava qualquer coisa.


— Ele pediu-te ajuda com os tiros, não pediu?


📡 ‹Sim, segundo chefe. Cada tiro foi calculado por mim e correspondeu a 100% ao que o Chefe pediu.›


— Tu viste o estado em que ele estava? A saúde mental dele está frágil. Porque o deixaste fazer aquilo? — Hima estava zangado, mas esforçava-se por não levantar a voz, para não acordar ninguém em casa.


📡 ‹Naquele momento, calculei todas as variantes possíveis do comportamento humano em situações semelhantes, e o comportamento do Chefe era uma das formas mais seguras para ele.›


— Seguras? Ele disparou um arco com o braço ferido, a ferida voltou a sangrar. Isso, para ti, é seguro?


📡 ‹O Chefe tinha de concluir o que planeara. Não punha a vida dele em risco, e eu não posso desobedecer a uma ordem sua. Só posso procurar brechas para contornar as ordens — como agora, consigo, por exemplo. O Chefe proibiu-me de lhe dar qualquer informação sobre o Kris, sobre aquele dia ou sobre as reuniões em que o substituiu. Disse que, enquanto o segundo chefe não se lembrasse, eu devia esconder tudo. Mas agora o senhor lembra-se, e para este caso não havia ordens. Por isso lhe mostrei.›


— Reuniões? Gravaste-as? Quero vê-las. — Hima estava interessado, porque o atormentavam as perguntas sobre como é que Fai tinha convencido Koji a aceitar aqueles juros.


Blimk


Hima abriu a mensagem recebida e foi vendo os vídeos, um a um. O seu olhar tornava-se mais sombrio de cada vez que tocavam em Fai ou lhe faltavam ao respeito. Ao abrir o último vídeo, no qual o seu menino trazia a mesma roupa do dia do tiro com arco, viu que atrás dele estava apenas Mix.


— Ele perdeu o juízo por completo?! Ir a reuniões com um único guarda-costas? E logo com o San... — resmungava Hima, continuando a ver.


Quando Fai mandou Mix buscar água, os pelos dos braços de Hima eriçaram-se com as palavras que o seu menino dirigia a San. Nem sequer conseguia imaginar que o seu menino doce, bondoso e sempre sorridente fosse capaz de atos daqueles.


Quando Fai despejou o conteúdo dos frasquinhos nos copos, Hima pôs o vídeo em pausa.


— Smart, o que estava nos frasquinhos? — perguntou, com inquietação na voz.


📡 ‹Água simples, Chefe.›


— Um bluff? E se o San não tivesse mordido o isco?


📡 ‹O Fai e eu calculámos que, com uma probabilidade de 94,5%, o San faria tudo o que o Chefe quisesse se a filha dele estivesse em perigo. Por isso, antes da chamada, avariei algumas lâmpadas numa montra do centro comercial onde a Yufa passeava com uma amiga. O San ouviu o estoiro das lâmpadas a rebentar, e eu cortei a chamada entre eles. Foi tudo bluff, desde o princípio.›


— E o atirador e o Kris? — Hima queria encontrar Kris pelas próprias mãos e dar o corpo dele, aos bocados, a comer aos tubarões.


📡 ‹Estão ambos mortos, Chefe. A sua mãe tratou de tudo.›


— O Fai sabe que o Kris está morto? — continuou Hima.


📡 ‹Não, segundo chefe.›


— Ótimo. E deve continuar sem saber. O estado dele preocupa-me muito. Não quero que ele seja assim. Quero o meu menino de antes. Doce e bondoso. — disse ele, e apagou do e-mail as mensagens recebidas.
— Tu não me mostraste nada; eu continuo sem me lembrar de nada. O Fai não pode saber desta conversa, entendido? — disse Hima com severidade.


📡 ‹Sim, segundo chefe.›


— A partir deste momento, todos os problemas passo a resolvê-los eu. Quero proteger o Fai de tudo o que é negativo. Calcula-me uma estratégia para devolver a minha esposa ao estado de antes. Não importa quanto custe nem o que eu tenha de comprar para isso: eu farei. — Hima falava com voz séria, mas com notas de preocupação.


📡 ‹Sim, segundo chefe. O Chefe acordou; devia ir ter com ele.›


Hima levantou-se e voltou para o quarto, onde encontrou o menino sentado na beira da cama.


Que coisa mais fofa... — pensou Hima, avançando para a esposa com um sorriso.


Fai estava um encanto: o cabelo desgrenhado, os olhinhos ensonados a piscar devagar, os lábios rechonchudos ligeiramente ressequidos do sono. Um botão da camisa do pijama tinha-se desapertado e uma das abas escorregava, desnudando um ombrinho branco.


Fai ergueu os olhos para o marido que entrava e sorriu.


— Onde estavas, Hia? Acordei e não estavas ao meu lado. — disse Fai com voz amuada, enquanto Hima se agachava à sua frente.
— Fui à cozinha, pedi que te preparassem o pequeno-almoço e qualquer coisa para a ressaca. Dói-te a cabeça? — Hima afagava com ternura a cabeça do Cachorrinho, que abanou a cabeça, a negar.
— E se... fôssemos hoje visitar a tua mãe? — propôs Hima.


Fai ergueu os olhos, e neles havia medo. Tinha um medo terrível de voltar lá, com receio de que tudo se repetisse. Hima viu-lhe os olhos e abraçou-o.


— Eh, bebé. Estou contigo, acabou tudo, estás a ouvir? Não tenhas medo, não volta a acontecer. Levamos connosco os rapazes em quem confias, está bem? — Hima falava-lhe com carinho, tentando acalmar a esposa nervosa.
— Smart. Verifica se a mãe do Fai está em casa, e ficas responsável pela nossa segurança no caminho. — ordenou Hima.


📡 ‹Sim, segundo chefe. Hoje é o dia de folga da Kalliou.› — respondeu o Smart.


— Dia de folga? — repetiu Fai, surpreendido, afastando-se dele, e Hima sorriu.
— Abrimos uma casa de câmbios perto da casa da tua mãe. Ela trabalha lá como gerente. Fui eu que lhe propus o emprego, e ela aceitou. Na fábrica, tinha gente sob a sua responsabilidade; informei-me, e ela desempenhava-se bem. — Hima olhava para o seu menino, a quem as lágrimas já assomavam aos olhos.
— Qua... Quando é que fizeste isso? — perguntou Fai com a voz a tremer.
— Depois de um certo menino querido ter dito que ainda era cedo de mais para nós, o shibari. E agora... que achas, ainda é cedo? — perguntou Hima num tom brincalhão, deslizando a mão pelo ombrinho nu e descendo pela orla do pijama em direção ao peito.
— Hia! Para com isso! — indignou-se Fai. — Nada de brincadeiras enquanto a tua ferida não sarar! E já agora, vamos para a cozinha. Tenho fome. E tu também tens de comer, para tomares os medicamentos. — dizia Fai em tom sério, levantando-se da cama e agarrando a mão do marido.


Hima limitou-se a sorrir por Fai não ter corado nem recusado — apenas mudado de assunto. Seguia-o obediente, enquanto o pequeno, de mão dada com ele, descia as escadas para a cozinha.


Pelo caminho cruzaram-se com Kai, de chaves do carro na mão. Hoje vinha de fato azul-escuro e camisa branca.


— Vais buscar o doutor Var, Kai? — quis saber Fai.
— Sim, chefe. Ele escreveu a dizer que já o posso ir buscar ao hospital. Acabou agora o turno da noite. — respondeu Kai, corando ligeiramente.
— Oh... Se calhar ele precisava era de descansar. Kai, não tenham pressa, só vais ser preciso depois do almoço. O doutor Var trabalhou a noite inteira: leva-o a um restaurante e dá-lhe de comer. Depois dizes-me quanto te devo do pequeno-almoço, está bem? — disse Fai com um sorriso, olhando para o rapaz embaraçado.
— Sim, chefe. Não é preciso, eu posso pagar o pequeno-almoço do doutor. Os chefes pagam-me bem. — disse o jovem, a corar, esforçando-se por não olhar para os chefes e perfeitamente consciente de que tinha as bochechas a arder.
— Vai, Kai. Não faças o doutor esperar. — respondeu Hima, dispensando o rapaz.
— E porque é que o doutor Var tem de vir cá a casa, meu menino? E porque pede ao Kai que o vá buscar? Isto é obra tua, meu pequeno casamenteiro? — mal Kai saiu porta fora, Hima perguntou à sua esposa sorridente.
— O doutor Var disse-me que gostava dele. Eu disse-lhes para trocarem o LINE. Se ele conseguir despertar o interesse do Kai, porque não? Não me importo nada que a nossa gente seja feliz. — respondeu Fai com franqueza, entrando na sala de jantar.
— A julgar pela quantidade de vezes que ele corou, acho que o teu doutorzinho tem hipóteses. — disse Hima com um risinho, sentando-se à mesa.


A tia entrou na sala de jantar com um tabuleiro. Pôs diante dos dois rapazes os pratos com a comida, porque sabia que ambos tinham de comer antes de tomar os comprimidos. Os rapazes comeram, discutindo a que horas seria melhor ir a casa da mãe e o que fariam até lá.


Depois de comerem, subiram ao quarto para tomar duche e mudar de roupa. Hima tentou seduzir a esposa no duche, mas Fai recusou com teimosia, alegando que o doutor Var estava a chegar, e uma horinha de sexo, para o bebé, seria pouco.


🍃   🍃 🍃


Entretanto, o Kai


Depois de terem trocado o LINE, o doutor Rakphonlamuang* escrevia de vez em quando a Kairos*, perguntando como estavam Hima e Fai. Pelo meio, Var ia-lhe mandando mensagens ambíguas, que punham Kai constantemente a corar.


(N da A: Kairos {deus grego da ocasião propícia, da sorte, do momento oportuno} é o nome completo do Kai. Rakphonlamuang {significa "aquele que cuida dos cidadãos"} é o nome do Var.)


📩 Kai — <Já saí. Chego dentro de quarenta minutos>

📩 Var — <Está bem, acabo o relatório do turno e desço ao estacionamento.> 

📩 Kai — <Não se apresse, doutor. Eu espero.>

📩 Var —<Oh... como poderia eu fazer um menino tão bom como tu esperar tanto tempo?>

📩 Kai— <Estou a conduzir.>

📩 Var —<Pronto, pronto, não te distraio. Conduz com cuidado, Nong Kai.>


Var olhou para o telemóvel e sorriu. Havia já três dias que, sempre que tinha um tempinho livre, escrevia mensagens ao pequeno Kai. Var tem trinta e sete anos, e Kai, com os seus dezoito, podia ser filho dele. Só que este "filhinho", ele queria era arrastá-lo para a cama e não o deixar sair de lá a noite inteira. Aquele miúdo agradou-lhe à primeira vista. A sua lealdade, honestidade e franqueza eram as qualidades que Var mais prezava nas pessoas. Via a morte todos os dias no hospital, e aquele rapaz solar era para ele como uma lufada de ar fresco num mundo cheio de dor e de tristeza.


Vá, Var, despacha lá esse relatório e vais poder ver o teu Solzinho. — animava-se Var a si mesmo, preenchendo os formulários das operações feitas durante a noite.


Trinta minutos depois, Var terminou o relatório, olhou para o relógio e, abanando a cabeça, limitou-se a vestir a roupa do dia a dia, percebendo que já não tinha tempo para o duche, senão faria o pequeno Kai esperar.


Desceu ao estacionamento e, no momento em que saía do elevador, um homem atirou-se a ele.


— Tu! A culpa é tua! Não salvaste a minha mulher! — gritava o homem, brandindo uma faca.


Var bloqueou o golpe com as duas mãos, mas o homem era mais corpulento e estava fora de si, pelo que tinha claramente mais força. Tomou balanço outra vez e repetiu o golpe, que atirou Var ao asfalto. A faca apenas lhe arranhou o antebraço; o corte não era profundo.


— Se a minha mulher não pode ver o sol, também tu não o verás! — gritava ele, erguendo o braço para golpear.
— A sua mulher tinha um cancro do estômago em estádio quatro. Nem o melhor cirurgião do mundo a teria salvado. — respondeu Var com bastante calma; afinal, não era a primeira vez que o atacavam.


O homem ergueu o braço, mas este foi bruscamente travado e torcido para trás das costas. Com a dor no pulso, o homem largou a faca e gemeu, lavado em lágrimas. Por trás do ombro do homem desfeito pela dor, despontou o Solzinho. Kai atingiu-lhe a perna com um pontapé e o homem caiu de joelhos diante do doutor, que se pôs de pé à pressa. Var carregou rapidamente no botão de alarme ao lado do elevador e, um minuto depois, a segurança acorreu.


— Levem-no para dentro e deem-lhe um calmante. Chamem um psicólogo para ele. — respondeu Var com serenidade e, sacudindo a sujidade da roupa, aproximou-se de Kai.
— Obrigado pela ajuda, Nong Kai. — Var aproximou-se, sorridente, do jovem, que não parava de franzir o sobrolho.
— Eh, rapaz, que se passa com essas sobrancelhas? Andas a treinar fazer lacinhos com elas em vez de usares as mãos? — gracejou Var, quando Kai lhe agarrou o braço.
— Dou... doutor, como é que está tão calmo? Ele quase o matava, e o doutor ainda tem cabeça para piadas? — indignava-se Kai, quando o seu olhar foi atraído pelo corte no braço.
— Nong Kai, eu trabalho lado a lado com a morte todos os dias. Todos nós, um dia, entramos na roda do Samsara*. Uns mais cedo, outros mais tarde. Não somos nós que decidimos. — respondeu o doutor com calma, olhando o jovem nos olhos.


(N da A: Samsara (สังสารวัฏ) — no budismo, o ciclo de nascimento, morte e renascimento a que todos os seres estão sujeitos; a "roda do Samsara" evoca a inevitabilidade da morte como passagem natural.)


— O doutor está ferido. Venha, há um estojo de primeiros socorros no carro. Eu trato-lhe da ferida. — disse Kai, irritado, e arrastou Var pela mão até ao carro.


Ohho, então, para tu me dares a mão, bastava-me ter quase morrido? — pensou Var, a sorrir.


Kai abriu a porta do passageiro e, sentando o doutor no banco, foi buscar o estojo à bagageira. Arregaçou a manga do braço ferido e, tirando do estojo o antisséptico e um tampão de algodão, foi tratando com cuidado a ferida no braço do doutor. Var observava os seus gestos hábeis e nem sequer estremeceu, apesar de a ferida arder. Kai terminou a desinfeção e, colando um penso rápido, arrumou o estojo no lugar.


— Excelente trabalho, Nong Kai. Nunca pensaste em ser enfermeiro? — perguntou Var com um sorriso trocista, elogiando Kai.


Kai fechou a bagageira com força e, aproximando-se do doutor, olhou para ele com um suspiro pesado — e o doutor ouviu-o.


— Se suspiras assim tantas vezes, envelheces depressa, rapaz. — riu-se Var, quando a cintura esbelta do jovem lhe apareceu diante da cara.


Var foi subindo com o olhar por aquele corpo escultural, engolindo a custo a saliva que se lhe prendia na garganta. Começou a custar-lhe respirar quando o jovem começou a despir o casaco. O cérebro do doutor já desenhava imagens indecentes da continuação daqueles gestos do rapaz, e de sexo no carro, ali no estacionamento. Var ia-se excitando, até que as palavras do rapaz o arrancaram da fantasia pornográfica.


— Dou... Dou... Doutor Var? Está bem? — a voz preocupada do jovem interrompeu tão doce fantasia.


Var pestanejou umas quantas vezes e olhou para o jovem, que lhe estendia o casaco.


— Vista-o, doutor. — disse Kai, e as suas bochechinhas rosaram ligeiramente.


Var levantou-se do banco e, pegando no casaco das mãos do rapaz, vestiu-o. O doutor sentiu de imediato o aroma do perfume do jovem, e agradava-lhe muito.


— Entre no carro. Temos de ir. — apressou-o Kai, abrindo a porta do condutor e sentando-se ao volante.


Var contornou o carro e sentou-se no banco do passageiro, ao lado dele.


— Doutor, devia ter ficado no banco de trás. Isto não está certo. — disse Kai, apertando o cinto.
— Eu, no banco de trás, prefiro não andar... — disse Var com segundas intenções, e as bochechinhas de Kai rosaram.
— Doutor... tem fome? — perguntou Kai, e corou ainda mais com a própria pergunta.
— Queres ser tu a comida? — perguntou Var baixinho, mas Kai ouviu.
— O que disse, doutor? — repetiu o jovem, com o coração a bater mais depressa por causa da pergunta anterior.
— Pergunto se me queres dar de comer. — Var reformulou a pergunta, sorrindo com suavidade, enquanto saíam do estacionamento, e o jovem assentiu.
— A dois quarteirões daqui há um restaurante bom, podemos comer lá. Eu indico o caminho. — a voz satisfeita de Var espalhava-se pelo carro, enquanto ia dando as direções.


Pararam junto ao restaurante. Kai saiu do carro e já se dirigia à porta do passageiro quando o homem saiu sozinho. Kai olhou para ele, sem perceber.


— Que foi? Eu não sou teu chefe, não tens de me abrir a porta. Sei fazê-lo sozinho. — respondeu Var, decifrando a expressão do seu rosto.


O jovem assentiu e entraram. O restaurante estava lindamente decorado em estilo japonês, e um empregado recebeu-os logo, oferecendo-lhes mesa. Sentaram-se a uma mesa junto à janela.


— Escolhe tudo o que te apetecer, Nong Kai. — Var estendeu-lhe a ementa com um sorriso.


Kai assentiu e olhou para Var, que nem sequer tinha aberto a ementa.


— Porque é que nem abriu a ementa? — quis saber Kai, enquanto Var o observava.
— Já escolheste, bebé? — aquela pergunta do homem deixou o jovem sem fala, ao ouvi-lo chamar-lhe bebé, e por isso Kai limitou-se a assentir.


Var ergueu a mão e anunciou o seu pedido ao empregado que se aproximou; quando este o anotou, Var olhou para o jovem à sua frente.


— Nong... disseste que já tinhas escolhido; não queres dizer ao empregado o quê, exatamente? — disse Var com um sorriso, pousando a sua mão em cima da mão do jovem.


Kai estremeceu; um arrepio percorreu-lhe o corpo quando sentiu aquele calor nas costas da mão. 


Anunciou o pedido e nem ele próprio percebia porque não queria que o doutor tirasse a mão dali. Var olhava para as bochechas em brasa do jovem à sua frente e nem lhe passava pela cabeça tirar a mão. O seu Solzinho brilhava mesmo ali, diante dele, e estava grato a Fai por aquela oportunidade que lhe oferecera.


— O vosso pedido... — a voz do empregado arrancou-os aos próprios pensamentos, e ambos retiraram as mãos.


Os dois ergueram as mãos num wai, agradecendo ao empregado, e começaram a refeição.


— Nong, tens de provar isto! É uma delícia louca. — disse Var, pousando no prato de Kai um pedacinho de sashimi de salmão.


Kai ergueu os olhos para ele, sem parar de mastigar. Estava tão fofo que Var ficou imóvel, sem sequer ter acabado de recolher a mão.


Que criança... Apetecia-me apertar essas bochechinhas... e não só com as mãos... e não só as de fora... raios, Var, controla-te. — acalmava-se Var a si próprio, enquanto o coração lhe batia como um louco.


Kai pegou no pedaço de salmão e enfiou-o na boca. Sorriu, satisfeito, e olhou para o doutor.


— Muito bom. — resmungou Kai, mastigando o peixinho.
— Queres mais? Toma. — Var pousou-lhe no prato um pedaço maior.
— Doutor, sou eu que o devia estar a alimentar, não o contrário. Tome, o frango teriyaki aqui é divinal. — Kai pegou num pedaço com os pauzinhos e estendeu-o à boca do doutor.


Var, sem pensar duas vezes, devagar, amparando o pedaço de carne por baixo com a língua, tomou a carne na boca.


Oh... que sedutor... — pensou Kai, a olhar para os movimentos do doutor, que lhe provocaram um formigueiro no fundo do ventre.


Kai engoliu em seco, e Var reparou. Não tirava os olhos do seu Solzinho desde o momento em que ele aparecera no estacionamento.


— M-m-m-m... — um gemido lânguido escapou dos lábios de Var, como se não estivesse a provar franguinho, mas algo bem mais quente.
— Quer mais? — perguntou Kai, erguendo a mão para lhe pôr frango no prato, mas a mão do doutor deteve-o, agarrando-lhe o pulso.
— Só como se fores tu a dar-me, pequeno Kai. — Com súplica nos olhos, Var fitava o jovem, observando as suas bochechinhas fofas a corar outra vez.


Var parecia, naquele momento, o gato do Shrek. Os seus olhos grandes e escuros fitavam a alma do rapaz, obrigando o seu coração a bater mais depressa. Kai assentiu — afinal, Fai tinha-lhe dito para dar de comer ao doutor. O jovem alimentava o homem com franguinho e este, por sua vez, o rapaz com peixinho. As raparigas adolescentes que passavam na rua, do outro lado da janela, olhavam para eles e sorriam.


Quando ficaram saciados, Kai insistiu teimosamente em pagar ele a conta, e Var, ao fim de uns minutos de discussão, lá cedeu.


Se fores igualmente teimoso na cama, não me importo nada que pagues a comida. — pensou Var, observando o rapaz teimoso.


— Temos de ir, doutor. — disse Kai, depois de pagar, e Var franziu o sobrolho.
— Para de me tratar por "o doutor" e por "o senhor". Chama-me Pi'Var. Já me chega o "doutor Var" no trabalho. — disse Var com uma leve censura, abrindo a porta a Kai.
— Mas... — Kai tentou protestar, virando-se para o doutor, mas um dedo quente tocou-lhe os lábios e todas as palavras se esfumaram no mesmo instante.
— Nada de "mas". Ou queres que te bata de cada vez que me chamares doutor? — perguntou Var num tom brincalhão, e o jovem abanou a cabeça.
— Lindo menino. Vamos. Não façamos esperar os teus chefes. — Var desgrenhou o cabelo de Kai, que corou de imediato.


Raios... Hoje, num só dia, corei mais do que na vida inteira... Este homem ainda me deixa em febre. — pensava Kairos, voltando para o carro.


Var seguia atrás dele, avaliando com um olhar embevecido os ombros largos, a cintura fina e as nádegas rechonchudas — toda aquela beleza que, antes, o casaco escondia.


Entraram no carro e seguiram para a mansão da família Kittichat. Var estava tão esgotado do turno da noite que, depois da refeição saborosa e com o conforto do banco do carro, adormeceu quase de imediato. Kai reparou e passou a conduzir bem devagar, tentando deixar o homem dormir. Uma hora depois, Kai estacionou lentamente o carro junto à garagem, esforçando-se por não acordar o doutor. O jovem esticou-se para a alavanca debaixo do banco de Var, para reclinar ligeiramente o encosto. Olhou para o relógio: eram dez da manhã e, já que Fai lhe dissera para não ter pressa, Kai queria deixar o homem dormir mais uma hora. Soltou o próprio cinto, chegando-se mais ao banco do passageiro. A sua mão estendeu-se para baixo, tentando apalpar a alavanca, enquanto os seus olhos fitavam o homem no banco. Kai puxou a alavanca com cuidado e o encosto começou a descer devagar — quando, de repente, o homem se virou no sono e o seu belo rosto ficou a escassos centímetros do rosto do jovem. Kai imobilizou-se, a corar, e tentou afastar-se de Var, mas o homem entreabriu os olhos e afagou-lhe a bochecha.



bottom of page