43 – Um piloto, duas apostas (parte 3 de 3)
— Nong Fai, porque estás a gritar? Estou demasiado cansado para discutir contigo. Falamos amanhã, pode ser? — Dao fingiu-se cansado, só que Fai não caiu nessa.
— Cansado, dizes tu, Pi? Cansado de quê? Da mesa partida no teu escritório, ou da corrida numa pista alheia, hã? Ah, ou será por teres mandado um vídeo ao meu marido? — Fai quase gritava com ele, e a sua aura sombria pesava sobre todos na sala, pelo que os criados e a segurança se retiraram a toda a pressa para a cozinha, à espera de que a tempestade passasse.
— Eh! Ai'Fai, não grites com o meu marido! O Hima ia ver esse vídeo de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde. Ou foi o teu Papá que te ralhou pelo mau comportamento e agora vens descarregar no meu, é? Pi'Hima, fode-o de maneira a que ele não consiga andar, talvez assim pare de gritar com as pessoas e de aterrorizar os empregados com essa cara de mau! — declarou Fon, indignado, e, agarrando Dao pela mão, arrastou-o escadas acima.
— Ohho... és corajoso, Fon. Também eu tenho um vídeo teu bem interessante de hoje... Estou aqui a pensar... em mandá-lo... à tua mãe? — Fai não estava disposto a render-se e ameaçou o amigo, e Fon estacou a meio da escada.
— Querido... vai fazer companhia ao teu irmão... preciso de falar com o meu amigo. — disse Fon; desceu, agarrou Fai pela mão e puxou-o para a rua.
Dao e Hima saíram atrás deles e ficaram a ouvir, curiosos, a conversa das suas esposas.
— Fai! Para de te comportar assim! O Hima está bem! Podes voltar a ser o que eras, Fai? O Kris foi-se embora, acho que a tua sessão de tiro de demonstração lhe chega para o resto da vida. Não tens de andar a meter medo às pessoas, Fai! Olha para a segurança: estão dispostos a desobedecer ao teu marido só para não te contrariar! Isso está errado! Digo-te isto porque sou teu amigo. Eu percebo o que sentes, Fai. Sei que tens medo de que o teu marido se magoe. Mas não se pode viver com medo o tempo todo. Achas que o Hima não repara que estás diferente? Conta-lhe tudo tu mesmo, não esperes que outra pessoa o faça. É melhor ele saber tudo por ti do que por outro qualquer, com um monte de mexericos à mistura. Percebes o que estou a dizer, Fai? Proteges o teu marido como uma galinha protege o pintainho, mas ele não é um passarinho pequeno e indefeso, Fai! Cala-te e não interrompas! Ele é teu marido: se o amas mesmo, deixa-o cuidar de ti como antes. Podes ajudá-lo, mas não ponhas às tuas costas, sozinho, a segurança da família inteira. Sei que me tratas como um irmão. Nem quero saber como é que o vídeo de hoje da pista foi parar às tuas mãos. Mas isso só prova que tenho razão. Estás a tentar proteger sozinho toda a gente desta casa, quando vivemos cá todos. O teu medo de perder as pessoas mais próximas está a controlar-te neste momento. Tens de largar isso, Fai. O teu marido está aqui, vivo, ama-te e quer cuidar de ti — e tu, nessa correria atrás da segurança, andas a perder tempo que podias passar com o teu marido adorado no cinema, num café, de férias, ou simplesmente a fazer sexo. Se não consegues lidar com isto sozinho, procura um psicólogo. — Fon terminou finalmente o sermão, enquanto Fai ali ficava, de olhos molhados de lágrimas.
— Ohho... o teu bebé é bom... e de que vídeo estão eles a falar, Dao? — perguntou Hima em voz baixa, e Dao tirou o telemóvel, abrindo-lhe o clipe que Non tinha gravado.
Hima via o vídeo e não conseguia acreditar que aquele rapazinho, que naquele momento passava um raspanete à sua esposa, estivera há umas horas coberto de sangue, de chave na mão, a espancar um homem.
— Oh... não irrites a tua esposa, Dao... — riu-se Hima baixinho, devolvendo-lhe o telemóvel.
— A minha esposa, ao contrário da tua, não meteu medo a toda a gente em casa e no escritório. Sabias que o Fai se encontrou com o San e o Masushimaru ao mesmo tempo? — perguntou Dao em voz baixa, e Hima abanou a cabeça.
— Só sei que, depois dessa conversa, o San, logo no dia seguinte, mandou a Yufa estudar para Inglaterra e proibiu-a de voltar. — continuou Dao.
— Quem estava com o Fai nesse encontro? — Hima aproveitou a situação para sacar mais informações a Dao.
— O Mix. A mãe perguntou-lhe, mas ele não lhe disse uma palavra. — Dao entregou o Mix.
— Porque é que o Kris havia de ficar com o tiroteio do Fai bem gravado na memória? — Hima decidiu escavar mais fundo, porque, a quem quer que perguntasse sobre o Kris, todos se calavam.
— Oh... desculpa, Hia... Mas não quero levar com uma flecha na testa, cortesia da tua esposa. Se queres saber, pergunta ao Fai. Já falei de mais. — Dao percebeu que tinha dito demasiado; mas, no que tocava ao Kris, estava do lado de Fai.
Hima ainda quis dizer mais alguma coisa, mas ouviu os soluços de Fai e viu Fon a acenar-lhes. Foi logo ter com eles, abraçando o seu Cachorrinho.
— Anda, querido, estou cansado e quero um duche. Parece-me que ainda cheiro a sangue. — Fon pegou na mão de Dao e levou-o para dentro de casa, deixando Hima e Fai lá fora.
— Meu menino... Não chores... Estou aqui... Está tudo bem, estou ao teu lado. — Hima acalmava Fai, que sabia que Fon tinha razão.
— Queres contar-me alguma coisa, meu amor? — perguntou Hima a Fai, que chorava no seu ombro, mas ele abanou a cabeça.
— Está bem, espero até estares pronto para me contar. Lembras-te do que me prometeste? Que íamos enfrentar tudo juntos. Tu também estás ferido e não tens de fazer tudo sozinho. Eu gosto do teu Tigre interior, meu menino, mas não é preciso soltá-lo sempre que tens medo. Amo-te, Fai. E quero que deixes de ter medo. Nunca te vou abandonar. Estás a ouvir? NUNCA! — Hima falava baixinho, acariciando-lhe as costas com uma mão.
Fai assentiu e aconchegou-se ao peito de Hima, saboreando o som do seu bater do coração. Naqueles dias em que estivera sozinho, sem saber se o seu amado ia acordar, a cada segundo morria um bocadinho da sua alma. Aquilo abalou de tal forma o estado de espírito de Fai que agora o Smart vigia toda a gente da casa, até os pais de Hima. Essa memória e essa dor estão tão frescas que Fai sabe que não aguentaria passar por algo assim outra vez.
Hima levou-o para o quarto, limpando as lágrimas do rosto do seu menino.
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O dia seguinte
Ao pequeno-almoço, Fon convidou Hima e Fai para a corrida da noite, para Fai poder espairecer. Hima aceitou de imediato, percebendo porque o fazia Fon. Na véspera, ouvira cada palavra que Fon dissera à sua esposa e sabia que o jovem psicólogo tinha razão em tudo. O doutor Var só chegava no dia seguinte, por isso, logo a seguir ao pequeno-almoço, Dew passou pela casa para verificar o estado de Hima e Fai. As feridas dos rapazes estavam a sarar bem, sem qualquer anomalia — apesar de os dois terem feito sexo na véspera. Hima ficou muito satisfeito com isso, pois tencionava organizar hoje, depois das corridas, uma maratona de várias rondas.
Dao e Fon saíram para a pista depois do pequeno-almoço, desencontrando-se do doutor Dew. Non já os esperava à entrada, para dar conta do estado de Kon e das buscas de Lom. Lom não tinha aparecido no condomínio nem em casa dos pais, o telemóvel estava desligado e o cartão não fora usado. Por isso, Dao ligou a Dark a pedir que arranjasse informações.
A corrida estava marcada para as 17h00. Fon não sabia contra quem ia competir, porque quem tinha tratado com o visitante caprichoso fora Non. Só sabia que o tipo queria uma corrida contra um representante da pista e que cada um corria na sua própria máquina. E era precisamente isso que assustava Fon. A sua Kawasaki preferida costumava ficar na garagem de casa, porque, na maioria das vezes, ele e Dao iam a todo o lado de carro, com motorista. Só hoje é que tinham vindo na Kawasaki.
Embora Fon tencionasse competir hoje na Ducati da garagem da pista, pensou que, se o visitante fosse teimoso como o ex dele, iriam ser precisos os documentos da mota.
— Bebé, e se fôssemos comer qualquer coisa? Ainda faltam três horas para a corrida. — perguntou Dao, abraçando Fon, que inspecionava as máquinas.
— E se não formos na Kawasaki? — propôs Fon, e Dao concordou.
Pegaram na mota mais simples que havia na garagem e foram a um restaurante de cozinha europeia. Dao queria um bife no ponto com legumes frescos e, para o seu bebé, pediu um bife de salmão com molho tártaro. Estavam sentados a comer com todo o gosto quando uma mão pousou no ombro de Dao e ele estremeceu de surpresa.
— Querido, já estava a pensar que me tinha enganado na pessoa. Mas não, és mesmo tu. Há quanto tempo. — disse uma voz masculina aveludada, e Fon ergueu os olhos para o homem alto e bonito que não fazia tenções de tirar a mão do ombro de Dao.
Dao virou-se e afastou a mão do seu ombro.
— Hum... Tu és... — Dao fingiu não se lembrar do nome do rapaz.
— Troy. Não te lembras de mim, Pi'Dao? Oh... conhecemo-nos na inauguração do hotel novo, há seis meses. Disseste que me ligavas, mas nunca ligaste. — queixou-se o jovem, despeitado, e Fon pousou os talheres na mesa e ficou a olhar para Dao.
— Troy... talvez sejas cego, mas eu não estou aqui sozinho. — disse Dao, irritado, temendo a ira da esposa.
— Ah, estás com o teu irmão mais novo. E é giro. Posso juntar-me a vocês? — Troy olhou para Fon e perguntou com um sorriso.
— Podes. — respondeu Fon, e sorriu.
Oh... este sorriso não augura nada de bom... — pensou Dao.
— Não podes. Primeiro, ele é a minha esposa, não é meu irmão. Segundo, se és estúpido ao ponto de não perceberes porque não te liguei, digo-to na cara: foste apenas um rapaz de uma noite. E terceiro, as pessoas bem-educadas não se impõem aos outros. Fui claro? — Dao foi duro e direto, porque não queria que o seu menino duvidasse dele.
Troy ficou pasmado com tamanha rispidez e olhou para o rapaz sorridente à sua frente, convencido de que Dao estava a brincar com aquilo da esposa.
— Esposa? Este puto de liceu é a tua esposa? — insistiu Troy, e Dao levantou-se de imediato.
Troy ainda estava em choque com as palavras de Dao e não conseguia acreditar que ele tivesse uma esposa. Dao contornou a mesa e colocou-se atrás de Fon. Fon percebeu perfeitamente o que Dao queria fazer e ergueu a cabeça, fitando os olhos do marido. Dao inclinou-se de imediato e beijou Fon com paixão, e este segurou-lhe a face com a mão do anel, para que Troy o visse. Fon soltou um leve gemido e Dao afastou-se, olhando para um Troy corado.
— Se eu disse que ele é a minha esposa, então é a minha esposa. Acho que está na hora de ires. Espero que nunca mais nos voltemos a ver. — disse Dao, deslizando um dedo pelos lábios rechonchudos de Fon, que o seu bebé lambeu de imediato.
Troy quase fugiu do restaurante e Dao, satisfeito consigo mesmo, voltou ao seu lugar, pousando a mão na mesa.
— Ai, isso porquê?! — exclamou Dao quando Fon lhe deu uma palmada na mão.
— Não me deixaste brincar com ele! Eu queria divertir-me antes da corrida... — indignou-se o pequeno; mas, lá no fundo, não tinha ficado nada desagradado com o gesto e as palavras do seu homem.
— Queres divertir-te? Vamos para a pista e eu faço-te a festa no escritório... — disse Dao com segundas intenções, e Fon percebeu-o perfeitamente.
— Come, querido. Divertimo-nos depois da corrida. — Fon descalçou um sapato e, por baixo da mesa, deslizou o pezinho pela perna de Dao acima, até ao membro, e depois, com a mesma lentidão, desceu de volta pela perna.
Depois do almoço voltaram à pista, e Non informou que não tinha tirado os olhos da Kawasaki nem da Ducati. Depois do dia anterior, Non levava a proteção das máquinas muito mais a sério e decidira não a confiar a ninguém — afinal, na véspera tinha visto do que Fon era capaz. Mostrara o vídeo aos rapazes da garagem enquanto estes iam almoçando por turnos. Agora, na garagem, todos olhavam para Fon de outra maneira. Só Tar ainda não tinha visto o vídeo, porque também fora almoçar.
— Rapazes, hoje temos um visitante esquisito. Não sei em que mota ele vai querer correr — ajudem-me a verificar todas! Não quero problemas mais logo. — pediu Fon com um sorriso, e todos assentiram de imediato, largaram as ferramentas e distribuíram-se dois a dois para verificar o estado de todas as motas.
Fon ficou espantado com aquele comportamento dos trabalhadores, porque normalmente só obedeciam a Tar e a Dao. Sim, quando levantava a voz ou falava a sério, lá o ouviam uns quantos. Mas todos ao mesmo tempo, sem gritos da parte dele, sem suspiros cansados da parte deles — era a primeira vez.
Fon foi ao escritório de Dao, surpreendido com a atitude dos rapazes.
— Querido... O que se passa na garagem? — Fon entrou no escritório de Dao e viu Tar ali de pé.
Tar olhou para ele com o desdém do costume, e Dao continuou a conversa:
— ...quero que tu e os rapazes verifiquem todas as motas da garagem...
— Querido... chegaste tarde, os rapazes já estão nisso... Todos... Duas pessoas por mota. — disse Fon, e Dao olhou para ele com espanto.
— Todos? — insistiu Dao, e o pequeno assentiu.
— Bem... então podes ir, Tar. — disse Dao, desconcertado, e Tar, surpreendido com as palavras de Fon, saiu do escritório.
— Voltaste a gritar com eles, bebé? — perguntou Dao, erguendo uma sobrancelha.
— É isso mesmo, Pi... Eu só pedi, com toda a calma, que ajudassem a verificar as motas. Levantaram-se todos logo e foram verificar. Podes confirmar pelas câmaras. — disse Fon com franqueza, e Dao sorriu, dando umas palmadinhas nos próprios joelhos.
Fon aproximou-se de imediato e sentou-se, passando os braços à volta do pescoço de Dao, e os braços de Dao envolveram a cintura do Husky. Dao beijou-lhe o pescoço ao de leve e pousou a cabeça no seu ombro.
— Amo-te tanto, bebé. — disse Dao, simplesmente porque lhe apeteceu dizê-lo, e Fon sorriu.
— Rapazes... O que se passa na vossa garagem? Onde é que estão todos? — perguntou Hima, entrando no escritório com Fai.
— Foram verificar as máquinas antes da corrida... — respondeu Fon, sem sequer pensar em levantar-se do colo do marido.
— Já sabes quem é o teu adversário, Fon? — perguntou Fai, e o amigo abanou a cabeça.
Fai pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem. Cinco minutos depois, o Smart já lhe estava a contar tudo sobre o rapaz que tinha andado a discutir com Non.
— Troy Virathippol, vinte e quatro anos. Irascível, caprichoso, mimado. Filho único. No ano passado, o pai ofereceu-lhe uma pista de corridas pelos anos, mas quase ninguém a frequenta por causa do feitio do dono. Nos últimos três meses, tem andado a desafiar pilotos em várias pistas e, quando não ganha, arma um escândalo, dizendo que a corrida foi viciada e que o representante da pista escolheu de propósito uma máquina mais potente do que a dele. Corre numa BMW S 1000 RR. — Fai falava do rapaz, e Dao e Fon ouviam de boca aberta, enquanto Hima apenas sorria, abraçando a esposa pela cintura.
— O quê? Olha, uma foto dele. — Fai abriu a foto de Troy no telemóvel; Fon sorriu, mas Dao estava visivelmente descontente.
— Então posso ir na tua Ducati SuperSport. Tem um pouco menos de potência do que a BMW, e eu gosto dela. — pensou Fon em voz alta e levantou-se do colo de Dao para ir pedir aos rapazes que parassem com a verificação.
— Aonde vais? — perguntou Dao, olhando para Fon.
— Vou dizer aos rapazes para voltarem ao trabalho. Da Ducati está o Non a tratar. — Fon pegou na mão de Fai e saiu com ele do escritório.
Hima e Dao seguiram-nos. Dao queria ver como reagiriam os funcionários àquela perda de tempo e de esforço, quando soubessem que Fon os tinha posto a trabalhar para nada. Fon entrou no salão de exposição, onde os rapazes examinavam as máquinas.
— Rapazes. Acabámos de saber que o visitante vem numa BMW. Desculpem tê-los posto a trabalhar em vão. — disse Fon com um sorriso, e os rapazes entreolharam-se e sorriram de volta, respondendo em coro: «não faz mal, chefe», «está tudo bem, verificação nunca é de mais», «não custou nada», «é o nosso trabalho».
Dao não queria acreditar no que ouvia: nem um único se indignou. Dao e Hima entraram no salão, e os trabalhadores inclinaram a cabeça em sinal de cumprimento. Dao ia mesmo perguntar o que se passava ali, mas Non interrompeu-o.
— Chefe... o visitante chegou. Quer conhecer o nosso piloto. — A entrada de Non estragou os planos de interrogatório de Dao, e Fon foi logo vestir o fato.
— Diz-lhe que vou ter com ele daqui a cinco minutos. Ah, e oferece-lhe um chá ou um café da parte da esposa do dono da pista. — Fon foi para o balneário, todo contente.
Non assentiu e foi ter com Troy. Dao passou a mão pelo cabelo, percebendo que ia haver sarilhos na pista.
— Que foi, Dao? — perguntou Hima.
Dao contou o encontro com Troy no restaurante, nesse mesmo dia, e que meio ano antes tinha dormido com ele. Fai sorriu, pois sabia como o amigo gostava de brincar com os ex do seu atual.
— Não te preocupes, Pi. O Fon só vai brincar com ele. — Fai deu uma palmadinha no ombro de Dao.
— São precisamente essas brincadeiras da minha esposa que me metem medo, Nong... — respondeu Dao com sinceridade.
— Vai ser um espetáculo e peras, querido. — sussurrou Fai a Hima, e este sorriu.
Hima e Fai foram até à entrada da pista para ver Troy ao vivo. Troy reconheceu Hima de imediato, mas não conhecia o rapaz ao lado dele.
— Khun Hima, boa tarde. Veio ver a corrida? — perguntou Troy, bebendo um gole de café da caneca, e Hima assentiu, enquanto Fai estudava o rapaz.
Troy é bonito: alto, de ombros largos e cintura estreita, pernas compridas. Um rapaz que sabe apresentar-se. Chegou à pista num fato preto que lhe fazia a figura ainda mais alta e esguia.
— Tenho pena dele, querido... — sussurrou Fai a Hima.
— Viemos apoiar um amigo. — respondeu, em vez dos rapazes, uma voz atrás deles.
— Pi'Prem! Há quanto tempo! — Fai sorriu-lhe, e Hima cumprimentou Prem.
— Olá, Nong Fai, e este... presumo que seja o teu marido? — quis saber Prem, ao ver a mão de Hima na cintura de Fai, e o jovem assentiu.
— Pi, este é o Hima, o meu marido. E este é o Troy, o adversário do Cerejinha hoje. — Fai não disse o nome de Fon, tentando manter o suspense até ele aparecer.
— Troy, quais são as condições da corrida? — perguntou Hima — afinal, a pista também era dele, mas Troy não o sabia, porque só tinha tratado com Non.
— Três voltas, duzentos mil. — respondeu Troy.
— E não queres mais nada? — soou uma voz um pouco mais atrás, e Hima e Fai afastaram-se, proporcionando a Fon uma entrada em grande, num fato vermelho a assentar-lhe na perfeição, de capacete na mão.
— TU! — rosnou Troy.
— Olá, Pi'Prem, ainda bem que pudeste vir. O Non recebeu-te? — perguntou Fon, sorrindo a Prem, e este assentiu.
Por trás, Dao aproximou-se de Fon e abraçou-o pela cintura. Troy fervia: nunca pensou que lhe caísse do céu uma oportunidade tão perfeita de se vingar daquele baixote.
— Quais são as condições, Pi? — insistiu Fon, e Troy sorriu com malícia.
— Se eu ganhar, dás-me duzentos mil e uma noite com o Dao. — disse Troy, cruzando os braços sobre o peito com um sorriso satisfeito.
Fon estava à espera de algo do género; já o marido, pelos vistos, não. Os olhos de Dao fuzilaram Troy, que se atrevera a fazer do dono da pista uma aposta. Ia mesmo dizer que a corrida estava cancelada quando o seu pequeno aceitou.
— Está bem. Se eu ganhar, não quero o teu dinheiro: dás-me a tua mota e, à minha frente, gravas um vídeo e publica-lo no teu Facebook, a pedir desculpa aos donos de todas as pistas onde armaste escândalo depois de perderes. Vais nomear cada pista, uma a uma. Ah, e mais: dizes no vídeo que nunca mais participas em corridas. Combinado? — propôs Fon, estendendo-lhe a mão.
— Fon! — indignou-se Fai, ao ver um Dao consternado.
— Está tudo bem, Fai. A decisão é do Fon. — disse Dao, lembrando-se de que, não havia muito tempo, também ele aceitara uma corrida em que a aposta era Fon.
— A minha mota? Porque é que eu havia de te dar a minha mota? — indignou-se Troy.
— E porque é que eu havia de te dar o meu homem? Ou a tua mota vale mais do que uma noite com o marido dos outros? — perguntou Fon, com um sorriso mordaz.
Ao ouvir aquelas palavras, Dao abriu-se num sorriso: tinha dito exatamente o mesmo, na altura, ao Dream.
— Primeiro quero saber em que vais correr, nanico. — atirou Troy, e Dao apontou para a sua Ducati.
— A minha esposa vai correr na minha Ducati. — disse Dao com um sorriso, beijando Fon na bochecha.
Troy sabia que a sua BMW era mais potente e decidiu aceitar. Fon sorriu, satisfeito, e acenou a Non, que assentiu e foi levar a Ducati para a partida.
— Espera lá... Aquele não é o dono da pista? — estranhou Troy, ao ver Non.
— Ah, desculpa. Deves ter-te confundido. Quando vieste cá à pista, eu e o Dao tínhamos ido de avião visitar os meus pais, e o Non ficou a mandar. Esta pista pertence ao Dao. E fui eu que, com toda a amabilidade, pedi ao Non que te oferecesse um café. Ele não disse que era da parte da esposa do dono? — Fon falava com toda a calma, e isso enfurecia Troy ainda mais.
— Vamos. Ainda tenho planos para a noite... Graças a ti, vou passar mais umas rondas a gemer debaixo do meu marido, por ter aceitado usá-lo como prémio. — Fon dirigiu-se à linha de partida com passo confiante.
Dao seguiu-o e, atrás, um Troy contrariado.
Fon sentou-se na mota, enquanto Dao lhe segurava o capacete nas mãos.
— Bebé... Não percas... Senão, vou ter de me livrar do cadáver dele. — disse Dao com toda a seriedade, e Fon agarrou-o pela t-shirt e puxou-o para si, beijando-o.
Dao invadiu a sua pequena boca, brincando com a sua língua até o Husky gemer bem alto. Dao sabia que era uma jogada astuta para desmoralizar o adversário. E parecia estar a resultar: Troy estava claramente nervoso. Dao desprendeu-se dos lábios dele, pôs o capacete à esposa e recuou para trás da vedação.
Fon ergueu a mão, dando ordem para ligarem o semáforo de partida. Ligaram os motores e acendeu-se o vermelho. Com o verde, Fon arrancou mais depressa do que o adversário. Nas duas primeiras voltas, Fon brincou com Troy, deixando-o vencer por uma margem pequena. Troy, embora dominasse razoavelmente a mota, cometia erros com frequência.
Dao e Prem viam perfeitamente a técnica de Fon e limitavam-se a esperar pela terceira volta. Quando Dao percebeu que a esposa estava a provocar Troy, descontraiu. Depois da segunda volta, o Lobo foi para a linha de chegada, esperar o seu Husky matreiro. Na última volta, acabaram-se as brincadeiras e o pequeno cortou a meta trinta e quatro segundos antes de Troy. Fon travou a mota a vinte centímetros do seu amado e, tirando o capacete, desceu e atirou-se para os braços do marido.
Depois da chegada, Troy ainda tentou fazer uma cena, mas as suas tentativas foram rapidamente apupadas pela multidão, que exigia o cumprimento da aposta. Os espectadores filmavam-no, e Troy não teve alternativa senão entregar a mota e gravar o vídeo para o Facebook. Estava furioso consigo mesmo por ter aceitado aquela corrida.
— Ninguém se atreve a apostar o meu marido. — disse Fon, a recuperar o fôlego, e Dao mordeu-lhe a orelha.
— Esta noite castigo-te por isso, garantidamente. Vais gemer até ficares rouco. Vou meter-te na cabeça, até ao fundo, que um marido não se usa como aposta... — disse Dao, apertando com força o rabo de Fon na mão.
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(N da A: «Ai» (อ้าย) é um prefixo tailandês informal e algo rude, usado antes do nome — entre amigos próximos soa a provocação, como aqui entre o Fon e o Fai.)