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38 – Poder absoluto (parte 2 de 2)

Em casa


Dois carros pararam no acesso à mansão. O Mix saiu e abriu a porta ao Hima e ao Fai. O Fai saiu primeiro, a ajudar o seu Gatão a levantar-se com cuidado do banco. O cachorrinho segurou-o pelo braço, a ajudá-lo a andar. O Hima tentou dizer que conseguia sozinho, mas o Fai agarrou-se com tanta força e não largou que o Gatão decidiu render-se àquele ímpeto. Toda a gente com quem se cruzavam pelo caminho baixava a cabeça. Os pais iam atrás, a segredar sobre o que dizer ao Hima acerca do Kris.


Ao entrarem em casa, o Hima e o Fai foram recebidos pelo Jah e pelo Tadao na sala de estar. Ao verem os olhos radiantes do Fai, os dois sorriram.


— Olá, amigo. Que susto que tu aqui pregaste a toda a gente. A tua esposa estava fora de si. Ainda bem que acordaste assim tão depressa; mais um bocadinho e… — o Elijah estava feliz pelo amigo, mas parou antes de acabar a frase, ao sentir sobre si o olhar afiado do Fai.
— Mais um bocadinho e já estávamos a voar de volta para os Estados Unidos — o Tadao acrescentou depressa, a tentar safar-se.
— Rapazes, vocês deviam tomar banho e descansar. Tirem de cima esse cheiro a hospital. A tia Nari faz uma coisa leve e saborosa para o almoço — disse o pai. O Fai acenou e levou o Hima para cima.
— Meu querido! Decidiste deixar-me viúvo antes do tempo? Foste tu que disseste a toda a gente aqui que não se fala no que aconteceu, e quase te escapou. Queres uma flecha, ou uma bala do Fai? — o Tadao deu uma palmada no ombro do Jah, indignado.
— Ah-ah-ah, eu só queria testar a reação do Fai às minhas palavras. Não acho que o Diabo tenha desaparecido; está só à espreita, a usar a máscara do menino bonito — respondeu o Elijah e deu um jeito no cabelo do Tadao.


Os pais e os guarda-costas ao pé entreolharam-se, a perceber que o Jah tinha razão. Aquele incidente tinha despertado o Diabo dentro do Fai, que não ia a lado nenhum e podia regressar a qualquer momento.


O Fai e o Hima subiram ao quarto e tomaram duche à vez. O Fai foi primeiro, para depois poder ajudar o Hima a tratar o ferimento e a colar o penso com adesivo. O cachorrinho ainda não ia contar nada ao Hima sobre a tatuagem, para não o preocupar à toa. Enquanto o Hima tomava duche, o Fai vestiu-se e pediu ao Smart que escondesse toda a informação sobre o tiroteio no iPad. Quando o Hima saiu do duche, o cachorrinho tratou dos pontos do seu Gatinho e ajudou-o a vestir uma t-shirt e umas calças folgadas.


— Já está? Agora já posso ver os contratos, pequenino? — o Hima sorriu com simpatia ao Fai.


O cachorrinho pegou no iPad e estendeu-o ao marido. O Hima viu que era o contrato com o Koji e começou a estudá-lo com atenção. Quando chegou à percentagem que o Masushimaru pagava ao casino, os olhos arregalaram-se-lhe. O Gatão voltou a olhar para os números e não conseguia acreditar que o Koji tinha concordado com aquelas percentagens, por isso folheou o contrato depressa até ao fim e, ao ver a assinatura {Masushimaru Koji}, ficou muito espantado.


— O quê? Espera… porque é que ele assinou isto? — o Hima decidiu perguntar de novo, para o caso de ter imaginado.
— O que é que tem de mal, querido? É 3,2% a menos do que aquilo que o Elijah ofereceu ao irmão dele — o Fai respondeu com calma, como se não estivessem a falar do chefe do Bōryokudan local, mas de um comerciante qualquer da rua.
— Isto é… quase 6% a mais do que aquilo que combinámos com ele à partida. Foste a essa reunião com o Jah? — o Hima não conseguia perceber como é que uma pessoa assim tão arrogante, prepotente e ávida por dinheiro como o Koji tinha concordado com uma percentagem tão grande.
— Não, eu só ia com o Ball e o Kai. Porquê, o que é que tem de mal? Queres que eu lhe ligue e suba a percentagem para nós? No acordo anterior, tu puseste-lhe 8,5%. Mas o proveito devia ser não só para ele, mas também para nós, por isso decidi que 14,3% chegava. Achas que devemos subir para 15%? Ligo-lhe já — o Fai pensou mesmo que o Hima o estava a repreender pela percentagem baixa, e começou a apalpar freneticamente os bolsos das calças à procura do telemóvel.
— Ei… Ei… Ei… não precisas de lhe ligar. Portaste-te muito bem, meu menino lindo. Anda cá — o Hima agarrou-lhe a mão e puxou-o para se sentar ao lado.


O Gatão deu um beijo na bochecha do Fai para ele não pensar de mais, ao perceber que o seu menino tinha achado que estava a ser repreendido por um negócio mal feito. O Hima tinha planeado negociar para subir a percentagem, pelo menos, para 10%, e nem por sombras esperava números destes.


O Hima fechou aquele documento e abriu o contrato com o Dylan. Leu-o e voltou a ver alterações interessantes nos números, com as quais nem todos os investidores concordariam, porque, em geral, eles querem receber os dividendos de forma estável e rápida. Raramente alguém aceita percentagens crescentes, porque é um grande risco, se o hotel não vier a dar grandes lucros. O Hima sabia que não seria fácil convencer uma pessoa como o Dylan a uma aventura destas.


— Toma… aqui está o teu telemóvel. Não apaguei nada, só andei a ver o email, as mensagens e as chamadas — o Fai estendeu o telemóvel ao Hima, que abriu logo as mensagens.
— Fai… o que é que aconteceu no laboratório? Porque é que o Don manda mensagens a dizer que tu o ameaçaste? — o Hima ficou em choque quando viu as mensagens do Don do dia em que o Fai pediu as pulseiras.
— Querido… eu e o Don… já resolvemos esse assunto. Ele só não queria dar as pulseiras ao Mix… — o Fai explicou-o em poucas palavras. O Hima acreditou, porque, depois disso, não havia nem uma mensagem do Don.


O Hima abriu a mensagem do dia anterior, do Koji, que aparecia como não lida.


📩 ‹Senhor Hima, não sei que assunto é que teve, que o impediu de vir à reunião. De futuro, gostaria de tratar só consigo, e de não me voltar a encontrar com a sua esposa. Senhor Fai, se está a ler isto, perdoe a minha impertinência; eu não quero ter problemas consigo.›


O Hima olhou para o Fai e para o conteúdo da mensagem, a perguntar-se o que é que o seu menino tinha dito ou feito para o chefe do Bōryokudan lhe estar a pedir desculpa. O Koji nunca tinha sido assim tão cortês com ninguém.


O Hima percorreu as chamadas e viu um número conhecido, que tinha ligado muitas vezes nestes dias, mas que não estava registado nos contactos. O Hima não conseguia lembrar-se de quem era.


— Vamos lá para fora? Apetece-me estar no caramanchão — sugeriu o Fai. O Hima acenou que sim.


Desceram, e à porta de entrada foram recebidos pelo Kai e pelo Mix.


— Podem ficar aqui, isto é a minha casa. Ninguém se ia atrever a atacar-me aqui. Eu e a minha esposa só queremos estar sentados no caramanchão, ao ar livre — ordenou o Hima.


Os rapazes entreolharam-se e olharam para o Fai, a hesitar. O que é que deviam fazer? O Fai tinha ordenado que os seguissem a todo o lado, e o Hima pedia-lhes que não fossem. O Mix, depois de avaliar os castigos que podia levar de cada um dos chefes, tomou uma decisão e acenou ao Kai.


O Hima e o Fai saíram de casa, e a dois metros deles, atrás, iam o Kai e o Mix. O Fai e o Hima ouviam-lhes os passos discretos. O Fai sorria; já o Hima franziu a testa.


— Eu disse-vos para não nos seguirem. Qual das minhas palavras é que vocês não ouviram?! — o Hima disse-o com firmeza. Os rapazes olharam para o Fai, que se voltou para eles.


O Fai sorriu e acenou ao de leve com a cabeça, a mandar os rapazes de volta para dentro. O Mix suspirou de alívio por não ter de explicar ao chefe porque é que os seguia. O Kai sorriu e foi-se embora.


— Estive fora só três dias e já não ouvem o que eu digo. Completamente desgovernados. Se calhar, devia castigá-los, para aprenderem a obedecer? — o Hima resmungava para consigo, mas o Fai ouviu tudo.
— Não sejas cruel de mais, Hia. Eles estão só preocupados contigo. Não precisas de os castigar — o Fai falou com carinho, como quem tenta consolar uma criança birrenta.


Sentaram-se juntos no banco; o Fai pousou a cabeça no ombro do Hima e abraçou-o pela cintura, por trás, com o braço são. O cachorrinho respirava o aroma do corpo do seu Gatão. O nariz e os lábios estavam-lhe tão perto do pescoço quente do Hima que este sentia o hálito morno do rapaz. Ao Fai parecia-lhe uma eternidade desde a última vez que abraçara o seu Gatão assim. Fechou os olhos e deliciou-se com aquele momento de intimidade.


O Hima, por seu lado, continha a custo a excitação que o hálito suave e quente do Fai lhe provocava no pescoço. Fazia-lhe festas nas costas com ternura, e o rapaz aconchegava-se cada vez mais.


— Fai… — o Hima chamou-o pelo nome. O cachorrinho ergueu a cabeça do ombro, a olhá-lo diretamente nos olhos.


Aqueles olhos cheios de amor e de ternura tomaram conta do juízo do Hima, e ele debruçou-se para beijar os lábios macios do cachorrinho.


O Fai não esperava aquele ímpeto do Hima e, um instante depois, a língua do Gatão já lhe trabalhava na boquinha. E foi então que o Fai percebeu quantas saudades tinha dele. Tinha tantas saudades daqueles lábios macios, daquela língua ansiosa e daquele hálito quente. O Fai respondeu ao beijo, a inclinar a cabeça de lado, para o seu homem poder entrar-lhe com a língua mais fundo na boca.


Ao ouvir o gemido suave do Hima, o Fai sentou-se logo no colo dele, maquinalmente, a enfiar os dedos do braço são no cabelo do Hima.


— Ah… — um gemido escapou-lhe dos lábios quando o Gatão lhe passou a língua pelos lábios, avermelhados do beijo.


— Hia… meu Hia… tive tantas saudades tuas… — o Fai continuou o beijo depois destas palavras.


As lágrimas escorreram pelo rosto do Fai, ao dar-se conta da enorme felicidade que era ter a pessoa que ele amava mais do que a vida a segurá-lo nos braços, a olhar para ele, a beijá-lo, a excitá-lo…


O Hima sentiu um sabor salgado na língua e, ao abrir os olhos, viu o seu menino a chorar.


— Meu menino, estás com dores? Porque é que estás a chorar? — o Hima perguntou-o com a voz trémula, sem perceber o que tinha feito de errado.


O Fai abanou a cabeça e inclinou-se para beijar o Hima ao de leve.


— Estou só feliz por estares bem, meu amor — o Fai disse-o, a cobrir de beijos carinhosos o rosto e o pescoço do Hima.


O Hima puxou o seu menino com mais força pela cintura e, a encostar-se ao pescoço dele, mordeu-o. O Fai gemeu, ao sentir um formigueiro no baixo-ventre, mas deixou que o Hima o acariciasse, a remexer-lhe no cabelo da nuca do seu Gatinho.


— Ah… para… Hia… para… estamos no caramanchão… — o Fai gemeu com a voz rouca, a lamber os lábios secos, quando a mão do Hima lhe deslizou pelas costas, por baixo das calças, a apertar-lhe o rabinho com avidez.


O Hima esforçou-se por se afastar do pescoço, que já estava quase todo vermelho de beijos e dentadas. Respirou fundo e tirou a mão de dentro das calças do Fai.


— Marido obediente… enquanto o médico não disser que o sexo não faz mal ao teu estado, vais ter de te conter, querido — o Fai disse-o sem fôlego, porque, naquele momento, punha a saúde do seu Gatão em primeiro lugar.


O Hima sorriu para o seu menino, a perceber que ia conseguir, com toda a facilidade, convencer o doutor Dew a dizer que não havia problema em fazerem sexo.


— Está bem. O Dew vem hoje? Podemos perguntar-lhe — o Hima mordeu o lábio de baixo do Fai, a puxá-lo ao de leve e a chupá-lo.


O Fai passou o braço são à volta do pescoço do Hima e continuou sentado em cima dele, a sentir bem, com o rabinho, o volume nas calças do Hima. Encostou a bochecha à bochecha do Gatão, enquanto o Hima lhe fazia festas nas costas.


— Oh… querido… coças-me as costas, sim? — o Fai pediu-o, a arquear-se para a mão do Hima chegar ao sítio que lhe fazia comichão.


O pedido foi dito com uma voz assim tão sensual e lânguida que o Hima estava pronto a atirá-lo ali mesmo para cima da mesa e a fodê-lo até um dos dois perder os sentidos — o Fai, ou ele. O Fai estava tão encostado que o Hima sentia o calor do corpo dele, e decidiu coçar, obediente, as costas do seu cachorrinho.


— Ah… siiim… é aí… mais… ah… com mais força, Hima… — o Fai gemia e remexia-se em cima dele, a tentar ajustar-se aos dedos do homem nas suas costas.
— Fai… se não paras de gemer assim, ainda te ponho a gemer mais alto por baixo de mim, mesmo em cima desta mesa! — o Hima decidiu que o cachorrinho o estava a provocar de propósito.


O Fai percebeu que, naquele momento, era melhor calar-se, porque não queria arriscar a saúde do Hima.


— Desculpa… Foi tão bom… deixei-me ir… — o Fai sussurrou ao ouvido do Hima, a acrescentar a última gota ao jarro da paciência dele.


Zás!


— Ai! O que é que estás a fazer?! — gritou o Fai, quando o Hima o ergueu pelo rabinho com uma mão e quase o atirou para cima da mesa em frente do banco.
— Eu avisei-te que parasses, Fai… mas a tua boquinha não se calava… — resmungava o Hima, a desabotoar-lhe as calças com uma mão.


Aqueles gestos excitavam o Fai de uma maneira diabólica, e ele já não conseguia resistir ao seu Gatão. O Hima olhava para o rapaz, calmamente deitado na mesa, que tinha deixado de resistir e de se indignar. 

Toda a bravata do «não podes enquanto o médico não deixar» tinha-se-lhe evaporado com um único gesto decidido. O Hima sorriu, malicioso, a tentar dar conta do cinto das calças do Fai com uma só mão.


— Hã-hã… o almoço está pronto, mas, pelos vistos, aqui já se está a fazer um piquenique ao ar livre… — brincou o Tadao, porque o Mix lhe tinha pedido que fosse chamar o Fai e o Hima para almoçar, com receio de que um dos chefes lhe torcesse o pescoço por os interromper.
— Não podias ter chegado meia hora mais tarde? — resmungou o Hima, a estender a mão ao Fai para ele se sentar.
— Pff… ah-ah-ah… E meia hora chegava-te? — o Tadao não parava.


O Fai sentou-se e olhou com um sorriso para o Tadao, que estava claramente a provocar o Hima. Desceu da mesa, a pegar em silêncio na mão do Hima. O Fai levou-o, a passar pelo Tadao, para dentro de casa. O Tadao virou-se e foi atrás deles; mesmo de costas, sentia a aura pesada do Fai.


Os três entraram em casa e foram para a cozinha, onde os pais e o Jah já os esperavam à mesa. O Dao e o Fon estavam hoje na pista, a preparar-se para a corrida não programada de amanhã.


A tia Nari distribuía a comida pelos pratos com um sorriso, feliz por ver o Fai e o Hima em casa.


Os rapazes sentaram-se à mesa, um ao lado do outro. O Tadao sentou-se ao lado do marido, em frente do Hima e do Fai. Sussurrou qualquer coisa baixinho ao Jah, que sorriu e olhou para o casal do outro lado da mesa.


— Tadao, se não paras de tagarelar, a tua língua ainda faz amizade com a mesa por meio de um pauzinho… — o Fai disse-o com calma. O Hima pousou-lhe logo a mão no joelho, por baixo da mesa, a apertá-lo com suavidade.
— Oh… Fai, não sejas mauzinho. Ele só disse: «Ainda bem que não foi o Mix a ir chamá-los. Hima, a tua esposa está abertamente a ameaçar a minha. Faz alguma coisa.» — o Elijah defendeu o Tadao.
— Desculpa, Jah. O Fai está um bocado fora de si — o Hima desculpou-se e olhou para o cachorrinho, que nem sequer ergueu a cabeça e continuou a comer.
— Come, Hia. Tens de tomar os medicamentos depois — o Fai tirou a mão do Hima do seu joelho e pousou-a na mesa.
— Já que estão os dois bem… amanhã voltamos aos Estados Unidos. O Takanahara ligou e pediu para nos encontrarmos em breve — explicou o Elijah. O Fai olhou para ele com um sorriso.
— Se tiveres alguma dificuldade com ele, podes ligar-me por videochamada, Jah — o Fai disse-o logo. O Jah acenou, a compreender.
— Ohhó… Desde quando é que tu precisas da ajuda da minha esposa, e não da minha? — o Hima ficou indignado, porque não percebia como é que o seu menino doce e gentil podia ajudar em assuntos com o chefe da máfia japonesa.
— Filho, come. Ah, esqueci-me de te dizer: o Anton ligou-me a perguntar pelas faturas do novo carregamento. Liga-lhe quando estiver tudo pronto — o Nai lembrou-se, porque, antes de saírem de Moscovo, tinham avisado o Anton do estado do Hima.
— Pai, os documentos já estão prontos, mas não tive tempo de lhos enviar, porque… me distraí na conversa com o Don. Envio-lhos depois do almoço — o Fai respondeu ao pai. O Jah e o Tadao olharam para o Fai.
— O Don fez-te alguma coisa, Fai? Diz-me, que eu trato dele — o Hima disse-o num tom sério.
— Ah-ah-ah… — o Elijah e o Tadao riram ao mesmo tempo, a lembrar-se daquela «conversa».
— O que é que tem piada? — o Hima perguntou-o com severidade.
— Oh, é só que tem piada. Essa «conversa» já anda a correr o edifício todo em anedota, Hima. Acho que, até chegares ao teu escritório, já vais ter ouvido umas quantas versões — o Elijah brincou, porque tinha passado por lá no dia anterior.


O Hima não percebeu o que se passava e decidiu continuar a comer. Depois do almoço, o Jah e o Tadao foram fazer as malas, para voltarem a Nova Iorque de manhã. Os pais saíram para verificar os hotéis e os casinos de Pattaya. O Hima e o Fai ficaram na sala de estar a ver televisão, à espera do Dew.


O Hima olhava para os guarda-costas que iam passando e teve a sensação de que faltava alguém. Tinha visto hoje quase todos os seus subordinados, porque alguns vieram mesmo ter com ele desejar-lhe saúde e rápidas melhoras.


— Pois é! Onde é que está o Kris? — o Hima sussurrou-o. O Fai virou-se para ele.


O Hima viu o King a passar e perguntou-lhe logo:


— King, onde é que está o Kris? Porque é que eu não o vi uma única vez o dia todo?


O King empalideceu e olhou para o Fai, que desligou a televisão.


— Desculpe, chefe. Não posso responder a essa pergunta — o King baixou a cabeça. O Hima fez-lhe um gesto a dispensá-lo.


O Hima foi parando os guarda-costas de vez em quando e a fazer-lhes a mesma pergunta, a receber sempre a mesma resposta. Depois do quinto que não sabia, não aguentou.


— Mix! Reúne já toda a gente que está em casa na sala de estar! Quero falar com eles! — o Hima ordenou com raiva, a perceber que lhe estavam a esconder alguma coisa.

— Sim, chefe — respondeu o Mix, e foi depressa reunir as pessoas.


Quinze minutos depois, todos os que estavam em casa estavam na sala de estar, em frente do sofá onde o Hima e o Fai estavam sentados. O Hima franzia a testa; o Fai lia o jornal com calma.


— Vou fazer só uma pergunta e quero uma resposta verdadeira! Onde é que está o Kris? E não me venham dizer que não me podem contar ou que não sabem! Se eu ouvir essa resposta mais uma vez, vai haver castigo! — o Hima falou com uma voz severa e irritada.


Todos os presentes baixaram a cabeça e ficaram calados. Alguns espreitavam de vez em quando para o Fai, que não despregava os olhos do jornal.


— Estão conluiados? Eu ordeno-vos que respondam à minha pergunta! — o Hima não gritava, mas já falava em tom elevado.


Na sala de estar, só se ouvia o farfalhar das páginas do jornal nas mãos do Fai.


— Não vais arrancar-lhes nenhuma resposta, porque eles foram proibidos de falar sobre isso — o Dew entrou pela porta, a olhar para o Fai com um sorriso.
— Quem?! Nesta casa, o poder absoluto é meu, e de mais ninguém! — o Hima ficou indignado por os seus homens, que sempre tinham cumprido as suas ordens sem pestanejar, que o respeitavam e temiam, estarem agora calados ou a esquivar-se.
— Tens a certeza? — perguntou o Fai com um sorriso e, a dobrar o jornal ao meio, atirou-o para a mesa.


Muitos dos presentes estremeceram com o estalo do jornal na superfície de vidro da mesa e baixaram ainda mais a cabeça. O Dew olhava para o Fai e para os subordinados do Hima. O Fai tinha o sorriso terno de sempre, mas as pessoas à sua frente sentiam a aura sombria e avassaladora dele.


— Estão todos dispensados — disse o Fai com calma, e as pessoas começaram a dispersar-se.
— Eu não dispensei ninguém enquanto não tiver uma resposta! — gritou o Hima. Muitos hesitaram, a olhar de novo para o Fai.


O Dew observava aquele braço-de-ferro pelo poder, ali em casa, com curiosidade, e sorria. Via que, para os subordinados, o Hima era agora como uma criança birrenta, cujas ordens se cumpriam enquanto não contrariassem as da pessoa que semeava o terror — e a cujo simples olhar eles tinham medo.


— Eu disse que estão todos livres para ir tratar dos vossos afazeres — o Fai repetiu-o, e todos se dispersaram num instante da sala de estar, a deixar ali um Hima sem perceber nada, e um Dew que mal continha o riso.
— Ah, siiim… Isto foi de outro mundo! — o Dew provocava o Hima, a sorrir para o Fai.
— O que é que foi isto agora?! — o Hima olhou para o Fai, querido e sorridente.
— O Kris… despediu-se — o Fai disse-o em poucas palavras, a desviar o olhar para o Dew.
— O quê? Quando? Porquê? Quem é que lhe deu autorização para sair? — o Hima fez as perguntas. O Dew olhou para o Fai, curioso.
— Ontem fez as malas e saiu da mansão. Não fez bem o trabalho dele, e tu ficaste ferido. Os teus pais e o Dao apoiaram a saída — o Fai respondeu quase sem mentir.


O Dew ficou impressionado com a arte do Fai de dizer a verdade com outras palavras.


— Se é mesmo assim, porque é que o meu pessoal não me contou? — o Hima começou a desconfiar de que havia ali coisa que não batia certo.
— Porque eu queria ser eu próprio a contar-to — o Fai respondeu diretamente. — Doutor Dew, vamos ao quarto lá em cima. Precisa de ver os pontos dele, e eu tenho umas perguntas para si — o Fai estendeu a mão, a convidá-lo a subir.
— Sim, chefe… — o Dew tentou mostrar ao Hima que, agora, a esposa era a pessoa mais importante da casa; mas o Hima não percebeu.


O Fai pegou na mão do Hima e puxou-o para cima, para o quarto, para o exame e para a troca do penso.


O Dew examinou os pontos do Hima e tratou-os. Disse que, dentro de quatro a cinco dias, se podiam tirar os pontos.


— Dew, responde-me a uma pergunta muito importante — o Hima virou-se logo para o Dew, que estava a examinar o Fai.
— Que pergunta? — o Dew aplicava a pomada na ferida do Fai com um cotonete.
— Eu posso fazer sexo? — o Hima perguntou-o sem rodeios. O Dew olhou para ele.


O Fai estava sentado de costas para o Hima e não conseguia ver o Hima a acenar com a cabeça, como que a persuadir o médico a dizer que sim. O Fai olhou para o Dew com um olhar severo, e o Dew percebeu que, se acontecesse alguma coisa ao Hima depois da sua autorização, o Fai esfolava-o vivo.


— Lamento muito, Khun Hima, mas, nos próximos três dias, é melhor evitar esforços. O ponto externo tem bom aspeto, mas eu não gostava de arriscar a sua vida se o ponto na veia rebentar. Volte a perguntar ao doutor Var quando ele vier. Peço desculpa, chefe — o Dew respondeu com honestidade. O Fai sorriu.
— Já terminei, chefe. Deve evitar esforços, e sobretudo o tiro com arco, no próximo mês. O seu ponto quase cedeu naquele dia. Se eu não tivesse apertado o fio na altura, teria sido preciso suturar tudo de novo — o Dew ia dizendo cada palavra mais baixo, para o Hima não ouvir.
— O que é que vocês os dois estão para aí a cochichar? — o Hima perguntou-o, aborrecido com a recusa do Dew.
— Disse à sua esposa para evitar tensão no ombro, chefe. E que não se esqueça do penso. Nenhum dos dois tem inflamação nem febre, o que é ótimo sinal. Acho que podem trabalhar, mas em casa. Podem ir ao escritório por pouco tempo. E passeiem ao ar livre com frequência — o Dew respondeu ao Hima, que acenou que sim.


Depois de tratar o ferimento do Fai, o Dew saiu apressado, a deixar os dois a sós. O Hima foi ter com o Fai e pousou a cabeça no ombro são dele, a abraçá-lo pela cintura com ternura, com um braço.


— E agora… o meu menino mau tem de me dizer de que tiro com arco é que o Dew estava a falar… — o Hima perguntou-o com carinho, em voz baixa, ao ouvido do Fai.


Raios… Doutor Dew… espera lá por mim… hei de dar melhor uso à tua língua… — pensou o Fai, a pousar a mão sobre a do Hima.


— Eu disse-te há bocado que queria fazer tiro com arco em vez da fisioterapia. Mas o doutor Dew acabou de o proibir no próximo mês — o Fai tentou safar-se, e parece que o Hima acreditou.
— Queres voltar a praticar arco? Porque é que não disseste antes? Que tal eu mandar montar um campo para isso? Ah, o espaço entre as cavalariças e o aviário serve muito bem! — o Hima queria dar ao seu menino tudo o que ele pudesse desejar.


Daquele diálogo sobre o arco, o Hima não tinha ouvido a parte sobre os pontos, porque o Dew falara muito baixo.


— A sério? Vais transformar aquele sítio num campo de tiro com arco só para mim? — o Fai perguntou-o, animado, porque também era isso que ele próprio queria.
— Aham. Tudo o que quiseres, para a minha esposa adorável — o Gatão disse-o com amor e deu um beijo na bochecha do Fai.


O Fai voltou-se para o seu Gatão e, a olhar para aqueles dois oceanos azuis sem fundo, correu-lhe a mão pela bochecha com ternura e disse:


— Hia… Eu amo-te como a rebentação ama a areia escaldante,

como os ventos amam as velas, como o que tem asas ama o azul do firmamento.

Sem ti — não vivo; és a minha expiração, e és também a minha inspiração,

és o meu silêncio, que tine como o canto de um grou…

És a felicidade e a dor, és o poente e a aurora desejada,

sem ti o tempo é pó, impossível e insuportável…

Amo-te de tal maneira que, sem ti, eu simplesmente não existo,

como não há céu sem estrelas, como não há mar — sem ondas e sem golfinhos.


O Hima olhava para o Fai, e cada palavra que saía da boca daquele rapaz doce lhe fazia bater o coração como o de um beija-flor. Aquelas palavras de amor, de mistura com saudade e dor, fizeram o Hima perceber que eles não iam conseguir viver um sem o outro.


— Amo-te, meu menino doce. O que eu mais temo é que tu deixes de olhar para mim assim… Por este olhar, eu estou pronto a dar tudo, até a vida… — disse o Hima. E o Fai lembrou-se logo de como o Gatão o tinha abraçado com força mesmo antes do disparo.
— Grava isto, meu amor. Eu vou seguir-te sempre e por todo o lado. Na vida e na morte. Se tu não estiveres ao meu lado, não tenho razão para viver. Por isso… pensa duas e três vezes, antes de arriscares a tua vida — o Fai respondeu com seriedade, a olhar para o Hima com os olhos cheios de lágrimas.


O Hima beijou logo o Fai, a puxá-lo pela cintura, e o cachorrinho abriu a boquinha, obediente, a deixar entrar a língua quente do seu homem. Escaparam algumas lagrimazinhas dos olhos do Fai. O Hima deslizou a mão da cintura para o rabinho do Fai e apertou-o com força. O Fai afastou-se dos lábios dele e, a baixar a cabeça, deixou-lhe um chupão no pescoço.


O Fai continuou a beijar-lhe o pescoço, enquanto o Hima lhe apertava o rabinho.


📲 Trum… trum… trum…


O telemóvel do Fai tocou, mas ele não o queria atender agora. Ao Hima incomodava-o aquela vibração no bolso de trás do seu cachorrinho, e tirou o telemóvel do bolso dele. O Hima ficou imóvel e franziu a testa ao ver como estava registado o contacto que ligava à sua esposa.


— Fai… queres atender? — o Hima afastou-se dele e mostrou ao Fai o telemóvel a vibrar.


O Fai desviou o olhar para o ecrã, e nos olhos passou-lhe um lampejo de raiva. O Hima reparou e já se preparava para rejeitar a chamada, mas o Fai, de repente, disse:


— Não desligues, eu falo com ele…


O Hima carregou no botão de atender, e o Fai pôs logo o telemóvel em alta voz.


📞 — [Alô… Fai? Estás a ouvir-me?] — soou uma voz masculina no telemóvel.

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