37 – Poder absoluto (parte 1 de 2)
O Hima ouviu que o Fai tinha parado de soluçar e disse:
— Menino lindo…
O Fai não se atrevia a largar a mão do Hima, com medo de que aquilo fosse um sonho. Não despregava o olhar daqueles olhos azuis.
— Tu… deixaste-me assim durante tanto tempo, Hia… Nunca… ouviste?… Nunca mais me faças isto! — o Fai falava com a voz trémula, num esforço enorme para conter as lágrimas.
— De que é que estás a falar? — o Hima tinha dificuldade em raciocinar, porque a última coisa de que se lembrava era o Kris a levá-lo ao escritório no dia da defesa do projeto do Fai.
O Hima focou a vista, olhou à volta e percebeu que estava num hospital. Ouvia bem os bipes do monitor cardíaco e os soluços do Fai. O Gatão desviou o olhar para o Fai e viu o ombro enfaixado, com o penso ensanguentado. O pulso acelerou-se-lhe logo ao perceber que o seu menino amado estava ferido.
— Quem… quem te fez isto, Fai?! — o Hima olhou para o Fai, a tentar levantar-se; mas, com a fraqueza, só conseguia erguer a cabeça.
— Hia… não te mexas, os pontos rebentam. Fica deitado. Não te lembras do que aconteceu? — o Fai apertou-lhe a mão e falou com a voz trémula.
— O que é que aconteceu? Porque é que eu estou aqui? — o Hima tentou lembrar-se, mas não conseguia.
🚪 Clac.
Os pais, o Dao e o Fon entraram pelo quarto.
— Filho… Porque é que fugiste assim de repente? O que é que aconteceu? — o pai perguntou-o, a olhar para o Fai.
O Fai ergueu a cabeça; eles viram os olhos do Fai cheios de amor. Foi como se, aos quatro, lhes tivessem tirado da alma não uma pedra, mas um rochedo.
— Pai… Mãe… O que é que aconteceu? — o Hima disse-o com a voz rouca, a virar devagar a cabeça na direção da voz do pai.
Os pais olhavam para ele com lágrimas nos olhos. O Fon agarrou-se ao peito do Dao, incapaz de conter o choro.
— Tu assustaste-nos a todos… filho… estiveste três dias sem sentidos — a Kira disse-o com a voz trémula.
— O quê? Três dias? — o Hima tentou juntar os factos, mas a ligeira confusão ainda lhe persistia.
📡 ‹Chefe. A julgar pelos batimentos cardíacos acelerados, pelos movimentos dos olhos do segundo chefe e pela pergunta «porque é que eu estou aqui?» á a possibilidade de amnésia.›
O Fai olhou para o Hima e perguntou:
— Qual é a última coisa de que te lembras, Hia?
— O Kris levou-me ao escritório no dia em que defendeste o projeto… E, depois, nada — o Hima disse-o com honestidade, ao ver a preocupação nos rostos deles.
Todos no quarto se entreolharam; e a mãe, ao olhar para o Fai, viu-o abanar a cabeça. A Kira percebeu tudo e foi logo ter com o Hima.
— Filho… dispararam sobre ti e sobre o Fai. Perdeste muito sangue e ficaste três dias sem sentidos no hospital. O Jah e o Tadao foram os primeiros a chegar; nós não conseguimos voar a tempo, por causa do tempo. Agora, o Jah e o Tadao estão em casa… a garantir que corre tudo em ordem… — a Kira não disse a verdade, porque percebeu que o Fai não a queria dizer.
O Jah e o Tadao ficaram em casa, depois da demonstração de arco do Fai, para o Kris poder fazer as malas e sair sem alvoroço. Decidiram ficar para que os outros guarda-costas não matassem o Kris na ausência dos donos. Afinal, os rapazes perceberam que o Fai não queria a morte dele, caso contrário, tê-la-ia dado ele próprio.
— Três dias? E a reunião com o Koji? Raios… O Dylan deve estar chateadíssimo por ter voado para a Tailândia à toa. Onde está o meu telemóvel? Tenho de lhes ligar e explicar tudo — o Hima começou a dar-se conta de que tinha reuniões importantes em atraso.
— Tem calma, Hia. Quando eu cheguei… — o Dao olhou para o Fai e, ao ver o olhar duro dele, parou, sem se atrever a dizer a verdade ao Hima naquele momento. — Quando eu cheguei, os contratos com eles já tinham sido enviados pelo Fai — continuou o Dao. O Hima ficou espantado.
🚪 Clac.
O doutor Var entrou no quarto, acompanhado pelo Kai.
— Finalmente, já não sou só eu que o posso ver, Khun Hima. Há quanto tempo é que está acordado? — o Var ficou espantado quando o Kai foi ter com ele, a correr, à sala dos médicos, a pedir-lhe que fosse com urgência ao quarto.
A todas as perguntas sobre a causa daquele alvoroço, o Kai só dizia que eram ordens do chefe e que ele próprio não percebia nada, porque o Fai tinha mandado, de repente, ir para o hospital.
— Eu… quando o Fai me pegou na mão e chorou… agora mesmo — o Hima virou a cabeça e viu o Fai sentado, de olhos vermelhos de tanto chorar, a segurar-lhe a mão.
Isto ainda espantou mais o Var. O médico percebeu que não tinha sido o pessoal do hospital a avisar o Fai; o Fai sabia de antemão, e por isso é que tinha mandado o Kai buscá-lo. Olhou para o Fai, em choque, porque ninguém conseguia prever quando é que um doente ia sair do coma.
— Como é que se sente? — o médico perguntou-o, a verificar a reação das pupilas à luz.
— O corpo não me obedece; os braços e as pernas parecem de algodão. E, além disso… dói-me o peito e as costas — o Hima respondeu às perguntas.
— Tem muita sorte em ter saído do coma tão depressa. Consegue dizer-me o seu nome, a morada, a data de nascimento e todas as pessoas que estão nesta sala? — o médico perguntou-o e ficou a observar o Hima.
O Hima disse tudo o que o doutor Var lhe pediu.
— Doutor Var, ele não se lembra do dia… do sucedido — o Fai respondeu pelo Hima, a perceber que o Var também suspeitava de amnésia.
— Bem… foi exatamente o que eu supus. O paciente não teve traumatismo craniano, o que quer dizer que a causa principal do coma foi uma reação psicológica de defesa do organismo. Ele pode lembrar-se desse momento mais tarde — ou pode não se lembrar nunca. De qualquer maneira, não vale a pena andar a matutar demasiado nisso — o médico explicou o seu palpite, e o Fai acenou, a compreender, porque foi exatamente isto que o Smart lhe tinha dito antes de o médico entrar.
— Vamos mantê-lo em observação ainda algum tempo. As funções motoras hão de recuperar em breve.
Mas a dor no peito e nas costas não vai desaparecer enquanto os pontos não cicatrizarem. Tem muita sorte. Se o Khun Fai tivesse entrado em pânico, se não tivesse chamado a ambulância a tempo e não tivesse feito pressão na ferida, isto podia ter acabado de outra maneira… — o médico olhou para o Fai com um sorriso, e as lágrimas voltaram a correr pelo rosto do cachorrinho.
— Filho… Não chores… Ei… — a Kira olhava para o Fai, que chorava baixinho, e nos olhos dele havia de novo ternura.
— Podemos ficar a sós, eu e o Fai, por favor? — pediu o Hima. Todos acenaram e saíram do quarto.
O Fai estava sentado ao lado do Hima, na cadeira, sem largar a mão dele, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, sem controlo.
— Anda cá, meu menino… — o Hima chamou-o, a apontar com o olhar para a cama.
O Fai ergueu os olhos para o Hima e, obediente, levantou-se da cadeira e sentou-se ao lado dele na cama.
Naquele momento, estava disposto a fazer tudo o que o Gatão lhe pedisse.
— Abraça-me, Fai… vá lá… — o Hima olhava para o rapaz a soluçar e queria consolá-lo; a visão das lágrimas apertava-lhe o coração de dor.
O Fai deitou-se ao lado dele, a pousar com cuidado a cabeça no ombro são do Hima; mas não conseguia abraçá-lo, porque o ombro doía-lhe muito, depois do arco. O Hima percebeu que o Fai não o conseguia abraçar e ergueu o próprio braço, aquele sobre o qual o Fai estava deitado, a tocar-lhe nas costas. O Fai estremeceu e, a encostar-se ao ombro dele, desatou a soluçar.
— Chiu… querido… estou contigo… Ei… Eu amo-te, como é que eu podia deixar-te sozinho? Desculpa ter-te feito preocupar. Vou de certeza encontrar quem te fez isto, mesmo que não me lembre de nada — o Hima fazia festas com ternura nas costas do Fai, que soluçava.
— Não é preciso, Hia. Esquece isso. Nunca mais me deixes… snif… estás a ouvir?… Sem ti eu morro… Não consigo respirar… snif… Ninguém mais se vai atrever a fazer-te mal — o Fai soluçava ao dizê-lo, numa voz carinhosa e trémula.
— E se eles decidirem atacar outra vez, Fai? Eu não quero que te magoem — o Hima manteve a sua posição.
— Ninguém se vai atrever a uma coisa dessas outra vez. Eu tratei disso — o Fai falava com ele tão suavemente como se estivesse a falar de gatinhos queridos na internet, e não de um assassino e de uma tentativa de homicídio.
O Hima ergueu ao de leve a cabeça e beijou o Fai no cabelo. Percebia que o seu menino tinha passado por dias difíceis. Nunca tinha visto o cachorrinho chorar. Nem quando a mãe o entregou, nem quando foi raptado. O Hima pôs-se no lugar do Fai, e um arrepio de raiva e de fúria percorreu-lhe o corpo. Se o seu cachorrinho querido estivesse entre a vida e a morte, ele também estaria a enlouquecer. Bastava-lhe olhar para o ombro ferido do Fai para querer encontrar e matar, ele próprio, quem tinha disparado sobre eles. Por isso é que ele queria lembrar-se do que se tinha passado naquele dia. Enquanto o Hima fazia festas nas costas do Fai, os soluços dele foram acalmando, a respiração estabilizou-se, e o Hima percebeu que o rapaz tinha adormecido.
— Meu menino… Desculpa ter-te feito chorar. Não volto a deixar que isso aconteça. Que curioso… defendeste o projeto? E, o mais importante… porque é que estás assim vestido? — o Hima falava baixinho, a continuar a fazer festas com ternura nas costas do Fai, a embalá-lo.
Meia hora depois, a mãe entrou e, ao ver o Fai a dormir, suspirou fundo. O Hima convidou-a, com o olhar, a sentar-se na cadeira onde o Fai estivera. Ela aproximou-se, pegou na mão do filho e olhou para o Fai.
— Mãe, podes contar-me o que aconteceu? — o Hima perguntou-o em voz baixa. A Kira desviou o olhar do Fai para o Hima e abanou a cabeça.
— Desculpa, filho, mas o médico tem razão. Não deves andar a matutar nisso. Esse assunto já ficou resolvido. Trata só de garantir que nunca mais nós voltamos a ver o Fai assim, está bem? — a mãe sussurrou-o com um sorriso.
— Mãe, se tu e o Dao chegaram depois do Jah, então foi ele que foi às reuniões? Devia agradecer-lhe a ajuda — o Hima começou a pensar de forma lógica, e o corpo ia-lhe recuperando, aos poucos.
— Os contratos assinados, deve-los ao Fai. O mérito é dele — a mãe disse-o a sorrir, a olhar para o Fai, que ressonava baixinho.
— O quê? O Fai, naquele estado, foi a reuniões? Quem é que o deixou? Porque é que ninguém o impediu? — o Hima disse-o num sussurro, com uma nota de irritação.
— Ohhó, porque é que estás zangado comigo? Pergunta ao Mix… se é que ele te responde, claro — a Kira disse-o com um sorriso, porque tinha encontrado maneira de se vingar do Mix por ele não lhe ter contado, na altura, os pormenores da reunião com o San.
— Liguei ao doutor Dew; ele chega daqui a pouco e tratamos com o hospital da questão do tratamento em casa — a Kira queria levá-lo para casa, porque sabia que o Fai não deixaria o Hima ali sozinho.
E, então, lembrou-se do Kris. A largar a mão do filho, disse:
— Descansa, filho, tenho de ligar para casa. Quando o doutor Dew chegar e combinar quando é que podes ir para casa, eu volto.
Algum tempo depois, ao som monótono do ressonar do cachorrinho, o Hima adormeceu.
A Kira levantou-se e saiu do quarto, a deixar os rapazes a sós. Tirou o telemóvel e ligou ao Jah.
📞— [Sim, senhora Kira] — o Elijah atendeu quase de imediato.
📞— "Jah, tenho ótimas notícias: o Hima acordou. Mas não se lembra de nada sobre o tiroteio. O Kris já foi embora?" — a Kira decidiu alegrá-lo primeiro.
📞— [Sim, há dez minutos. A senhora não me está a ligar sem motivo, pois não?]— o Elijah percebia muito bem que ela queria alguma coisa.
📞— "Perspicaz como sempre, Jah. Diz a toda a gente lá em casa que o Fai proibiu que se conte ao Hima o que aconteceu durante todo este tempo" — a Kira usou o Fai como escudo, para garantir que ninguém ousaria contar ao Hima quando ela saísse.
📞— [Sim, senhora. Eu digo-lhes. Como é que está o Fai?] — o Elijah perguntou-o, porque o Tadao estava ao pé dele a apertar-lhe o braço com essa pergunta.
📞— "Oh… chorou até já não poder mais e está a dormir nos braços do marido. O meu menino meigo voltou, Elijah"— a Kira parecia estar a gozar com o Fai, enquanto ele não ouvia.
📞— [Hah… Aquela versão do Fai deu arrepios até a mim. Tadao… para com isso… eu conto-te tudo já. Senhora, tenho de ir, senão vão comer-me à frente do seu pessoal] — o Jah teve de encerrar a conversa, porque o Tadao começara a mordiscar-lhe a orelha, a saber muito bem o quanto aquilo o excitava.
A Kira sorriu quando o Jah desligou e, ao virar-se, viu o Dew a vir na sua direção. Mandou um SMS e guardou o telemóvel na mala.
O Kai estava à porta do quarto do Hima, a conversar com o doutor Var. A Kira contou ao Dew que o Hima tinha acordado. Não se sabe porquê, aquela notícia trazia a toda a gente um alívio enorme.
O Dew e o Var já discutiam havia algum tempo os pormenores da transferência do Hima para tratamento em casa, quando um Fai estremunhado saiu do quarto.
— Doutor Var… gostava que viesse duas vezes por semana observar o Hima. O Kai leva-o e traz-lo. Pode escolher o horário que lhe der mais jeito — o Fai queria agradecer ao Var, a dar-lhe mais tempo com o Kai.
O doutor Var percebeu as intenções do Fai, sorriu e acenou, a saber muito bem que aquelas visitas médicas não eram propriamente necessárias.
— Bem… então, amanhã, podem levar os dois pacientes para casa. O doutor Dew sabe muito bem o que é preciso fazer. Daqui a três dias, venho ver o paciente — o Var olhou para a mãe e, depois, para o Fai e, a juntar as mãos num wai, preparava-se para ir embora.
— Doutor… espere… Kai, dá ao médico o teu ID do Line, para ele te poder ligar ou escrever quando precisar de ser buscado, e de onde — o Fai deteve o médico e voltou-se para o Kai com o pedido.
O Kai estendeu logo o telemóvel ao médico, que corou um bocadinho com uma ajuda assim tão óbvia da parte do Fai. O Kai e o Var adicionaram-se um ao outro no Line, e o Fai ficou satisfeito, com um sorriso. O doutor Var saiu apressado, a deixar o Dew a explicar à Kira os pormenores da alta do Hima e do Fai. O Fai voltou ao quarto do Hima e, a sentar-se na cadeira ao lado da cama, por hábito, adormeceu.
🍃 🍃 🍃
Dia da alta
Na manhã seguinte, ao acordar, o Hima viu o Fai sentado na cadeira ao lado da cama. O seu cachorrinho querido estava deitado de bruços na cama, a segurar a mão do Hima. O Hima franziu a testa ao perceber que o Fai tinha passado a noite toda naquela posição desconfortável. Moveu ao de leve a mão que o Fai segurava, e o Fai abriu logo os olhos.
— O que foi? Estás desconfortável, Hia? Desculpa, voltei a adormecer aqui — o Fai ergueu-se de repente, com uma voz sonolenta e culpada.
— Fai, tu tens de dormir numa cama, e não numa cadeira desconfortável — o Hima repreendeu-o. O Fai sorriu com o seu sorriso querido.
— Está bem, Hia. Prometo que, esta noite, durmo numa cama! — o Fai disse-o com entusiasmo e beijou a mão do Hima.
— Estou com tanta fome… — o Gatão olhou para o Fai.
— Oh… já vou… — o Fai levantou-se depressa da cadeira, mas o Hima agarrou-lhe a mão.
— Não precisas de chamar ninguém; vamos comer os dois lá fora? Prometo que não me apresso — o Hima implorou-o, e o Fai cedeu ao ver os olhos azuis suplicantes. — Mas, primeiro… leva-me à casa de banho — o Hima percebeu que o seu menino ia ficar preocupado se ele resolvesse ir a algum sítio sozinho.
O Hima sentou-se na cama com cuidado; o peito e as costas doíam-lhe, mas era suportável. O Fai amparava-o, embora o Hima andasse com bastante firmeza. O Fai via isso e não conseguia deixar de sorrir. Virava-se a toda a hora para olhar para o Hima.
— Queres que te ajude a tirar as calças? — perguntou o cachorrinho a sorrir, ao entrar com o Hima na casa de banho, sem qualquer segunda intenção.
O Hima virou-se, olhou para ele e imaginou logo o quadro: o Fai, de frente para si, a desatar-lhe os cordões das calças do hospital, a puxá-las com cuidado, com aquele sorriso tão doce como o de agora, a pôr-se de joelhos… Com aqueles pensamentos, uma onda de excitação percorreu-lhe logo o corpo.
O Fai reparou que o Hima se tinha calado e olhou para ele. Notou-lhe as bochechas ligeiramente rosadas e pensou que o Hima estava embaraçado.
— Ei… não te acanhes; enquanto estiveste sem sentidos, achas que eu ia deixar alguém tocar-te no corpo? — o Fai quis logo remediar a situação, mas só a piorou.
— Está bem… ajuda-me — disse o Gatão com um sorriso, e pôs-se em frente da sanita.
O Fai desatou-lhe os cordões das calças mas, quando começou a puxá-las do corpo do Hima, elas prenderam-se, traiçoeiras, no membro que se ia excitando. O Fai baixou o olhar e, ao ver a reação do seu Gatinho ao seu toque, sorriu.
— Então… não foste só tu que te levantaste, ele também? Hia, nem sonhes com sexo na próxima semana. Ainda não perguntei ao médico sobre isso. Por isso… faz o que tens a fazer e vamos tomar o pequeno-almoço — o Fai repreendeu o Hima.
— Ei, era eu que te devia ralhar por teres ido a reuniões nesse estado. Devolve-me o telemóvel — e de onde é que veio esta pulseira no meu braço? — o Hima olhou e reparou numa pulseira no braço que, de certeza, não tinha posto — ou, pelo menos, não se lembrava.
— Ah, não a tires. Vê, eu tenho uma igual. O Smart usa-as para monitorizar os nossos sinais vitais — respondeu o Fai, já habituado à presença do Smart.
Depois do tiroteio, não tinha voltado a tirar o auricular do ouvido.
— Bom… dos assuntos de hoje e das tuas reuniões tratam o Dao ou a mãe e o pai. Sei que queres ver os contratos assinados, certo? — o Fai decidiu virar a conversa para o trabalho, para aliviar a excitação do Hima.
— Sim. Eu sei como é que o Koji pode ser. Ele queria uma percentagem muito baixa no casino; na reunião, eu tencionava negociar para a subir — o Hima estava preocupado com a possibilidade de o Koji ter forçado o seu menino a assinar um contrato com uma percentagem baixa.
— Sê um marido obediente, e eu mostro-te os contratos em casa e devolvo-te o telemóvel. Entretanto… vai lavar as mãos e vamos comer — o Fai disse-o com tanto carinho que o Hima sorriu logo, embora, no timbre do Fai, houvesse umas notas que ele nunca antes lhe tinha conhecido.
O Hima acenou, lavou as mãos, obediente, pegou na mão do Fai e foram para a porta do quarto. No corredor, estavam o Kai e o Mix. Ao ouvirem o som da porta, baixaram logo a cabeça.
— Vamos ao refeitório. Vocês também têm de tomar o pequeno-almoço connosco. O doutor Dew não vos vai trazer o pequeno-almoço hoje — disse o Fai, porque hoje, depois do exame da manhã, o Hima e o Fai iam para casa.
— Sim, chefe — disseram os rapazes em uníssono. O Hima ficou espantado com o comportamento deles.
— Ah, quase me esquecia. Hia, o Kai e o Mix são, agora, os nossos guarda-costas pessoais. Não podes ir a lado nenhum sozinho, sem o Mix — o Fai explicou-o ao Hima, que olhou para o cachorrinho com surpresa, mas acenou que sim.
O Hima decidiu comer primeiro e ir para casa, porque estava muito preocupado com os negócios que a sua esposa tinha feito. Ao entrarem no refeitório, o Fai pediu ao Kai e ao Mix que trouxessem uma papa leve ao Hima e, para si, arroz com legumes.
Os rapazes acenaram e foram cumprir a ordem. O Mix suspirou de alívio ao ver, à sua frente, o Fai do costume.
— Ufa… Finalmente, o chefe acordou, e o Khun Fai voltou a ser o mesmo. Fiquei com arrepios com aquela versão da esposa do chefe. Quem havia de dizer que aquele rapaz bom e sorridente se podia transformar num tigre implacável e sanguinário… — o Mix ia com o Kai até à zona de distribuição da comida, a ruminar em voz alta.
— Pois é. Eu admiro o Khun Fai. Um feitio assim tão forte — e não matou ninguém. Até teve dó do Kris, embora eu, depois de saber tudo, quisesse dar-lhe uma bala na testa — o Kai puxou pela conversa. O Mix acenou.
— Tsss… O chefe proibiu que se falasse de tudo o que aconteceu nestes três dias. Se o Khun Hima ouvir, voltamos a ver o Tigre mau — o Mix travou logo o Kai.
O Kai sorriu, a perceber que, agora, o Fai ia ser temido. Pegaram na comida dos chefes e voltaram para a mesa.
— Podem escolher qualquer prato daqui. Quero que comam connosco — o Fai olhou para os rapazes; eles baixaram a cabeça e foram buscar comida.
Ao voltarem, sentaram-se os dois à mesa do Hima e do Fai. O Hima ficou espantado com a obediência dos seus homens.
— Mix… a mãe disse para te perguntar: que raio é que vos deu, para deixarem o Fai ferido ir a reuniões? — o Hima lembrou-se logo e perguntou-o à frente do Fai.
Ao Mix caiu-lhe a colher, a cara empalideceu-lhe e o olhar subiu-lhe para o Fai. O Fai olhou para o Mix pálido e percebeu que a mãe tinha decidido vingar-se dele por não lhe ter contado os pormenores da reunião com o San. O Fai sorriu e decidiu dar cobertura à lealdade do Mix.
— Hia, e porque é que eles me haviam de impedir? Quem é que se ia atrever a dizer alguma coisa contra a tua esposa, hã? Se tu acordasses e soubesses que eles me tinham desobedecido, castigava-los, não é? — o Fai disse-o com naturalidade, como que a confirmar a autoridade do Hima em casa, como chefe.
— Porque é que me parece isto mais uma desculpa do que a verdade? — o Hima perguntou-o em resposta, sem responder às perguntas do seu menino, que se limitou a encolher os ombros.
O Kai e o Mix entreolharam-se e continuaram a comer em silêncio. Depois do pequeno-almoço, o Hima e o Fai voltaram ao quarto do Hima.
🍃 🍃 🍃
Algum tempo depois, os pais chegaram com roupa para os rapazes se mudarem. O Fai ajudou o Hima a vestir-se e, a deixá-lo com os pais, voltou ao seu quarto para se mudar, tratar da tatuagem e juntar as coisas. Depois disso, o cachorrinho voltou ao quarto do Hima. Mais tarde, chegou o doutor Var, examinou os dois rapazes, receitou-lhes os medicamentos e deu-lhes as recomendações de fisioterapia. Agora, à frente do Hima, insistiu no penso de suporte para o Fai, e ele acenou logo que sim. O Var ficou espantado com uma concordância assim tão rápida, uma vez que, antes, o Fai tinha dito que não precisava.