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36 – Verdade (parte 2 de 2)

Ao ouvir o som do fim do cronómetro, o Fai levantou-se e, a olhar para o San, disse:


— Considere isto a sua segunda oportunidade, Khun San. Espero que nunca mais nos voltemos a ver em circunstâncias destas. Agora, o senhor já sabe o que tem de fazer. Não se esqueça de cancelar a reunião com o Pi'Dao. Ah, daqui a dez minutos o telemóvel da sua filha vai voltar a ter rede, e o senhor vai poder ligar-lhe.


O Fai saiu da sala, acompanhado pelo Mix. Ouvia bem o telemóvel a vibrar no bolso do Mix.


— Raios… atende lá o telefone. Diz à mãe que me levaste ao supermercado comprar roupa e, depois, a uma reunião, e que vamos voltar em breve para o hospital. Se eu souber que a conversa de hoje com o San chegou aos ouvidos de alguém, o castigo vai ser severo — disse o Fai. O Mix ficou espantado, porque nem ele sabia quem estava a ligar, já que o telemóvel estava no bolso.


O Mix tirou o telemóvel, e o queixo caiu-lhe quando viu o nome de quem ligava: [Khun Kira]. Carregou no botão de atender, a abrir a porta do carro ao Fai, e disse tudo o que o Fai lhe tinha pedido, sem ousar desobedecer, depois do que se tinha passado no restaurante.


Já sentado ao volante, terminou a chamada e perguntou baixinho:


— Chefe… de volta ao hospital? — e o Fai acenou que sim, com um sorriso.


🍃 🍃 🍃


De volta ao andar, já lá estava à espera uma delegação, com a mãe à cabeça, cujas sobrancelhas pareciam atadas num laço. O Fai foi ter com eles como se nada fosse.


— Estão aqui todos à minha espera, é? — o Fai correu-os a todos com o olhar e encaminhou-se para o quarto. — Entrem, ou vão fazer uma cena no corredor do hospital? — o Fai disse-o sem se virar e entrou no quarto.


Os pais, o Dao e o Fon foram atrás dele. Quando entraram, o Fai já estava a pôr o colar da mãe.


— Onde estiveste, Fai? E porque é que foste só com o Mix? — o Fon decidiu perguntar logo, porque estava zangado com ele.
— Já te disse, o cliente remarcou a reunião. Por isso, tive de ir tratar disso. Não posso ir a uma reunião de t-shirt e calças, pois não? E para que é que eu ia precisar de muitos guarda-costas? — o Fai disse-o com calma e naturalidade, como se fosse uma coisa que fazia todos os dias.
— Mix! Diz-me a verdade! — a Kira perguntou logo, num tom sério, a olhar para o Mix, à porta.
— Khun… Khun Kira, foi tudo tal e qual como o chefe diz — disse o Mix, e baixou logo o olhar.
— Mãe, olha só como ele tem medo de ti, nem consegue erguer o olhar — o Fai virou o jogo a seu favor. — Vieram cá em bando para me atacar? Não acham que é injusto? Eu sou um só, e vocês são muitos — o Fai perguntou-o com uma nota de indignação na voz. O Mix olhou para ele, perplexo.


Afinal de contas, tinha sido o próprio Fai que, meia hora antes, estava sentado à frente de nove pessoas, com pistolas apontadas a ele, e, nessa altura, não dizia disparates destes. Ainda por cima, parecera ser ele a controlar a situação, naquela sala. Estas mudanças no comportamento do Fai assustavam o Mix ainda mais.


— Pi, tu e a mãe não têm de ir a uma reunião? Posso ir convosco? — o Fai fingiu que perguntava, mas só queria saber se o San tinha ligado e o que dissera.
— NÃO! — disseram todos em uníssono. O Fai riu.
— Filho, o que é que eu posso fazer para o meu menino meigo voltar a ser o mesmo? — a Kira olhou para o Fai e, a pegar-lhe na mão, perguntou-o com preocupação.
— Podes acordá-lo? — o Fai perguntou-o sem rodeios. A Kira olhou para ele com dor nos olhos.


📡 ‹Chefe, o San ligou ao Martin e rescindiu o acordo. A secretária dele reservou um bilhete para Inglaterra para a Yufa, para amanhã.›


O Fai sorriu, satisfeito por ter conseguido proteger o Hima. Era aquele sorriso meigo e doce que os presentes no quarto não viam havia vinte e quatro horas.


— Já posso ir ao Hia? Conversamos ao almoço — o Fai decidiu fugir daqueles olhares inquisidores e cheios de pena.


Foi para o quarto do Hima, a deixar os visitantes ali no quarto.


— Mix! Anda cá! — soou a voz da Kira, mal ouviu o clique da porta do quarto do filho a fechar-se.
— Sim, Khun Kira? — o Mix entrou no quarto e, ao ver o olhar dela, percebeu que estava perante uma escolha difícil.
— Aonde é que vocês foram hoje, tu e o Fai? Com quem foi a reunião? — perguntou ela com firmeza.
— Khun Kira… desculpe… mas é melhor perguntar ao chefe — o Mix baixou a cabeça, consciente de que o castigo da Kira seria, claramente, mais brando do que o do Fai.
— Não tens medo de que eu te castigue, por te recusares, Mix? — a Kira continuou no mesmo tom.
— Minha senhora… se me quiser castigar, pode fazê-lo. Mas eu não lhe posso dizer. Peço desculpa, Khun Kira — o Mix baixou a cabeça e ergueu as mãos num wai, por respeito à mãe do seu chefe; mas, se tivesse de escolher entre a fúria dela e a fúria do Fai, não estava, de todo, disposto a irritar o Tigre.
— Ohhó… quando é que as pessoas desta casa deixaram de me respeitar? — a Kira perguntou-o com desagrado, a olhar para o Mix.
— Eu respeito-a, Khun Kira, mas o Khun Fai… ele mete-me um medo de morte. Tudo o que eu lhe posso dizer é isto: este tigre sanguinário só pode ser travado pelo dragão adormecido — confessou o Mix com honestidade.


A Kira olhou para o Mix e percebeu que não ia arrancar-lhe resposta nenhuma. Já tinha adivinhado que o San não cancelara a reunião por acaso. Mas o que a tinha surpreendido, a ela e ao Dao, foi o tom do San. 

Ele ligou e pediu desculpa por lhes ter feito perder tempo. O San disse «desculpe» e «com licença» várias vezes — o que não era nada dele. Normalmente, o San era sempre arrogante e atrevido; mas hoje, parecia abatido.


🍃 🍃 🍃


Entretanto, o Fai


O Fai entrou no quarto do Hima e sentou-se na cadeira em frente da cama, que já ninguém tirava. Pegou na mão do Hima e, a inclinar-se, beijou-a.


— Hia… podes voltar para mim? Agora, já ninguém se vai atrever a pensar sequer mal de ti… Eu resolvi tudo, amor… Abre os olhos… estás a ouvir-me… Só faltam o atirador e o Kris… se não acordares… trato eu mesmo deles… — o Fai fazia festas na mão do Hima e falava com meiguice, como quem conta uma história para adormecer.


Durante um tempo, ficou só ali sentado, calado, a segurar a mão do Hima. Pensava no que fazer a seguir.


📡 ‹Chefe, o Mix não disse nada à Kira. Disse, textualmente: «Este tigre sanguinário só pode ser travado pelo dragão adormecido.›


O Fai sorriu com aquela metáfora, e um pensamento atravessou-lhe a cabeça. Levantou-se, deu um beijo nos lábios do Hima e saiu do quarto.


— Volto já, meu amor — disse o Fai baixinho.


À saída do quarto, ergueu os olhos e viu o Kai a aproximar-se do seu quarto, vindo do lado do elevador. O Fai olhou para as horas — marcavam 13h59 — e sorriu. O Kai olhou para o Fai, nervoso, ao vê-lo no fato preto.


O Fai pareceu perceber o que o seu guarda-costas estava a pensar e, com um sorriso, decidiu responder-lhe logo, sem esperar pela pergunta:


— Está tudo bem, Kai. Eu só estive numa reunião, por isso é que estou assim vestido. Não te preocupes, não é luto.


O Fai entrou no quarto, onde a família o esperava.


— Vamos comer alguma coisa? Já não comemos juntos há tanto tempo, pois não? Aqui perto há um restaurante bem jeitoso, que acham? — perguntou o Fai e, a tirar a carteira da mochila e a agarrar o Fon pelo braço, arrastou-o para fora do quarto.


O Dao nem teve tempo de reagir e de agarrar o seu Husky, por isso teve de ir atrás deles, para que o Fai não metesse o seu menino em sarilhos. A seguir a eles, foram também os pais, com um suspiro fundo, ao perceberem que o Fai andava a tramar alguma coisa outra vez. O Kai foi logo atrás do Fai e do Fon, sem que lho pedissem, porque sabia que tinha de proteger o Fai.


— Fon… tu és meu amigo, certo? — perguntou o Fai, a passar-lhe o braço à volta do pescoço.
— O que é que tu queres, Fai? — o Fon percebeu que não era uma pergunta qualquer.
— Eu quero fazer uma tatuagem… — o Fai disse-o com franqueza. O Fon virou-se para ele.
— E o teu marido? Ele deu-te autorização? O que é que vai acontecer quando ele souber? — perguntou o Fon, a olhar para o amigo.
— Eu quero fazê-la por ele, Fon… — a voz do Fai ficou triste.
— Oh… Está bem… vamos a isso. O que é que precisas de mim? — perguntou o Fon, a pensar que, se o Fai mais tarde mudasse de ideias, a tatuagem podia sempre remover-se.
— Posso ajudar? — perguntou o Kai baixinho. Os rapazes viraram-se.
— Eu penso ao almoço e mando-te mensagem, Fon; e tu, Kai… entra só no meu jogo — respondeu o Fai e olhou para eles com interesse.


Chegaram ao restaurante e sentaram-se a almoçar. Nesse tempo, o Smart tentava montar um cenário em que o Fai, o Fon e o Kai pudessem escapulir-se dos pais sem levantar suspeitas. O Fai tirou os comprimidos do bolso e tomou-os antes de comer.


📡 ‹Chefe, a Khun Kira e o Dao têm uma reunião daqui a 1 hora e 17 minutos. Basta ganhar tempo. O Fon pode oferecer-se para ficar de olho em si.›


— Dao, como vão as coisas na pista? — o Fai decidiu puxar conversa.
— Está tudo bem lá; o Non desenrascou-se muito bem enquanto eu estive fora — respondeu o Dao com franqueza e olhou para o Fai.
— Fai, filho, diz-me lá: a que reunião é que tu foste hoje? — a mãe decidiu perguntar, já que foi o próprio Fai a puxar conversa sobre trabalho.
— O Mix não confessou, pois não, mãe? — o Fai perguntou-o, embora soubesse a resposta.
— Eu quero saber, Fai. Com quem é que estiveste? — a Kira não desarmava.
— Está bem… estive numa reunião com o Masushimaru Koji. Pi'Dao, podes ligar-lhe tu mesmo e perguntar — ele vai dizer que nós nos vimos hoje — o Fai não mentiu, porque o Koji também tinha estado na reunião.
— Diz-me, filho: o San também lá estava? — o Nai decidiu perguntar diretamente, cansado das evasivas do Fai.
— Sim. O Khun San também lá estava — o Fai não negou e continuou, com todo o gosto, a comer pad thai.
— Fai! Sabes que tipo de pessoa é que ele é?! Como é que pudeste ir a uma reunião com ele só com o Mix?! E se ele te tivesse matado, Fai? O que é que eu tinha depois de dizer ao Hima, se tu morresses? — a Kira começou a levantar o tom, e as pessoas à volta começaram a virar-se.
— Mãe, chega. Se tu e o Dao fossem a essa reunião, tinham perdido os dois casinos pelos quais eu fechei ontem o negócio com o Koji. E sabes porquê, mãe? Porque tu não conseguiste encontrar nada sobre o tiroteio, pois não? — o Fai explicou-o num tom calmo, porque sabia que tinha razão.


A Kira ficou calada, porque, no próprio dia em que o Fai tinha ligado, ela contactou o Dark,  mas ele não conseguiu encontrar nada. Era estranho: quando não há nenhuma informação nem nenhum rasto, isso quer dizer que o mandante se preparou muito bem e apagou todos os vestígios.


— Os vossos informadores não conseguiram encontrar nem um bocadinho de vídeo, pois não? E tudo o que têm é aquilo de que eu me lembro, ou aquilo que o Kris sabe. Mas tu não suspeitas dele, pois não, mãe? Porque ele nunca ousaria fazer mal ao Hima,  porque o Kris ama-o. Tu achas que eu o mandei para casa por ressentimento ou por ciúme, e que o proíbo de sair da propriedade ou de saber do estado do Hia; mas não é isso. Se estão mesmo tão ansiosos por saber a verdade, eu estou pronto para vo-la revelar. Hoje, às 18h00, eu vou a casa. Que me preparem um arco leve e três flechas. Quero que toda a gente que trabalha na casa esteja lá, até os que vêm a título temporário, como o doutor Dew — o Fai queria esperar pelo terceiro dia desde a tentativa de assassínio, porque, então, o atirador devia vir buscar o Kris.


📩 Tlim.


Os telemóveis da Kira e do Dao receberam a notificação da reunião, e os dois entreolharam-se.


— Vocês podem ir à reunião, que eu fico com o Fon e o Kai. Se estão assim tão preocupados que eu me porte mal, então que fique também um dos vossos guarda-costas. Não me importo — o Fai disse-o sem rodeios, a beber bubble tea por uma palhinha.
— Pi, eu fico de olho nele. Podem ir. Não deixo que ele faça asneira — o Fon apoiou logo o Fai.
— Khun Kira, sou eu mesmo que os levo a casa hoje. Chefe, podemos passar a comprar o arco e as flechas de que precisa. Aqui perto há uma loja de artigos de desporto — o Kai pôs uma expressão de responsabilidade na cara, e o Fai sorriu com o ar simpático dele.


Ah, agora percebo por que é que o doutor Var gostou dele — pensou o Fai.


— Kai! Se lhes acontecer alguma coisa, a responsabilidade toda é tua! — a Kira disse-o num tom sério e, a levantar-se da mesa com o marido e o Dao, foram para o carro.
— Uf… Foi difícil, Fai! Tu bem sabes que eu odeio mentir! — o Fon deu um murro no ombro do amigo, e o Fai fez uma careta, porque era o ombro ferido.
— Oh, desculpa — o Fon desculpou-se e olhou para o Fai.
— Então, vamos? O estúdio fica no segundo andar. Tens só duas horas, chegas a tempo? — perguntou o Fon.
— Acho que sim — o Fai levantou-se, a deixar 1500 baht na mesa pelo almoço.


Os três subiram ao segundo andar, à procura de um estúdio de tatuagens. O Smart explicou-lhe o caminho depressa, e o Fai foi para lá. Ao entrarem, viram lá um homem com os braços cobertos de tatuagens até ao pescoço. O Fai percebeu que era o tatuador e contou-lhe logo o que queria tatuar. O homem perguntou o tamanho e o sítio e, ao ouvir a resposta do Fai, disse que ia levar cerca de duas horas. 


O Fai concordou e acomodou-se logo na cadeira. O Kai e o Fon decidiram não esperar por ele e foram comprar o arco e as flechas. O Fon lembrava-se do tipo de arco com que o Fai atirava, porque, às vezes, ia com ele. Os dois foram a uma loja de desporto, onde o Fon escolheu um arco desportivo clássico Bowmaster Recruit 68. Depois da compra do arco, os rapazes voltaram ao estúdio para esperar pelo Fai. 


Duas horas depois, o Fai saiu do estúdio de tatuagens, satisfeito com o resultado. O tatuador deu-lhe as recomendações para cuidar da tatuagem. Pagaram e apanharam um táxi para o hospital.


O Fai foi primeiro ter com o Hima e, ao beijá-lo com ternura nos lábios, disse:


— Desculpa, Hia… Hoje é mesmo o dia em que toda a gente vai saber a verdade.


O Fai saiu do quarto e, a tirar o arco das mãos do Fon, encaminhou-se para a saída, com o Fon e o Kai. No estacionamento, esperava-os um carro, ao volante do qual estava o Kat. Quarenta minutos depois, chegaram à mansão, em cujo salão de banquetes já os esperava quase toda a equipa.


O Kris e alguns outros guarda-costas estavam na sala de estar quando o Fai entrou.


— Tu! Achas que, só por foderes com o chefe, isso te dá o direito de dar ordens nesta casa? — o Kris gritou, incapaz de conter a deceção ao ver o fato com que o Fai tinha chegado.


O Fai não se dera ao trabalho de mudar o fato preto e veio diretamente com ele. O Kai avançou logo, a tentar pôr-se à frente do Fai, mas ele só levantou a mão, a proibi-lo. O Kai parou, obediente, ao lado do Fai.


— Ainda te atreves a levantar-me a voz, Kris? — o Fai perguntou-o num tom baixo.


O Kris estava no meio da sala de estar, e atrás dele estavam sete guarda-costas.


— Pelos vistos, juntaram-se aqui todos os que estão descontentes comigo, para apoiarem o Kris? Bom… hoje, cada um vai receber aquilo que merece… — a correr todos os presentes com um olhar que gelava o sangue nas veias, o Fai passou, desafiador, pelo Kris e a companhia dele.
— Não te atrases, Kris. Daqui a sete minutos, tens de estar no salão de banquetes. Tu queres saber como é que o meu marido está, não queres? — sem se virar, o Fai disse-o enquanto subia as escadas, com a mão ferida no bolso das calças.


Aquela imagem era assim tão atraente e assustadora ao mesmo tempo que alguns dos que estavam atrás do Kris ficaram com arrepios.


O Kris cerrou os dentes e arrastou-se atrás deles. O Fai entrou no salão de banquetes, onde estavam sentados os pais e o Dao. O Fon sentou-se logo ao lado do seu Lobo, a segurar-lhe a mão. O Dao beijou o Fon com ternura na bochecha, e o Fai sorriu com a ternura dos dois.


— Kai, preciso de um projetor. Traz e liga. Depois de estarem todos reunidos, tranca as portas à chave e dá a chave à minha mãe — o Fai disse-o ao Kai em voz baixa. O Kai acenou e saiu do salão.


O Fai aproximou-se dos pais e não se sentou ao lado deles; ficou só de pé, a observar as pessoas que iam chegando.


— Fai… O que é que estás a tramar? — perguntou o pai, ao ver a expressão tensa no rosto do Fai.
— Tenho uma coisa para contar e mostrar a toda a gente — respondeu o Fai, ao ver o Kai entrar com o projetor.


O Fai olhou para as horas e viu que faltavam dois minutos para as 18h00. Foi ter com o Kai e ajudou a instalar o projetor na grande parede branca do salão, para todos verem bem.


— Fecha a porta e as cortinas, Kai. Daqui para a frente, trato eu — o Fai mandou o Kai acabar os últimos preparativos.


O Kai acenou, obediente, e foi cumprir as tarefas. O Fai pediu baixinho ao Smart que ligasse o iPad ao projetor por Wi-Fi e preparasse a segunda parte do plano deles.


O Kai fechou as cortinas e, depois de se certificar de que já não subia mais ninguém pelas escadas, trancou a porta à chave.


— O chefe disse para lhe entregar isto, Khun Kira — foi ter com a mãe do Hima e estendeu-lhe a chave.


A Kira olhou para o Kai com perplexidade e desviou o olhar para o Fai, que acenou. Ela pegou na chave da mão do jovem e pousou-a na mesa à sua frente.


O Fai acabou de tratar do projetor e foi para a mesa dos pais, mas não se sentou. Ficou de pé, com o tablet nas mãos. O olhar dele voltou a ser de gelar a alma, e a aura intimidante regressou. Quando o Fai deu um passo em frente e correu com o olhar os presentes, instalou-se no salão um silêncio de morte.


— Todos vocês se estão a perguntar por que é que eu vos reuni aqui hoje. Muitos de vocês já sabem que o Khun Hima está no hospital, em estado grave. Toda a gente quer saber a verdade… Mas estão preparados para esta verdade? — o Fai falava numa voz alta e imperiosa, a olhar para o Kris.
— Vai direto ao assunto; se tens alguma coisa para dizer, di-la — o Kris disse-o em voz alta, e as pessoas à volta dele fizeram barulho, a apoiá-lo.
— Kris… Nunca te perguntaste por que é que eu não te deixei ir ao hospital no dia do tiroteio? Por que é que te proibi de vir e, sequer, de te darem qualquer informação? — o Fai perguntou-o, a olhá-lo diretamente nos olhos. — O Hima, antes de perder os sentidos junto ao carro, disse-me duas palavras: «O Kris sabia.» E depois acrescentou ainda: «Não ajas sem provas.» Embora eu já tivesse as provas desde ontem, tinha de tratar primeiro da segurança do meu marido — o Fai disse-o, e o Kris empalideceu. — Eu dou-te a hipótese de confessares tudo, Kris. De confessares por tua conta — o Fai continuou a olhar o Kris nos olhos.
— Do que é que tu estás a falar? Estás a acusar-me? — o Kris ficou baralhado e não tinha a certeza de que o Fai tivesse provas.
— Oh… Kris… era a tua única hipótese, foste tu que escolheste. Kai, apaga as luzes — o Fai desviou o olhar do Kris para o Kai, que apagou as luzes. No mesmo instante, o projetor acendeu-se.
— Mãe, os teus homens andaram à procura de vídeos do local do tiroteio e das ruas em volta, certo? — perguntou o Fai. A mulher confirmou-o em voz alta. — Não os conseguiste encontrar porque eu mandei apagá-los, depois de eu ficar com eles. Vamos ver todos juntos. O meu… assistente compilou os vídeos de várias câmaras num só clipe, para se perceber melhor o que aconteceu. Vamos ver todos juntos — o Fai desbloqueou o iPad, e na parede apareceu o clipe com o momento do tiroteio.


Todos viam com atenção. Quando chegou o momento do disparo, muitos soltaram um grito. A Kira e o Nai ficaram sentados, calados; a raiva via-se-lhes no rosto.


— Vocês podem dizer que é mera coincidência e que o Kris não tem culpa de nada. Se não fosse um grande «mas»… A internet lembra-se de tudo, Kris. Mesmo que tu tenhas limpado o histórico das mensagens, isso não quer dizer que o teu cúmplice tenha feito o mesmo. Kris, este número e este avatar são teus, não são? — o Fai mostrou no ecrã as mensagens entre o Kris e a Yufa, em que eles falavam do local e da possibilidade de matar o Fai.


As capturas de ecrã iam-se sucedendo umas às outras. As pessoas à volta do Kris começaram a afastar-se, e ele não conseguia dar nem um passo.


— Kris… Eu sabia que tu amavas o Hima. Era tão óbvio que até um cego teria reparado. Deixa que te diga: se tu o conseguisses interessar, há muito que ele já teria reparado em ti. Mas foi o teu ciúme e a tua estupidez que fizeram com que o meu marido esteja agora no hospital. Estavas tão cego pelo ódio que tinhas a mim que nem reparaste na cilada do teu cúmplice — o Fai disse-o num tom calmo, a olhar para o Kris. — Ao princípio, proibi-te de vires connosco porque não me queria distrair com discussões contigo. 

Naquele momento, a minha prioridade era a vida do Hia. Mas, depois, proibi-te de saíres da propriedade por outra razão. É esta. Lê, Kris — o Fai continuou, e na parede apareceu uma captura de ecrã das mensagens da Yufa com o atirador, onde ela acrescentava dinheiro para matar o Kris, como testemunha.


O Kris leu, e nas bochechas brilharam-lhe lágrimas. A Kira levantou-se de rompante e foi na direção do Kris, mas o Fai agarrou-lhe depressa o braço, a travá-la.


— Larga-me, Fai! Por que é que me estás a travar? — gritava ela, enquanto o Fai a afastava do Kris.
— Mãe! Isto não é assunto teu, é meu! Sou eu que resolvo tudo, como eu achar melhor. Vocês estão todos aqui como observadores e testemunhas. Senta-te, mãe; se o meu castigo te parecer brando, entrego-te o Kris — o Fai travou a mãe com voz dura, e ela viu-lhe nos olhos a escuridão.


Ela queria despedaçar o Kris ali mesmo mas, ao ver o olhar do Fai, ficou curiosa com o que o seu menino andava a tramar. A Kira voltou para o lugar, e o Kris suspirou.


— Tu querias matar-me, Kris. Deste um passo atrás para abrir campo de tiro ao atirador. Mas o Hima viu o reflexo do sol na arma do atirador e cobriu-me com o próprio corpo. A pessoa que tu amaste em segredo durante tantos anos está agora em coma, no hospital, porque se sacrificou por outro. O que é que tu sentes agora, Kris? Dói? Arrependes-te? O teu coração está partido? — o Fai continuou a falar, e o Kris chorava em silêncio. — Mãe, mandei-te pelo Line a informação sobre o atirador. Nome, apelido e morada.  És tu que decides o que fazer com ele. Mas o Kris… — o Fai não acabou a frase, porque o interromperam.
— Eu aceito qualquer castigo… — disse o Kris com a voz trémula. O Fai sorriu.
— Então… no terreno entre o aviário e as cavalariças, daqui a dez minutos. Tu vais ser o meu alvo. Eu quero aprender a atirar com arco. Três flechas. Se sobreviveres, deixas esta casa para sempre — o Fai disse-o com displicência e, a pegar na chave em cima da mesa, encaminhou-se para a porta.


O Fai saiu de casa e foi à cozinha. Apanhou uma maçã de cima da mesa e, a atirá-la ao ar, foi para a rua. As pessoas do salão começaram a arrastar-se para o local do castigo. Quando o Fai lá chegou, sem pressa, as pessoas baixavam a cabeça e abriam caminho. O Kris estava sozinho; ninguém queria aproximar-se dele. 

O Kai estava de pé com o arco e as flechas nas mãos, ao lado dos pais e do Dao com o Fon.


— Isto vai ser o alvo; escolhe: seguras nela na mão, ou pões na cabeça? — o Fai chegou-se ao Kris e estendeu-lhe a maçã.
— Filho… tu tens o ombro a doer; se atirares com o arco, os pontos rebentam — a mãe estava preocupada com o Fai.
— Está tudo bem, mãe. Não é o braço que trabalha — o Fai sorriu.
— Kris! Distância de cinquenta metros, setenta e cinco metros, e o terceiro tiro a cem metros — o Fai disse-o em voz imperiosa, e o Kris foi para as marcas.


O Kris pôs-se na marca dos cinquenta metros e colocou a maçã na cabeça. Decidiu que, se ia morrer, que fosse logo.


O Fai tirou o casaco e entregou-o ao Kai; toda a gente reparou logo no ombro enfaixado do Fai e começou a segredar. O Fai pôs-se no meio do campo, a segurar o arco com o braço ferido.


— Smart… primeiro tiro a dois centímetros da orelha esquerda; com o segundo, arranha-lhe o ombro; com o terceiro, acerta na maçã. Calcula tudo, com a correção para o braço ferido, o vento e a distância — o Fai pediu ajuda ao Smart, consciente de que, com o braço ferido, não conseguia atirar como deve ser.


📡 ‹Sim, chefe. Prepare-se para atirar.›


O Fai encaixou a flecha e tensionou a corda.


📡 ‹Dois centímetros mais acima com o arco; e, quando puder atirar, eu digo «fogo», e o senhor tem de soltar a corda.›


O Fai seguiu as indicações do Smart e, com o primeiro tiro, a flecha passou a dois centímetros da orelha do Kris, exatamente como ele queria. O Kris estremeceu quando a flecha, com a ponta metálica afiada, lhe passou a raspar pela cara. Estava com medo, mas percebia que tinha merecido aquilo.


Com o segundo tiro, a flecha deixou-lhe um arranhão a sério no ombro. Os espectadores gritaram ao ver aquilo. O Kris caiu de joelhos sem querer, e a maçã caiu-lhe da cabeça.


— Último tiro, Kris. Cem metros, e vamos ficar a saber o quão bom atirador é que eu sou — o Fai gritou, para o Kris o ouvir.


O Kris engoliu em seco e foi para a marca dos cem metros. Ao lá chegar, parou e pôs a maçã na cabeça. O corpo tremia-lhe ao de leve; percebia que o Fai o podia ferir, ou até matar.


O Fai fez pontaria para o terceiro tiro. O ombro doía-lhe terrivelmente, e o penso começava a ficar vermelho com o sangue que ia escorrendo. Não tencionava parar. Queria mostrar a toda a gente que, mesmo naquele estado, estava pronto a matar pelo Hima. O Fon apertou a mão do Dao ao ver o penso vermelho, e o Dao olhou para os pais. O Dao nunca tinha visto lágrimas nos olhos da mãe, mas agora os olhos dela estavam molhados.


O Fai soltou a corda, e a flecha atravessou a maçã na cabeça do Kris. O cachorrinho apoiou o braço ferido no arco, e o Kai correu logo para ele. Tirou-lhe o arco, e o Fai foi ter com o Kris, que estava sentado no chão a soluçar.


— Hoje não te matei, não por não saber atirar, mas porque não sou um assassino. Lembra-te, Kris: o primeiro tiro quer dizer que, primeiro, tens de ouvir e de pensar, antes de fazeres o que quer que seja. O segundo, toda a ação tem consequências. E o terceiro, nunca se deve subestimar as pessoas, porque até um cachorrinho adorável pode tornar-se um tigre sanguinário. Ah, sim, e o mais importante: se eu souber que te aproximaste do meu marido ou que entraste em contacto com ele, levas uma bala na testa. Eu não dou segundas oportunidades — o Fai disse-o num tom duro e imperioso, a olhar diretamente nos olhos do Kris.
— Sim. Percebi. Vou fazer as malas e saio de casa ainda hoje. Eu… lamento, Fai… — o Kris olhava para os olhos escuros do Fai e percebia que ele não estava a brincar.


O doutor Dew foi logo ter com o Fai, com uma caixa de primeiros socorros, para lhe ver a ferida.


📡 ‹Chefe, os sinais vitais do segundo chefe começaram a mudar. Precisa de voltar; pelos meus cálculos, ele recupera a consciência daqui a trinta e cinco a quarenta e cinco minutos.›


— Kai! Para o hospital, depressa! — o Fai afastou a mão do Dew e, a dar um salto, foi a correr para o carro.

O Kai correu atrás dele e, ao sentar-se depressa ao volante, arrancou a toda a pressa para o hospital. 


Ficaram todos espantados com o comportamento dele; os pais afligiram-se e foram atrás.


O Fai mal conseguia esperar até chegar ao quarto do seu Gatão. Da casa ao hospital, o caminho leva uns quarenta e cinco minutos sem trânsito; o Kai fê-lo em trinta. O Fai subiu ao andar com o Kai.


— Kai, encontra o doutor Var. Se não estiver cá, trá-lo — a voz do Fai estava animada. O Kai não percebia o que se passava, mas acenou na mesma.


O Fai desinfetou as mãos depressa e entrou a correr no quarto do Hima. Sentou-se ao lado dele na cama, a segurar-lhe a mão como de costume.


— Hia… meu amor… espero tanto por ti… — o Fai fazia festas na mão do Hima. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. — Hia… por favor… — o Fai soluçou, a apertar a mão dele contra o seu rosto molhado.


A mão do Hima mexeu-se ao de leve na mão do Fai, e ele voltou a beijá-la. O Fai tinha medo de erguer os olhos e de olhar para o Hima.


— Fai… — uma voz rouca pronunciou o nome dele. Os soluços abrandaram…


O Fai ficou imóvel, com medo de respirar. O cachorrinho estava com tanto medo — e se tivesse imaginado aquilo? O coração pareceu parar-lhe, à espera de mais uma palavra.


— Fai… — a voz cansada repetiu de novo. O Fai afastou a cabeça da mão do Hima e, ao virar-se, viu os olhos azuis entreabertos.


O Fai percebeu que não tinha imaginado, e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto num regato, a libertar todas aquelas emoções e sentimentos que ele tinha escondido nos últimos dias.


— Hah… Aaaaah… snif… Aaaaah… — o Fai soluçava alto, sem largar a mão do Hima.


Olhava para o seu homem através do véu de lágrimas e não conseguia parar a crise.


— Não chores… — a voz calma voltou a falar, e o Fai ouviu-a.


A mão do Fai foi apertada ao de leve, e ele calou-se. Foi como se, por dentro, um interruptor tivesse feito clique, e os soluços deram lugar a um choro quieto. O Fai enxugou os olhos e, ao erguer a cabeça, viu um sorriso nos lábios do seu Gatão. Aquele sorriso pareceu-lhe uma chuva desejada e torrencial para uma arvorezinha a morrer no deserto. Como se, todos aqueles dias, o Fai tivesse estado morto e, agora, a alma voltasse a entrar-lhe no corpo.


O Hima ouviu que o Fai tinha parado de soluçar e disse:


— Menino lindo…

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