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35 – Verdade (parte 1 de 2)

📡 ‹Chefe, são 6h27 da manhã. Os guardas à porta do seu quarto e do quarto do segundo chefe não se ausentaram. Posso afirmar, com 78,32% de confiança, que o segundo chefe apresenta uma evolução positiva. A senha da informação sobre o atirador foi retirada; já a pode ler.› — o relatório matinal do Smart fez o Fai abrir os olhos de repente e esticar o braço para o telemóvel.


O Fai teve, finalmente, acesso àquela informação e, ao abrir o email, pôs-se a ler com atenção, a esforçar-se por não deixar escapar um único pormenor, por mais pequeno que fosse. Quando o Fai chegou ao momento do tiroteio, o Smart correu de novo o vídeo que tinha compilado de todas as câmaras numa só gravação, para uma melhor compreensão e visão geral. A seguir ao vídeo, o Smart abriu a informação sobre o mandante e o atirador. Agora, o Fai sabia tudo. Ficou em silêncio durante um tempo, até que a voz inesperada do Smart o fez estremecer.


📡 ‹Chefe, o seu pulso está demasiado elevado. Precisa de ser racional.›


📩 Tlim.


📡 ‹O plano de ação futura está elaborado, chefe. Enviei os pormenores para o email. É possível ajustar o plano à medida que as suas variáveis se forem alterando.›


O Fai abriu de novo o email e, ao ver o plano, sorriu.


— Entendes-me cada vez melhor, Smart.


📡 ‹Importante! Ontem, às 20h12, o San ligou para o telemóvel do Dao e propôs uma reunião. Não lhe deu pormenores, mas com base na informação de que disponho, presumo que vá propor ao Dao comprar-lhe os dois casinos pelos quais o senhor fechou ontem o negócio com o Koji. A reunião está marcada para o meio-dia, no mesmo restaurante.›


— Às oito da manhã, liga ao San e faz o que for preciso para remarcar essa reunião hora e meia mais cedo. Ninguém pode saber que o horário mudou. E não percas de vista a preciosa filha dele — o Fai deu a ordem ao Smart, a levantar-se da cama para ir até à porta. 


— Kai, vai a casa, precisas de descansar. Diz ao Mix para te substituir — o Fai viu o Kai à porta e percebeu que ele já estava de pé havia vinte e quatro horas.
— Chefe, posso render o Mix hoje à tarde? — o Kai não queria deixar o Fai por muito tempo, porque gostava de trabalhar com ele.
— Hah… realmente dás mesmo para meu guarda-costas pessoal. Está bem… à tarde estou aqui. Podes vir hoje, mas tens de dormir, no mínimo, seis horas. Não voltes cá antes das duas da tarde — o Fai sorriu, deu-lhe uma palmada no ombro e voltou para o quarto, para tomar duche e arranjar-se.
— Sim, chefe! — respondeu o Kai, todo contente, e tirou o telemóvel do bolso e ligou ao Mix.


O Fai saiu do duche e vestiu uma t-shirt e umas calças. Foi ao quarto em frente e, ao chegar-se à cama do Hima, sentou-se na beira. O cachorrinho passou a mão com ternura pela bochecha do Hima, onde já lhe tinha nascido uma barba espinhosa. O Fai foi à casa de banho do quarto do Hima e, a pegar numa bacia com água, numa toalha e numa lâmina de barbear, voltou para junto da cama.


— Até quando é que me vais torturar, meu amor? Tu tens de abrir os olhos… Os teus pais e o Dao chegaram. Estão preocupados contigo. Tu conheces a tua mãe: ela não vai deixar este assunto passar em claro, e eu não posso permitir que eles se metam nisto — o Fai falava com o Hima numa voz terna, enquanto o barbeava.


Quando acabou, mudou a água e a toalha. O Fai limpou o corpo do Hima e trocou-lhe a roupa do hospital por roupa lavada. O cachorrinho compôs o aspeto do Hima e não resistiu a deitar-se ao lado dele na cama. Deitou-se com cuidado ao pé do seu Gatão, a pousar a cabeça no ombro são dele. O braço em que estava deitado ficou-lhe dobrado no cotovelo, e a mão fazia festas no peito do Hima. O Fai bem queria abraçá-lo com o outro braço, mas doía-lhe demasiado quando tentava passá-lo à volta da cintura do Hima, por isso limitou-se a pousá-lo sobre si próprio.


— Se tu não acordares, eu morro, Hia… sem ti, eu não consigo viver… acorda, por favor… dá-me só forças para continuar a lutar… — o Fai sussurrava baixinho, sem lágrimas, sem a voz a tremer.


O Fai ficou ainda um tempo deitado com o Hima, a fazer-lhe festas no peito.


📡 ‹Chefe, o Mix chegou. Está à espera no corredor. Daqui a sete minutos, o médico entra para observar o segundo chefe.›


O Fai levantou-se da cama do Hima e sentou-se na cadeira, a segurar-lhe a mão como de costume. Às nove, tal como o Smart tinha dito, o médico entrou no quarto.


— Ainda não o tinha examinado no seu quarto, Khun Fai — disse o médico com um sorriso e, depois de verificar os sinais vitais do Hima, foi ter com o Fai, para lhe observar a ferida.
— Assim não poupa tempo para os outros pacientes? — perguntou o Fai, e sorriu.
— Aconselho-o a usar uma tala de suporte para o braço. Reduz a dor e acelera a cicatrização — o médico tentou convencer o Fai, mas ele limitou-se a abanar a cabeça.
— Está tudo bem, doutor Var. Fico bem assim — o Fai sorriu, enquanto o médico lhe mudava o penso no ombro.


O Var olhava para o Fai, e o Fai não despregava o olhar do Hima. Os olhos dele estavam tristes e cheios de dor.


— Ele não é seu irmão, pois não? — perguntou o médico, porque o comportamento do Fai não se parecia nada com o de um irmão.
— Não — respondeu o Fai secamente, sem tirar os olhos do Hima.
— Ele tem muita sorte em tê-lo, Khun. Apesar da sua ferida, é o senhor que cuida dele. Gostava de ter uma pessoa assim ao meu lado… — o médico disse-o com um sorriso nos lábios, a continuar a tratar da ferida do Fai. — Khun… posso perguntar uma coisa? — o médico hesitou e corou ligeiramente.
— Hã? — o Fai virou a cabeça para o médico e reparou no rosto dele a ficar rosado.
— Aquele jovem… que ficou toda a noite à porta do seu quarto… ele… — o médico corou ainda mais. O Fai limitou-se a sorrir.
— Oh, está a falar do Kai? Mandei-o a casa descansar. Gosta dele? — o Fai perguntou-o diretamente. O médico olhou para ele.
— Bem… é bonito… — o doutor Var não respondeu diretamente, mas aquela resposta chegou.
— Doutor Var, se gosta dele, avance. Às vezes, a vida é demasiado imprevisível. O Kai chega cá depois das 14h00 — o Fai sorriu, e o médico acenou, agradecido.


O médico terminou de tratar da ferida e mudou o penso. O Fai e o médico saíram do quarto do Hima. À porta, o Dew já esperava com as papas. O Fai convidou-o a entrar no seu quarto, com um gesto, e ambos entraram.


— Obrigado, doutor Dew — o Fai pegou num comprimido e numa garrafa de água da mesinha de cabeceira, bebeu-o depressa e sentou-se a comer.
— A Khun Kira pediu-me para lhe dizer que hoje é ela mesma que vai às reuniões com o Dao. Nong, tu tens de descansar — disse logo o Dew, e o Fai ergueu a cabeça.
— Ohhó… então a mãe mandou-o cá no papel de minha ama? — o Fai sorriu e continuou a comer.
— Ela só está preocupada contigo, Nong. Acho que estão todos preocupados contigo e com o chefe — o Dew disse o que pensava.
— Se fosse eu no lugar do Hima, o que é que ele faria, doutor Dew? — o Fai perguntou-o logo, sem rodeios, porque percebeu aonde é que o Dew queria chegar.


O Dew olhou para ele, a perceber que a resposta ia ser exatamente aquilo que o Fai queria, por isso ficou calado. O Fai sorriu, a observar a reação do Dew. Acabado o pequeno-almoço, o Fai juntou a pasta e encaminhou-se para a porta.


— Aonde vais, Nong? — perguntou logo o Dew.
— Tenho um assunto importante a tratar. Não posso faltar a esta reunião. Se quiseres ligar à minha mãe, liga; mas a tua chamada não vai influenciar a minha decisão de ir. Só a vais fazer preocupar-se à toa. Até era bom… que não ligasses de todo. Podes dizer-lhe que eu estive sempre no quarto — o Fai falava como se visse o Dew por dentro e, depois de uma pequena pausa, o tom mudou-lhe para frio e severo, pelo que ao Dew só lhe restou acenar.
— Ainda bem… — disse o Fai, com um sorriso diabólico, ao sair do quarto. — Mix, vamos — ordenou o Fai, e o Mix foi logo atrás dele.


Já longe do hospital, o Fai pediu-lhe que passasse por um supermercado, para trocar de roupa. Hoje, o Fai escolheu um top curto preto, um fato e uns sapatos. No pescoço fino, uma fita preta larga, com um pendente dourado em forma de coração. No casaco, de cada lado, uns botões dourados grandes. Todo aquele visual seria de arromba, se não fosse um «mas»… O olhar do jovem que trazia aquela roupa metia medo.


Hoje, o Fai foi só com o Mix, que o seguia calado. Não havia maneira de ele se habituar ao novo Fai, cuja aura fazia as pessoas à volta desviar o olhar e baixar os olhos. De volta ao carro, o Fai disse a morada do restaurante onde tinha tido, na véspera, a reunião com o Koji.


📩 ‹Smart, encontraste a Yufa?› — o Fai enviou a mensagem ao Smart.


📡 ‹Chefe, a Yufa está agora no Paragon a tomar o pequeno-almoço com uma amiga.›


O Fai olhou para as horas; faltavam quinze minutos para a reunião. O Mix estava quase a chegar quando o telemóvel do Fai tocou.


📞 — “Sim, Fon…” — o Fai atendeu num tom calmo.
📞 — [Que raio é isto, Fai?! Eu venho ao hospital e tu não estás cá? O doutor Dew disse que tens uma reunião qualquer. Mas ontem eu ouvi a mãe e o Dao a combinar que eram eles a tratar disso. O que é que se passa, Fai?] — a voz do Fon estava preocupada e nervosa.
📞 — “Está tudo bem. O cliente só remarcou a reunião para hoje. Para quê incomodar a mãe e o Dao, se eu posso resolver tudo sozinho?” — o Fai mentiu, a tentar não meter o Fon nisto.
📞 — [Fai, não está absolutamente nada bem! O teu marido está sem sentidos no hospital, e tu estás ferido. Assustaste quase todos os guarda-costas — eles têm medo até de olhar para ti de esguelha! E a isto chamas tu estar bem?!] — o Fon começou a gritar com o Fai, que, naquele momento, se esforçava por conter as lágrimas.
📞 — “FON! Se me estás a ligar para me ralhar, então eu desligo. Não tenho tempo para essas parvoíces!” — respondeu o Fai numa voz alta e severa.
📞 — [Está bem! Eu conto tudo à mãe!] — desatou o Fon e desligou.


Suspiro.


O Fai suspirou fundo, a perceber que tinha tomado a decisão certa, de manhã, ao não pôr o colar que a mãe lhe tinha oferecido. Desligou o telemóvel e guardou-o no bolso das calças.


— Mix! Não te esqueças de pôr o telemóvel em silêncio. Não quero problemas durante a reunião — o Fai ordenou num tom firme, e o Mix acenou que sim.


O carro parou junto ao restaurante e o Fai, acompanhado pelo Mix, subiu à mesma sala.


Sentou-se à mesa do mesmo lado que da última vez, só que, desta vez, era o San que ele esperava. 

Quinze minutos depois, a porta da sala abriu-se e o San entrou, acompanhado por quatro guarda-costas, e, atrás dele, vinha o Masushimaru Koji.


Qual não foi o espanto dos dois quando, ao virarem a cabeça, viram, em vez do Dao, o Fai a sorrir. O Koji ficou branco num instante e estacou.


— Estão cinco minutos e vinte e um segundos atrasados. Então não são os dois homens de negócios? Ou nunca ouviram a expressão «Tempo é dinheiro»? Sentem-se, que eu estou com pressa — o Fai apontou, com o olhar, para os lugares à sua frente.


Os homens dirigiram-se à mesa e sentaram-se em frente do Fai. O San examinava o Fai como quem examina uma peça de museu. As clavículas finas e salientes, a fita larga a realçar-lhe o pescoço comprido, o top pretinho a moldar-lhe o peito, a assinalar os contornos; e, por baixo do top, a barriguinha lisa, meio escondida pela borda da mesa, o que dava rédea solta à imaginação do San.


O Koji, desta vez, estava mais atrevido, porque trazia três guarda-costas — mais os quatro homens do San, e o próprio San. Ficou espantado por o Fai ter vindo só com uma pessoa.


— Porque é que estás aqui tu, e não o Dao? — o Koji decidiu perguntar primeiro.
— Que diferença faz qual dos membros da família Kittichat está presente? Vamos ao que interessa, Khun San — o Fai respondeu ao Masushimaru num tom cortante e virou-se para o San.


O San despregou o olhar do corpo do Fai, olhou-o nos olhos e engoliu em seco. Naquela altura, no leilão, só o tinha visto de relance, quando a Yufa se aproximou da mesa deles. Reparou logo que o rapaz era bonito. O San, depois da morte da mulher, nunca mais tinha conseguido voltar a ter sexo com mulheres — mas ganhou o vício do sexo com rapazes bonitos. Às vezes, até dormia com menores de idade. Todos os seus rapazes tinham menos de vinte anos; pagava-lhes bom dinheiro pelo sexo, e os estudantes carenciados ofereciam-se-lhe muitas vezes. E o Fai sabia disso.


— Oh, acho que não preciso de me apresentar, pois não? O senhor Masushimaru já lhe contou quem eu sou. Por favor, Khun San, vamos direitos ao motivo da sua chamada inesperada ao Dao. Estou pronto a ouvir a sua proposta — o Fai olhava o San nos olhos, a mostrar que estava completamente calmo.
— Eu quero comprar aqueles dois casinos pelos quais tu fechaste o negócio com o senhor Koji. Estou pronto a ofere… — o San falava-lhe num tom amável, mas foi interrompido pela gargalhada alta do Fai.
— Ah-ah-ah… O senhor está pronto a oferecer-me? — o Fai olhou para o Koji com um olhar severo e virou-o para o San.


O San olhava para o Fai, perplexo. Nunca ninguém tinha ousado portar-se assim com ele — nem mesmo o Hima. Apesar da inimizade, o Hima nunca tinha ultrapassado o limite do respeito para com o interlocutor.


— Sabes com quem é que estás a falar, rapazinho? — o San perguntou-o num tom sério, ao ouvir a nota de desdém na voz do Fai.
— Eu tenho plena noção de com quem falo, de como falo e do tom que uso. O senhor, esse é que não. Bom… se calhar, antes de me levantar a voz e de me chamar rapazinho, é melhor ligar à sua filhinha — o Fai apoiou a mão sã na mesa e, com um sorriso, pousou nela o queixo.


O San olhou para ele, mas não tirou o telemóvel do bolso.


— Oh, e a Yufa está tão bonitinha hoje… vestido azul com um cinto branco. A malinha e os sapatos brancos; até frisou o cabelo… anda a passear pelo Paragon com… como é que ela se chama… ah, sim, a Pepper… ia ser triste se acontecesse alguma coisa a uma rapariga tão nova e tão bonita… — o Fai disse-o num tom calmo, mas nos olhos ardia-lhe uma chama, e nos lábios brincava-lhe um sorriso diabólico.
— Tu! Atreves-te a ameaçar a vida da minha filha? — o San já começava a perder as estribeiras, quando um dos seus guarda-costas se inclinou para lhe dizer que tinha visto a Yufa sair de casa exatamente com aquela roupa.


O San tirou o telemóvel do bolso e marcou o número da filha. O sinal de chamada tocou um bocado, o que o começou a deixar nervoso.


📞 — [Sim, pai.]
📞 — “Porque é que demoraste tanto a atender? Onde estás e com quem?” — o San falava num tom irritado, preocupado com ela.
📞 — [Porque é que estás a gritar comigo, pai?! Estou no Paragon com a Pepper, acabámos de tomar o pequeno-almoço e decidimos dar uma volta pelas lojas] — a Yufa resmungou, aborrecida.
📞 — “Estás de vestido azul e com uma mala branca?” — o San perguntou-o para se certificar.
📞 — [Estás a seguir-me, pai?! Tu prometeste-me que eu ia ter liberdade! Como é que me pudeste enganar?!] — a rapariga começou a gritar.
📞 — [Bang] — um som alto saiu do telemóvel do San, e ele estremeceu. — [Ai!] — a Yufa gritou de susto, e a chamada caiu.


O Fai olhava para a mão trémula do San e para o Koji pálido. O San ligou logo outra vez, mas o telemóvel da Yufa já estava indisponível. O pânico apoderou-se dele. Sacou a pistola e apontou-a ao Fai. O Mix sacou da sua e apontou-a ao San. Os guarda-costas do San e do Koji sacaram também das armas, a apontá-las ao Fai.


— Mix, guarda a arma — o Fai continuava sentado na mesma posição, completamente indiferente ao número de canos apontados a ele.


O Mix olhou para o Fai e hesitou.


— Eu disse-te… guarda a arma, Mix… atreves-te a desobedecer à minha ordem, como o Don? — o Fai falou num tom calmo e frio, com pausas deliberadas.


O Mix ficou logo cheio de arrepios e empalideceu, ao lembrar-se de como o Tadao tinha contado o castigo do Don. O Mix decidiu que não estava preparado para levar um tiro fosse onde fosse, e guardou a pistola.


O Fai recostou-se no cadeirão, como na véspera; a cruzar os braços no peito, sorria.


— Não acha que apontar uma pistola a uma pessoa que tem a sua filha querida nas mãos é uma coisa pouco racional? — o Fai olhava para o San com um sorriso.


O San percebeu que o Fai não era o Hima. Fez um gesto, a mandar guardar as armas, e ele mesmo guardou a sua. O Fai sorriu, e a aura dele era, agora, de uma negrura assassina.


— O que é que tu queres, Fai? — perguntou o San com a voz trémula, preocupado com a filha.
— Senhor Koji, está livre — o Fai olhou para o Masushimaru que, ao ver o olhar severo e de gelar a alma do Fai, se levantou logo da mesa e saiu da sala com os seus homens.
— E agora, vamos conversar, Khun San… — o Fai olhou para o San, e nos olhos dele parecia ver-se a chama do inferno. — Eu não preciso de dinheiro nem da sua propriedade. Só preciso da cabeça… da sua filha — o Fai não despregava os olhos do San, que empalideceu.
— O quê? — o San não percebia do que o Fai falava.
— Oh… se o senhor, em vez de a mimar e de lhe fazer todas as vontades, se tivesse ocupado da educação dela, nós não estaríamos agora a ter esta conversa. A culpa é sua, de ela não saber quando parar. De não saber o que é certo e o que é errado, o que se pode e o que não se pode. Foi o senhor que a fez assim, e a culpa é sua. Mas o senhor pode agir como um bom pai. Assuma a responsabilidade pelos atos dela. E, então… a sua preciosa Yufa vai viver — o Fai disse-o, e a voz ia-se-lhe tornando cada vez mais dura e fria, com ódio e raiva.
— O que… O que foi que ela fez? — o San não percebeu o que o Fai queria dizer.
— O senhor sabe que as mãozinhas da sua filhinha estão manchadas de sangue? — o Fai continuou. O Mix, atrás dele, ficou imóvel.
— O quê? Ela nunca seria capaz de… — o San parecia não acreditar nas palavras do Fai.


O Fai tirou o tablet da pasta e estendeu-lhe os ficheiros abertos das mensagens da Yufa com o atirador e com o Kris. O San leu as mensagens, e os pelos dos braços puseram-se-lhe em pé com o conteúdo dos SMS.


A Yufa tencionava matar o Fai quando ele fosse com o Hima a casa da mãe. Sabia que o Kris era apaixonado pelo Hima e propôs-lhe unirem forças para se livrarem do Fai. Só que o Kris não sabia que o atirador tinha de o matar a ele também, três dias depois, para eliminar uma testemunha e mais um rival. 

Mas nada correu como planeado. O atirador devia entrar em contacto com ela depois de matar o Kris.


— Impressionante, não é? — perguntou o Fai com escárnio, ao ver as lágrimas nos olhos do San.
— Mas tu estás bem… — o San olhou para o Fai.
— Mas o Hima não está bem! Se ama a sua filha… eu tenho uma proposta — o Fai olhou para ele com os olhos cheios de raiva.
— O que é que tu queres? — o San olhava-o nos olhos e percebia que era inútil impor condições.
— Mix… traz dois copos e uma garrafa de água — ordenou o Fai. O Mix hesitou, com receio de o deixar sozinho com o San e os homens dele.
— Ai… Mix, não me acontece nada — o Fai disse-o ao Mix com irritação, e o Mix saiu da sala.
— A minha proposta é esta: dois copos, duas opções, uma escolha — o Fai tirou do bolso do casaco dois frasquinhos, do tamanho de meio dedo mindinho, e mostrou-os ao San. — Num destes frasquinhos há veneno, e no outro há água normal. À sua frente, eu deito o conteúdo dos dois nos dois copos. O senhor tem de escolher um e bebê-lo. Se o fizer, e… se sobreviver, tem de mandar a sua filha para o estrangeiro nos próximos três dias. A Yufa não volta à Tailândia enquanto não casar e não estiver grávida. Só assim é que o senhor pode salvar-lhe a vida. Se beber o veneno, eu deixo a sua filha em paz. Mas, se ela voltar a decidir fazer uma asneira destas, não terei dó dela. Se se recusar a escolher… Todos os dias vai viver com medo pela vida dela, porque eu, isso é certo, não vou desistir de tentar matá-la — o Fai falava, e nos olhos tinha toda a determinação de fazer aquilo que dizia.


O San olhava para aqueles olhos vazios e escuros e percebia que, se não fizesse o que o Fai queria, a sua única filha passaria o resto da vida como prisioneira na própria casa, até o Fai encontrar maneira de a matar.


🚪 Clac.


O Mix voltou com dois copos e uma garrafa de água, pousou-os na mesa em frente do Fai, depois de ter afrouxado antes a tampa da garrafa. O Fai abriu a garrafa e verteu água nos dois copos, a enchê-los até um terço. Abriu os dois frasquinhos e despejou o conteúdo em copos diferentes, como tinha prometido, a guardar os frasquinhos vazios no bolso do casaco.


— Dou-lhe uma escolha, Khun San… — o Fai apontou para os copos com o olhar. O Mix viu o medo nos olhos do San e dos guarda-costas dele.


O San estendeu a mão para um copo e, com a mão a tremer, escolheu um e bebeu-o de um trago.


— Chefe?! — gritaram os guarda-costas em uníssono, quando o San, de facto, se decidiu a fazê-lo.
— Daqui a cinco minutos, saberemos o resultado — o Fai acertava o cronómetro no smartphone, com um sorriso diabólico, a olhar para o San a empalidecer e para os guarda-costas, que não sabiam o que fazer. — Enquanto temos tempo… Se sobreviver, espero que o acordo com o senhor Martin também fique rescindido. Se, a partir deste momento, um único cabelo cair da cabeça do meu marido por culpa do senhor ou dos seus amigos… eu transformo a vida de todos os membros da família envolvidos num inferno. E a única coisa que me vão implorar será a morte — o Fai disse-o como se estivesse pronto a tornar reais as suas palavras naquele mesmo instante.


O Mix engoliu em seco, a perceber que ninguém, a não ser o Hima, o conseguiria travar. Agora, tinha a certeza de que, antes, aquele lado sombrio do tigre sanguinário era contido por um dragão chamado Hima. Agora, sem ninguém para o afagar, o Tigre estava pronto a despedaçar, sem hesitação, quem tivesse magoado o seu dragão.


⏱ Tlim…

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