top of page

34 – Demónio (parte 2 de 2)

💥 Bang!


O Fai disparou na perna do Don, e a bala passou de raspão, a deixar só um golpe fundo. O Don caiu no chão a gritar, agarrado à perna.


— Oh… é só um arranhão, Don. Não faças fita! Considera isto um aviso. Se, da próxima vez, decidires ignorar uma ordem minha ou mostrar o teu feitio, levas uma bala na testa! Rapazes, continuem a trabalhar, não liguem a este idiota chorão — o Fai disse-o a olhar para o Don com um olhar assassino e depois, ao virar-se para os restantes, sorriu, e o tom suavizou-se-lhe.


O Fai deu meia-volta, passou por entre o Tadao e o Jah e saiu do laboratório. Os rapazes estavam em choque; nem sequer conseguiam imaginar que aquele menino meigo que tinham conhecido no leilão fosse capaz de fazer uma coisa daquelas. Agora, tinham diante de si uma pessoa completamente diferente. Cruel, autoritária, aterradora e sem coração. Não era, de todo, o Fai que estava com o Hima.


Na véspera, depois de o Fai ter ligado à mãe, ela contou tudo ao Dao e ao Fon. O Dao ligou logo ao Jah, para ele vir o mais depressa possível e poder tomar conta do Fai. E agora os cabelos do Jah punham-se em pé com aquilo que via e imaginava. Se, por uma ninharia daquelas, o Fai disparou sobre o Don sem pensar duas vezes, o que é que aconteceria aos envolvidos no tiroteio?


— Os irmãos Koji tinham razão… é o Diabo em pessoa. Parece que não é o Fai que temos de proteger, é os outros do Fai… — sussurrou o Jah baixinho ao Tadao, a olhar para o Don.
— Jah, Tadao, vêm? — chamou o Fai pelos amigos e encaminhou-se para o gabinete.
— Tom, ajuda o Don a tratar da ferida e a pôr o laboratório em ordem. Don, eu não tenho nenhuma vontade de ir ao teu funeral, por isso dou-te um conselho: não irrites o Fai. Não é altura de mostrares o teu feitio. O único que consegue travar este Diabo está neste momento no hospital, sem sentidos.  Ninguém te vai conseguir ajudar, Don, se voltares a aborrecê-lo — disse o Jah com calma e, a pegar na mão do Tadao, saiu do laboratório.


O cérebro do Don tentava processar a informação que acabara de receber mas, por causa da dor e do choque, não conseguia raciocinar com clareza.


O Jah e o Tadao voltaram ao gabinete do Fai e viram-no de novo sentado ao computador, a mandar uns ficheiros para impressão. O Elijah tirou o telemóvel e escreveu uma mensagem. O Smart transmitiu logo o conteúdo dela ao Fai, pelo auricular, e o Fai sorriu.


— Jah, eu não tinha intenção de o matar. Eu sabia onde estava a disparar e qual ia ser o resultado — disse o Fai sem despregar os olhos do computador, a pegar nos documentos impressos.


O Jah fitou o Fai com um ar atónito. Tinha enviado a mensagem havia menos de um minuto, e, nessa altura, o Fai estava a imprimir qualquer coisa noutro canto do gabinete. Não podia, de forma nenhuma, ter visto o texto escrito.


📩 ‹Nong, o médico autorizou a visita ao chefe.› — Doutor Dew.


O Fai leu a mensagem e, a pôr os documentos de parte, levantou-se da cadeira.


— O médico autorizou-me a visitar o Hia. Vocês vêm? — pareceu acender-se uma faísca nos olhos do Fai, mas apagou-se no mesmo instante.


O Jah e o Tadao acenaram que sim, a levantar-se do sofá, e seguiram com o Fai para o hospital. O Rio ia ao volante do carro, onde seguiam o Tadao, o Jah, o Fai, o Kai e o Tom. Os restantes iam no segundo carro, gentilmente cedido pelo Dao.


🍃 🍃 🍃


No hospital


Os rapazes subiram ao quarto do Hima, onde o Dew os esperava. Juntou as mãos num wai diante do Tadao e do Jah, porque sabia quem eles eram.


— Olá, Dew. Como é que ele está? — perguntou o Jah, enquanto o Fai desinfetava as mãos.
— Nem eu nem nenhum outro médico vamos dar prognósticos precisos sobre o estado dele. Neste momento, está em coma. Pode ficar assim até três semanas — disse o Dew em voz baixa, para não perturbar ainda mais o Fai, que ia a entrar no quarto e o podia ouvir.


O Jah virou-se e certificou-se de que o Fai tinha entrado e de que a porta se tinha fechado. Só depois disso é que continuou.


— Se ele não acordar nos próximos dias, vocês vão ter de se ver livres de cadáveres… — proferiu o Jah, preocupado, e o Dew olhou para ele com surpresa.
— Que cadáveres? De que é que estás a falar? — o Dew não percebia do que o Elijah falava.
— Hoje é o primeiro dia em que o Fai trata dos negócios do Hima. Já conseguiu pôr a Yakuza ao rubro, meteu medo ao gestor do casino em Siam e por pouco não matou o Don a tiro — e o relógio ainda só marca 15h40. Acho que ele anda à procura dos envolvidos no tiroteio. Tenho medo do que é que ele lhes vai fazer quando os encontrar — o Elijah falava com uma preocupação verdadeira, porque percebia que, depois, ia ser difícil para o Fai conviver com aquilo que estava a fazer nesta agonia silenciosa.


O Dew olhava para o Jah e o Tadao quando lhe ligou o Kris — pelo que teve de interromper a conversa e atender a chamada em alta voz.


📞— "Sim"
📞— [Doutor Dew, como está o chefe?] — perguntava o Kris com a voz trémula.
📞— "O Nong Fai proibiu que te dessem qualquer informação sobre o estado do Khun Hima. A ti e a todos os que estão agora no hospital. Eu não me atrevo a desobedecer à ordem dele. Diz-me, Kris, com que é que tu irritaste o Nong, para ele agir assim contigo?"— o Dew perguntou-o porque o Mix lhe tinha contado do tiroteio e de que o Fai tinha mandado o Kris para casa e, depois, o proibira de ir ao hospital ou de receber notícias sobre o estado do Hima.


O Kris ficou calado, e o Tadao e o Jah olhavam para o Dew.


📞— [Eu vou ao hospital, Dew] — disse o Kris num tom sério.
📞— "Kris, se decidiste morrer, podes vir. Se calhar, Buda tem piedade de ti, e os médicos deste hospital salvam-te — ou então morres logo ali. Mas, pelo que eu ouvi e vi hoje, o meu conselho é este: se dás valor à tua vida, cumpre a ordem do Fai. Ele…" — o Jah não teve tempo de acabar, porque o Fai saiu do quarto.


Os olhos dele faiscavam de fúria.


— Doutor Dew! É só porque o senhor é uma boa pessoa que eu, agora, estou a falar consigo com calma. Proíbo até que falem com ele. Quem desobedecer, será castigado. Nenhuma informação, nenhum contacto. E a ti, eu disse-te para esperares em casa. Se és suficientemente corajoso para me enfrentares cara a cara, é só esperares, e vais poder fazê-lo. É melhor preparares-te para a minha chegada, porque vai ser… muito interessante — o Fai começou por tentar falar com o Dew num tom calmo, mas a voz dele era de tal modo aterradora que o Dew percebeu logo do que o Jah acabara de falar.


Com o Kris, o tom dele foi tão assustador que, quando o Fai acabou de falar, o próprio Dew desligou a chamada sem esperar pela resposta do Kris.


O Fai olhou para os três homens que estavam à porta do quarto e, com uma meia-volta, voltou lá para dentro em silêncio. Sentou-se de novo na cadeira junto à cama do Hima, a segurar-lhe a mão com ternura e a acariciá-la. Nos olhos dele brilharam lágrimas.


— Tu tens de voltar para mim… Hia… a cada segundo sem ti, eu morro… sem ti, eu não respiro… Sabes o esforço que me custa, agora, conter-me para cumprir aquele teu pedido? — o Fai falava com ele com lágrimas nos olhos.


O Fai largou-lhe a mão e levantou-se da cadeira, a aproximar-se do rosto do Hima. Passou-lhe a mão pela bochecha com ternura e, a inclinar-se, beijou-o ao de leve nos lábios. Nas bochechas do Hima caíam as lágrimas do Fai — aquelas que ele tinha guardado dentro de si o dia inteiro.


— Oh… desculpa, meu amor — o Fai limpava-lhe do rosto as suas próprias lágrimas.


O Fai olhava para o Hima ali deitado, indefeso, e aquilo enchia-o de raiva e de fúria. Não tencionava ir para casa naquele dia e decidiu ficar no quarto em frente.


📡 ‹Chefe, está na hora de tomar os medicamentos e de mudar o penso. E, daqui a uma hora, tem mais uma reunião.›


O Fai olhou mais uma vez para o Hima antes de sair do quarto, a limpar as lágrimas.


— Doutor Dew, onde estão os meus medicamentos? Já são 16h00. Tem de me tratar a ferida e de mudar o penso. Daqui a uma hora tenho uma reunião e, depois dela, volto para o meu quarto. Hoje, durmo aqui — o Fai disse-o num tom calmo, e os três homens olharam para ele, preocupados.


— Fai, posso ir contigo à reunião? — perguntou o Jah, porque tinha medo de que o Fai fizesse mais alguma das suas.


📡 ‹Chefe, o Elijah vai ser útil na reunião. Com ele, a probabilidade de as negociações serem rápidas e bem-sucedidas aumenta 23,48%. No seu estado, quanto mais depressa decorrerem as negociações, mais poderá descansar. O plano de trabalho para amanhã já está feito.›


O Fai olhou para o Jah e acenou que sim. O Dew soltou um suspiro de alívio e estendeu ao Fai água e os comprimidos. O Fai tomou-os depressa e disse:


— Tadao, tu podes ir para casa. O vosso quarto já deve estar pronto, se o Dao mandou que vos fossem buscar ao aeroporto. Mas peço-te: por muito que o Kris insista, não lhe digas nada. Eu depois explico tudo.


O Tadao olhou para o marido, e este acenou-lhe que sim.


— Está bem, Fai. És meu amigo, e eu não quero levar um tiro — nem que seja de um amigo — brincou o Tadao e, a fazer sinal aos seus guarda-costas, partiu para casa do Hima.
— Eu não vou conseguir demover-te desta reunião, pois não? — perguntou o Dew, e o Fai acenou que não.
— Não te preocupes, Dew. Mal acabemos, trago-o para cá. Duvido que consigas mantê-lo longe da Bela Adormecida do quarto ao lado — o Jah tentava aliviar o ambiente.


O Dew fez sinal ao Fai para irem ao quarto dele, para lhe tratar a ferida.


— Nong Fai… então e a Khun Kira, ainda não lhe ligaste? — lembrou-se de repente o Dew, enquanto prendia a ligadura com adesivo.
— Raios… esqueci-me por completo — respondeu o Fai e tirou o telemóvel do bolso, enquanto o Dew o ajudava a vestir a camisola e o casaco.


O jovem marcou o número e, ao fim de uns toques, do outro lado atenderam.


📞— [Filho, como estás? Porque é que só ligas agora?] — a voz da Kira estava preocupada.
📞— “Desculpa, mãe. Estive um bocado ocupado…” — o Fai não respondeu à primeira pergunta, porque não sabia a resposta.
📞— [O Elijah e o Tadao já chegaram?] — perguntou ela.
📞— “Sim. O Tadao foi para casa descansar, e o Jah está aqui” — respondeu o Fai com calma, a olhar para o Jah.
📞— [Passa-mo, quero dizer-lhe duas palavras]— pediu a Kira, porque o Dao já lhe tinha falado do SMS que ele mandara.


O Fai estendeu o telemóvel ao Jah.


— Dew, vou à casa de banho e volto já. Daqui a pouco chegam o Gui e o Ball, para renderem os rapazes à porta do quarto. Continuo a pedir-te que trates da comida deles — disse o Fai e, com um aceno do Dew, afastou-se para a casa de banho.


📞— [Sim, minha senhora. É o Jah. Não me parece que eu, nem ninguém, consiga mantê-lo sob controlo] — o Jah falava num tom preocupado, que a mulher captou.
📞— [Está assim tão mau, Jah?] — perguntou a Kira.
📞— [Não consigo transmitir isto por palavras, a senhora precisa de o ver com os seus próprios olhos. Eu percebo, ele está a sofrer muito. Mas isto é só o primeiro dia; se o Hima não acordar em breve, o vulcão chamado Fai vai entrar em erupção, a queimar tudo o que estiver à frente] — o Jah falava com absoluta seriedade.
📞— [Não o deixes fazer nenhuma asneira, peço-te] — pediu a Kira, e o Jah concordou.

Depois de conversarem mais um bocado, o Fai voltou ao quarto do Hima, e o Jah devolveu-lhe o telemóvel.

📞— “Sim, mãe. Ainda tenho, hoje, uma reunião marcada com um investidor da Austrália” — o Fai não escondeu que não estava a descansar.
📞— [Que é que tu estás a dizer? Tu devias estar a recuperar no hospital. A reunião pode adiar-se. Achas que o Hima ia aprovar isto?] — ela tentou manipular o filho.
📞— “Mãe! O Hima, neste momento, não me pode proibir nem dizer o que quer que seja. O Hia negociou com este investidor durante quase dois meses; eu não posso cancelar só porque a minha mãe me disse para descansar. Isto é importante para ele, e eu tenho de ajudar” — o Fai não se conteve, e o tom dele tornou-se exatamente o mesmo que tivera todo aquele dia: severo e frio. — “Não te preocupes, mãe, o Jah vai comigo. Temos de ir. Quando voltar ao hospital, eu escrevo” — o Fai nem esperou pela resposta da Kira e terminou a chamada. — Vamos? Deixa-me enviar-te os documentos por email, para os poderes ler antes da reunião — o Fai olhou para o Jah e este, com um aceno, seguiu com ele até ao elevador.


O Fai não queria magoar a mãe; mas, se cedesse agora às emoções, a dor, o medo e a histeria voltavam a irromper e matavam-no.


O Kai e três guarda-costas do Jah esperavam junto ao elevador. Já no estacionamento, o Kai sentou-se ao volante, e foram para um dos hotéis do Hima, para mostrarem, de forma concreta, em que é que ia ser gasto o dinheiro do investidor. Pelo caminho, o Elijah estudava os documentos.


— Espera lá, Fai… porque é que aqui há dois contratos? E são diferentes. Neste, é sempre 23%; e naquele, começa em 21,8% — perguntou o Jah, porque não conseguia perceber.
— Ah, o primeiro foi feito pelo Hima, e o segundo, revi-o eu e alterei a percentagem inicial, para o primeiro ano depois da abertura. Depois, a cada ano, os dividendos vão subindo aos poucos, até ao valor final de 23,6%. O primeiro ano é o mais difícil para um hotel novo, por isso é que eu baixei a percentagem — o Fai explicou ao Jah as razões das alterações.
— Espera aí, Fai. Tu estudaste engenharia informática, não gestão de empresas. Nem os melhores gestores que eu tenho conseguem fazer projeções destas — o Jah ficou sinceramente admirado. — Fai… peço-te muito, sê simpático. Foste tu que disseste que o Hima passou dois meses a negociar com ele… — pediu o Elijah ao Fai, porque percebia bem a confusão que ele era capaz de armar.
— Por acaso, houve hoje um único contrato que eu não tenha conseguido assinar? — o Fai sorriu, e no rosto do Jah apareceu a perturbação.


O Kai, sentado ao lado, deu uma risadinha discreta. Admirava o Fai. E, embora trabalhasse para eles há apenas duas semanas, tinha visto o Fai sorridente e bondoso — e agora, quando era preciso, forte e severo. Estava contente por o Fai confiar nele e não queria desiludi-lo.


O carro parou à entrada do hotel; o Tom saiu e abriu a porta ao Jah e ao Fai.


— O ombro dói muito? — perguntou o Elijah, apesar de não ter visto o Fai dar o mínimo sinal de dor.
— Enquanto eu sentir dor, sei que estou vivo. A dor distrai-me dos pensamentos sobre o Hima… — respondeu o Fai com sinceridade e encaminhou-se para as portas do hotel.


📡 ‹Chefe, o Khun Murray ainda não chegou. Detetei, na câmara, movimentos quase impercetíveis da mão do segundo chefe. Pode ser um simples espasmo, mas também pode ser uma evolução positiva.›


O Fai, ao ouvir aquilo, conteve as lágrimas com um enorme esforço.


Entraram numa pequena sala de reuniões e sentaram-se de um dos lados de uma mesa redonda pequena. 


O Kai e o Tom ficaram de pé atrás deles; um guarda-costas ficou no carro e outro à porta da sala.


O Fai explicava ao Elijah a sua estratégia, calculada pelo Smart. O Jah ouvia-o e acenava com a cabeça. O Jah percebeu que o Hima tinha tido muita sorte com o Fai. Aquele rapaz, de aparência tão jovem, era inteligente; quando era preciso, meigo, responsável, sério, e agora, ainda por cima, assustador que se fartava.


A porta abriu-se e entrou na sala um homem de fato preto e gravata vermelha. Aparentava pouco mais de trinta anos. Era baixo, de cabelo louro-escuro e olhos verdes. Atrás dele, entraram dois guarda-costas.


O Fai e o Jah levantaram-se para cumprimentar o recém-chegado. O homem estendeu-lhes a mão. O Jah apertou-lha primeiro e, depois, o Fai. Os três sentaram-se à mesa, e o Fai começou por explicar que o Hima não tinha podido vir, mas que viera o sócio de negócios dele, o Elijah, e que ele, o Fai, lhe podia apresentar os pormenores do acordo.


O Dylan Murray é um dos homens mais ricos da Austrália. Adora dinheiro e é fanático por pessoas inteligentes. Gostava do Hima pelo seu aspeto interessante e pelo seu ar enigmático, mas ainda assim, percebia perfeitamente que ele era ativo, e entregar-lhe o seu traseiro virgem não estava nos seus planos.


O Fai abriu o iPad e iniciou a apresentação que tinha preparado sobre o novo hotel. O Smart tinha-a alterado um pouco e aperfeiçoado, com base nas sugestões do Fai. O Jah e o Dylan ficaram de boca aberta enquanto o Fai explicava, com entusiasmo, todos os pormenores. Os olhos do Dylan estavam presos aos lábios macios do Fai. O Jah e o Kai repararam nisso.


— Jovem, espere. Posso fazer uma pergunta? — o Dylan interrompeu o Fai, e este ergueu os olhos do tablet.
— Ficou alguma coisa por perceber, senhor Dylan? — perguntou o Fai, com receio de ter falado depressa de mais.
— Oh, não. Está tudo claro. O senhor explica tão bem, mas eu não sei como se chama. Gosto de tratar as pessoas pelo nome — o Dylan sorriu por ter conseguido disfarçar assim o seu interesse pelo rapaz.
— Fai. Chamo-me Fai. Posso continuar? — respondeu o Fai secamente, porque percebeu a insinuação.
— Sim, com certeza, Fai — o Dylan olhava para o Fai e derretia-se.


Que rapaz interessante. Será secretário do Elijah ou do Hima? Oh… Quando fala com este entusiasmo, fica tão sensual — pensava o Dylan, a olhar para o Fai com os olhos a brilhar.


— Senhor Dylan? — o Elijah chamou o interlocutor, porque o Fai já tinha terminado a apresentação.


O homem sobressaltou-se e virou-se para quem falava.


— Se estiver tudo do seu agrado, pode ver o contrato. O Fai enviou-o para o seu email — o Jah olhava para o Dylan que, sem despregar os olhos do Fai, estendeu a mão ao seu homem, que lhe pôs nela um tablet.


O Dylan abriu o ficheiro e olhou para o Elijah.


— Espere. O contrato preliminar era diferente. Porque é que as condições mudaram? — o Dylan estava espantado e olhou para o Elijah.
— Eu analisei a versão anterior e introduzi correções. Se pretende uma colaboração de longo prazo connosco, estas condições são até mais vantajosas do que as anteriores. Pode enviar o documento ao senhor Kenny, para ele o analisar — o Fai falava com calma e olhava para o Dylan que, no mesmo instante, desviou o olhar para o Fai, a tirar o telemóvel do bolso.
— Kenny, vou já enviar-te um documento, preciso da tua opinião — disse o Dylan, a continuar a olhar para o Fai.


Desligou logo e enviou o documento ao Kenny. Dez minutos depois, ligaram ao Dylan. O Kenny confirmou que aquele contrato estava trabalhado com muito mais pormenor e que, a prazo, ajudaria o Dylan a ter um lucro maior do que o da versão preliminar.


— O senhor Kenny disse exatamente o mesmo que eu, não disse? — proferiu o Fai com um sorriso sarcástico, a estender a caneta ao Dylan.


O Dylan parecia devorar o Fai com os olhos. Estendeu a mão e, em vez de pegar na caneta, apertou-lhe a mão. O Fai ergueu os olhos ao sentir o toque de um estranho na sua mão, e o olhar dele mudou no mesmo instante para sombrio e gelado. O Fai arrancou a sua mão da do Dylan, e o Jah agarrou-lhe o ombro, a travá-lo de fazer alguma asneira.


— Senhor Fai… não quer trabalhar para mim? Ofereço-lhe três vezes mais do que o seu chefe — o Dylan olhava para o pescoço bonito e fino do Fai, bem apertado pela gola alta da camisola.
— Senhor Dylan, acho que percebeu tudo mal. O Fai não é meu secretário. É meu amigo. E fui eu que vim acompanhá-lo a esta reunião, não o contrário. O senhor não lhe vai poder pagar três vezes mais, porque ele tem isto… — explicou o Jah num tom calmo, enquanto o Kai tirava, da pasta do Fai, a procuração, que o Elijah entregou ao Dylan.


O Dylan pegou no documento, e os olhos arregalaram-se-lhe ao ver uma procuração para a gestão dos negócios do Hima em nome do Fai.


O Fai é irmão do Hima? Mas não se parecem nada… — pensou o Dylan, a passar o olhar do documento para o rosto do Fai.


Ao sentir o olhar de gelar a alma do Fai, o corpo ficou-lhe todo arrepiado, e engoliu em seco quando uma aura terrivelmente sombria envolveu o Fai.


— Se não paras de olhar para mim dessa maneira, com esta caneta arranco-te um olho… Ou assinamos o contrato, ou eu procuro outro investidor. Sou capaz de separar o pessoal do trabalho. Posso trabalhar contigo, mas não te atrevas a tocar-me sem autorização, senão, nem os teus guarda-costas te vão poder ajudar — com uma voz calma e fria, o Fai aterrorizou todos os que estavam na sala, incluindo o Elijah, que já tinha visto muita coisa.


O Fai estendeu de novo a caneta, e o Dylan pegou nela sem tocar na mão do Fai. O homem assinou o contrato e, a pousar a caneta em cima do tablet, empurrou-o pela mesa na direção do Fai. O jovem apôs a sua assinatura e enviou-o logo para o email do Dylan.


— É um prazer negociar consigo, senhor Dylan — o Fai sorriu e, de repente, a porta abriu-se sem que ninguém batesse, e entrou uma mulher. — Mãe? O que é que fazes aqui? — perguntou o Fai com surpresa, e o olhar dele suavizou-se, o que fez o Elijah soltar um suspiro.


A Kira não tencionava esperar três dias até o tempo melhorar. Por isso, telefonou para o aeroporto internacional de São Petersburgo e alugou um voo charter até Banguecoque. Quando lhe disseram que podiam partir para a Tailândia no dia seguinte, prepararam-se depressa e, em quatro horas, chegaram a São Petersburgo. Ao chegarem ao aeroporto, conseguiram descolar assim que o controlador autorizou a partida.


— Filho, eu bem te disse que te encontrava onde quer que estivesses. Interrompi alguma conversa importante? — respondeu a Kira com um sorriso, a desviar o olhar para o Dylan.
— Oh, não. Já assinámos o contrato. Até à próxima, senhor Dylan. Espero que tenha percebido aquilo que o Fai disse — disse o Elijah e levantou-se da mesa, a encaminhar-se para a saída.


O Fai chegou-se à Kira, e ela abraçou-o de imediato, a conduzi-lo para fora da sala. O Fai tentou conter as lágrimas até ao carro. O Kai abriu a porta, e o Fai entrou com a Kira. As lágrimas jorraram-lhe dos olhos num instante quando a Kira lhe pegou na mão e lhe fez uma festa na cabeça.


— Desculpa não ter conseguido vir mais cedo. Agora estou aqui. Está tudo bem, filho. Vai correr tudo bem — a Kira falava num tom suave, e o Fai não conseguia parar de chorar.


No carro, nos bancos de trás, iam a Kira, o Fai e o Elijah. O Tom passou para o carro em que a Kira tinha vindo do aeroporto.


— Obrigado… — disse-lhe o Elijah só com os lábios, quando ela olhou para ele e acenou em resposta.
— Jovem, leva-nos ao hospital. Quero ver o meu filho — disse a Kira ao Kai, e ele ligou logo o motor, a seguir de volta.


Ao chegarem ao hospital, a Kira, o Fai e o Jah subiram ao piso do quarto do Hima, diante do qual estavam o Leon e o Ray. O Fai franziu o sobrolho, porque não viu o Gui nem o Ball.


— Onde estão o Ball e o Gui? — o Fai perguntou-o num tom tão grave que os rapazes estremeceram ao virarem-se para ele.


O olhar dele estava cheio de uma fúria sombria, o que fez com que os rapazes não conseguissem dizer uma palavra, porque, antes da viagem deles a Moscovo, o Fai era completamente diferente.


— Eu estou a perguntar quem é que autorizou o Ball e o Gui a saírem?! — a voz elevou-se-lhe.
— Fui eu. Fui eu que os mandei ir jantar — ouviu-se o som da porta do quarto do Hima a abrir-se, e o Dao respondeu ao Fai com calma.


A seguir ao Dao, saíram do quarto o Fon e o Nai. O Fon olhou para o Fai, e nos olhos dele brilharam lágrimas. A pessoa à sua frente era, só por fora, o seu amigo; quando lhe olhou nos olhos, o Fon viu vazio e dor.


— Fai… filho… está tudo bem. O Leon e o Ray são pessoas de confiança. E, ainda por cima, eu e o Dao estávamos no quarto — disse o Nai, a pousar a mão no ombro ferido do Fai, o que o fez baixá-lo ao de leve.
— Oh… desculpa… não sabia que era este o ombro que doía. Como estás? — o Nai tirou a mão do ombro do Fai e perguntou-lhe num tom carinhoso.
— Estou bem. Falamos mais tarde. Quero vê-lo — o Fai suavizou-se um bocadinho e encaminhou-se para o quarto do Hima, juntamente com a Kira.


O Fai sentou-se, como de costume, na cadeira em frente da cama e pegou na mão do Hima. A Kira entrou a seguir e, a pôr-se do outro lado da cama, acariciou com ternura os cabelos do Hima.


— Filho, tu tens de lutar. Olha, o teu menino querido está irreconhecível. Em vez de estar a recuperar do ferimento no hospital, anda a tratar dos teus negócios — a Kira parecia estar a ralhar com o filho.


O Fai segurava a mão do Hima e chorava em silêncio. A Kira percebia que, naquele momento, não podia ajudar o Hima em nada, mas que tinha de ajudar o Fai. Antes de entrar na sala de reuniões do hotel, tinha ouvido aquilo que o Fai disse ao Dylan, e aquele tom deixara-a incomodada.


— Pequenino, vou falar com o médico, está bem? — perguntou a Kira e, ao ver o Fai acenar que sim, saiu do quarto.


Quando ficou sozinho no quarto, o Fai encostou a mão do Hima à sua bochecha molhada de lágrimas.


— Eu amo-te tanto… Hia… volta para mim… se não acordares, amanhã vou a casa… e, então, nem os teus pais me vão conseguir travar… — dizia o Fai, sem saber o que fazer.


O Fai, como de costume, deitou-se com o peito sobre a cama, a abraçar com ternura a mão do Hima com as duas mãos. Naquela posição doía-lhe o ombro ferido, mas isso não o preocupava, porque não podia deitar-se na cama e abraçá-lo de corpo inteiro, e só assim é que conseguia estar mais perto dele.


📡 ‹Chefe, verifiquei o Leon e o Ray. São de confiança. O chefe precisa de descansar. Neste momento, o seu organismo está a trabalhar no limite. Precisa de oito horas de sono e de repouso na cama. Caso contrário, há um risco elevado de a ferida infetar. Amanhã tem só duas reuniões; mas, como o Dao regressou, a reunião na pista pode ser cancelada. Ah, a mãe do segundo chefe quer ir ela própria à segunda reunião amanhã, juntamente com o Dao. Neste momento, está a falar com o Dew sobre o seu estado e o do segundo chefe. Amanhã, o senhor não tem compromissos.›


O Fai continuou deitado na cama do Hima e, esgotado com o dia de várias reuniões e idas ao hospital, adormeceu.


🍃 🍃 🍃


Algum tempo depois


— Fai! Filho! Fai! Acorda! — a Kira abanava o Fai pelo ombro.


Uma hora depois de ter adormecido, o Fai teve um pesadelo. Primeiro soluçava e, depois, começou a gritar, a apertar a mão do Hima, que segurava antes de adormecer. Ao ouvir o grito dele, a Kira entrou a correr no quarto, a tentar acordar o jovem. O Fai estremeceu e ergueu-se de repente da cama do Hima, em lágrimas. A Kira abraçou-o por trás e, com uma das mãos, acariciava-lhe a bochecha.


— Está tudo bem, pequenino… foi só um sonho… — disse ela com voz meiga.


O Fai olhou para o Hima e voltou a soluçar, desta vez já consciente. Não era um sonho, porque ali estava a realidade: a pessoa que ele amava estava deitada num hospital e não recuperava a consciência depois daquele tiro.


O Fai tinha sonhado com o momento em que dispararam sobre o Hima e via, com nitidez, o Kris a dar um passo atrás em direção ao carro, e a roupa que o atirador trazia vestida. É possível que, na altura, ele não tenha reparado nisso; mas, graças aos vídeos das câmaras que o Smart lhe tinha enviado, o Fai sonhou com todos esses pormenores — como se tivesse regressado àquele dia terrível.


📡 ‹Chefe, precisa de um calmante. O seu sistema nervoso não está a aguentar o stress. Se isto continuar assim, dentro de pouco tempo vai entrar em depressão.›


— Menpo… mãe, eu preciso disso… — soluçava o Fai.


De cabeça, ele percebia que o Smart tinha razão, e que, para um coração destroçado, não há remédio. Se, de dia, o Fai conseguia trancar aqueles sentimentos e emoções, no sono eles soltavam-se. E, na verdade, só havia três opções: não dormir de todo; dormir e acordar com pesadelos; ou dormir sob o efeito do Menpo. Da última vez, depois do Menpo, ele não tinha sonhado com nada e, ao acordar, sentira-se bem. No fundo, o Fai tinha esperança de que o Menpo o ajudasse a dormir descansado.


A Kira apertou mais o Fai no abraço, por trás e, com um aceno, tirou o telemóvel. Ligou ao Stas, que meia hora depois lhe trouxe os comprimidos. A Kira acompanhou o Fai ao quarto dele e, a deitá-lo na cama, estendeu-lhe um comprimido e um copo de água.


— Filho… hoje não tivemos tempo para conversar, mas amanhã não te vais safar dessa conversa. Quando adormeceres, nós vamos para casa. À porta do quarto do Hima ficam de guarda o Ball e o Ray. O Kai disse que fica aqui contigo — a Kira olhava para o Fai, que já tinha tomado o comprimido.
— Mãe, ninguém pode dizer ao Kris como é que o Hima está. Peço-te. Agora não consigo explicar tudo, mas tu tens de saber que eu tenho as minhas razões para isto. Porque eu sei quem… — o Fai não teve tempo de acabar a frase; a consciência começou a apagar-se-lhe, e adormeceu.
— Dorme, pequenino. A mãe trata de tudo sozinha. Tu tens de voltar a ser o meu menino meigo, Fai… embora o teu lado sombrio seja impressionante… Não pensei que te atrevesses a manipular o chefe da máfia japonesa. Mas disso falamos amanhã — a Kira acariciava a cabeça do Fai e, com um leve sorriso e uma sensação de orgulho, cobriu-o com a manta e saiu do quarto.

bottom of page