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33 – Demónio (parte 1 de 2)

A manhã seguinte


📡 ‹Bom dia, chefe. São 6h19 da manhã. Relatório: durante o seu sono, quem esteve de guarda ao quarto do segundo chefe foi, ao princípio, o Mix. Mais tarde chegaram o Rio e o Kat. O Dew transmitiu-lhes a sua ordem. O Dew mandou o Mix descansar às 4 da manhã. Neste momento, o Dew dorme no sofá do seu quarto. O estado do segundo chefe é grave, mas estável. Ontem, o chefe perdeu os sentidos. O Dew pediu que o pusessem no quarto em frente ao do segundo chefe. Recebeu chamadas dos contactos «Mãe» e «Fon».›


O Fai ainda nem tinha conseguido abrir os olhos quando ouviu a voz do Smart.


— Como é que soubeste que eu já não estava a dormir? — perguntou o Fai baixinho.


📡 ‹Acompanhei a sua fase do sono através da pulseira. O estado do segundo chefe, monitorizo-o pela câmara do corredor, que apanha os valores dos aparelhos dele.›


O Fai abriu com dificuldade os olhos inchados. Parecia-lhe que lhos tinham enchido de areia, e as pálpebras estavam-lhe terrivelmente pesadas. Tentou sentar-se, apoiado nas mãos.


— Ai! — gritou o Fai, ao sentir a dor no ombro.


O grito acordou o Dew.


— Raios… porque é que dói tanto? — resmungou o Fai, ao lembrar-se de que, na véspera, o ombro não lhe doía.
— Oh, acordaste. Como te sentes, Nong? Queres beber? — perguntou o Dew.


O Fai limitou-se a abanar a cabeça. O Dew aproximou-se dele e, depois de lhe verificar o pulso, encheu-lhe um copo de água e estendeu-lhe um comprimido para as dores. O Fai bebeu-o logo, porque no doutor Dew confiava.


— Ontem desmaiaste. Hoje, o nível de adrenalina no teu sangue baixou, e o analgésico deixou de fazer efeito, por isso é que o ombro dói. O Fon e a Khun Kira ligaram-te. Não quis atender do teu telemóvel e liguei-lhe do meu. Nos próximos três dias não conseguem apanhar um voo, por causa do mau tempo. A Khun Kira pediu que lhe telefonasses quando acordasses. Ah, o médico trouxe-te o telemóvel do chefe. Está no armário ao lado da cama —  o Dew fez logo o seu relatório, mal o Fai tomou os medicamentos. — Tens de comer. Estes comprimidos tomam-se antes das refeições. Vou trazer-te umas papas. Nem penses em recusar, Nong. Precisas de forças e de saúde, para dares conta de toda esta merda — disse o Dew, a encaminhar-se para a porta.


O Fai processava a informação e olhou para a prateleira do armário. Pegou no telemóvel do Hima, onde havia várias chamadas não atendidas. Marcou maquinalmente, no telemóvel do Hima, a palavra-passe do seu próprio telemóvel, e ficou espantado quando ela funcionou. Era o dia e o mês do primeiro encontro dos dois.


O cachorrinho abriu as mensagens e viu vários SMS dos gestores dos hotéis e dos casinos, e também do Don. O Fai comparou-os com as chamadas não atendidas e percebeu que tinha de resolver, com urgência, os assuntos de trabalho. Mas a primeira coisa que queria era ver o Hima.


O Dew voltou ao quarto com as papas, chegou a mesinha para junto da cama e pousou nela o prato, com um copo de água.


— Come. Ainda é cedo para ligar para Moscovo. Lá são três da manhã. Acho que eles também estão de rastos e com os nervos em franja; deixa-os dormir um bocadinho — avisou logo o Dew, a observar o Fai a comer. — Ah, o médico autorizou-te a ver o chefe. Mas só meia hora por dia. O Khun Hima está estável, mas não recuperou a consciência. Enquanto não acabares de comer, não te deixo sair do quarto — lembrou-se o Dew, e a mão do Fai ficou imóvel a segurar a colher.


O Fai ergueu para ele os olhos rebrilhantes e começou a comer mais depressa. Queria tanto ver o Hima que, mesmo que lhe dissessem para beber veneno, teria aceitado. Acabada a refeição, o Fai deu um salto da cama e saiu do quarto.


Diante da porta em frente, estavam o Kat e o Rio. Ao verem o Fai, baixaram a cabeça e abriram passagem.


🚪 Clac…


O Fai abriu a porta do quarto do Hima, e nos seus olhos brilharam lágrimas. O Hima estava deitado na cama, ligado a um monitor cardíaco e a um tubo de ventilação. O rosto já não estava tão pálido como logo a seguir à operação. O monitor apitava, a provar ao Fai que o coração do seu amado batia. O Fai entrou no quarto e, a puxar uma cadeira para junto da cama do Hima, sentou-se.


Com a mão a tremer, o Fai pegou na mão do Hima e apertou-a com ternura. A mão estava quente — mas não veio nenhuma reação da parte do Hima…


— Não me deixes… estás a ouvir… eu suplico-te… — a voz tremia-lhe por causa do nó que lhe subia à garganta.


O Fai acariciava-lhe a mão, a inclinar-se para lhe encostar a bochecha. Com o toque quente da mão do Hima na bochecha fria do Fai, começaram a correr-lhe lágrimas involuntárias dos olhos.


— O meu coração pertence só a ti… eu não consigo respirar sem ti… eu preciso de ti… — o Fai continuava a falar, a beijar-lhe a mão com ternura.


O Fai ficou deitado na beira da cama, sem largar a mão dele da sua. O olhar estava-lhe pregado no rosto do Hima. A olhar para o seu amado naquele estado, o antigo Fai — o meigo e bondoso,  morria devagar por dentro. Aquele rapaz era só para o Hima… E agora… o seu Gatão não olha para ele, não o ouve, não lhe toca, não lhe sorri…


— A mãe disse que eu tenho de ser forte pelos dois, meu amor. E vou ser — o Fai falava-lhe num tom terno, embora nele se sentissem uns laivos de raiva.


📡 ‹Chefe. A pulseira.› — o Smart lembrou-lhe a pulseira que ele tinha no bolso.


O Fai tirou a pulseira do bolso e pô-la no pulso do Hima, a ligá-la ao smartphone dele.


— Smart, monta-me a agenda de reuniões e de assuntos do Hima para hoje, a começar às 9 da manhã — pediu o Fai baixinho, quando pegou no telemóvel do Hima e viu, no ecrã, o aviso de uma reunião marcada.


📡 ‹Sim, chefe. A agenda fica pronta dentro de dois minutos.›


O Fai continuou deitado na cama, a encostar a mão do Hima ao rosto, a respirar o cheiro dele,  apesar de estar misturado com o cheiro do hospital. A sentir o seu calor, o Fai fechou os olhos e adormeceu.


🍃 🍃 🍃


Algum tempo depois


— Khun… Khun… — o Fai ouviu uma voz desconhecida e ergueu a cabeça, sem largar a mão do Hima.


O Fai viu o médico, que o chamava. O Kat tinha pedido que não lhe tocassem nas mãos, com medo de que o Fai, depois do que passara na véspera, pudesse magoar o médico.


— Doutor, como é que ele está? — perguntou o Fai com a voz rouca, a sentar-se direito, mas sem largar a mão do seu amado.
— Lamento muito. Durante a noite, o paciente saiu da anestesia mas, passada uma hora, entrou em coma. Fizemos-lhe exames de urgência. O cérebro está intacto. Neste momento, está em coma de grau 2 — explicou o médico, e o Fai, a olhar para o Hima, começou a chorar. — Khun… Não lhe consigo dizer ao certo quando é que o paciente vai sair do coma, porque isso não se pode prever. O caso dele não é dos mais graves. De um coma de grau 2, os pacientes costumam sair no espaço de três semanas — continuou o médico, ao ver o estado em que o jovem estava.
— Doutor… é verdade que eu só posso estar com ele meia hora por dia? — perguntou o Fai, com a voz trémula, aquilo que agora lhe interessava.
— Nas primeiras vinte e quatro horas, sim. Depois, pode aumentar-se o tempo. Sabia que já infringiu essa regra? — perguntou o médico, e o Fai olhou para a pulseira, que marcava quase 8 da manhã.
— Estive aqui sentado mais de uma hora. Desculpe, adormeci — desculpou-se o Fai baixinho, sem despregar o olhar do Hima.
— Está na altura de voltar para o seu quarto, Khun. Se os valores e os pontos dele estiverem em ordem, digo aos seguranças que o avisem. E, então, poderá visitá-lo outra vez — o médico via o estado em que o Fai estava e decidiu animá-lo.
— Obrigado, doutor. Já vou — o Fai levantou-se da cadeira e, a largar com uma angústia funda a mão do Hima, ergueu as mãos num wai diante do médico.


O Fai saiu do quarto, a limpar os restos das lágrimas.


— Kat, Rio, mais logo arranjo quem vos possa render, para poderem descansar. Agora, podem ir comer à cafetaria do hospital, que eu fico de olho nele. Têm vinte minutos. Mais logo, tenho de sair para uma reunião num restaurante — o Fai disse-o com calma, sem tom de ordem, e os rapazes, com um aceno, foram-se embora.


📡 ‹Chefe. Verifiquei: o Ball, o Gui e o Kai estão limpos. O Kai só trabalha para o segundo chefe há duas semanas. Mas, pelos dados que reuni, é o mais indicado para seu guarda-costas pessoal.›


— Obrigado, Smart. Verifica toda a gente lá de casa, até aos jardineiros e aos trabalhadores contratados. Não quero surpresas — disse o Fai, a tirar o telemóvel do bolso e a marcar um número.


📞 — [Sim, Khun Fai]— soou a voz cristalina de um jovem.
📞 — “Kai, diz ao Ball e ao Gui para pegarem num carro e virem buscar-me ao Hospital XXX. Hoje, vão acompanhar-me os três às reuniões. Diz aos outros que eu ordeno que não deixem o Kris sair da propriedade da mansão, e que não lhe deem nenhuma informação sobre o estado do Hima” — o Fai falava num tom sério.
📞 — [Sim, Khun Fai] — o Kai concordou e desligou.


📡 ‹Chefe, não o quis acordar e inseri no calendário do seu smartphone a agenda das reuniões. A primeira reunião é às 9h30 da manhã. A morada está nas notas da agenda.›


Passados vinte minutos, o Kat e o Rio voltaram. O Fai pediu ao Dew que levasse comida aos rapazes à hora de almoço, porque tinha receio de que uma entrega pudesse ser perigosa. O Dew percebeu os seus receios e concordou. Mais dez minutos depois, o Kai veio ter com ele, e desceram ao estacionamento. Já sentado no carro, o Fai viu-se no espelho retrovisor e abanou a cabeça.


— Gui, passamos por um centro comercial. Não posso ir a uma reunião com este aspeto — pediu o Fai, e o Gui acenou que sim.


O Fai comprou um fato, uns sapatos e uma pasta pequena para documentos. Trocou de roupa logo ali no provador, embora a dor no ombro lhe causasse incómodo. Foi especialmente difícil voltar a pôr o coldre. 

No cabeleireiro, pentearam-no depressa e, às 9 horas, já estava outra vez no carro, a arrumar na pasta a cópia da procuração, o seu cartão de identidade* e o seu iPad.


(N. da A. : o cartão de identidade é o documento de identificação tailandês.)


O Fai tinha dado a morada ao Gui ainda ao pé do hospital.


📡 ‹Chefe. Pelos meus cálculos, chega dez minutos antes da hora marcada. Enviei toda a informação para o seu email. E também material comprometedor, para o caso de não o quererem ouvir.›


O Fai pegou no telemóvel e agradeceu ao Smart por SMS. Depois, o cachorrinho tirou o iPad e inteirou-se dos pormenores da reunião. O carro parou à entrada do restaurante, onde já estava reservada uma sala privada para as negociações.


O Fai, acompanhado pelo Kai e pelo Ball, saiu do carro, a deixar o meigo cachorrinho no quarto do Hima. Do carro saiu uma pessoa completamente diferente: fato castanho-escuro, camisola de gola alta cor de coral, sapatos castanhos. O olhar era duro e gelado.


O Ball abriu-lhe a porta de entrada, e o Fai entrou com passo firme. Com uma mão, apertava a pasta dos documentos contra a coxa, a segurá-la por baixo; e a outra, a mão ferida, ia no bolso das calças. O seu andar sem pressa e o olhar frio criavam-lhe à volta uma aura completamente nova para quem o rodeava, que aterrorizava até os seus próprios guarda-costas. Estavam habituados a ver um rapaz meigo e sorridente, bondoso e compreensivo.


O Fai entrou na sala, onde à mesa já estava sentado, acompanhado por quatro guarda-costas, o homem com quem o Hima tinha a reunião marcada. Este olhou para o jovem que entrava, e os seus guarda-costas avançaram na direção do Fai.


O Ball e o Kai quiseram barrar-lhes o caminho, mas o Fai ergueu a mão, a proibi-los. Os rapazes pararam atrás das costas dele.


— Senhor Koji, se os seus homens não voltarem aos lugares, não há negociação — o Fai lançou ao Masushimaru um olhar autoritário de esguelha, que mostrava que o jovem não estava a brincar, embora nem sequer tivesse virado a cabeça para ele.
— Eu tenho uma reunião marcada com o Hima. Quem és tu, e onde está o Hima? — perguntou o Koji, a olhar com desdém para o jovem que estava de lado.
— Estou pronto a discutir consigo os pormenores. O Hima… não pôde vir, por isso estou aqui eu — a voz do Fai não vacilou, mas ele não disse nada sobre o estado do Hima.


Ha! Enganar este miúdo vai ser fácil. O Hima é um idiota, se mandou este fedelho em vez dele — pensou o Masushimaru e, com um gesto, convidou o jovem para a mesa.


O Fai avançou e sentou-se em frente do Koji. Atrás dele, ficaram de pé o Kai e o Ball. O Koji examinou o Fai de alto a baixo e, ao subir o olhar até aos olhos dele, ficou espantado. O olhar e a aura não correspondiam à idade dele. O Masushimaru tinha algum receio do Hima, porque o olhar frio do Hima metia medo.


— Permita-me apresentar-me. Chamo-me Fai. Estou pronto a discutir consigo a nossa colaboração — o Fai falava com bastante calma e segurança, sem mostrar o mínimo sinal de nervosismo. — O senhor quer que os nossos dois casinos o ajudem a branquear dinheiro. Eu li o acordo preliminar entre si e o meu marido. E introduzi algumas alterações — o Fai olhava o Masushimaru diretamente nos olhos, com um leve sorriso que, junto com o olhar frio, metia medo.


O Fai tirou da pasta o seu iPad e enviou o documento para o email do Koji.


— Espera lá, o que é que tu disseste? Marido? Ha-ha… O Hima é teu… marido?! Isto é alguma piada do Hima? — o Koji não conseguiu conter o riso; perante o que o Fai tirou a procuração e, a pousá-la na mesa, empurrou-a na direção dele.
— Isto é uma procuração, reconhecida em notário, que me transfere o direito de gerir o negócio dele. E, para o seu email, eu já enviei as condições do acordo, alteradas. Pode verificar e tomar conhecimento — o Fai cruzou os braços sobre o peito e recostou-se, displicente, no encosto da cadeira.


Embora o ombro lhe doesse, não deixava transparecer nem uma pontinha de dor. O Masushimaru pegou no documento e, ao lê-lo, ficou espantado por o Hima ter confiado tudo a um rapazito qualquer. A devolver o documento ao Fai, pediu o tablet ao guarda-costas e, ao entrar no seu email, ficou boquiaberto.


— Estás a falar a sério, fedelho?! Sabes quem eu sou?! Atreves-te a propor-me condições destas?! — o Koji quase gritava, ao ver a percentagem de comissão aumentada pela utilização dos casinos — porque, com o Hima, o combinado não tinha sido aquilo.
— Eu sei quem o senhor é. Masushimaru Koji. Trinta e sete anos, chefe do sindicato local Bōryokudan*. Casado, com uma filha encantadora de cinco anos. O seu irmão mais velho, o Takanahara, trabalha com o Elijah em Nova Iorque. Eu vi o contrato deles no caminho para aqui. E fui suficientemente generoso para lhe propor menos 3,2% de comissão do que aquilo que o Elijah acordou com o seu irmão. E, depois disto, o senhor ainda se atreve a levantar-me a voz? Acha que eu vim aqui divertir-me? — o Fai repetiu a informação que o Smart lhe tinha dado, a olhar para o Koji com um olhar duro e um sorriso nos lábios.


(N. da A. l: Bōryokudan é outra designação da máfia japonesa.)


Ao olhar para o Fai, ao Koji correu-lhe um arrepio pela pele.


Raios… com o Hima, ainda se podia negociar; mas com este, o que é que eu faço?!— pensou o Masushimaru.


O Koji estava desnorteado, porque conhecia o feitio do Hima, e ele tinha uma reputação nos meios sombrios. Mas o que se podia esperar deste rapaz à sua frente? Porque é que este fedelho o assustava mais do que o Hima? Talvez por causa daqueles olhos negros e vazios, em que ele não conseguia ler nada,  ou por causa daquele sorriso assustador, que só reforçava a sua aura sinistra. Se, agora, aquele rapaz estava de bom humor, como ele próprio dissera, então o Masushimaru não queria saber como é que ele seria em fúria.


— Mas… eu e o Hima não tínhamos combinado isto. Nós… — o Koji decidiu tentar negociar.


Pám!


O Fai bateu na mesa com toda a força, com a mão sã, e o Koji estremeceu de surpresa, enquanto os guarda-costas dele sacavam das armas e as apontavam ao Fai. O Ball e o Kai levaram a mão às pistolas, mas o Fai ergueu a mão, a detê-los. Os rapazes baixaram a cabeça, obedientes.


— Se as minhas condições não lhe agradam, eu vou-me embora. Além do senhor, há outras pessoas mais compreensivas, por exemplo, o senhor Tong, do Dai Huen Jai*. Acho que ele vai ficar muito satisfeito com esta proposta — o Fai olhou para o Koji e levantou-se da mesa com um sorriso.


(N. da A. : o Dai Huen Jai é um dos maiores sindicatos criminosos da Tríade de Hong Kong e do sul da China.)


Foi o Smart que sugeriu este ponto de pressão, porque o Koji odiava o Tong da Tríade.


— Espera! Eu aceito. Assino o contrato — concordou o Masushimaru, a ranger os dentes.


Não podia permitir que o Tong ficasse com aquele negócio.


— Excelente decisão, senhor Koji. Kai, o tablet — o Fai estendeu a mão, e o Kai passou-lhe o tablet.


O Fai abriu o documento, tirou a caneta e estendeu-a ao Koji.


— Não sou apreciador de documentos em papel. Nós vivemos num mundo moderno, de eletrónica. Uma assinatura digital tem a mesma validade que uma em papel — o Fai olhou para o tablet e sorriu quando o Koji assinou. — É um prazer negociar consigo. Vou enviar a cópia do contrato para o seu email. Espero que nos voltemos a encontrar — o Fai recuperou o tablet e, depois de assinar, enviou a cópia para o email do Koji. — Até à próxima, senhor Masushimaru — o Fai guardava o tablet na pasta com um sorriso e encaminhou-se para a saída, sem esperar pela resposta do interlocutor.


— Mas o que é que foi isto agora? Este demoniozinho é ainda pior do que o Hima… Kujo, arranja-me toda a informação que houver sobre este rapaz — murmurou o Koji e, depois, ordenou em voz alta ao guarda-costas.


📡 ‹Chefe. O Koji mandou procurar informação sobre si. Eliminei temporariamente as suas contas nas redes sociais e todas as referências ao chefe ou à sua ligação ao segundo chefe.›


O Fai acenou ao de leve com a cabeça, a caminho do carro.


📡 ‹Não tem de quê, chefe. Os médicos repetiram a TAC ao segundo chefe. Não se detetaram anomalias. Não há alterações no estado do segundo chefe.›


O Smart percebia o Fai cada vez melhor. Já sentado no carro, o Fai escreveu-lhe um SMS:


📩 ‹Obrigado, Smart. Mantém-me a par.›


O Fai olhou para a agenda e partiu para a reunião seguinte. Ao meio-dia, o Smart lembrou ao Fai a hora da medicação, e ele, com os rapazes, passou por um restaurante barato para comerem qualquer coisa. Eles recusavam-se, teimosos, a comer à mesma mesa que ele, porque, dantes, o Hima nunca o fazia. O Fai teve de os obrigar a comer com ele, em tom de ordem. O Fai tomou o comprimido e comeu. Afinal, percebia que tinha de aguentar, pelo menos, até ao regresso do Dao.


Depois do almoço, foram para o laboratório, para falar com o Don.


📲 Trum… trum… trum…


Tocou o telemóvel do Hima, e o Fai tirou-o do bolso. Ao ver o número, atendeu logo.


(N. da A. : a conversa ao telefone decorre em inglês.)


📞 — “Olá, Jah” — respondeu o Fai baixinho.
📞 — [Fai? Como estás? O Dao ligou-me ontem. Acabámos de aterrar] — perguntou o Jah, com uma ponta de preocupação.
📞 — “Desculpa, Jah, esqueci-me de te ligar” — o Fai não conseguiu conter o tremor na voz.
📞 — [Onde estás? Nós vamos já ter contigo]— a voz do Elijah era suave.
📞 — “Vamos a caminho do laboratório” — respondeu o Fai, e o Kai espreitou pelo espelho retrovisor.
📞 — [Ah! Ligou-me o Takanahara…] — o Jah quis perguntar, mas o Fai interrompeu-o com uma gargalhada sonora, o que espantou o Elijah.
📞 — “Ah-ah-ah, o irmão mais novo já foi queixar-se? Eu propus-lhe um bom negócio — ainda melhor do que aquele que tu propuseste ao Takanahara. E aquele idiota ainda torceu o nariz“— o Fai descreveu, em traços gerais, os pormenores do negócio.
📞 — [Então foste mesmo tu? Sabes como é que o Koji te chamou? Disse que fez um acordo com o Diabo] — o Jah estava espantado, porque tinha visto o Fai e não lhe entrava na cabeça que, naquele Fai meigo e sorridente, o Yakuza tivesse visto um diabo.
📞 — “Espero por ti no gabinete do Hima. Gui, quanto tempo leva o caminho?” — disse o Fai ao Jah e dirigiu-se ao Gui, sem desligar.


— Uns trinta minutos, chefe — respondeu o Gui.


📞 — [Está bem, Fai. Ouvi. O Dao ligou para casa e pediu ao motorista para nos ir buscar. Chegamos aí dentro de uma hora, mais ou menos] — respondeu o Jah e terminou a chamada.


— Chefe… primeiro vai falar com o Don, ou ao gabinete? — perguntou o Ball, sentado ao lado dele.
— Ah! Eu espero pelo Jah e pelo Tadao. Eles têm de ver isto — o Fai sorriu, e, com aquele sorriso, ao Ball correu-lhe um arrepio pelas costas.


Passados quarenta minutos, o carro estacionou no parque do edifício. O Ball saiu do carro e abriu a porta ao Fai.


— Rapazes, têm de subir todos. Não sei quanto tempo é que isto vai levar; vocês precisam de dormir umas horas. Ball e Gui, mais logo vão render o Rio e o Kat no hospital — o Fai disse-o com brandura, como se não estivesse a falar com subordinados, mas com amigos, e os rapazes acenaram que sim. Mas o olhar dele continuava igualmente frio.


O Fai subiu logo ao gabinete, a passar ao lado do piso do laboratório do Don. Queria primeiro tratar dos documentos e só depois ouvir gritaria. Porque, se tivesse feito ao contrário, depois dos gritos do Don ser-lhe-ia mais difícil concentrar-se nos papéis. Ao chegar ao gabinete, o Fai dispensou os rapazes e, ao entrar, sentou-se à secretária do Hima, mergulhado nos documentos.


📡 ‹Chefe, o Dew chegou ao hospital com o almoço para o Rio e o Kat. Não se observam alterações no estado do segundo chefe. Dentro de dois minutos, o Elijah e o Tadao chegam ao seu gabinete.›


— Obrigado, Smart. Quero um relatório do estado dele de duas em duas horas. Converte para formato eletrónico todos os documentos deste gabinete a que tenhas acesso — disse o Fai e continuou a tratar das guias de remessa da nova entrega, a dispô-las de modo que o Smart as pudesse digitalizar.


📡 ‹Sim, chefe.›


Sem baterem à porta, entraram o Jah e o Tadao, acompanhados por seis guarda-costas. O Fai ergueu ao de leve o olhar e voltou de novo aos documentos.


— Olá. Deem-me dez minutos, tenho de acabar as guias de remessa do carregamento de armas para o Anton. É já depois de amanhã — disse o Fai com calma, e o Tadao e o Jah trocaram um olhar.
— Fai, isso agora não é importante. O Anton pode esperar — disse o Tadao em inglês, com uma ponta de preocupação.
— Eu não posso ajudar o Hima em nada no hospital… mas posso manter os negócios dele sob controlo — o Fai disse-o com voz triste e continuou a tratar dos documentos.


O Tadao e o Jah sentaram-se no sofá, a olhar para as mudanças no gabinete.


— Isto é teu, Fai? — perguntou o Jah, ao ver os bastidores com os servidores e a secretária com o computador. O Fai acenou que sim.
— Em que é que estás a trabalhar? — quis saber o Jah, a examinar o bastidor.
— Na criação de uma IA — respondeu o Fai de forma breve, porque se lembrava da proibição do Hima de falar do Smart fosse a quem fosse.
— Uau! O Don já trabalha há dois anos na criação de uma, mas, até agora, sem resultados palpáveis — disse o Jah, e o Fai sorriu com um sorriso frio.
— Ah, é verdade. O Don. Ainda não resolvi esse assunto — murmurou o Fai e pôs os documentos de parte.


O Fai levantou o auscultador do telefone da secretária do Hima e perguntou ao técnico onde é que o cartão de acesso do Don tinha sido registado pela última vez. O Jah e o Tadao trocaram um olhar. O homem disse que o Don estava no laboratório desde as 9 da manhã.


— Tenho de… resolver um assunto com o Don. Podem ficar aqui sentados. Acho que… hoje o laboratório vai estar demasiado barulhento — o Fai fazia pausas de propósito, para pensar bem na resposta.
— Tens problemas com o Don, Fai? Posso ajudar? — perguntou o Jah, porque tinha sido ele a recomendar o Don ao Hima.
— Não, Jah. É o Don que tem problemas comigo. Consigo resolver isto sozinho; mas, se quiserem assistir, não me oponho — o Fai sorriu, mas ao Tadao e ao Elijah aquele sorriso não lhes agradou nada.


O Fai levantou-se da secretária e encaminhou-se para o laboratório do Don. O Tadao e o Jah seguiram-no com os seus guarda-costas. O Jah tinha medo de que o Don fizesse alguma estupidez e de que, se magoasse o Fai, o Hima depois o matasse.


O Fai entrou no laboratório sem bater e viu oito pessoas a correr de um lado para o outro, de um computador para o outro. O Don estava sentado a uma mesa, com o seu tablet, a tentar recuperar os dados.


— Não vais conseguir recuperar os dados, Don. Escusas de tentar e de andar a chatear os outros à toa — o Fai percebia o que o Don estava a fazer, por isso decidiu logo matar-lhe, pela raiz, todas as esperanças.


O Don ergueu os olhos e viu o responsável por toda aquela confusão. Ferveu de raiva num instante e levantou-se da cadeira de um salto.


— Tu! Fedelho! O que é que tu fizeste? Eu passei dois anos neste projeto! — gritava o Don, a aproximar-se do Fai.
— Durante dois anos, o meu marido pagou-te um ordenado para seres um raro imbecil, Don! Passaste dois anos sem conseguires encontrar o erro nos teus próprios dados — o Fai dizia-o com voz severa, sem levantar o tom.


O Fai estava diante dele exatamente na mesma posição em que tinha entrado no restaurante, com a mão ferida no bolso das calças, para aliviar a pressão no ombro. O olhar dele era gelado e assustador. O Don estacou quando viu entrar o Tadao e o Jah com os guarda-costas.


— Senhor Elijah! O senhor tem de me ajudar! Este rapaz roubou-me o projeto! — o Don decidiu pedir ajuda ao Jah, sem desconfiar de que o Elijah tinha ouvido a conversa deles.
— Roubou? Ah-ah-ah… Eu dei-te uma lição, Don, mas tu és tão estúpido que não a percebeste — o Fai sorriu e continuou no mesmo tom. — E agora, Don… repete-me na cara aquilo que me disseste ontem ao telefone — ordenou o Fai, a olhar o Don nos olhos.


O Don ficou paralisado ao ver aquele olhar, não conseguiu dizer uma palavra, de tal era o horror que a aura do Fai lhe provocava. O Fai tirou a pistola do coldre e apontou-a ao Don. O Jah e o Tadao observavam o que se passava. O Don engoliu em seco e deu um passo atrás. As pessoas no laboratório ficaram imóveis de medo.


— Eu disse… repete tudo o que me disseste ontem ao telefone, Don! — o Fai continuava a falar em tom de ordem. — Deixa lá, repito eu por ti aquilo que eu disse! «Don, achas que, por seres mais velho, isso te dá o direito de não obedeceres? Se eu disse que preciso de duas pulseiras, a única coisa que tens de perguntar é de que cor deve ser a correia! Da próxima vez, Don, pode não ser o teu projeto, pode ser o sistema de ventilação do laboratório desligado. Sou eu que não tenho tempo para brincar contigo, Don.» Não me enganei, pois não? Ah, é verdade! Eu disse ao Mix para te dar um tiro na perna, se não trouxesses as pulseiras em dois minutos. Vi as gravações das câmaras do laboratório: atrasaste-te 43 segundos. Não quero que os outros pensem que eu falo por falar, Don! — o Fai sorriu e apontou a pistola à perna do Don.
— Escolhe: direita ou esquerda? — perguntou o Fai, e o Don olhou, suplicante, para o Jah, que abanou a cabeça.
— Khun… Fai… não faça isso, por favor… eu percebi tudo… — implorava o Don ao Fai.

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