32 🔞 – Novo chefe (parte 2 de 2)
O Fai tirou do cinto a pistola e apontou-a à cara do Kris.
— Se disseres mais alguma coisa que não seja «percebido, chefe», vais para o hospital na próxima ambulância, com um lençol branco sobre a cara! — disse o Fai num tom sério, e via-se-lhe nos olhos que não estava a brincar.
O Kris não esperava um comportamento daqueles do Fai e, com um aceno, disse:
— Percebido.
O Fai sentou-se no lugar do passageiro, ao lado do Mix, que arrancou logo dali.
— Tens de chegar ao hospital em seis minutos. Se… — o Fai continuava a dar ordens, mas o Mix interrompeu-o.
— Khun Fai… está bem? Não se preocupe, o chefe vai ficar bem. Está a doer muito? — perguntou o Mix com desvelo, a espreitar o ombro ferido do Fai.
O Fai ficou pasmado… o Mix era quem, agora, lhe mostrava desvelo e apoio. Precisamente quando ele mais precisava deles. O Fai voltou a desatar a soluçar.
📡 ‹Chefe, o segundo chefe já deu entrada no hospital. Estão neste momento a prepará-lo para a cirurgia. Por cálculos preliminares, a cirurgia deve durar entre quatro e nove horas. Não faz sentido correr para o hospital. O seu condutor está muito nervoso. É melhor não exceder a velocidade, para não terem um acidente.›
Suspiro.
— Desculpa, Mix. Não é preciso correres; de qualquer maneira, não vou poder vê-lo antes da cirurgia. Leva-me lá, e pronto — o Fai dominou-se, e viu que o Mix também estava preocupado, quando o Smart lho lembrou.
— Está bem, chefe… — respondeu o Mix baixinho, e abrandou um bocadinho.
O Fai olhava pela janela com o olhar vazio; todos os seus pensamentos, a sua alma e o seu coração estavam agora na sala de operações.
📡 ‹Chefe, reuni as gravações das câmaras da zona do incidente. Vou enviar-lhe o relatório e o vídeo por email.›
O Fai tirou o telemóvel do bolso, como se atendesse uma chamada.
— Sim. Está bem — respondeu o Fai, e o Smart reconheceu o sentido daquele gesto.
— Podes criar uma conta no Line e mandar tudo para lá. Vai ser mais fácil comunicarmos quando eu estiver ocupado. Percebes o que quero dizer? — continuou o Fai.
📡 ‹Sim, chefe. Conta no Line criada, pedido de adição enviado. Se precisar de ajuda quando estiver com alguém, pode escrever-me, e eu respondo-lhe por aqui.›
— Está bem. Até já — o Fai fez de conta que se despedia do interlocutor.
— Mix… vocês têm alguém que consegue descobrir qualquer informação, certo? — perguntou logo o Fai, e o Mix virou-se para ele.
— Sim. Normalmente, é o Dark que trata disso. Mas só o Khun Hima e o Khun Dao é que têm os contactos dele. Nenhum de nós alguma vez o viu — respondeu o Mix com franqueza, porque percebia que o Fai queria descobrir quem tinha disparado.
O Fai olhou para o telemóvel e aceitou o pedido enviado pelo Smart.
📩 ‹Ouviste o que o Mix disse, não ouviste?› — o Fai enviou a mensagem ao Smart.
📡 📩 ‹Sim, chefe. Já estou a reunir informação. Aceder ao histórico de mensagens e de chamadas vai levar algum tempo.›
📩 ‹Apaga o vídeo das câmaras daquela zona, depois de o enviares para o meu email.›
📡 📩 ‹Sim, chefe.›
O Mix estacionou o carro à porta do hospital, e o Fai saiu depressa, em direção à receção.
— Acabou de dar aqui entrada um homem com um ferimento de bala. Está agora na sala de operações. Onde é que ela fica? Onde é que eu posso esperar? — perguntou o Fai à rapariga, que ergueu a cabeça e ficou espantada.
— Khun… o senhor precisa de um médico. Está ferido. Vou já chamar alguém para o observar — a rapariga não respondeu à pergunta e agarrou logo o auscultador do telefone do balcão.
A rapariga tinha observado o jovem: nas mãos, sangue seco; a camisa e a t-shirt ainda molhadas de sangue; e reparou logo na ferida a sangrar no ombro dele. Ao Fai, naquele momento, o seu aspeto não lhe interessava nada — ele só queria estar ao pé do seu amado.
— Eu perguntei ONDE é que eu posso esperar?! — o Fai agarrou o braço da rapariga, a travá-la e, a ignorá-la por completo, perguntou num tom duro. A rapariga ficou calada.
📡 ‹Chefe, é no terceiro andar, à esquerda do elevador. Sala de operações 2.›
— Inútil… Vamos, Mix — disse o Fai, e encaminhou-se para o elevador.
A rapariga ficou espantada com aquele comportamento do jovem — tal como o Mix.
O Fai subiu ao terceiro andar e sentou-se numa cadeira à porta da sala de operações. Meia hora depois, chegou o doutor Dew e ligou ao Mix, que lhe explicou onde os encontrar.
O Fai estava sentado em frente da sala de operações e, quase sem pestanejar, fitava os vidros foscos da porta. O Fai não via nem ouvia nada,só esperava… Naquele momento, nada existia para ele: só o homem por trás daquelas portas, o homem que ele amava. O Fai culpava-se do que tinha acontecido. Afinal, se ele não tivesse querido ir a casa da mãe, nada disto teria acontecido. Se ele não tivesse aceitado, naquela altura, ir com ele, o Hima estaria bem.
— Nong Fai… Nong Fai… — a voz do Dew soava cada vez mais alto, até que o Fai se deu conta de que o estavam a chamar pelo nome.
— Hã? O quê? — o Fai despregou o olhar da porta e olhou para o Dew.
— Deixas-me tratar-te a ferida? Se o Khun Hima ficar a saber que tu foste ferido e que eu não te ajudei, na melhor das hipóteses sou despedido. Tu tens de estar bem, para teres forças para cuidar dele depois da cirurgia — o Dew sabia o que dizer, e o Fai acenou que sim, a compreender.
O Dew ajudou-o a tirar a camisa de cima e, ao levantar-lhe a t-shirt, percebeu que a bala estava alojada no ombro dele.
— Vá lá. Primeiro, é preciso tirar a bala. Está bem? — o Dew insistia na observação.
— Está bem. Mas eu não saio daqui — o Fai resistia, a recusar-se até a levantar-se da cadeira.
📡 ‹Chefe, tem de ir. Eu ligo-me à câmara da sala de operações e mantenho-o a par de tudo. O doutor Dew tem razão. Se a sua ferida inflamar depois da cirurgia, não vai conseguir cuidar do segundo chefe.›
Suspiro.
— Khun Fai, não faça iss… — o Mix decidiu apoiar o Dew, porque sabia que, quando o chefe desse por si e soubesse que eles não tinham cuidado do Fai, o mais certo era as palavras que o Fai dissera ao Kris tornarem-se realidade para os dois.
— Que se lixe. Vamos — interrompeu-o o Fai e, a levantar-se da cadeira, encaminhou-se para o elevador.
O Dew e o Mix entreolharam-se e, com um suspiro de alívio, foram atrás dele para o elevador. O Dew levou o Fai à urgência onde, ao que se veio a ver, trabalhava um colega de curso do Dew, o Chon. Os quatro foram para a sala de observação.
O Chon tirou a t-shirt ao Fai e, depois de lhe observar a ferida, virou-se para o Dew.
— O que é que aconteceu? Porque é que não o trouxeste logo para cá? Embora, mesmo sem raio-X, eu já te possa dizer que a bala não atingiu nenhum órgão vital nem nenhuma artéria — caso contrário, já ele se teria esvaído em sangue… — o Chon disse-o sem malícia nenhuma; mas, com as palavras «JÁ SE TERIA ESVAÍDO EM SANGUE», o Fai voltou a soluçar, a lembrar-se do rosto pálido do Hima nos seus braços e do casaco ensanguentado com que lhe fazia pressão na ferida.
— Khun Fai… ele vai ficar bem. Agora, o senhor tem de cuidar de si — disse o Mix baixinho.
O Fai soluçava, incapaz de estancar as lágrimas. De cabeça, percebia que não era com lágrimas que ajudava o Hima; mas o coração rasgava-se-lhe de dor, e só as lágrimas a aliviavam um bocadinho. A alma dele estava tão ferida que ele estava pronto a morrer.
O Chon chamou o Dew e o Mix à parte, a perguntar o que se passava. O Mix contou-lhe que, na sala de operações, estava neste momento uma pessoa importante para o Fai. Tinham sido feridos ao mesmo tempo.
— Oh! Então é aquele tal rapaz que ameaçou processar o médico da ambulância? — quis saber o Chon, e o Mix acenou que sim.
— O quê? A sério? O Nong Fai disse uma coisa dessas? — o Dew não conseguia acreditar que aquele rapaz sossegado fosse capaz de dizer semelhante coisa.
— Devias tê-lo visto quando ameaçou o Kris. Cheguei a pensar que o Khun Fai ia mesmo disparar sobre ele… Estava ainda mais assustador do que o chefe no pior dos seus humores — respondeu o Mix baixinho, a espreitar o Fai.
O Chon voltou para junto do Fai, injetou-lhe um anestésico para tirar a bala, suturar a ferida e ligá-la. Limpou-lhe o sangue das mãos e do peito antes de aplicar a ligadura.
Enquanto fazia tudo aquilo, nem um músculo da cara do jovem estremeceu; o Fai não se mexia e não dizia nada. Como se lhe fosse absolutamente indiferente aquilo que faziam ao seu corpo.
— Pronto. Vou receitar analgésicos e anti-inflamatórios. Dou a receita ao doutor Dew — disse o doutor Chon, e o Dew acenou que sim.
O Chon saiu da sala de observação e foi para outros pacientes.
— Espere aqui, chefe, que eu vou ao carro buscar uma t-shirt. Parece-me que havia uma ou duas na bagageira — o Mix olhou para o Dew, e este acenou, a perceber que o rapaz lhe estava a pedir que fizesse companhia ao Fai.
— Nong… queres alguma coisa? Queres água, ou comer? — quis saber o Dew, mas o Fai abanou a cabeça.
— Eu quero vê-lo… — disse o Fai baixinho.
O Mix voltou, a estender uma t-shirt branca ao Fai. O Fai aceitou-a em silêncio e, ao começar a vesti-la, sentiu o cheiro do perfume do Hima e desatou outra vez a chorar. Os olhos já os tinha vermelhos e inchados, mas não conseguia evitá-lo. Depois de enfiar a t-shirt, o Fai levantou-se e voltou para a cadeira em frente da sala de operações. O Dew e o Mix sentaram-se ao lado dele, calados.
O Fai tirou o telemóvel e enviou uma mensagem:
📩 ‹O que é que descobriste?›
📡 📩 ‹Chefe. Dentro de uma hora, envio-lhe a informação para o email. Aconselho-o a arranjar duas pulseiras de fitness, para eu poder monitorizar os seus sinais e os do segundo chefe.›
— Mix… A cirurgia ainda vai durar mais umas horas. Preciso das duas pulseiras de fitness mais precisas que houver. Vai ao laboratório e diz ao Don que preciso delas com urgência. Se ele se recusar a dar-tas — liga-me — pediu o Fai e, a erguer a cabeça, olhou para o Mix, a arrancar de si um sorriso, com o telemóvel apertado nas mãos.
O Mix acenou que sim, e o coração apertou-se-lhe com o estado em que o Fai estava: o olhar dele estava cheio de dor. O fogo que ele antes tinha nos olhos já lá não estava — como se, por dentro, tivesse ardido até às cinzas e só tivesse ficado a casca.
O Mix foi para o laboratório, e o Dew ficou com o Fai. O tempo arrastava-se de forma traiçoeira; ao Fai parecia-lhe que tinha passado uma eternidade, mas o relógio mentia-lhe descaradamente, a mostrar que só tinham passado trinta e cinco minutos.
— Nong… acho que devíamos ligar ao Khun Dao ou aos pais — disse o Dew baixinho, e o Fai tentou, de novo, conter as lágrimas.
— Tem razão… Eles têm de ouvir isto de mim. Vou já ligar — o Fai olhou para o telemóvel na mão e ganhou coragem.
O Fai desbloqueou o telemóvel e marcou o número…
📞 — [Olá, filho, tive tantas saudades tuas! Defendeste o projeto? Quando é que chegam?] — soou a voz cristalina da Kira.
📞 — “Mãe… O Hia está no hospital… snif… eu…” — o Fai tentou conter as lágrimas, mas não conseguiu.
📞 — [Pequenino, o que é que aconteceu? Estás bem? O que é que se passa com o Hima?] — a voz alegre da mulher deu lugar a uma voz preocupada.
📞 — “Dispararam sobre nós. Ele fez-me de escudo à bala… snif… ele está agora na sala de operações, mãe… eu tenho tanto medo… snif…” — agora, o Fai, ao ouvir a voz da mulher que o podia consolar, voltou a chorar.
📞 — [Nós vamos aí, mal o piloto combine a partida com o aeroporto. Pequenino, está aí alguém ao pé de ti?] — respondeu logo a Kira e perguntou-o, porque tinha medo de que o Fai fizesse alguma asneira.
📞 — “Agora… está aqui só o doutor Dew…” — respondeu o Fai, e olhou para o Dew.
📞 — [Passa-lhe o telefone, filho] — pediu a Kira.
O Fai estendeu-lhe o telemóvel, e o Dew afastou-se para falar com ela. O Dew não escondeu nada à Kira, porque sabia que, se o fizesse e se viesse a saber que ele não tinha dito toda a verdade, o castigo seria cruel.
O Fai voltou a fixar-se na porta da sala de operações.
— Smart… Como é que ele está? — perguntou o Fai.
📡 ‹Chefe, os sinais estão instáveis. Perdeu muito sangue por causa de uma lesão na veia braquiocefálica. Os médicos já a suturaram; a cirurgia está concluída a 47,8%.›
O Dew voltou e estendeu o telemóvel ao Fai; a mãe ainda não tinha desligado. O Fai pegou nele e encostou-o ao ouvido.
📞 — [Fai, filho. Tu tens de descansar. O Dew disse-me que também ficaste ferido. Como é que te sentes? Dói?] — a Kira falava num tom suave e preocupado.
📞 — “Mãe… eu… morro sem ele…” — o Fai disse o que sentia e voltou a soluçar.
📞 — [Então… pequenino… O Hima é forte, ele vai ultrapassar isto. Mas, agora, tu tens de ser forte pelos dois. Tens de descansar, filho] — a Kira continuava a sossegar o Fai.
📞 — “Enquanto a cirurgia não acabar, eu daqui não arredo pé!” — o Fai começou a teimar e levantou o tom.
📞 — [Oh-oh-oh! Isso é que é feitio… Para onde é que foi o meu menino querido?] — a Kira ficou espantada com a teimosia do Fai.
📞 — “Desculpa, mãe… eu… só quero saber que ele está bem…” — o Fai pediu desculpa, ao perceber que tinha levantado o tom com a mãe.
📞 — [Filho, eu percebo. Liga-me quando houver novidades, está bem? Nós chegamos daqui a pouco, mas, por enquanto, tu tens de aguentar, pequenino] — a Kira disse-o com uma ternura tal que, ao Fai, aquelas palavras pareceram-lhe um abraço.
O Fai desligou a chamada e nem teve tempo de guardar o telemóvel no bolso das calças: tocou logo outro.
Que grande porcaria… Mas será que são todos assim tão parvos… — pensou o Fai para dentro, e carregou em «atender».
📞 — “Sim, Mix” — o Fai sentia-se mais calmo depois de ter falado com a mãe.
📞 — [Tal e qual como o chefe disse… desculpe… O Don disse que não tem tempo para brincadeiras de crianças…]— disse o Mix baixinho, já a preparar-se para receber o castigo.
📞 — “Põe o telefone em alta voz, Mix”— pediu o Fai, na mesma voz calma.
📞 — [Sim, chefe… está em alta voz] — respondeu o Mix, a olhar, à espera, para o presunçoso do Don.
📞 — “Don, tu achas que, só por seres mais velho, isso te dá o direito de não obedecer? Se eu disse que preciso de duas pulseiras, tudo o que tu tens de perguntar é de que cor deve ser a correia! Em que é que estás tão ocupado a trabalhar, que não consegues ir ao armazém buscar aquilo de que eu preciso?” — o Fai não gritou: falou com firmeza e autoridade.
Ao Mix e a todos os que estavam no laboratório correu-lhes um arrepio pela espinha com aquele tom.
📞 — [Estou a trabalhar no projeto da IA. Porque é que não vens tu mesmo buscá-las, Nong?] — o Don, apesar de ter ficado um bocadinho assustado, ainda assim aquilo era só uma chamada, e o Fai não estava mesmo à frente dele.
📞 — “Oh! Então, para tu trazeres as pulseiras ao Mix, tens de estar livre, é?” — perguntou o Fai, com sarcasmo.
📞 — [Quando eu estiver livre, levo-lhe as pulseiras] — o Don continuava a bater na mesma tecla.
O Fai afastou o telemóvel do ouvido, sem encerrar a chamada, abriu o Line, escreveu uma mensagem ao Smart, e voltou ao interlocutor.
📡 ‹Chefe. Dê-me quinze segundos, e todos os dados do projeto vão ser apagados.›
📞 — “Don, tens… dez segundos, e depois vais ficar livre. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, zero” — o Fai tinha esperança de que, durante a contagem, o Don mudasse de ideias.
📡 ‹Chefe. Dados apagados do tablet, e também todas as cópias de segurança nos dispositivos do laboratório, à exceção do gabinete do chefe e do segundo chefe.›
📞 — “Agora já podes ir ao armazém, porque o teu projeto já não existe. Verifica o tablet” — continuou o Fai numa voz gelada, e o Don atirou-se para a mesa, a verificar o iPad. — “Da próxima vez, Don, pode não ser o teu projeto — pode ser o sistema de ventilação do laboratório desligado. Sou eu que não tenho tempo para brincar contigo, Don. Mix, se ele, dentro de dois minutos, não te levar as pulseiras — dá-lhe um tiro na perna” — o Fai disse-o com uma calma tal que, se o Mix não soubesse a causa daquela birra silenciosa, teria desobedecido.
📞 — [Sim, chefe] — o Mix aceitou a ordem, a tirar a pistola do coldre, e o Fai encerrou a chamada.
O Dew olhava para o Fai e não o reconhecia. Embora só o tivesse visto umas poucas vezes, sempre vira nele um rapaz sossegado e querido. Quando ouviu a ordem do Fai, ficou em choque.
Três minutos depois, chegou uma mensagem ao telemóvel do Fai:
📩 ‹Chefe, estou quase a chegar, tenho as pulseiras.›
Quarenta minutos depois, chegou o Mix e entregou as duas pulseiras ao Fai. O Fai pôs logo a pulseira e ligou-a ao seu smartphone. O Dew chamou o Mix à parte, para saber o que tinha acontecido no laboratório. O Mix contou que o Don tinha feito uma birra ao ver que o projeto em que trabalhava nos últimos dois anos tinha desaparecido. Trouxe as pulseiras com atraso, mas o Mix teve pena dele, e avisou-o de que, naquele momento, era melhor não irritar o Fai.
📡 ‹Chefe. Enviei a informação para o seu email, com uma senha. As suas emoções, neste momento, não lhe permitem avaliar a situação como deve ser. Quando o seu estado for satisfatório, retiro a senha, para o senhor poder processar a informação e delinear um plano de ação.›
O próprio Fai percebia que o Smart tinha razão. Se ele soubesse agora tudo, as emoções e a sede de vingança iam levar-lhe a melhor, e ele cometia um erro de certeza. Acenou ligeiramente com a cabeça e continuou a olhar para a porta.
O cachorrinho estava sentado na mesma cadeira, e o Mix e o Dew pensavam numa maneira de o convencer a descansar. Porque a Khun Kira tinha ordenado ao Dew que cuidasse do Fai até eles chegarem a Banguecoque.
Já tinham passado mais de seis horas desde o início da cirurgia. O Smart ia relatando ao Fai, de tempos a tempos, o estado do Hima.
📡 ‹Chefe. Cirurgia concluída com sucesso. Dentro de pouco, o segundo chefe vai ser transferido para os cuidados intensivos.›
Ao ouvir isto, o Fai desatou a chorar. O Dew e o Mix atiraram-se logo para o Fai, sem perceber o que se passava.
— Nong, o que é que aconteceu? Fai? — o Dew perguntava ao Fai, mas ele só soluçava, a tapar a cara com as mãos.
O Dew e o Mix não sabiam o que fazer, porque nunca ninguém se tinha comportado como o Fai. Hoje, ele parecia uma pessoa com perturbação bipolar: ora chorava a bom chorar, como uma criança pequena, ora se transformava num homem aterrador, que semeava o pânico e o medo só com o tom e o olhar.
Passados uns minutos, um médico saiu da sala de operações e reparou logo no jovem a soluçar.
— São familiares do ferido? — perguntou o médico.
— Sim, este é… o Nong do nosso chefe — o Dew decidiu dizer que o Fai era irmão dele, porque, oficialmente, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é permitido.
— No seguro dele está indicado que a pessoa de contacto em caso de emergência é Fai Chairat. Já entraram em contacto com ele? — perguntou o médico, e o Fai ergueu os olhos marejados, cheios de espanto.
— O Fai sou eu, doutor. Como é que ele está? — perguntou o Fai, com uma voz calma e trémula.
— O paciente perdeu muito sangue, e o ferimento dele é bastante grave. A cirurgia foi complicada, e ele ainda não está estável. As próximas vinte e quatro horas vão ser decisivas. Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance — disse o médico com pena.
Não eram estas as palavras que o Fai tinha esperança de ouvir. As lágrimas continuavam a correr-lhe pela cara, e o Mix e o Dew davam-lhe palmadinhas de alento no ombro.
— Khun Fai? — soou a voz de uma mulher, e o Fai virou-se para a fonte do som.
Uma mulher de uns trinta e cinco anos, num fato de calças de negócios, aproximou-se deles, e o médico afastou-se. O Dew acenou-lhe com a cabeça, e o Fai percebeu que eles se conheciam.
— Khun Fai. Chamo-me Mali Somchai. Sou a advogada do Khun Hima. O escritório recebeu uma chamada do hospital quando ele deu entrada. Vim mal regressei a Banguecoque, que estava noutra província. O senhor tem de tomar conhecimento deste documento. É uma procuração, reconhecida em notário, que lhe transfere o direito de gerir todos os assuntos do Khun Hima, em caso de incapacidade dele ou… — a mulher não teve tempo de acabar a frase: o Dew agarrou-lhe logo o braço, a abanar a cabeça de um lado para o outro. — Ou de uma situação semelhante. Eu percebo que estou a fazer isto numa altura muito imprópria, mas são ordens do chefe. A partir de hoje, o senhor é o diretor em exercício de todos estes estabelecimentos. Deixo-lhe uma cópia, para poder tomar conhecimento — a rapariga não tinha a certeza de que aquele rapaz a chorar fosse dar conta de um trabalho tão difícil, mas não podia contestar as ordens do chefe.
O Fai pegou nos documentos e acenou à mulher, que se retirou logo. O Mix e o Dew olharam, espantados, para os documentos nas mãos do rapaz, porque sabiam muito bem que, antes, a procuração estava em nome do Dao.
— Mix… estou a perceber bem que, enquanto o Hima não acordar, todos me devem obediência? — voltou a perguntar o Fai, e o Mix e o Dew acenaram que sim.
— Então, a minha primeira ordem é: quando o Hima for transferido para o quarto, ninguém entra sem a minha autorização, a não ser os pais, o Dao e o médico. O Kris não se aproxima do quarto em circunstância nenhuma. A guarda do quarto, confio-a só ao Rio, ao Kat e a ti. Percebeste? — disse o Fai com firmeza, e o Mix acenou que sim.
🚪 Clac…
A porta da sala de operações abriu-se, e dois enfermeiros saíram com o Hima numa maca. O Fai ficou imóvel ao ver o Hima com o soro e o tubo endotraqueal*. O Mix e o Dew viraram-se e agarraram o Fai, porque ele já se lançava em direção ao Hima.
(N. da A. : o tubo endotraqueal reforçado destina-se à intubação oral ou nasal prolongada da traqueia, com o objetivo de assegurar a ventilação mecânica, o fornecimento da mistura de oxigénio e ar, ou o anestésico inalatório.)
— Larguem-me já! Senão, parto-vos os braços! — rosnou o Fai por entre os dentes.
O enfermeiro fez-lhes um sinal com a cabeça, ao ver o estado do rapaz, e os dois largaram o Fai.
— Nong… Eu só posso deixá-lo pegar-lhe na mão por um bocadinho. Mas, primeiro, desinfete as mãos — o enfermeiro apontou com a cabeça para um frasco de antisséptico preso à parede, e o Fai desinfetou as mãos depressa.
O cachorrinho aproximou-se da maca e tocou na mão do Hima. O coração do Fai parou quando sentiu o calor da mão dele. Não conseguia descrever aquilo que sentia naquele momento, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara sem parar quando viu que o Hima respirava. O seu Gatão estava tão pálido, naquele momento, que, com aquele ar desamparado, o Fai ficou tonto. Confusão, alegria, dor, sentimento de culpa, amor, angústia, tudo se misturava dentro do Fai, como se alguém tivesse tirado uma comporta e aqueles ingredientes perigosos se estivessem a misturar uns nos outros, a preparar-se para uma enorme explosão.
O Fai cambaleou e só conseguiu dizer:
— Estás vivo…
O Dew e o Mix viram o seu chefe cambalear e atiraram-se para ele. Ao cachorrinho, tudo escureceu diante dos olhos; e a última coisa de que se lembra é do calor da mão terna do seu amado. O Fai perdeu os sentidos, mas o Dew e o Mix conseguiram amparar-lhe o corpo em queda.
— Chefe! — gritaram os dois.
— Preciso de mais um quarto! — gritou o Dew, enquanto o Hima era levado para os cuidados intensivos.