28 – Roma
O jato privado que aterrou no aeroporto de Roma abriu as portas a dez pessoas, duas das quais estavam num entusiasmo indescritível, por se verem pela primeira vez no estrangeiro. Para o leilão faltavam ainda três dias. O Labrador e o Husky estavam tão animados com a viagem que nem sentiam o cansaço do voo; os rapazes iam de braço dado com os seus homens e sorriam de orelha a orelha. O Dao e o Hima, ao verem os sorrisos dos seus pequeninos, não conseguiam deixar de sorrir de volta.
À saída da pista já os esperava a gente do Elijah, para ajudar com a bagagem. Normalmente, era ele quem chegava primeiro, porque tinha negócios em Roma. O próprio Elijah, com a esposa, esperava os rapazes no hotel, um hotel que pertencia ao Elijah. Sabiam que o Hima vinha com o Fai; já o nanico do Fon ia ser uma surpresa para eles.
À saída do aeroporto, os guarda-costas carregaram a bagagem, e partiram em três carros para o hotel. Os quatro iam juntos no habitáculo de um carro luxuoso. Ao volante ia um homem do Elijah e, no lugar do passageiro, ao lado dele, um guarda-costas do Hima. Os restantes guarda-costas distribuíram-se pelos outros dois carros. Os rapazinhos olhavam com curiosidade para as ruas da cidade, e o sorriso não lhes saía da cara.
— Pi'Dao, e aonde é que nós vamos? — o Fon queria saber, porque o Dao lhe tinha prometido uma visita guiada por Roma.
— É surpresa, pequenino. Primeiro temos de deixar as coisas no hotel, e eu tenho de te apresentar aos meus amigos — explicou o Dao com um sorriso, a apertar contra si, pela cintura, o pequenino sentado ao seu lado.
— Ohhó, ainda não lhes contaste, pois não? O Tadao não te vai perdoar essa! — gozava com ele o Hima, com um sorriso trocista.
— Eu quero ver as caras deles ao vivo. Vai ser um espetáculo fenomenal — ripostou o Dao, enquanto o Fon o olhava com desconfiança.
— Ah, Fai. Preparei uma prenda para ti, ou melhor: o Elijah ajudou-me. Amanhã, depois do almoço, vamos a um sítio — o Hima deu um beijinho na bochechinha do Fai, e ele corou de embaraço, mas mesmo assim acenou que sim.
Os carros pararam junto de um dos melhores hotéis da cidade. Os dois casais entraram juntos, em direção à receção, seguidos pelos guarda-costas com a bagagem. Ao balcão, deu-lhes as boas-vindas a gerente do hotel, que lhes entregou logo as chaves dos quartos. Duas chaves eram das melhores suítes, na cobertura; e dois quartos, mesmo ao lado, tinham sido especialmente preparados para a segurança.
— O senhor Elijah e o Anton já cá estão? — quis saber o Hima, em italiano.
— Sim; estão à vossa espera no bar, como de costume — respondeu a rapariga com um sorriso.
Pegaram nas chaves e entregaram-nas à sua segurança, para que levassem a bagagem, e eles próprios seguiram para a cobertura, para o bar.
O Fon, não sabia bem porquê, estava um bocadinho nervoso desde a frase que o Dao dissera no carro. Os quatro entraram no elevador; quando as portas se abriram, viram seguranças ao longo do corredor inteiro. O Fai e o Fon, no fundo, já estavam habituados aos guarda-costas permanentes lá de casa, por isso não se afligiram muito com eles. O Fon agarrou a mão do Fai, a abrandar ligeiramente o passo.
— Fai… Tu sabes de que amigos é que o Dao estava a falar no carro? — o Fon disse-o baixinho, para os homens que iam à frente não ouvirem.
— Não te ponhas nervoso. Sê tu mesmo e pronto — o Fai deu uma palmadinha no ombro do amigo e passou-lhe o braço pelo pescoço, para o acalmar.
Os seguranças inclinaram a cabeça e abriram a porta do bar, de onde se ouvia música ao vivo, em surdina. Ao entrarem, o Tadao, que estava sentado de frente para a porta, viu o Hima e o Dao e acenou-lhes com a mão.
Atrás deles entraram o Fon e o Fai, abraçados pelo pescoço. Os olhos do Tadao arredondaram-se, quando viu não só o Fai, mas ainda mais um rapazinho querido. O Tadao começou logo a dar palmadinhas no braço do Elijah que, ao erguer a cabeça, viu a cara espantada do seu amado. O Elijah rodou meio corpo na cadeira, para ver. O Anton, que estava sentado de lado, limitou-se a virar a cabeça, de copo de uísque na mão, e ergueu-o com um sorriso, a convidar os recém-chegados para a mesa.
O Hima e o Dao pararam, a observar a reação dos amigos.
— Poiiis… Tens razão, é divertido. O Tadao parece que viu um fantasma — sussurrou o Hima ao Dao e deteve-se com um sorriso, a virar-se para dar a mão ao Fai.
O Fai largou no mesmo instante o pescoço do amigo, mal a mão do seu Gatão lhe tocou na mão.
O Dao esperou que o Fon chegasse ao pé de si e, a abraçá-lo pela cintura, sorriu para os amigos à mesa, de olho no Tadao.
E vocês perguntarão: porquê tanto espanto do Tadao? Ora, porque, dantes, o Dao só engatava para uma queca rápida raparigas bonitas de copa C e pernas compridas, ou rapazes altos, de cabelo abaixo dos ombros.
Os quatro aproximaram-se da mesa e sentaram-se ao lado dos amigos.
— Olá — cumprimentou o Fai em inglês, e sorriu com doçura.
(N. da A. : aqui, os rapazes falam todos entre si apenas em inglês.)
— Tadao… Queres um copo de água? Ou uma coisa mais forte? — dirigiu-se o Dao ao amigo, a gozar com a reação dele.
— O que é que se passa aqui? — o cérebro do Tadao tentava processar a informação.
O Dao sorriu, pousou a mão no ombro do Fon, sentado ao seu lado, e disse:
— Pequenino, estes são os meus amigos. Este rapaz espantado é o Tadao. À frente dele, o marido dele, o Elijah — ou Jah. E este é o Anton. Rapazes, este é o Fon, a minha esposa.
Com o Fon falou em tailandês; a última frase disse-a em inglês — mas o Fon percebeu tudo.
— Hã? Esposa? Esposa… Esta criança pequenina é a tua esposa? — o Tadao não conseguia recompor-se das palavras do Dao.
O Fon franziu a testa, porque sabia inglês tão bem como o Fai. O Dao limitou-se a acenar às palavras do amigo, com um sorriso de orelha a orelha.
— Ei… posso ser um tampinha, mas tu é que não chegas à altura da minha libido — respondeu o Fon ao Tadao, em inglês, e à mesa todos se riram, menos o japonês encantador, que continuava em choque. Os rapazes não esperavam que aquele pequenino fosse tão destemido.
O Dao beijou com ternura a bochechinha do Husky e pousou a mão no joelho dele.
— Poiiis… és sem dúvida a esposa perfeita para o Dao. Desculpa lá o meu pequeno; ele não te quis ofender. É que o Tadao está em choque. Do Fai, nós sabíamos, mas o Dao apanhou-nos a todos — respondeu o Elijah, ao ver que o Tadao ainda estava meio atordoado.
O Anton ergueu a mão, a chamar o empregado de mesa, para pedir o menu. A rapariga trouxe os menus e entregou-os aos convidados recém-chegados.
— Escolham o que vos apetecer, Fai, Fon. Eu é que pago. Vamos considerar isto uma minifesta: pelo nosso conhecimento, e por os meus amigos terem finalmente encontrado o amor — propôs o Anton com um sorriso, e os rapazinhos acenaram que sim.
Os rapazes escolheram uns petiscos e uns cocktails. O Tadao voltou a si, pediu desculpa ao Fon e começou a fazer perguntas sobre o que os rapazinhos faziam. O Hima e o Dao pareciam dois pavões enfunados, todos satisfeitos por os seus meninos falarem inglês fluentemente.
— Jah… E não podemos fazer hoje aquilo que queríamos fazer amanhã? — perguntou o Hima ao amigo.
— Não aguentas esperar, pois não? Está bem, está bem. Vou já ligar a confirmar — o Elijah tirou o telemóvel e marcou um número.
O Fai olhava para eles sem perceber o que se passava.
— Olá. Podemos passar para hoje? … Sim? … Obrigado, Pablo — o Elijah falou em italiano.
— Se quiseres hoje, têm de lá estar daqui a uma hora — informou o Elijah, e o Hima acenou.
— Peço desculpa: eu e o Fai temos que fazer. Divirtam-se, rapazes. Nós vamos andando — o Hima levantou-se, a puxar o Fai pela mão.
O Fai despediu-se de todos; ao pé do elevador esperava-os o Ray. Desceram até ao estacionamento, e o Hima disse a morada para onde queria levar o seu cachorrinho.
— Aonde é que nós vamos? — perguntou o Fai, curioso; mas o Hima limitou-se a sorrir e a dar-lhe um beijinho na bochechinha.
— É a surpresa de amanhã — sussurrou o Hima à orelhinha do seu menino, e o Fai ficou todo arrepiado.
Quarenta e cinco minutos depois, chegaram a um edifício. O Fai e o Hima saíram do carro, em direção à entrada.
Recebeu-os ali um jovem ruivo, de uns trinta anos, de t-shirt e calças de ganga.
— Boa noite. O senhor Pablo avisou da vossa vinda — disse o rapaz em italiano, a convidá-los a entrar, e o Hima acenou.
O Gatão pegou na mão do Fai e levou-o para dentro. Preencheram os dados ao balcão da receção, e o Hima pediu que fizessem ao seu pequenino a inscrição de membro daquele clube. Normalmente, os estrangeiros nem sequer são autorizados a entrar nas carreiras de tiro; mas, como o Elijah é membro do clube e conhece muito bem o Pablo, o dono da carreira, não houve problema nenhum. O Fai não estava a perceber o que se passava.
⚠️ Tlim-tlim.
Chegou uma notificação ao telemóvel do Fai.
— Não pode ser… — espantou-se o cachorrinho em voz baixa, tirou o auricular do bolso da camisa que trazia por cima e inseriu-o discretamente no ouvido.
📡 ‹Khun Fai, o Smart está operacional. A fase inicial do treino foi concluída com sucesso a 83,562%. Pela geolocalização do seu telemóvel, encontra-se em Roma, Itália. Localização exata: Poligono di Paliano, uma das melhores carreiras de tiro de Roma. Se precisar de ajuda, pode dizer «Smart», e eu ajudo.›
O Hima ia a conduzir o Fai pelo corredor, quando ouviu a pergunta:
— Trouxeste-me a uma carreira de tiro, não foi?
O Hima ficou espantado: na receção, nada denunciava que aquilo era uma carreira de tiro.
— Como é que tu soubeste? — perguntou o Hima, ao ver o sorriso matreiro do Fai.
O Fai fê-lo parar e, a esticar-se ligeiramente para cima, sussurrou-lhe à orelha:
— É segredo, querido.
O Hima até se esqueceu do que mais queria perguntar ao seu menino, quando ouviu a palavra «querido»; abriu-se-lhe na cara um sorriso satisfeito, e levou o seu cachorrinho para a linha de tiro.
Recebido o equipamento, dirigiram-se à carreira coberta de tiro a curta distância. Para a aprendizagem do Fai, o Hima escolheu uma pistola TT. Saíram para o boxe com os protetores auriculares na mão, e o Gatão deu início à instrução.
O Hima pousou a pistola na bancada, à frente do Fai, e começou a explicar:
— A primeira coisa que tens de saber sobre esta pistola: ela não tem patilha de segurança, quem faz de segurança é o cão desarmado. Para pores o cão desarmado em posição de segurança, puxa-lo ligeiramente atrás, até ao primeiro estalido. A partir daí, o gatilho e a corrediça ficam bloqueados, e o cão deixa de tocar no percutor. Para tirares a segurança, basta armares o cão até ao segundo estalido.
O Hima demonstrou como se fazia e propôs ao Fai que repetisse. O cachorrinho repetiu tudo sem problemas, bem depressa e com precisão, e devolveu a pistola ao Hima.
— Antes de disparares, verifica o número de munições no carregador. A munição encaixa-se assim, nas guias, uma atrás da outra. Vá: eu meti duas, as outras são contigo — o Hima observava as manobras do seu menino com um sorriso na cara.
— Agora… abre a mão «de trabalho». Com o polegar de um dos lados do punho, agarra-o com firmeza, logo abaixo da guarda do gatilho, com o dedo médio, o anelar e o mindinho. Pega na pistola com cuidado, sem tocar no gatilho. O indicador fica paralelo à corrediça. Se apertares a pistola com demasiada força, ela vai tremer, e tu não vais conseguir controlá-la nem fazer tiros precisos. A outra mão envolve a mão de trabalho, a dar à pistola o melhor apoio possível. Encosta o polegar da outra mão ao longo da armação da pistola; e o indicador, na parte de baixo da guarda do gatilho ou à frente dela — onde te for mais cómodo — o Hima estava atrás do seu menino, a pousar-lhe a pistola nas mãos, e explicava tudo ao seu cachorrinho numa voz terna e carinhosa, de cabeça pousada no ombro dele.
— Põe os pés à largura dos ombros; o pé do lado contrário à mão de trabalho fica mais ou menos um passo à frente do outro. Inclina-te um bocadinho para a frente, com os joelhos ligeiramente fletidos, e vê se estás bem firme. O cotovelo da mão de trabalho deve ficar quase esticado, e o da outra mão, um bocadinho dobrado. A tua mão de trabalho tem de estar em linha com a pistola, apontada ao alvo — o Hima continuava a falar, e o Fai executava tudo, obediente, embora, com os toques do seu Gatão e com aquele timbre meigo, o coração lhe tivesse começado a bater mais depressa.
— Antes do disparo, confirma que o topo do ponto de mira está nivelado com o topo da alça de mira, e que o ponto de mira está exatamente ao centro da ranhura dela. Depois de alinhares a pistola, confirma que ela está apontada ao alvo. Agora concentra-te no ponto de mira — senão, não sai um tiro certeiro. O alvo e a alça vão ficar um bocadinho desfocados, mas isso sobrevive-se. Tens de ver com nitidez o topo do ponto de mira, a tocar ao de leve no ponto de pontaria, lá no alvo. Agora já podes pousar o dedo no gatilho. Inspira fundo e sustém a respiração. Estás a ver como o ponto de mira e a alça descrevem um «oito»? Isso é do bater do teu coração. Começa a apertar o gatilho quando a mira descer até ao fundo do «oito» e, quando ela chegar ao ponto de pontaria, remata o disparo — o Hima envolveu com a sua mão as mãos do Fai e ajudou-o a disparar pela primeira vez.
💥 Pum…
O Fai ficou com os ouvidos tapados, porque nunca na vida tinha disparado uma pistola.
— Desculpa. Empolguei-me e esqueci-me dos protetores. Agora tentas sozinho, Fai? Ah, não te esqueças: o carregador só leva oito munições — o Hima percebeu logo tudo e, dito isto, ajustou os protetores à cabeça do Fai e recuou uns passos, não sem antes dar um beijo na têmpora do seu cachorrinho.
O Fai olhou para o alvo à sua frente e fez mais sete disparos, um atrás do outro. Enquanto o cachorrinho tirava os protetores, o Hima carregou no botão que aproximava o alvo, e ficou espantado. Praticamente todas as balas tinham acertado no nove, e só uma no oito.
— Uau! Pequenino, tens mesmo a certeza de que nunca disparaste uma pistola? Para uma primeira vez, estás a sair-te lindamente — elogiou-o o Hima, e deu-lhe um beijo na bochechinha.
— Não, é a primeira vez que tenho uma pistola nas mãos. Lindamente não é. Mas acho que não é nada mau. Repetimos? — disse o Fai, entusiasmado, e o Hima acenou que sim.
O Fai tirou o carregador e encaixou-lhe as munições. Enquanto repetia todas as manobras que o seu Gatão lhe tinha ensinado, lembrou-se do Smart.
— Smart — disse o Fai baixinho.
📡 ‹Estou aqui, Khun Fai. Em que posso ajudar?›
— Aqui há câmaras de vídeo. Consegues ligar-te a elas e ajudar-me com o tiro? — sussurrou o Fai, para o Hima não o ouvir.
📡 ‹Claro. Dê-me uns minutos.›
— Hia, posso ter um alvo que não seja redondo? Quero um difícil — pediu o Fai, para dar tempo ao Smart.
— Tens a certeza, pequenino? — voltou a perguntar o Hima, e o cachorrinho acenou que sim.
O Hima pegou na mesa num alvo com uma silhueta humana e trocou o alvo redondo pelo novo. Agora os «dez» eram dois: no peito da figura e na cabeça.
📡 ‹Estou pronto, Khun Fai.›
O Fai armou o cão e fez pontaria.
📡 ‹Um centímetro mais acima. Disparo dentro de cinco segundos.›
💥 Pum.
📡 ‹Aperte a pistola com um pouco mais de força: o recuo será menor, e a cadência de tiro aumenta. O tempo ideal entre disparos, neste momento, é de sete segundos.›
💥 Pum. 💥 Pum. 💥 Pum.
📡 ‹Reduza o tempo entre disparos em dois segundos.›
💥 Pum. 💥 Pum. 💥 Pum. 💥 Pum.
📡 ‹Parabéns. Só uma bala atingiu a fronteira entre o nove e o dez. Pelos meus cálculos, está 0,237 mm mais perto do dez.›
— Obrigado, Smart — disse o Fai baixinho, e virou-se para o Hima com um sorriso, a tirar os protetores.
📡 ‹Foi um prazer ajudar, chefe.›
— Vamos ver, Hia?! — o Fai sacudia o braço do seu Gatão, e o Hima carregou no botão que aproximava o alvo.
Quanto mais o alvo se aproximava, mais espantada ia ficando a cara do Hima.
— Uau… Tu és incrível, meu menino — disse-o o Hima quase sem fôlego.
Naquele momento, o Gatão estava simplesmente num estado indescritível. O Fai de pistola na mão era extraordinariamente sensual. Ele tinha pensado que o Fai, com sorte, lá para o fim das primeiras cem munições começaria a acertar no nove. Mas aquele rapaz tinha feito o impossível: com a pistola nas mãos há pouco mais de vinte minutos, no segundo carregador, as oito balas acertaram todas no dez. E o rapaz ali estava, ao pé do alvo, de pistola na mão, a sorrir, satisfeito. Se estivessem na carreira de tiro da mansão, o Hima, sem pensar duas vezes, tê-lo-ia fodido ali mesmo, em cima da bancada das armas, até ele perder os sentidos.
Vocês podem pensar que é impossível dominar o tiro assim tão depressa. Mas o Fai tinha uma vantagem. Ele adorava o tiro com arco, que praticava no tempo da escola. Atirava com o arco em casa de um colega do pai, o Pit, junto com o filho do Pit, o Lom; mas, quando o pai os abandonou, o Fai deixou de aparecer naquela casa.
A concentração, a pontaria, o olhar pela mira, em tudo isso ele já tinha experiência; a diferença era que agora disparava não um arco, mas uma pistola. Quando o Smart indicava o intervalo de tempo entre os disparos, o Fai ia contando de cabeça. O Fai está pronto a tudo para ajudar e proteger o Hima. Quando viu agora o seu Gatão assim tão espantado e admirado, o Fai percebeu que, de repente, o mundo à sua volta se tinha encolhido até uma única pessoa, a que estava à sua frente. Agora, aquele homem louro de olhos azuis era o seu tudo: o seu mundo inteiro, a sua vida, a sua felicidade, o seu medo.
O Fai tinha um medo louco de o perder. Um medo tal que o coração se lhe apertava só de pensar que podia acontecer alguma coisa ao Hima, ou que ele o pusesse fora de casa, ou que amasse outra pessoa. Sim, o amor é a maior felicidade do planeta; mas é também a maior dor. Estes pensamentos visitavam às vezes a cabeça do Fai, porque o Hima nunca lhe tinha dito o que sentia por ele.
— Esta é a surpresa que devia ser amanhã, certo? — voltou a perguntar o Fai, ao ver que o Hima se tinha calado.
— Hã? Sim. Tínhamos combinado para amanhã, mas eu quis fazê-lo hoje. Que mais segredos tens tu, meu menino-prodígio? Tens superpoderes e vieste de Krypton? — brincou o Hima, e o Fai sorriu.
O Fai pousou a pistola, tirou os protetores e chegou-se ao Hima.
— Há um segredo… — sussurrou-lho o Fai à orelha, com as mãos na cintura dele. — Eu quero comer-te, Hia… — continuou o Fai, com a mesma voz doce; e o Hima derretia-se com aquelas palavras como um gelado ao sol abrasador.
O Fai afastou-se da orelha dele e olhou para aqueles dois oceanos azuis sem fundo, prontos a renderem-se-lhe incondicionalmente. Em momentos assim, o Fai pensava em como era bom ter um poder daqueles sobre uma pessoa. O cachorrinho gostava de ver o olhar do Hima toldar-se com uma paixão incontrolável, e o quanto aquele Gatão dependia agora do seu corpo. O Fai via-os a afundarem-se um no outro cada vez mais, sem hipótese de conseguirem sair.
— Fai… Nós estamos numa carreira de tiro… Isto tem câmaras por todo o lado, e tu a provocares-me assim tão às claras, menino mau… — respondeu o Hima, a conter-se a custo e, a apertar o seu menino contra si, mordeu-lhe o pescoço.
— Ah… Hia… vamos para o hotel, senão eu perco o controlo aqui mesmo… — gemeu o cachorrinho, quando o seu corpo respondeu à dentada do Gatão matreiro.
O Fai agarrou-lhe a mão e arrastou-o para a saída. O Hima não opôs resistência. Entraram no carro e partiram para o hotel.
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O Dao e o Fon no bar
— Dao, porque é que tu não nos contaste que tinhas uma esposa? — perguntava o Tadao ao amigo, ofendido a sério.
— Não te zangues, Tadao; mas, se eu tivesse contado antes, hoje não tinha visto a tua cara de espanto. Isso não tem preço, meu amigo — gozava o Dao com o amigo.
— Querido, ele está a atormentar a tua esposa. Faz qualquer coisa — queixou-se o Tadao ao marido, que só sorria.
— Ei… Não consegues resolver nada sozinho e chamas logo por ajuda? O meu marido não te fez nada — indignou-se o Fon, com a mão no joelho do Dao, que estava sentado com uma carinha toda satisfeita.
— Uau! Tu és mesmo destemido. Não tens medo de que eu te bata? — continuava o Tadao a provocar o Fon.
— Ah-ah… Tadao… Eu não te aconselhava a meteres-te com ele. Há dias, o Tar experimentou dar-lhe um raspanete… As costas e o traseiro do Tar ainda hoje lhe doem. Quase todo o pessoal da pista assistiu. Parece-me… que agora eles têm mais medo da minha esposa do que de mim — o Dao lembrou-se logo do Tar estatelado no chão, de ar atónito.
— A culpa foi dele — respondeu o Fon no mesmo instante.
— Não acredito?! E há vídeo? Eu quero ver! — animou-se logo o Tadao; o Elijah e o Anton abanaram a cabeça, embora eles próprios estivessem tão interessados como ele.
— Oh… vocês conhecem-me bem de mais — o Dao tirou o telemóvel, abriu o vídeo em questão e estendeu-o ao Tadao.
— Ah-ah-ah… pff-ah-ah… Uf… Uf… Não consigo parar… Dao, onde é que tu foste desencantar este rapaz? Ele foi mesmo feito para ti — o Tadao não conseguia parar de rir com o que via.
— Fon, vou adorar ter um amigo como tu. Se vos der para casar, venham ter connosco a Nova Iorque; eu e o Elijah ajudamos a organizar tudo — declarou logo o Tadao, e pegou na mão do marido, que acenou com um sorriso. O Fon sorriu e acenou de volta, a corar um bocadinho.
— E a nós, não mostras? — o Elijah também ficou interessado, porque havia pouca coisa que animasse tanto a sua esposa.
O Tadao passou o telemóvel ao marido, e ele e o Anton viram o mesmo vídeo.
— Dao, porque é que não travaste o Tar? Ele estava a ralhar com a tua esposa — perguntou o Anton, e o Dao sorriu.
— Bem, eu ia dizer-lhe que não sou o chefe do Fon; mas tu próprio viste a velocidade de reação da minha esposa. Em contrapartida, agora, quando o Fon lá está, na pista anda tudo na linha. E já tratam das motas dele melhor do que das minhas — explicou o Dao, a abraçar o Fon pela cintura.
— Ei… Porque é que estás a fazer de mim um monstro, hã? Tu e eu vamos falar sobre isso no quarto! — o Fon, envergonhado, espetou logo o cotovelo nas costelas do Dao.
— Fon, tu és piloto de corridas?! — perguntou o Elijah, de boca aberta, porque percebia do assunto.
Ele bem via como o Fon era miniatural, e custava-lhe a acreditar que aquele pequenino conseguisse dominar uma mota grande em velocidade.
— Ah, Jah, ainda não te agradeci a ajuda com a compra da Kawasaki. Chegou mesmo a calhar — lembrou-se logo o Dao.
— Espera aí, Pi. Estás a falar da minha menina? — voltou a perguntar o Fon, e o Dao acenou que sim.
— Oh! Então não a compraste para ti? Eu pensava que a querias só para a coleção — perguntou logo o Elijah.
— Sim, Jah. Comprei-a para o Fon. Já agora: a minha esposa deu-me uma abada na nossa primeira corrida — e, se calhar, foi precisamente nesse dia que eu me apaixonei — gabou-se o Dao, e o Husky corou.
— Deste uma tareia ao Dao numa corrida? Uau! Quando formos à Tailândia, quero ver-te a correr — declarou o Elijah com um interesse verdadeiro, e o Fon acenou que sim.
Ainda ficaram um tempo sentados à conversa, e o Fon foi-se sentindo cada vez mais à vontade com os amigos do Dao. O Elijah contou-lhe a história de como tinha conhecido o Tadao. Com os cocktails bebidos, o Fon começou a cabecear de sono, afinal, o voo tinha sido longo, e ele estava cansado.
— Obrigado pelo bom serão, rapazes. Acho que vou levar o Fon para o quarto, senão ele ainda adormece aqui na mesa. Parece-me que onze horas de voo, para ele, foram mesmo pesadas. Vemo-nos amanhã — disse o Dao, a levantar-se da mesa.
Os rapazes acenaram e despediram-se deles com a mão no ar.