27 🔞 – Smart (parte 2 de 2)
📲 Trum… trum… trum…
— Chefe, é o Khun Anton a ligar — no iPad do Hima soou uma chamada, e o Kris entregou-lho.
— Fai, tu vai comendo, que eu vou falar para o meu gabinete. Kris, podes ir descansar; por hoje, já não preciso de ti,com o Fai, ele falava com carinho; com o Kris, no seu tom de ordens do costume.
O rapaz acenou e atirou-se à comida, porque estava com uma fome de lobo. Terminada a refeição, o Fai subiu ao quarto e trocou de roupa: uma t-shirt cinzenta folgada e uns calções verde-azeitona acima do joelho. E, enquanto o Hima não estava a ver, continuou à procura do erro nos dados do Don, porque o seu Gatão o tinha deixado trazer o tablet com ele. O Fai nem deu pelo tempo a voar, até os olhos lhe começarem a fechar-se. Olhou para as horas: eram quase duas da manhã. O cachorrinho saiu do quarto para descer à cozinha beber água, mas estacou ao ver luz no gabinete do Hima. O rapaz pensou que o Hima se tinha esquecido de apagar a luz mas, ao abrir a porta, viu-o no gabinete, ainda numa videochamada.
Depois de ter subido ao gabinete, o Hima tinha atendido a chamada do amigo. O Anton passou quase uma hora a fazer-lhe perguntas sobre a esposinha querida e espertíssima de quem o Elijah e o Tadao lhe tinham falado. O Hima respondia às perguntas do amigo com todo o gosto, porque adorava falar do Fai.
Gabava-se de que o seu menino tinha feito, em três semanas de projeto, mais do que aquele cientista que o Elijah lhe recomendara três anos antes. E isto com o Hima a não o deixar trabalhar mais de duas horas por dia. Depois da conversa sobre o Fai, discutiram o leilão que se aproximava, em Roma. O Anton já tinha combinado antes com o Elijah o que lhes fazia falta naquele leilão. Depois, falaram do novo carregamento de equipamento e de armas — porque era precisamente o Anton quem tratava das vendas.
Estavam quase a terminar a conversa quando o Fai entrou no gabinete; e, embora estivesse desgostoso por o Hima ainda não ter comido, o rapaz sorriu na mesma.
— Já viste as horas? São quase duas da manhã, e tu ainda não jantaste. Quando é que começas a cuidar de ti? — perguntou o Fai com um sorriso, a aproximar-se da secretária.
— Desde quando é que há mais uma mamã cá em casa? — brincou o Hima, e o Anton desatou a rir.
O Anton sabia bastante bem tailandês, porque os pais dos dois eram parceiros de longa data. O pai do Anton tinha falecido cinco anos antes, e o negócio dele passara para o único filho da família.
📞 — [Ah-ah-ah, Hima, parece que o teu menino não está contente com o teu mau comportamento] — comentou o Anton em russo, para não embaraçar o Fai; o Hima sorriu, mas não respondeu nada ao amigo.
— A segunda mamã apareceu-te quando tu tentaste fechar negócio com o Gas, Hia — respondeu o Fai com seriedade, a colocar-se atrás do Hima e a pousar-lhe as mãos nos ombros, para lhos massajar.
📞 — Oh, boa… noite, senhor Anton”— o Fai cumprimentou a pessoa do outro lado do ecrã, porque o tinha ouvido falar em russo — e a única pessoa com quem o seu homem podia falar tanto tempo em russo era o Anton.
📞 — [Oh, e ele é mesmo encantador, Hima. Olá, Fai. O teu papá passou hoje mais de uma hora a contar-me como tu és espantoso. Espero conhecer-te em pessoa no leilão de Roma] — o Anton provocava o amigo, agora em tailandês; e o Hima até corou um bocadinho quando, depois das palavras do amigo, o Fai lhe apertou os ombros com um pouco mais de força.
📞 — “Sim, o Hia já disse que, daqui a quatro dias, voamos para Roma. Embora eu preferisse ficar a tratar do projeto” — respondeu o Fai num tom calmo, a sorrir e a passar da massagem nos ombros para a massagem no pescoço. — “Já acabaram as conversas de trabalho? Eu quero que o Hia vá jantar” — o Fai decidiu tomar a iniciativa nas suas mãos, para pôr fim à conversa.
📞 — [Caramba, Hima. Tu tens é um tirano, não uma esposa. Está bem… eu espero os quatro dias, para falarmos em pessoa. Senão, quando chegar a Roma, o teu menino ainda me bate, por teres passado fome por minha culpa. Está bem, Fai. Podes levar o teu marido. Até Roma] — o Anton falava em tailandês e estava claramente a gozar com o amigo — e desligou antes que pudesse ouvir os impropérios dele.
— E agora levanta-te, que vamos para a cozinha: eu aqueço-te o jantar. Embora, a esta hora, já se lhe possa chamar um pequeno-almoço antecipado — resmungava o Fai, a terminar a massagem.
O Hima sorriu com tanto desvelo do seu cachorrinho querido, a levantar-se da cadeira. Desceram os dois à cozinha. O Fai aquecia o jantar no micro-ondas, enquanto o Hima se deliciava com o encanto dele.
Aquela t-shirt oversize dava-lhe um charme especial, de enfeitiçar. O Fai pousou na mesa, diante do seu Gatão, os pratos com a comida, e, para si, serviu um copo de água.
Quando o Hima acabou de comer, o Fai lavou a louça, para aliviar o trabalho da tiazinha de manhã, embora o Gatão lhe dissesse que o seu menino não tinha de o fazer. Enquanto o pequenino a lavava, o Hima abraçava-o pela cintura, de cara pousada no ombro dele, a respirar o aroma do seu corpo. O Fai não se queixou nem resistiu, porque aquela atenção lhe sabia muito bem. Despachada a louça, o Fai subiu ao quarto, e ficou espantado quando, cinco minutos depois, o Hima entrou atrás dele.
— Porque é que estás aqui? Então não queres ir dormir? — perguntou o Fai, a desapertar os calções para vestir o pijama.
— Bem… o meu quarto está em obras… por isso, vou dormir contigo — o Hima pousou na beira da cama o seu pijama, que tinha ido buscar ao quarto dele.
O Fai sorriu, porque aquela pergunta, na verdade, era retórica. O cachorrinho adorava adormecer nos braços daquele Gatão terno. Depois do rapto, estas duas noites tinham dormido juntos. O Fai sentia-se em segurança com aquela pessoa, embora, às vezes, lhe passassem pela cabeça pensamentos de que ele era apenas um devedor. Mas esses pensamentos visitavam-no cada vez menos, sobretudo depois do dia de hoje, em que o Hima o deixara entrar no laboratório e lhe dera acesso total a tudo. Ele apresentava-o a toda a gente como a sua esposa, até ao Elijah e ao Anton. O Fai já sabia há muito o que sentia por aquele homem, mas não se atrevia a dizê-lo, com medo de que os sentimentos não fossem correspondidos. O Fai tinha medo de que, um dia, aquele homem magnífico encontrasse alguém do nível dele e amasse essa pessoa — e de que a ele o deitassem fora, como um brinquedo que já não faz falta. O Fai esforçava-se por conhecer todos os pormenores do trabalho do homem que amava, para o poder ajudar depois de acabar a universidade, enquanto o Hima não se fartasse dele, afinal, para os exames finais faltavam só dois meses. Dois meses… para acabar o projeto.
O Fai vestiu o pijama e deitou-se na cama; ao lado dele instalou-se o seu Gatão querido, a abraçar o Fai por trás.
— Boa noite, Fai — sussurrou o Hima baixinho, a beijar com ternura o pescoço do seu cachorrinho.
— Bons sonhos, Hia — balbuciou o Fai, a afundar-se no abraço embalador do Hima.
🍃 🍃 🍃
De volta ao Fon, depois das aulas
Depois das aulas, o Non estava à espera do Fon para o levar à pista, só que o Fon ainda não o sabia. Agora, os rapazes eram sempre levados às aulas e trazidos de lá pelos guarda-costas. O Dao não queria arriscar mais o seu tampinha. Quando o Fon percebeu que iam por outro caminho, franziu logo a testa.
— Pi Non, para onde é que nós vamos? — quis saber o Fon, e espreitou pelo espelho retrovisor, para ver os olhos do Non.
— O chefe pediu-me para te levar à pista, Nong Fon — respondeu o Non, a desviar por um instante os olhos da estrada e a sorrir ao Fon pelo espelho.
O Fon soltou o ar e decidiu jogar um jogo no telemóvel pelo caminho até à pista. Cerca de meia hora depois, chegaram à pista, onde o Dao já esperava pelo pequenino. Estava vestido com umas calças de ganga azul-escuras e uma t-shirt cinzenta, de ténis. O carro parou, e o Non saiu para abrir a porta ao Fon, que estava mergulhado nas batalhas do jogo.
— Chegámos, Nong — disse o Non, ao ver que o rapaz não fazia menção de sair.
— Só um minutinho, Pi, deixa-me acabar o combate — respondeu o Fon, sem levantar os olhos do jogo.
— Sim! Toma lá, sua besta! — festejou o Fon a vitória, a desligar o jogo e a sair do carro.
O Dao já estava de pé à espera dele, com um sorriso na cara. O Fon aproximou-se, pôs-se em bicos de pés para lhe dar um beijo na bochecha, e depois agarrou-se ao braço dele. O Dao ficou contente com aquela travessura do seu menino, porque ela queria dizer que aquele traquinas pequenino estava a mostrar a toda a gente a quem é que o Dao agora pertencia. O Dao pousou a outra mão na mãozinha do Fon, e foram os dois para o salão de exposição, onde estava a mota do Husky.
Os mecânicos viraram-se ao som da porta a abrir e, ao verem o Fon, desataram a aplaudir. O Husky olhou para eles e para o Dao, sem perceber porque é que lhe batiam palmas.
— Hmm… Pi… porque é que eles estão a aplaudir? — perguntou o pequenino baixinho ao Dao, e ele olhou para o Husky com um sorriso.
— Podes perguntar-lhes tu mesmo, pequenino — o Dao largou a mão do Fon e foi sentar-se no único sofá da sala.
O Fon ficou ali de pé, sem perceber o que se passava, até que o Tar, o mecânico-chefe da pista, veio ter com ele.
— Parabéns, Nong. Chegar a piloto principal desta pista não é nada fácil. Chamo-me Tar, sou aqui o mecânico-chefe — disse o Tar com um sorriso, e deu uma palmadinha no ombro do Fon — coisa de que o Husky não gostou nem um bocadinho.
— O que é que tu disseste agora, Pi? Piloto principal, quem?! — voltou a perguntar o pequenino, para ter a certeza absoluta de que não tinha ouvido mal.
— Ora… eu pensava que o chefe já te tinha dito. Não sabias que és o piloto principal daqui? — voltou a perguntar o Tar, atrapalhado e em voz baixa, a espreitar para o chefe; e o Husky só abanou a cabeça.
Enquanto o cérebro do Fon processava a informação que o Tar lhe acabara de dar, ele já tinha entrado em modo hamster de combate, a encher-se de indignação.
— Daonya! — soou o grito estridente do Fon, a obrigar toda a gente no salão a calar-se e a virar-se para o pequenino que se atrevera a levantar a voz ao chefe.
O Dao, sentado no sofá, completamente descontraído, olhava para o Fon com um sorriso. Reclinou-se no encosto, pousou o braço no braço do sofá e ficou a observar a reação do seu Husky querido, que já vinha na sua direção.
— Daonya! Como raio é que eu venho a descobrir desta maneira que sou o teu novo piloto, hã? E quando é que eu tive tempo de passar a sê-lo? — continuava o Fon aos gritos, a aproximar-se do Dao.
O pequenino estacou diante do Dao, sentado no sofá — e ele só sorria, a ver a sua esposa zangada. O Fon era tão engraçado quando se zangava.
— Pequenino, quem devia estar zangado era eu: naquele dia, tu entraste na pista sem fato. E, ainda por cima, largaste a mota lá. O teu tempo foi o melhor daquele dia — respondeu o homem num tom calmo, e ergueu o olhar para o seu menino.
— O quê? Eu nem sequer estava a participar na competição! — continuava o pequenino aos gritos, enquanto toda a gente no salão olhava para o chefe e para o rapazinho atrevido.
O Tar aproximou-se do Fon e agarrou-lhe o ombro. O Dao franziu a testa, ao ver alguém a tocar no seu tampinha.
— Ei, Nong. O Khun Dao é o teu chefe; devias era estar grato pela oportunidade de correr aqui. Os nossos pilotos recebem percentagens excelentes por cada vitória. E tu ainda gritas com o chefe? — repreendeu-o o Tar.
O Fon já estava furioso por o Dao ter aproveitado a situação e ter feito do Husky o seu piloto sem o seu consentimento. O pequenino ainda não tinha recuperado do rapto, e aquela mão alheia a cair-lhe no ombro acendeu nele um clarão de fúria.
Pumba!
O Fon apanhou num relâmpago o braço do Tar pela manga e executou uma projeção pela anca perfeita.
Toda a gente no salão, incluindo o Dao, ficou em choque. O Tar era mais de uma cabeça mais alto do que o Fon, e mais encorpado; como é que aquele tampinha o tinha conseguido atirar por cima da anca era, para todos, um mistério. E o Dao lembrou-se logo de que o Fon só tinha deixado o taekwondo um ano antes, pelas corridas na pista do Prem.
O Tar, estatelado no chão, olhava para o Fon sem acreditar. Nunca ninguém o tinha humilhado assim em público. O Fon pousou-lhe o pé no peito e olhou para ele com os olhos carregados de fúria.
— Não te atrevas a tocar-me sem autorização, Pi! — sibilou o Fon; e o Dao puxou-o pela mão, a sentá-lo no seu colo, a apertá-lo com ternura contra si pela cintura e a debruçar-se ao de leve por cima do ombro do Husky, para olhar para o Tar com um sorriso.
— Tar… eu não sou o chefe do Fon, sou o marido dele. E agora já sabes que meteres-te com a minha esposa é perigoso para a saúde. Ah-ah, pequenino, também podias ter sido um bocadinho mais brando com o mecânico-chefe — o Dao disse-o a olhar para o Tar, mas suficientemente alto para os restantes também ouvirem. Quando se riu e se virou para o Fon, a sua voz era terna.
— As mãos dele estão ótimas. Não lhas parti. A não ser que ele trabalhe com o traseiro, que foi onde ele caiu — o Fon ainda estava ao rubro, embora a raiva lhe tivesse começado a amansar quando o Dao se chamou a si próprio seu marido.
— Tar… vai trabalhar, que disto trato eu — disse o Dao, e beijou a bochechinha do seu Husky histérico.
— Daonya! — voltou o Fon a indignar-se, e o Dao desatou a rir.
— Se continuas a gritar, o próximo beijo já não vai ser na bochecha, e eu não me vou ficar pelo beijo… — disse o Dao baixinho à orelhinha do Fon, e o pequenino corou no mesmo instante.
O Tar levantou-se e voltou para a mota, embora as costas e o traseiro lhe doessem da queda contra o chão de betão. Os operários puseram-se a segredar entre si.
— Não te preocupes: eu não quero que corras muitas vezes. E até nem me importo que continues a andar também na pista do Prem. O meu pequenino encantador não deve cansar-se de mais na pista, ele deve é cansar-se em cima de mim… — continuava o Dao a provocar o Fon.
O Fon virou-se de frente para ele e, para o obrigar a calar-se, beijou-o com paixão. O Dao não esperava que o Fon se atrevesse a fazer uma coisa daquelas à frente de uma dezena de pessoas. A linguinha pequena irrompeu pela boca do Dao e provocou-lhe a língua, até o Husky sentir que o Dao tinha ficado excitado. O pequenino arrancou-se dos lábios dele.
Os rapazes da oficina, com todo o civismo, viraram a cara, ao verem o que a esposa do chefe deles andava a fazer. Muitos estavam vermelhos.
— Antes de me assustares em público, pensa primeiro no que acontece se for eu a fazê-lo — disse-lhe o Fon, e levantou-se do colo dele.
— Pequenino, queres… como pedido de desculpas… ir a Roma? — o Dao sorriu e levantou-se do sofá atrás dele, a abraçá-lo pela cintura com um braço.
— O quê? Roma? — perguntou o Fon, a desconfiar de que ali havia gato.
O Dao pegou na mão do Fon e arrastou-o para o seu gabinete, onde ninguém os incomodaria. Mal entraram, o Fon encostou o Dao à porta, pôs a perninha entre as pernas do Dao e correu-lhe o dedinho pela bochecha, a descer devagarinho até à gola da t-shirt.
— Diz-me cá… tu vais a Roma em trabalho, certo? — perguntou o Fon com meiguice; mas os olhos dele não tinham meiguice nenhuma.
— S… sim… — gemeu o Dao, porque aquele rapaz conseguia acendê-lo com um simples toque.
O Fon ergueu a perna, a apoiá-la entre as pernas do Dao, e agarrou-o pela t-shirt.
— Daonya! Tu hoje pões na cabeça passar o dia inteiro a tirar-me do sério? — o Fon recomeçou aos gritos.
— O que é que eu disse de mal? — o Dao não percebeu logo porque é que o seu pequenino estava outra vez zangado.
— Dizes isso como se estivesses a pensar deixar-me aqui sozinho… — o próprio Fon não percebia porque é que a voz lhe tremia ao dizer aquilo…
O Dao apanhou aquela nota na voz dele e percebeu que se tinha explicado mal. Abraçou logo o pequenino, ergueu-o ao colo e foi para o sofá.
— Ei… Pequenino, não era isso que eu queria dizer. Ouve-me. Eu não estava a pensar deixar-te aqui. Eu quero que tu vás comigo. Daqui a três dias, os meus pais voltam para a Rússia. E, depois de Roma, eu quero levar-te uma semana à Rússia, de visita aos meus pais. Só tu e eu. Ei… Eu não sou capaz de estar sem ti, Fon — dizia-o o Dao numa voz carinhosa, a fazer festas na cabeça do seu Husky.
O Fon sentia que aquele homem o tornava fraco. Com ele, mostrava o seu lado birrento. O Fon sempre controlou as emoções e nunca tinha levantado a voz a ninguém. Esmagava sempre o interlocutor com calma e indiferença, mas, com o Dao, o Husky não conseguia controlá-lo. Se o Dao o irritava, apetecia-lhe gritar com ele; se lhe dava uma alegria, o Fon queria cobri-lo de beijos.
O Fon enlaçou o pescoço do Dao com os braços e aninhou-se no ombro dele, quando o seu homem se sentou no sofá com o Husky birrento ao colo. O Dao continuava a fazer-lhe festas nas costas.
— Já não estás zangado, pequenino? — perguntou o Dao, e o Fon acenou que sim.
— Posso ficar só assim sentado, um bocadinho? — pediu o Fon em voz baixa, e o Dao abraçou o seu Husky ainda com mais força, a apertá-lo contra si.
O Fon só queria estar ao pé dele. Abraçá-lo, sentir o calor dos braços dele, ouvir a sua respiração, respirar o seu cheiro. Como se quisesse absorver o Dao para dentro de si, para o ter sempre ao seu lado.
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Nos quatro dias seguintes, o Fon passava as tardes, depois das aulas, na pista com o Dao — e o Fai ia para o laboratório, trabalhar no projeto. A maior parte das vezes, quando o Fai estava no gabinete do Hima, estava lá sozinho, porque o Hima precisava de deixar o trabalho despachado aqui antes de voar para Roma. Na véspera da partida, o Fai encontrou o erro nos dados do Don, e isso ajudou-o a terminar o seu próprio código para a criação da IA. Agora, vinha o trabalho mais difícil: o treino do programa. O Fai tinha inscrito, logo de início, as leis de Asimov* no código do programa
(N. da A. : em 1941, o escritor formulou três leis para os robôs, que lhes permitiam resolver tarefas complexas sem ameaçar a vida das pessoas:
1 — não fazer mal a um ser humano;
2 — obedecer às ordens dele;
3 — zelar pela própria segurança, desde que isso não contrarie as duas primeiras leis.).
O cachorrinho, para já, não disse a ninguém que o tinha conseguido.
Como tinha acesso a todo o instituto de investigação, de dezenas de andares, e a qualquer porta do edifício, o Fai tinha preparado de antemão, na secção de melhoramento dos dispositivos de escuta, um mini-auricular impercetível, um exemplar único, que se podia emparelhar com um telemóvel. O Fai queria contar tudo só quando a sua IA estivesse pronta para uma demonstração. Ao emparelhar o auricular com o seu telemóvel, escreveu no código da IA que ela só podia transmitir informação para o auricular associado ao telemóvel dele. Além disso, o cachorrinho percebeu logo que o treino manual seria lento de mais e decidiu deixar a IA aprender sozinha, a recolher, investigar, analisar e sistematizar informação da internet.
O Fai podia controlar tudo a partir do telemóvel e, se o PC do gabinete estivesse desligado, o treino do Smart continuava através do smartphone do Fai. Escolheu para a IA uma voz masculina agradável e um nome: Smart. A condição mais importante era que o Smart obedecesse apenas à voz do Fai ao vivo, e que aprendesse também a analisar as situações em que devia transmitir informação para o auricular sem o criador lho pedir, e aquelas em que não devia dizer rigorosamente nada. O Fai passou o dia inteiro a escrever código em Python para o Smart e planeava testá-lo no regresso.
Por precaução, o Fai configurou um alerta no smartphone, para o caso de o Smart decidir falar quando o Fai não tivesse o auricular posto. O cachorrinho tentava prever todos os cenários antes de voar para Roma, para lá não ter de se distrair vezes de mais com correções ao código.
Naquele dia, o tempo voou sem se dar por ele, e o Fai não viu o Hima entrar pela porta do gabinete, a observar em silêncio o seu menino.
— Fai, já são dez da noite. Temos de ir para casa; amanhã de manhã temos o avião — disse o Hima num tom suave, e o Fai nem sequer ergueu os olhos.
O Hima ficou desgostoso por, naquele dia, o seu cachorrinho não lhe estar a prestar atenção nenhuma. Sentou-se em silêncio à secretária e ficou a fitá-lo, sem dizer uma palavra. O Fai deu pelo silêncio estranho e, ao acabar de escrever mais um bloco de código, ergueu os olhos, para ver o seu Gatão. O Hima suspirou pesadamente ao ver que o Fai tinha olhado para ele, e voltado logo para o ecrã do computador.
— Fai! Acaba lá isso! Vamos para casa, que eu ainda não jantei — o Hima decidiu jogar o trunfo que tinha na manga, porque, para o seu menino, não havia nada mais importante do que cuidar do Hima.
O Fai topou a artimanha do seu Gatão matreiro e ergueu os olhos para ele, a sorrir:
— Foste tu que me deixaste mexer nos teus brinquedos, então de que é que te queixas?
— Eu não pensei que eles fossem passar a ser mais importantes do que eu… — suspirou o Hima num tom tristonho, e o Fai já não conseguiu resistir mais àquele gatinho suplicante.
— Está bem. Vamos para casa. Deixa-me só desligar aqui tudo, sim? — pediu o Fai e, depois de redirecionar o treino do Smart para o telemóvel, desligou a torre do computador.
O Hima ficou satisfeito com a sua manobra, embora desconfiasse de que o Fai o tinha topado. Mas isso não interessava. Porque tinha conseguido o que queria: o seu menino teimoso ia com ele para casa. Jantaram em casa e foram os dois dormir para o quarto do Fai, porque o voo era às nove da manhã.
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A manhã seguinte
Os quatro rapazes chegaram ao aeroporto de Banguecoque, a caminho do avião privado do Hima. Com eles iam seis seguranças, alguns levavam-nos pela primeira vez, porque a mãe tinha pedido que não levassem nem o Kris nem o Non, com o argumento de que o Non ficava como responsável na pista e de que o Kris estava bem por dentro dos assuntos do Hima no escritório. O voo durava pouco mais de onze horas. O Hima sabia que, no aeroporto de Roma, iam ser recebidos pela gente do Elijah. O Fon e o Fai receberam a viagem com entusiasmo — afinal, os seus homens tinham-lhes prometido uma visita guiada por Roma e prometido levá-los ao leilão. O avião descolou e, onze horas e trinta minutos depois, aterrou em Roma.