25 🔞 – Pessoas importantes (parte 2 de 2)
— Ohhó, e de quem é aquele carro bege ali à entrada? — perguntou a Love, espantada com o carro caro e vistoso, dentro do qual estava o Non.
— Oh, viemos nele, eu e o Dao — respondeu o Fon, num tom como se não estivesse a falar com a irmã, mas com o Biu, sem parar de lhe apertar as bochechinhas.
— Pai, e a mãe? — quis saber a Love, a sentar-se com o marido no terceiro lado da mesa.
— Oh, a mãe ainda está na cozinha. Já vem. Tive tantas saudades tuas, pequenote! — respondeu o Fon, a fazer festas no cabelo do menino sentado no seu colo.
— Love, este é o Dao, o namorado do Fon. Dao, esta é a Love, a nossa filha mais velha. E este é o Van, o marido dela. E este… pequenote irrequieto é o Biu — apresentou-os o pai, ao ver o filho entretido a apertar o sobrinho.
Os três ergueram as mãos num wai, a cumprimentar-se. Só faltava a Pitti, que ainda não tinha ouvido quem era o Dao. Momentos depois, a mãe saiu da cozinha com um prato acabado de fazer.
A mulher pousou na mesa o Massaman Curry* e chamou as duas filhas para a ajudarem a trazer os outros pratos, voltou para a cozinha.
(N. da A. ««: o massaman curry tailandês é mais aromático do que picante: leva canela, cardamomo e noz-moscada. Isso é pouco típico da Tailândia, e por lá chamam-lhe o caril «de bebé». Há uma versão de que este caril terá chegado à Tailândia vindo da cozinha iraniana, mas o molho de peixe na receita é um traço puramente tailandês.)
Pouco depois, voltaram da cozinha, e na mesa apareceram ainda o Yam Woon Sen* e o Tom Yam Kung*. No tabuleiro vinha também uma panela de arroz. A Pitti trazia os pratos e os talheres.
(N. da A. : o Yam Woon Sen é a mais famosa salada tailandesa de marisco — prová-la é obrigatório para quem passa férias na Tailândia; e, como acontece com outros pratos tailandeses, cada cozinheiro prepara-a à sua maneira. O Tom Yam Kung é uma autêntica festa de sabor: uma sopa agridoce e picante, de caldo de galinha com gambas.).
— Pitti, senta-te à mesa. O Mon que atenda os pedidos por agora; já combinei com ele — disse a mãe, e sentou-se ao lado do marido. A Pitti ocupou o quarto lado da mesa, ao pé do Dao.
O Fon torceu o nariz, ao perceber as intenções da irmã, mas esforçou-se por se controlar. Quando todos se sentaram, a mãe decidiu chamar a si o papel de anunciar o motivo do almoço de família. Mas, mal abriu a boca, a Pitti antecipou-se-lhe.
— Khun, prove o Massaman Curry, não é picante — disse a rapariga com um sorriso doce, e pôs no prato do Dao umas colheres de batata com carne.
— Obrigado — respondeu o Dao com delicadeza, e virou-se para o Husky, que estava de trombas.
Debruçou-se para ele e sussurrou-lhe:
— Para de fazer essa carinha. Eu ainda nem sequer provei.
O Dao trocou logo o prato do Fon pelo seu. Os pais sorriram; a Pitti franziu a testa.
— Khun, não gosta de batata? Porque é que deu o seu prato ao Fon? — indignou-se a rapariga, e o Fon fulminou-a com o olhar, a oferecer batata ao Biu, que tinha ao colo.
— Desculpa, Nong. Mas eu não quero mal-entendidos. Prefiro que me sirvam a mãe e o pai — ou o meu namorado — disse-o o Dao num tom calmo, e virou-se para o Fon.
O Fon ficou todo satisfeito com a resposta do seu homem, e os restantes, à mesa, sorriam discretamente.
— Então… estamos aqui hoje reunidos porque, de manhã, o Dao me ligou a dizer que o Fon se vai mudar para casa dele. Por isso, eu quis primeiro conhecer a pessoa com quem o meu menino vai viver. Dao, gostava que nos falasses de ti — explicou a mãe, e olhou para o Dao com um sorriso. A Pitti fez beicinho.
— Tenho vinte e oito anos. Tenho um negócio de família com o meu irmão: uns quantos hotéis e uma pista de corridas. Os meus pais morreram há quinze anos. Fui adotado pela melhor amiga da minha mãe e pelo marido dela. Vivo com eles desde então — o Dao preferiu não falar do comércio de armas nem do casino.
O Fon não sabia daquilo. Pensava que o Dao era irmão de sangue do Hima, porque tanto o Dao como os pais o tratavam com o mesmo amor de quaisquer bons pais e de um bom irmão. O Husky pousou a mão no joelho do Dao, por baixo da mesa, a fazer-lhe saber que estava ali.
— Uau… e como é que um homem do teu nível se interessou por um tampinha como o meu irmão? — a Pitti estava zangada, despeitada por aquele príncipe já estar ocupado.
— A questão não é o nível, é a pessoa. O Fon é espantoso. O amor não se controla: simplesmente acontece-te, e tu não consegues lutar contra ele. Tudo o que podes fazer é dar alegrias à pessoa que amas, mimá-la e fazê-la feliz — respondeu o Dao com um sorriso, a olhar para o Fon, que corou com as palavras dele.
— Uau… Não esperava tanta franqueza da tua parte. Quando estive no teu lugar, estava cheio de medo de que os pais não aceitassem a minha relação com a Love. Nessa altura, eu ainda era estudante — comentou o Van, com admiração, e acenou com a cabeça em sinal de respeito.
— Ah-ah-ah… então, pelos vistos, também já vieste logo oferecer o dote pelo meu maninho, já que o queres levar a viver contigo. E tens a certeza de que o dinheiro chega? O meu irmão custa caro! — brincou a Love.
(N. da A. — na Tailândia, é tradição o noivo entregar à família do outro o «sin sod», o chamado «preço da noiva».)
— Love! Eu não sou nenhum saco de arroz, para ter preço! — indignou-se o Fon, e o Dao limitou-se a olhar para ele, a sorrir.
— Digam só a quantia. Este pequenino não tem preço — disse o Dao num tom sério.
— Bom… então… trinta e três milhões de baht — o pai disse o primeiro número que lhe veio à cabeça; só queria ver o que o Dao respondia àquilo.
— Está bem, combinado. Trinta e três milhões — o pai entreolhou-se com a esposa e sorriu.
— Estás a falar a sério? Eu disse uma quantia ao calhas. Isso é um dinheirão — voltou a perguntar o Athit, sério, a olhar para o Dao.
— O senhor disse a quantia. Eu concordei. Se é o dote pela minha esposa, eu aceito — respondeu o Dao com a mesma seriedade. — Ah, e mais uma coisa: a minha mãe pediu para vos dizer que triplica a quantia que indicarem — continuou o Dao, e os pais deixaram cair os pauzinhos em cima da mesa, de espanto.
— É a brincar, não é? — voltou a perguntar a Pitti, e o Fon abanou a cabeça.
— Não, Je. Eu mesmo ouvi a mãe dizê-lo — disse o Fon, todo contente, ao ver a cara de irritação da irmã.
— Vamos comer, senão arrefece tudo — disse a mãe, e todos começaram a comer.
O Fon ia pondo comida no prato do Dao, de vez em quando. Os pais olhavam para o filho e alegravam-se ao vê-lo sorrir para aquele homem. Mesmo que o Fon não falasse do que sentia, a mãe via bem como ele tratava o Dao. A Pitti, de tempos a tempos, metia-se no telemóvel, à troca de mensagens com alguém.
— Fon, vais fazer as malas agora ou daqui a um bocado? — perguntou a mãe, e o Fon ficou especado.
— Pequenino, leva só aquilo de que gostas mesmo. Ah, e aquela t-shirt vermelha do ursinho — essa é obrigatória. Já viste o que tens no teu quarto, por isso acho que não precisas de levar muita coisa — o Dao dirigiu-se ao Husky ao vê-lo atrapalhado, e o Fon acenou que sim.
Ficaram um tempo sentados à conversa sobre vários assuntos, muitas vezes a contar coisas do Fon ao Dao. O Fon brincava com o Biu, a espreitar de vez em quando o Dao a sorrir. Nunca pensou que o coração lhe fosse estremecer com um simples sorriso de uma pessoa.
🔔 Tlim!
Entrou no restaurante um rapaz alto e bonito, e todas as pessoas ali sentadas se viraram para ele — incluindo o Fon, que franziu a testa no mesmo instante.
— Onde é que ele está? — perguntou o rapaz, irritado, dirigindo-se ao Mon, o empregado contratado que costumava ajudar no restaurante.
O Mon acenou com a cabeça na direção da mesa da família, e o rapaz foi direito a ela. Os pais entreolharam-se e olharam para o Fon, que agora estava visivelmente desagradado.
— O que é que estás aqui a fazer, Eater? — perguntou o Fon, contrariado, a entregar o Biu à mãe dele.
— Também eu gostava de saber porque é que está um homem desconhecido sentado com a tua família — o rapaz olhou para o Dao com desprezo.
— Muda de tom quando falas com o Fon, Nong! — disse o Dao com severidade, e pegou na mão do Husky, a acalmá-lo.
— Quem és tu para me dizer como é que eu falo com o meu namorado? — declarou o Eater, com um sorrisinho trocista.
— Dao, não. Este é o restaurante dos meus pais. Por favor — sussurrou o Fon com meiguice, ao ver que o seu homem se preparava para se levantar.
O Dao levantou-se e pôs-se em frente do rapaz que se atrevera a dizer que era namorado do seu Husky querido. Mediu-o de alto a baixo, e um sorriso estremeceu-lhe ao canto da boca. Sim, o Dao tinha ficado furioso quando o Eater chamou namorado ao Fon, mas fora precisamente o Fon a pedir-lhe, com carinho, que não armasse confusão.
— Nong, vieste aqui fazer uma cena? Quantos anos tens? Antes de chamares namorado a alguém, convinha primeiro discutires com ele se ele concorda em ser teu namorado. Pequenino, leva o Biu lá para cima; o pequenote já deve estar cansado. Se não quiseres falar com este tipo, vai andando — o Dao dirigiu-se ao Eater num tom sério e, depois, falou com o Fon com carinho, a fazer-lhe festas no cabelo.
— Sim, levo o Biu para o meu quarto. Não armes confusão, está bem? — disse o Fon com meiguice, e pôs-se em bicos de pés para beijar a bochecha do Dao.
O Husky pegou no Biu ao colo e foi para o seu quarto, lá em cima. O Eater tentou ir atrás dele, mas o Dao barrou-lhe o caminho.
— Não ouviste e não viste o suficiente, Nong? Acho melhor ires embora — repetiu o Dao num tom calmo.
A família do Fon olhava para o Dao e percebia que, com aquele homem, o seu pequenino ia estar protegido como atrás de uma muralha.
— Eater, o meu irmão nunca disse que eras namorado dele. Sim, é possível que tenham passado algum tempo juntos, dantes — mas agora o Fon tem marido. E, se eu tivesse de escolher entre vocês os dois, não eras tu o escolhido — respondeu a Love com seriedade, a levantar-se da mesa.
A Love estava a par de todos os parceiros do Fon, porque ele lhe falava deles muitas vezes. Ao ver a Love tomar o partido do Dao, a Pitti mordeu o lábio de despeito — e o Dao viu-o.
— Nong, foste tu que lhe escreveste a dizer que o Fon estava aqui, não foste? — o Dao olhou para a Pitti, a juntar as peças do puzzle.
A Pitti estremeceu ao ouvir aquilo. Os pais e a irmã viraram-se logo para ela.
— Nong, deixa-me esclarecer a situação também para ti. Não me interessa ninguém a não ser o Fon. E, mesmo que eu não o amasse, tu não fazes o meu género. Ele é teu irmão: devias estar feliz por ele, e não a tentar pôr-nos um contra o outro. Estás a comportar-te como uma adolescente sem juízo. Se queres despertar o interesse de alguém, primeiro tens de crescer. Este tipo de atitudes perdoa-se a crianças de quinze anos, não a uma mulher adulta como tu — o Dao disse o que pensava, e os olhos da Pitti encheram-se de lágrimas.
— Em que é que o meu irmão é melhor do que eu? — perguntou ela, a soluçar, e o Dao olhou para ela.
— É simples: eu amo-o — o Dao disse-o com a mesma ligeireza com que se afirma um facto indiscutível.
— Meu jovem, é melhor ires andando. Não arranjes problemas nesta casa — repetiu o Dao e, a dar um passo em direção ao Eater, olhou-o com os olhos carregados de fúria.
Aquele olhar fez correr um arrepio frio pelas costas do Eater, e ele recuou.
— Algum problema, chefe? — perguntou o Non, parado atrás do Eater, quando o rapaz foi dar com as costas contra o peito dele.
Do carro, o Non tinha visto o Dao a falar com o rapaz e, pelo olhar, percebia-se que o chefe estava claramente desagradado com a presença daquela pessoa — por isso, decidiu entrar.
— Está tudo bem, Non. O jovem já estava de saída — o Dao acenou ao Non, a indicar que estava tudo em ordem.
O Eater saiu do restaurante disparado, e a Pitti fugiu para o quarto.
— Meu jovem, quer comer? Sente-se, que eu vou já buscar um prato — a mãe aproximou-se e puxou o Non pelo braço para a mesa.
Ele olhou para o Dao, atrapalhado, e o Dao acenou, em sinal de autorização. A mãe sentou o Non à mesa e pôs-lhe à frente um prato lavado e os talheres. O Non provou com modéstia — e estava mesmo uma delícia.
— Desculpa o comportamento da Pitti, Dao — pediu o Athit, mas o Dao limitou-se a sorrir.
— Posso subir ao quarto do Fon? — perguntou o Dao, e o pai acenou, a explicar-lhe como lá chegar.
O Dao subiu as escadas e entrou no quarto sem bater, tal como o pai explicara. Ao entrar, sorriu ao ver o Fon sentado na cama, encostado à cabeceira, com o pequeno Biu a dormir nos braços. Naquele momento, o Husky pareceu-lhe tão encantador que até pensou em, mais tarde, adotar uma criança de um orfanato ou recorrer a uma barriga de aluguer. O Fon olhou para o Dao e sorriu-lhe de volta, a pousar o menino na cama com cuidado.
— Está tudo bem lá em baixo? — perguntou o Fon em voz baixa.
— Claro. A minha esposa pediu-me para não armar confusão. Como é que eu podia desobedecer? — sussurrou o Dao de volta, com um sorriso, e aproximou-se para abraçar a cintura do Fon.
O Fon apertou-se contra o corpo dele como se não o visse há vários dias e estivesse cheio de saudades. O Husky deu um saltinho, e o Dao amparou-o pelo rabinho; o pequenino enlaçou-lhe o pescoço com os braços e beijou o Dao. No quarto do Fon havia uma cama de solteiro, onde agora dormia o Biu, uma secretária ao pé da janela, um par de cadeiras e um roupeiro.
— Ah… — gemeu o Fon baixinho, quando o Dao lhe apertou o rabinho com força e a sua língua irrompeu, apaixonada, pela boquinha do Husky.
— Chiu, pequenino, ainda acordas o menino — o Dao arrancou-se dos lábios dele e disse-o num rouquejar, com a voz a tremer.
— Vamos para a casa de banho… Eu prometo… Eu fico caladinho — sussurrou o Fon ao ouvido do Dao e começou a remexer-lhe no cabelo da nuca, sem parar de lhe beijar o pescoço.
— Pequenino… A casa está cheia de gente, e o Biu está a dormir na cama. Eu estou doido por te comer aqui e agora. Mas eu não te quero caladinho: eu quero ouvir-te gemer e gritar. Podemos fazê-lo pelo caminho, a caminho de casa… — o Dao tentava recompor-se, porque aquele rapaz insistente o estava a pôr louco com o que fazia.
O Fon ficou um bocadinho desiludido, mas percebia porque é que o Dao tinha recusado. Ficava feio se a mãe ou o pai entrassem no quarto enquanto eles se entregavam à devassidão — com uma criança a dormir na cama, que podia acordar a qualquer momento.
— Chegava um beijo e pronto — sussurrou-lhe o Fon baixinho, e continuou a beijar o pescoço do Dao.
— Oh… Fon… Tu sabes que depois me vai custar parar… — gemeu o Dao, porque estava excitado desde o momento em que o Fon o abraçara.
— AH… Seu provocadorzinho… — o Dao apertou-lhe o rabinho ainda com mais força, porque o seu Husky lhe tinha mordido o pescoço.
O Fon limitou-se a sorrir e continuou a beijar-lhe o pescoço, a subir por ele até aos lábios tentadores do Dao. A sua linguinha percorreu os lábios do Dao, a provocá-lo cada vez mais. O Fon apertou a cabeça do Dao com força contra a sua cara, e a língua atrevida irrompeu pela boca do Dao como se ele estivesse no deserto e tivesse encontrado um ribeiro limpo e fresco. O Dao continha-se a custo para não arrancar a roupa àquele Husky lascivo e fodê-lo ali na casa de banho.
👶 Uf…
O corpinho na cama remexeu-se, a acordar, e o Dao pousou o Fon no chão. O Fon estava excitado e com a respiração entrecortada, tal como o Dao. Os dois aproximaram-se da cama; o Dao sentou-se e puxou o seu Husky para o colo.
— Tio… — chamou baixinho o menino ensonado, a esfregar os olhinhos e a estender as mãozinhas para o Fon.
— Anda cá, pequenote. Queres ficar sentado connosco os dois, hã? — o Fon pegou no Biu ao colo, e ele aconchegou-se-lhe ao peito, ainda meio a dormir.
O Dao estendeu os braços e abraçou de uma vez os dois pequenos sentados no seu colo. O Fon sorriu com aquele gesto do Dao: nunca pensou que um homem como ele fosse assim com as crianças.
— Biu, queres brincar aos cavalinhos? — perguntou o Dao, e o menino abriu os olhos e acenou logo que sim.
O Fon ficou muito espantado com a proposta repentina do Dao e virou-se para olhar para ele.
— Porque é que estás a olhar assim? Este menino é tão encantador como tu… Não, espera… tu és um bocadinho maior — respondeu o Dao com um sorriso.
O menino abriu os olhos e virou-se para ver o homem que se tinha oferecido para brincar com ele.
— Quero! Quero! Quero! — o Biu começou a sacudir-lhe o braço, e o Fon, com um sorriso, levantou-se do colo do Dao com o menino ao colo. O Biu estendeu logo as mãozinhas ao Dao, e ele pegou-lhe, com um sorriso.
— Se eu não soubesse que ele tem pais, dizia que era teu filho. O mesmo «quero, quero» impaciente — disse o Dao, a dar um beliscãozinho na bochecha do Biu.
O Fon corou ao ouvir as palavras do Dao, porque percebeu logo o sentido delas.
— Daonya! — o Fon chamou-o pelo nome completo, e o Dao limitou-se a rir.
O Dao sentou o menino na cama e pôs-se de gatas, e o Fon montou-lhe o Biu nas costas, a segurá-lo pelas mãozinhas. O menino ria, todo traquina, enquanto o passeavam pelo quarto. Ao ouvir as gargalhadas, a Tânia e a Love espreitaram pela porta entreaberta. Ficaram as duas espantadas com o que viram. Um sorriso apareceu-lhes na cara, e não os incomodaram.
O Dao e o Fon brincaram com o menino durante um tempo, até repararem que lá fora começava a escurecer.
— Uf… O tio está cansado, pequenote. Depois brincamos mais — disse o Fon, e tirou o Biu do pescoço do Dao.
O Dao sentou-se na cama e tirou o telemóvel do bolso.
📞 — “Mãe, ficamos a jantar em casa dos pais do Fon. Não te preocupes“— o Dao ligou à mãe.
📞 — [Filho, como correu a apresentação? Está tudo bem convosco?] — quis saber a mãe.
📞 — “Sim, mãe, está tudo ótimo. Ah, o pai disse a quantia… Pequenote, não metas os dedos na boca, que estão sujos!” — o Dao estava a falar com a mãe quando reparou que o Biu, que andava a gatinhar pelo chão, tinha enfiado um dedo na boca.
📞 — [Com quem é que estás, filho?] — a mãe ficou espantada com o tom carinhoso com que o filho falava com alguém.
📞 — “Oh, é o Biu, o sobrinho do Fon. É quase tão encantador como o Fon, mãe! Ah, pois, a quantia… trinta e três milhões” — respondeu o Dao, a sorrir para o Biu, que lhe obedecera e tirara o dedo da boca.
📞 — [Está bem. Vou cumprir a minha palavra. Quando chegares a casa, não te esqueças de me dar o número da conta dos pais. Não te vou distrair mais da diversão] — disse a mãe, e desligou.
Todo o resto do serão, o Biu não largou os braços do Dao. Ao jantar, o Fon deu de comer ao menino sentado ao colo do Dao. Perto das oito da noite, prepararam-se para voltar para casa. O Non ficou o tempo todo sentado com eles no restaurante, atento ao ambiente. A Pitti não voltou a descer do quarto.
🍃 🍃 🍃
A manhã seguinte
De manhã, o Leon levou o Fon e o Fai à universidade. Às duas da tarde, foi o próprio Hima buscar o Fai, para irem juntos ao laboratório. Durante o caminho todo, o Hima foi abraçado ao Fai no banco de trás, enquanto o Kris conduzia. De vez em quando, o Kris espreitava pelo espelho retrovisor, e o coração despedaçava-se-lhe ao ver o Hima a sorrir para aquele rapaz. Dantes, o Kris não dava importância aos casos passageiros do Hima, porque ele nunca tinha levado nenhum estranho para casa. Até ao momento em que o Fai apareceu…
Quando chegaram ao laboratório, num enorme edifício de muitos andares, o Fai ficou espantado com tudo o que viu. Desde o sistema de segurança até ao equipamento — e à quantidade de centros de investigação, das mais variadas áreas. O Hima mostrou-lhe tudo, até chegarem ao instituto de tecnologias de informação. Logo à entrada, o Hima acrescentou à base de dados a impressão da mão e a leitura da retina do Fai — para grande espanto dos seus subordinados.
— Don! Acabaram de ser adicionados ao sistema os dados de uma pessoa nova. Acrescenta-lhe também o comando por voz e dá-lhe acesso com os mesmos direitos que eu tenho — ordenou o Hima, ao entrar numa grande sala de vidro onde estavam cerca de dez pessoas.
Um homem de quarenta anos deixou cair das mãos um SSD. Ainda bem que este tipo de disco não sofre grande dano com as quedas. Apanhou-o depressa e virou-se para olhar para o chefe. As sobrancelhas franziram-se-lhe ao ver o rapaz ao lado dele.
— Atenção, todos! Este é o Fai, a minha esposa. A partir de hoje, vão ajudá-lo tal como se fosse eu a pedi-lo. Não — ainda mais depressa do que a mim — disse o Hima, alto e com firmeza, e todos inclinaram a cabeça, em sinal de acordo.
— Chefe! Nós não temos tempo para brincadeiras infantis com um miúdo… — indignou-se o Don e, ao sentir em cima de si o olhar do Hima, de gelar a alma, calou-se.
— Fai, pequenino, já fizeste a lista do que precisas? — perguntou o Hima com carinho, a abraçar a cintura do cachorrinho.
— Sim. Para começar, preciso de: dois bastidores de servidores para dez máquinas, com 128 GB de memória RAM em cada servidor; o computador mais potente e um portátil com 512 GB de RAM — o melhor que conseguirem montar ou comprar; sistemas de climatização com módulo de arrefecimento direto ou livre, à vossa escolha; uma secretária à parte; e a internet mais rápida que houver — o Fai disse-o sem sequer abrir os apontamentos, porque já matutava naquela ideia há muito tempo, mas faltava-lhe o dinheiro para a concretizar.
As pessoas na sala entreolharam-se e ficaram a olhar para o rapaz que tinha pedido um equipamento daqueles.
— Ouviram o que o Fai disse? Daqui a três dias, já isto tudo tem de estar no meu escritório. Ah, é verdade… Don, mostra ao Fai os teus apontamentos do teu último projeto; eu quero saber a opinião dele — o Hima disse-o num tom de ordem, e o Don fez uma careta, por o chefe querer saber a opinião de um fedelho qualquer sobre o projeto em que ele trabalhava há dois anos.
— Sim, chefe… — disse o Don em voz baixa, e estendeu o tablet ao Fai.
— Posso levá-lo por umas horas? — o Hima viu que o seu pequenino já estava embrenhado na informação, e sorriu.
— Vamos para o meu escritório; lá podes sentar-te, para estudares os dados do Don — o Hima não esperou pela resposta do programador e limitou-se a levar o Fai dali, pela cintura, para fora do laboratório.
O Don estava furioso. O Kris, que os tinha trazido, entrou no laboratório, olhou para o Don — e foi ter com ele.
O Hima caminhava ao lado do Fai, que ia a ler a informação. Parecia um cachorrinho pequeno e confiante, que confiava sem reservas no homem em cujas mãos estava agora. O Hima levou-o para o escritório, sentou-o no sofá e sentou-se ele na cadeira, à secretária, para trabalhar nos documentos.
📲 Trum… trum… trum…
Tocou uma chamada no tablet do Hima, e ele esticou-se para o tirar da gaveta da secretária.
— Pequenino, posso falar aqui? Não te vou atrapalhar? — perguntou o Hima, porque queria que o Fai estivesse presente naquela chamada.
O Fai fez-lhe um aceno com a mão, em sinal de autorização, sem dizer uma palavra. O Hima sorriu. De tanto observar o seu cachorrinho, o Hima já tinha reparado que, mesmo embrenhado em alguma coisa, o Fai memorizava tudo o que acontecia à sua volta. O Hima carregou em «atender», e soou uma voz masculina, a falar em inglês.
📞 — [Olá, meu amigo. Não te esqueceste de que, daqui a uma semana, temos o leilão em Roma?] — perguntou o homem em inglês.
📞 — “Olá. Claro que me lembro. Vais levar a tua encantadora esposa ao leilão?” — perguntou o Hima em inglês, e o Fai ergueu os olhos ao ouvir falar da encantadora esposa.
📞 — [Claro! Tu sabes como o Tadao adora este tipo de eventos. No último leilão, comprou um broche de um milhão e meio de dólares e — sabes que mais? — ainda não o usou uma única vez, e já passaram mais de dois meses! Ele gasta o meu dinheiro com uma carinha tão satisfeita que eu não tenho coragem de lho proibir] — riu-se o Elijah, e o Fai esboçou um leve sorriso. — [Tu e o Dao vêm como sempre, três dias antes do começo do leilão, certo?] — quis saber o Elijah, e o Hima olhou para o sofá. — [Ei… Para onde estás a olhar? Andas a esconder-me alguma coisa?] — o interlocutor viu que o amigo não olhava para a câmara, mas sim para o lado, com um sorriso.
— Pequenino, daqui a quatro dias tens exames importantes? — perguntou o Hima em tailandês ao seu cachorrinho, que continuava a ler com entusiasmo a informação no tablet — só que agora, além do tablet, tinha nas mãos o seu próprio caderno de apontamentos.
— Não, Hia. Os exames são só daqui a dois meses. Mas, se eu não encontrar o erro nos cálculos do Don, vais sozinho — respondeu o Fai, sem levantar os olhos do estudo, e fez o Hima sorrir.
📞 — [Uau! Também sabes sorrir, Hima?] — provocou o Elijah, quando um rapaz de traços japoneses lhe caiu no colo, a sorrir docemente para o ecrã e a enlaçar o pescoço do Elijah com os braços. — [Olá, Hima. Ouvi uma vozinha fofa. Quem é? Não nos apresentas?] — quis saber o rapaz com um sorriso; tinha um ligeiro sotaque, mas falava em inglês.
📞 — “Não sejas curioso, Tadao!”— o Hima olhou para o rapaz de cara amorosa no ecrã do iPad e virou-se para o Fai. — Pequenino, queres fazer já as apresentações? — o Hima voltou a perguntá-lo ao Fai com carinho, em tailandês; e o Fai desprendeu-se dos dados porque, naquele momento, conhecer os meandros dos negócios do seu homem e os amigos dele era mais importante.
O Fai pousou o tablet e o caderno e dirigiu-se à secretária do Hima, que sorria para o rapaz encantador que vinha na sua direção. O Fai chegou-se a ele, e o Hima puxou-o pela mão, a sentá-lo no colo. O Fai não se acanhou: o Hima já lhe tinha contado que o Elijah e o Tadao eram casados há dois anos — mas via-os pela primeira vez. O Hima ainda não lhe tinha mostrado uma única fotografia: nem de amigos, nem de concorrentes, nem de clientes.
📞 — [Wow! Pretty boy!] (Rapaz bonito) — exclamou o Tadao, e o Elijah beliscou-lhe a bochecha. O Hima limitou-se a sorrir.
📞 — [Não nos apresentas, Hima?]— o Elijah sorriu e olhou para o amigo.
📞 — “Eu posso apresentar-me sozinho. Chamo-me Fai. Se percebi tudo bem, tu és o Elijah — e tu és o Tadao, a esposa dele” — respondeu o Fai num inglês limpo, deixando todos espantados.
— Oh, baby. O teu inglês é bom. Porque é que eu não sabia que o falavas fluentemente? — perguntou o Hima em inglês, a pousar a cabeça no ombro do Fai.
— Bem, nunca perguntaste. E eu não tenho conhecidos da América nem de Inglaterra, por isso não tenho propriamente com quem o falar — respondeu o Fai num tom calmo, em inglês, a arrancar sorrisos aos interlocutores.
📞 — [Fai, vais com o Hima a Roma? Estiveram a falar em tailandês, e eu percebo-o mal] — quis saber o Elijah.
📞 — “Ele vai. Porque quem tem de procurar o erro nos próprios dados é o Don. Tu não tens de fazer o trabalho dele por ele. Não é para a minha linda esposa lhe corrigir os erros que eu lhe pago somas enormes” — respondeu o Hima em inglês, e o Fai acenou, porque percebia o que o seu homem queria dizer.
📞 — [Espera… Don… Não é aquele programador dos Estados Unidos que contrataste para criar a IA?] — perguntou o Elijah, porque o projeto lhe interessava muito, a ele próprio.
📞 — “Sim. O Don já trabalha há quase dois anos, e eu não vejo grandes avanços” — respondeu o Hima, ligeiramente irritado.
📞 — “Isso é porque há um erro nos cálculos dele; só que eu tive muito pouco tempo para o encontrar. Se eu levar o tablet para casa…” — o Fai não conseguiu acabar a frase em inglês: o Hima pousou-lhe logo um dedo nos lábios queridos.
— Nada de trabalho em casa. As tuas duas horas para o projeto, podes fazê-las aqui, no meu escritório — interrompeu-o o Hima; e o Elijah e o Tadao desataram a rir, porque nunca tinham visto o Hima tão desvelado com ninguém.
— Vou lembrar-me das tuas palavras, Hia! — disse o Fai, e mordeu-lhe o dedo.
Ainda conversaram um tempo sobre o que gostariam de comprar no leilão, e terminaram a chamada cerca de uma hora depois.
O Hima voltou à contabilidade, e o Fai continuou a comparar os seus dados com os do Don. Passado um tempo, começou a ter calor: o cachorrinho tirou a camisa e ficou só de t-shirt preta. Levantou-se, esticou ligeiramente os músculos do pescoço e, com um olhar ao Hima, aproximou-se da secretária dele. O Fai apoiou as duas mãos na borda da secretária do Hima, com uma madeixa de cabelo caída sobre os olhos — o que o deixava diabolicamente sensual.
O Hima ergueu o olhar, e o coração começou a bater-lhe mais depressa, e um tropel de arrepios galopou-lhe pelo corpo, ao ver o olhar lascivo do Fai — que parecia pronto a atirar-se a ele ali mesmo…