23 🔞 – Despertar (parte 2 de 2)
O Hima soergueu-se um pouco, a despir o casaco e a desabotoar a camisa. O Fai olhava para ele e ardia de desejo, porque cada movimento do Hima era demasiado erótico. O cachorrinho mordeu o lábio de baixo, e a mão dele deslizou para as suas próprias calças, a desapertá-las.
— Gostas de me ver despir, meu menino? — reparando no olhar do seu menino, o Hima quis saber. O Fai acenou.
O Hima sorriu com malícia e levantou-se da cama. O Fai, desapertadas as calças, desceu-as até aos joelhos e sentou-se na beira da cama, a acariciar o seu membro. O cachorrinho observava o Hima a despir-se devagar: ele pegou numa cadeira e sentou-se não longe da cama, a desapertar os botões de punho das mangas e, a seguir, cada botãozinho da camisa, sem despregar os olhos do Fai. O Hima puxou lentamente a camisa dos ombros, a desnudar a tatuagem de que o Fai tanto gostava, e ficou só com a gravata. Com uma mão compôs o cabelo, que lhe caía para a cara, e com essa mesma mão foi descendo pelo pescoço, para o peito e para a barriga, até que, finalmente, as mãos dele chegaram ao botão das calças.
— Ah… — soou o gemido do Fai no momento em que o Hima soltou o cinto e, um instante depois, o botão das calças, com a braguilha a abrir-se. O Fai estava em êxtase com aquele espetáculo; a mão dele movia-se cada vez mais depressa no seu próprio membro, e a linguinha lambia os lábios.
O Hima excitava-se cada vez mais, a ver o seu menino amoroso a masturbar-se com a maneira como ele se despia à sua frente. Nunca na vida lhe tinha apetecido fazer striptease para alguém. Mas agradava-lhe tanto ver aquele menino terno e manso transformar-se num ser devasso e apaixonado. O Hima levantou-se da cadeira e empurrou só um bocadinho as calças das ancas, elas caíram quase de imediato ao chão, deixando o dono apenas de boxers bordô, com a gravata da mesma cor. O Fai gemia cada vez mais alto. O Hima caminhava para ele devagar, a olhar para os olhos do miúdo, carregados de luxúria. O Fai examinava-o a partir dos pés, subindo o olhar cada vez mais alto pelo corpo musculado do Hima, até os olhares dos dois se encontrarem.
O Fai agarrou com a mão livre a gravata no pescoço do Hima e puxou-o para si, para um beijo apaixonado; com a outra mão, continuava a acariciar o seu membro. O Hima não estava à espera de que o seu cachorrinho fosse assim tão fogoso. Debruçou-se para ele e, tirando a mão do menino do membro dele, tomou-o na sua, continuando a movê-la para cima e para baixo.
— Ahh… Hia… siiim… — gemia o Fai, a puxar com a mão liberta os boxers do Hima para baixo.
O membro quente do Hima saltou logo debaixo da borda dos boxers. O Fai passou a mão pelo rabinho do Hima e voltou ao membro dele, apertando-o na mão com ternura.
— Uf… menino lindo… — disse o Hima com a voz rouca; despegou-se daqueles lábios doces e sentou-se ao colo do Fai, de maneira a que os membros dos dois se tocassem.
O Fai estremeceu quando sentiu o rabinho macio em cima dos joelhos. Baixou o olhar e sorriu com doçura, erguendo os olhos para o homem ao seu colo, que olhava para ele. O Hima enfiou a mão nos cabelos dele e debruçou-se para lhe morder o pescoço. Pelo corpo do Fai correram arrepios, e ele tomou os dois membros numa mão, continuando os movimentos para cima e para baixo.
— Mmm… — gemeu o Hima, sem se despegar do pescoço dele.
— Siiim… eu quero vir-me… contigo… — sussurrou o Fai, e acelerou os movimentos da mão pelos membros que se esfregavam um no outro.
O Hima beijava-lhe e mordia-lhe o pescoço e as clavículas. Estava excitadíssimo com os gemidos abafados do seu cachorrinho adorável, que se transformava numa cadelinha lasciva mal despia as calças.
O Hima reparou no pescoço dele numa marca recente que não tinha sido ele a deixar — e a raiva misturou-se-lhe com a excitação, quando percebeu que aquilo tinha acontecido na véspera. Colou-se ao sítio daquele chupão e deixou a sua própria marca por cima.
— Ah… Hia… mais… — gemia o menino, a acelerar os movimentos da mão, e o Hima despegou os lábios do pescoço dele.
— Ninguém… nunca… mais… te vai tocar… além de mim… — disse o Hima com aspereza, e beijou-o nos lábios com sofreguidão, a entrar-lhe na boquinha com a língua — com medo de que alguém pudesse ter feito aquilo na véspera.
O Hima queria, naquele momento, apagar do corpo dele todos os vestígios dos toques de gente estranha. Estava pronto a cobrir de beijos cada centímetro, a lavar com a sua própria saliva os toques daquela gentalha nojenta naquele corpo lindo.
Com aquelas palavras, o coração do Fai ficou tão quente que ele pareceu corar por inteiro.
— Sim… meu menino… agora… — gemeu o Hima, e pousou a sua mão na mão do Fai, a ajudá-lo a movê-la pelos membros dos dois.
— Siiim… eu também, Hia… — respondeu o Fai com a voz rouca, e afrouxou a mão, deixando o Hima continuar sozinho, a segurar os membros juntos. A mão do Hima segurava a mão do Fai, e ele conduzia as duas ao longo de todo o comprimento.
— Aahhh… — soaram dois gemidos, e o líquido branco esguichou para os corpos dos dois rapazes, a escorrer sobretudo para a mão do Hima.
O corpo do Fai estremeceu com o orgasmo e ele deixou-se cair de costas na cama, a respirar com esforço.
O Hima, sentado sobre os joelhos dele, olhava para o corpo lindo à sua frente, no qual já tinha deixado marcas que chegassem. Soergueu-se um pouco e, afastando as pernas do Fai, pôs-se de joelhos entre elas.
— Não pensaste que isto me chegava, pois não, Fai? — disse o Hima, brincalhão, e, aproveitando o momento de fraqueza do cachorrinho, usou a água do amor nos seus dedos, para lubrificar com ela o canal do Fai.
O Fai estremeceu de leve com o toque no seu buraquinho, normalmente, era ele que fazia manipulações daquelas. Mas aquele toque não lhe despertou medo nenhum, nem repulsa.
— Hima… eu… — disse o Fai, inseguro.
— Eu sei, meu menino; vou ser meiguinho… pelo menos… no primeiro assalto… — disse o Hima com carinho, a passar o dedinho pelo buraquinho do Fai, introduzindo-lho com ternura.
— Uf… — gemeu o Fai baixinho, com o desconforto no rabinho; sabia que era preciso relaxar, por isso tentou fazê-lo.
O Hima sentiu o rabinho do Fai a apertar-lhe o dedo e desceu, a beijar-lhe a parte de dentro da coxa, enquanto com a outra mão afagava o membro do seu cachorrinho. Com aquelas carícias, o Fai começou a relaxar, e voltou a sentir o formigueiro na barriga. O Hima começou a mover o dedo no rabinho dele e, percebendo que no quarto do Fai não havia lubrificante de certeza, e que o esperma podia não chegar para meter mais um dedinho, decidiu usar a sua própria saliva. O Fai ia-se habituando aos movimentos no seu rabinho, e os gemidos doces iam ficando cada vez mais altos.
— Meu menino, este quarto não tem o isolamento acústico do clube… — avisou o Hima baixinho, e o Fai tentou segurar os gemidos. — Menino lindo… mais um, sim? — perguntou o Hima, e o Fai acenou.
O Hima molhou com a sua saliva mais um dedo e introduziu-o no rabinho do Fai.
— Ahhh… Hia… — gemeu o cachorrinho.
O Hima não tencionava apressar-se com ele naquele dia. Era como um predador que esperou pela presa durante muito, muito tempo — e ei-la, finalmente, nas suas mãos, para fazer com ela tudo o que quisesse.
Não tinha para onde correr. Ao Hima agradava-lhe observar as reações do Fai: as bochechas dele ainda rosadas do orgasmo anterior, a respiração pesada, o lábio mordido, os gemidos, as primeiras gotinhas de suor a despontarem no corpo, o seu cachorrinho a amarrotar os lençóis e a esforçar-se por abrir o mais possível as perninhas esguias.
O Hima continuava a mover devagar os dedos no rabinho do Fai até que, sem ele estar à espera, o Fai começou a mexer as ancas ao ritmo dos movimentos dele. O Hima sorriu e acrescentou mais um dedo, a continuar a alargar-lhe o canal, para que não lhe doesse muito na primeira vez. Os movimentos da sua mão tornaram-se mais rápidos e, numa das investidas, acertou no ponto sensível dentro do seu cachorrinho.
— Aaah… Hia… mais… — estremeceu o Fai, com as pernas a tremerem.
Apertava os lençóis com mais força, enquanto o dedo do Hima continuava a massajar o ponto dentro do seu rabinho. Aquilo não se parecia com nenhum dos orgasmos da sua vida; e, embora ele não estivesse para já a chegar lá, as sensações eram mágicas. O Hima continuava a provocá-lo: queria ver quanto tempo aquele miúdo conseguia resistir, e quando é que começaria a implorar que trocasse os dedos pelo membro.
O Hima continuava a mover os dedos dentro do seu menino e, na mão dele, estava já outra vez o membro excitado do Fai. Chegou-se um bocadinho mais à frente e passou a língua, com carinho, pela cabeça do membro do seu cachorrinho.
— Hia… ahh… não… — o Fai estremeceu com a surpresa, porque ele já se tinha vindo, e o membro estava coberto de esperma.
— Chiu… é melhor concentrares-te… nisto… — disse o Hima com meiguice, e voltou a estimular o ponto dentro do Fai.
— Ahh… ahh… ahh… — gemia o Fai cada vez mais alto, enquanto o Hima beijava a cabeça do membro dele e o tomava devagar na boca.
O Hima movia em sincronia a cabeça e os dedos, e os gemidos do Fai começaram a passar a gritos. Então, ele tirou a mão do membro do seu menino e tapou-lhe a boca com ela. O gesto foi tão excitante que o Fai começou a contorcer-se na cama, a mexer as ancas para que o membro entrasse ainda mais fundo na boca quente do Hima. Passado um tempo, o Fai agarrou com a mão a cabeça do Hima e ergueu-lha pelo queixo. O Hima parou os movimentos dos dedos e tirou a mão da boca do Fai.
— Por favor, Hia… eu quero ser teu… — implorou o Fai, com lagrimazinhas transparentes a assomarem-lhe aos cantos dos olhos.
— Lindo menino! — disse o Hima com um sorriso, satisfeito com a súplica do seu menino.
O Hima tirou os dedos e, molhando o membro com a própria saliva, soergueu-se, pôs as perninhas do Fai aos seus ombros e guiou o membro até ao buraquinho do Fai. Ia-o introduzindo com cuidado, enquanto o Fai soltava uns gemidos doces, agarrado à mão com que o Hima se apoiava na cama.
— Uh… sim… Hia… sim… — gemia o Fai.
Graças às longas carícias e aos três dedinhos mágicos, o rabinho do cachorrinho estava bem preparado, e ele não sentiu desconforto com a penetração. O Hima entrava nele devagar e, quando o rabinho do seu menino se apertava à volta do membro quente, parava de vez em quando, para o Fai se habituar.
— Oh… sim… meu lindo… — gemeu o Hima, quando a sua barriga tocou nas nádegas do Fai, a dar a entender que aquele rabinho amoroso tinha recebido o membro todo.
O Hima movia-se dentro dele devagar e com ternura, a tentar não lhe magoar o canal. O Fai olhava para ele com os olhos cheios de felicidade, apesar de se lhe verem lagrimazinhas nas pestanas.
— Raios te partam, Hima! Fode-me de uma vez! — indignou-se o Fai bem alto, quando o Hima não se decidia de maneira nenhuma a acelerar o ritmo.
— Tu é que o disseste, meu menino! — respondeu o Hima com um sorriso, e começou a mexer as ancas mais depressa, a puxar o Fai para si pela cintura.
— Ahh… ahh… sim… mais… Hia… mais… — os gemidos do Fai voltavam a ficar altos, mas agora o homem em cima dele já não se importava com isso.
— Estás a apertar-me com força de mais, querido — rosnou o Hima, porque o rabinho do Fai era tão apertado que aquilo o estava a pôr louco.
Ele queria esticar o prazer do sexo com o seu cachorrinho mas, se aquilo continuasse assim, vinha-se mais cedo do que tinha planeado. Aquele miúdo era tão sossegado e tão doce, mas mal tirava a roupa, acordava um Fai completamente diferente, um que despertava no Hima o caçador. O olhar dele, o sorriso dele, os gestos dele, era tudo diferente.
— Então não gostas? — gemeu o Fai, ofegante, com um sorriso devasso, quando o Hima se debruçou para o beijar, sem parar de mexer as ancas.
Com a inclinação, o ângulo de entrada mudou, e o Hima entrou nele ainda mais fundo.
— Ahh… fundo de mais… Hia… não… — o Fai não teve tempo de acabar a frase: na sua boquinha gemedora irrompeu a língua do Hima.
O Hima continuou a mexer as ancas, enquanto o Fai gemia por baixo dele, a responder ao beijo. Passado um tempo, os braços do Fai enroscaram-se no pescoço dele, os dedos a remexerem os cabelos claros do Hima, e as perninhas do cachorrinho apertaram-lhe a cintura.
O Hima despegou-se dos lábios dele e ficou a deliciar-se com o menino à sua frente, enquanto as suas ancas se moviam cada vez com mais força e mais depressa. Porque é que, com ele, se sentia tão feliz? Porque é que este sexo era tão delicioso e tão diferente dos anteriores? O que é que havia de especial
naquele miúdo, que fazia o Hima querer estar dentro dele a toda a hora, tocar-lhe, apanhar em si o olhar terno daquele cachorrinho e o seu sorriso amoroso?
O Hima agarrou o Fai pelas nádegas e ergueu-se da cama com ele, com o membro ainda dentro do rabinho do jovem. O Fai segurava-se ao pescoço dele, e o Hima subia e descia o corpo do menino, a ampará-lo pelo rabinho.
— Ah… siiim… mais… — o Fai quase gritava, enquanto o Hima o encaixava no seu membro com as próprias mãos. Era tão fundo, e o Fai estava tão perto da descarga, que não conseguia segurar os gritos.
— Mmm… o teu rabinho aperta-me com tanta força… — rosnou o Hima, e começou a mexer as ancas mais depressa, a descer o rabinho do Fai cada vez com mais brusquidão.
— Tu és meu… sim… meu menino querido… — o Hima também estava perto do orgasmo.
— Hia… eu sou teu… sou só teu… — gemia o Fai, ofegante, a olhar o Hima nos olhos, porque, com aquelas palavras ternas do Hima, o coração saltava-lhe do peito.
O Fai beijou-o, a entrar na boca do Hima com a sua linguinha. O Hima não quis tomar as rédeas, porque aquilo o excitava ainda mais: ele estava dentro do Fai, e o Fai estava dentro dele… Aquele miúdo gemia tão sensualmente em cima dele; mesmo durante o beijo, era mesmo muito barulhento.
— Ahhh… Siiim… — o Hima acelerou ainda mais e libertou o líquido branco dentro do Fai.
O cachorrinho, ao sentir o calor lá dentro, também se veio, o que o espantou imenso, porque nem tinha tocado no seu membro. O esperma dele salpicou a barriga do Hima, que ainda o subia e descia no seu membro quente, mas já sem tanta pressa nem tanta força.
— O que é que ainda queres, meu menino? — sussurrou o Hima com a voz rouca ao ouvidinho do Fai.
— Comer… — respondeu o Fai baixinho, e o Hima desatou a rir.
— Desculpa, esqueci-me de que não tinhas comido… — o Hima lembrou-se dos acontecimentos da véspera e encaminhou-se para a casa de banho, com o Fai ao colo.
Ao abrir a porta, pousou o Fai com cuidado no chão do duche e abriu a água morna. O Fai apoiou-se à parede, porque as perninhas lhe tremiam — e, ainda por cima, o esperma escorria-lhe por elas. Foi o próprio Hima que lavou o corpo do Fai e lhe enrolou uma toalha à volta da cintura.
— Chegas à cama sozinho, ou levo-te ao colo? — perguntou o Hima com carinho, a olhar para o Fai com os olhos a brilhar; enquanto o lavava, tinha voltado a ficar excitado, mas não fez nada, porque percebia que o Fai não comia há mais de um dia.
— Eu consigo sozinho… — resmungou o Fai, cheio de vergonha, e saiu da casa de banho.
Vestiu-se e esperou que o Hima saísse do duche. O Fai não sentia dores nas costas nem no canal, mas estar sentado era um bocadinho desconfortável.
O Hima saiu do duche também só de toalha. O Fai não conseguia despregar os olhos do corpo musculado dele e da tatuagem do dragão, que tanto o fascinava.
— Vou ao meu quarto vestir-me, e depois vamos comer juntos. Descansa entretanto, meu menino lindo — o Hima aproximou-se, beijou o Fai na testa com ternura e despenteou-lhe o cabelo.
— Sim… — respondeu o Fai baixinho, e deitou-se na cama.
O Hima saiu do quarto e foi para o seu. Vestida roupa lavada, voltou ao quarto do Fai e saíram juntos. No corredor, deram de caras com o Dao e o Fon, que olhavam para eles com uns sorrisos misteriosos.
— O que foi? — perguntou o Hima, a erguer uma sobrancelha perante aqueles olhares.
🍃 🍃 🍃
Duas horas antes
O Kris e o Non levantaram-se mais tarde do que os restantes guarda-costas, porque na véspera o Non tinha trabalhado na pista até tarde, e o Kris estivera no escritório a tratar da papelada do terreno arrematado no leilão. Por isso, a Khun Kira deixou-os hoje dormir até mais tarde. Normalmente, não conversavam muito um com o outro, porque se ocupavam de assuntos diferentes. Mas, naquele dia, desciam os dois juntos para o pequeno-almoço. A trocar frases banais, os rapazes iam descendo as escadas.
«Oh… sim… meu lindo…» — chegou-lhes uma voz abafada de trás da porta do quarto do Fai, e os rapazes pararam antes de chegar à porta, a entreolharem-se.
Para descer ao primeiro andar é preciso passar pela escadaria comum, que fica no centro da casa. E o Kris e o Non tinham forçosamente de passar pelo quarto do Fai para chegar à sala de jantar.
— Tu também ouviste isto, não ouviste? — perguntou o Non baixinho, e o Kris acenou
.
«Raios te partam, Hima! Fode-me de uma vez!» — a voz do Fai soou alta e nítida, e os rapazes ouviram-na.
O Kris e o Non coraram, e ambos sentiram uma dor forte no peito, como se os corações deles fossem de cristal e os tivessem atirado contra uma parede.
«Tu é que o disseste, meu menino!» — soou a voz terna do Hima e, agora, os rapazes sabiam com toda a certeza o que se passava dentro do quarto.
Desceram a toda a pressa e passaram à sala de jantar, onde estavam sentados a Khun Kira, o Khun Dao e o miúdo que, na véspera, o Leon tinha trazido com o Fai. O Kris e o Non ergueram depressa as mãos num wai diante dos donos da casa e seguiram para a cozinha.
Mas, ao ouvirem as palavras do menino, ambos pararam.
— Pois é… E o Fai, onde está? — fez o jovem a pergunta, e os rapazes viraram-se a olhar para ele.
A Kira reparou — e viu os rapazes corados, com as caras tristes.
— Come primeiro, filho. Depois podes ver o teu amigo — disse ela, e sorriu com doçura.
O Kris e o Non foram juntos para a sala de jantar do pessoal. A Kira sabia há muito dos sentimentos do Kris pelo Hima. E também sabia que, se o Kris tivesse hipótese de interessar o filho dela, ele já lhe teria prestado atenção há muito tempo. O que ela agora se perguntava era porque é que o Non estava tão abatido.
O Fon comeu num instante e estava com tanta vontade de ver o amigo que agarrou a mão do Dao e o arrastou lá para cima. A mãe só soltou uma risadinha, sem largar o chá.
— Pi, qual é o quar… to — o Fon começou a pergunta com entusiasmo, e acabou-a quase num sussurro, porque ouviu uns sons estranhos…
«Ah… siiim… mais…» — o Fon reconheceu a voz do amigo, que gemia do outro lado da porta.
«Mmm… o teu rabinho aperta-me com tanta força…» — soou a voz do Hima, e o Fon corou, porque não estava nada à espera de ouvir o amigo a fazer sexo.
— Hm… Pi'Dao… não me parece que o Fai e o Hima fiquem muito contentes de nos ver agora — disse o Fon com uma risadinha, já refeito, e arrastou um Dao em choque de volta para junto da mãe.
— Já voltaram, meninos? Como está o Fai? — perguntou ela com um sorriso, e deu um golinho no chá.
— Bem… acho que vamos esperar que eles desçam sozinhos, mãe. Pi, queres água? — perguntou o Fon, e o Dao olhou para ele com um ar perdido; a mãe limitou-se a rir.
— Sim… não… — o Dao já não sabia o que dizer.
— Filho, mostra a casa ao Fon. Bem… menos o segundo andar. Esse, mostras-lho quando… o teu irmão tiver dó da minha nora… — disse a mãe, e foi para a sala de estar, ter com o marido.
O Dao acenou e decidiu mostrar primeiro ao Fon o recinto à volta da casa. O que mais interessou o Fon foram os cavalos e, para grande espanto do Dao, o seu Husky não se impressionou rigorosamente nada com o leopardo-das-neves no cercado. Vista a propriedade, voltaram para dentro e, não encontrando a mãe na sala, decidiram subir ao segundo andar.
O Dao ia com o braço na cintura do Fon quando, ao chegarem ao cimo das escadas, o Hima e o Fai saíam do quarto do Fai. O Fon não se conseguiu conter: sorriu e deu uma cotovelada de leve ao Dao. Ele olhou para o seu Husky e sorriu também, a olhar para o irmão e para o Fai.
— Então, já está? — perguntou o Fon com malícia, a passar o Fai em revista com o olhar.
— De que é que estás a falar? — devolveu o Fai, embora adivinhasse o que o amigo queria dizer.
— Ohhó… eu pensava que vocês não saíam da cama até amanhã de manhã… com gemidos daqueles… A garganta não te dói? — voltou o Fon a brincar, e o Fai corou.
O Hima olhou para o seu cachorrinho e para aquele parzinho à frente deles.
Tenho de mandar pôr isolamento acústico no meu quarto, antes de o Fai se mudar para lá… — pensou o Hima, e sorriu.
— O Fai está cheio de fome… Nós vamos à cozinha — respondeu o Hima e, pegando na mão do Fai, encaminhou-se para as escadas.
— Sim, sim… a ti também não te fazia mal repores energias, Hia… — brincou o Dao, quando o Hima já ia quase a chegar às escadas.
O Dao não se tinha atrevido a fazê-lo mais cedo, porque sabia que o Hima era bem capaz de lhe bater por uma piada daquelas. O Fon soltou uma risadinha, e o Dao levou-o a continuar a visita. Terminada a visita, o Dao e o Fon foram a casa dos pais dele, como o Dao tinha prometido à mãe do Fon.
O Hima e o Fai desceram à cozinha, mas a tia Nari já lá não estava. O Fai abriu o frigorífico, a pensar no que havia de cozinhar, quando a tiazinha voltou.
— Oh, Khun Hima, Nong Fai, estão com fome? A madame deixou dito ontem à noite que era para preparar comida para os meninos. Sentem-se, que eu sirvo — interessou-se a tiazinha com calma, e foi num instante buscar os talheres.
O Hima e o Fai sentaram-se um em frente do outro. A tiazinha pôs-lhes à frente os pratos e várias travessas à escolha, e retirou-se depressa. O Hima não parava de repor comida no prato do Fai.
Enquanto comiam, o Fai refletia sobre o que tinha acontecido, e percebeu que, se não estivesse a par dos assuntos do homem que lhe conquistara o coração, não ia conseguir proteger nem a si próprio, nem a ele. E, acima de tudo no mundo, o Fai detestava ser inútil.
— Hia… posso pedir-te uma coisa? — o Fai fez a pergunta de repente, num tom sério, e o Hima ergueu os olhos para o seu cachorrinho.
— O quê? — o Hima ficou interessado, porque pensou que o Fai ia agora perguntar pela dívida, ou pelo que os dois eram um do outro. E estava pronto a responder a essas perguntas.
— Eu sei que posso parecer intrometido de mais, e tu podes dizer-me que isto não é da minha conta… mas eu quero estar a par de tudo aquilo de que tu e o Dao se ocupam, para estar preparado para o que aconteceu na pista. E, mais… quero aprender a disparar uma pistola — disse o Fai com seriedade, deixando o Hima muito espantado.
— Inesperado… — disse o Hima baixinho, e pousou os pauzinhos na mesa.
— Está bem. Mas, para entrares a fundo nos nossos assuntos, vais precisar de algum tempo. É demasiada informação. E tens de perceber uma coisa: entrando neste mundo, não vais ter caminho de volta. E ainda tens as aulas, e o estágio está quase a começar. Por falar em estágio: podes fazê-lo no meu laboratório.
Amanhã, depois das aulas, vou eu mesmo buscar-te e vamos diretos para lá. Não te esqueças de levar os teus apontamentos. Podemos conjugar o estágio com a tua introdução ao negócio meu e do Dao. Mas primeiro tens de pensar muito bem: estás pronto para fazer parte disto? — o Hima tentou explicar tudo de uma vez.
— Eu não te pediria, Hia, se não tivesse a certeza de que estou pronto. Se eu não te posso ajudar, então não devo estar ao teu lado. Não quero que andes preocupado por minha causa, e não quero pôr o meu amigo em perigo — respondeu o Fai, sempre no mesmo tom sério.
O Hima sorriu e acenou. Nunca lhe passara pela cabeça que o Fai não estivesse preocupado consigo mesmo, mas com ele e com o Fon; que aquele rapazinho fosse tão corajoso ao ponto de decidir entrar naquele mundo escuro para o proteger. A ele, que era quem devia proteger aquele cachorrinho adorável.
— Estou pronto para começar agora mesmo, se concordares — o Fai sorriu-lhe com doçura e continuou a comer.
— Primeiro comes e, depois, vamos para o quarto, para te poderes deitar enquanto eu te conto tudo — respondeu o Hima, e sorriu de volta ao seu cachorrinho.
Passaram quase o dia inteiro no quarto do Hima. O Fai deitado na cama, e o Hima a contar-lhe dos casinos, dos hotéis, do laboratório e dos fornecimentos de armas. O Fai ia tomando notas para si no bloco, a apontar os nomes das pessoas e os traços de feitio que o Hima lhe ia descrevendo. Enquanto os dois estavam embrenhados na informação, a mãe apareceu à porta do quarto e ficou um tempo a observá-los, com um sorriso.
— Meninos, e se fôssemos jantar? Já são quase seis da tarde. O Dao ligou a dizer que fica a jantar em casa dos pais do Fon — disse a mãe, e os rapazes viraram-se para ela.
— Sim, mãe — disseram os dois ao mesmo tempo, e a mãe desatou a rir.
Estava feliz por o filho ter encontrado o Fai. Aquele menino tinha coragem que chegasse para não se assustar com os acontecimentos dos últimos dias; não fugiu, como outros teriam fugido, pelo contrário: decidiu mergulhar naquilo ainda mais fundo. A Kira percebeu o que o Fai sentia pelo filho dela, porque não há outra explicação, a não ser o amor, para alguém decidir de livre vontade entrar no mundo dos negócios escuros, porque ela, no seu tempo, tinha feito exatamente o mesmo que o Fai.
Quando conheceu o Nai, tinha só dezoito anos. A Kira acabara a escola e sonhava entrar no Instituto de Relações Internacionais, em Moscovo. Um dia de verão, a passear pela cidade, esbarrou com ela um jovem bonito, que falava russo fluentemente. Para ela, foi amor à primeira vista. Os olhos negros do Nai conquistaram-lhe o coração e, mais tarde, a Kira decidiu consigo mesma que estava pronta a sacrificar tudo para ficar com ele.