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21 – Mãe (parte 2 de 2)

11h03, na cave


Os rapazes tentavam calcular quanto tempo teria passado desde que acordaram naquele sítio, talvez duas horas, ou três. Os meninos não conseguiam contá-lo, porque o tempo se arrastava traiçoeiramente devagar. Durante todo aquele tempo, os cachorrinhos tinham tentado tirar as abraçadeiras um ao outro, mas não conseguiram nada. O Fai e o Fon tentaram congeminar um plano de fuga mas, pesando bem que não sabiam nem que edifício era aquele, nem quantas pessoas lá havia, nem se estavam armadas, decidiram orientar-se mais logo pela situação.


Ao ouvirem barulho atrás da porta, os rapazes entreolharam-se e sentaram-se de costas contra a parede. 

Três homens entraram na sala, a olhar para os rapazes com luxúria, e deixaram a porta aberta.


— O chefe lá disse para não vos tocarmos até o leilão acabar, mas esta meia horinha vai fazer alguma diferença? Há tanto tempo que eu queria provar um rapaz… ainda mais um assim tão giro! — aproximando-se do Fai, o homem fez-lhe uma festa na cara, e o Fai desviou o rosto.
— E porque é que vocês não se fodem uns aos outros? — atirou o Fon, e os outros dois homens vieram ter com ele.
— Essa tua boca tem um uso muito melhor: é para pichas, não para tanta paleio! — disse o homem com brutalidade e, agarrando o Fon pela t-shirt, pô-lo de pé.
— Deixa-o em paz! Quem vocês querem sou eu, não é? Então para quê perder tempo com o meu amigo? — perguntou o Fai, a sorrir, num tom meigo, e os três homens olharam para ele.
— Mal podes esperar que te fodam, é? Pois muito bem: vais ser o primeiro — e o teu pequenino vai assistir a tudo, garantido! — o homem ao lado dele passou-lhe a mão pela bochecha, desceu pelo pescoço, pelo peito, até às calças. O Fai começou a estrebuchar.
— Segura-o! — ordenou ele ao segundo, que se aproximou num instante e pôs o Fai de pé, agarrando-o por trás pelas mãos atadas.


Naquela posição, as abraçadeiras apertavam com força os pulsos do Fai, deixando-lhe sulcos vermelhos fundos.


— Não! Larga-o, cabrão! — gritava o Fon, e ainda tentou ajudar o amigo, mas agarraram-no num ápice e levaram-no para junto da outra parede; só podia assistir.
— Que boca tão má! Eu vou-te ensinar a ter a língua quieta, miúdo! — rosnou o homem que o segurava, e enfiou a mão por dentro das calças do Fon, pelas costas.
— Tira as mãos, enquanto ainda as tens agarradas ao corpo, cabrão! — debatia-se o Fon, indignado, mas não havia nada que pudesse fazer, e o homem só se ria das tentativas inúteis do rapaz.


Empurrou o Fon de cara contra a parede, sem parar de lhe apertar o rabinho pequeno com brutalidade. O Fon já estava habituado a tratamento assim, dos ex-parceiros que não se conformavam com a separação e forçavam o Husky ao sexo. Mas agora ele não queria que no seu corpo tocasse mais ninguém, a não ser o Dao. Antes, teria aguentado uma coisa daquelas com relativa calma; agora, o coração rasgava-se-lhe de dor e, sem ele querer, as lágrimas correram-lhe pelas bochechas.


Um dos homens segurava o Fai pelas mãos, porque ele era maior do que o Fon, e o outro rasgou-lhe a camisa, desnudando-lhe o peito branco.


— E tu és mesmo apetitoso. Uma pele tão macia… — passando a mão pelo peito do Fai, o homem lambeu os lábios com luxúria.


O Fai percebia que, naquela situação, se resistisse, só ia atiçar ainda mais o interesse dos homens; por isso, deixou-se estar quieto, a sorrir. O homem ergueu o olhar do peito dele e, ao ver a cara do Fai, sorriu com malícia. Abriu-lhe a braguilha das calças, puxando-as até aos joelhos, e o Fai ficou de boxers. O homem percorreu com sofreguidão o corpo esguio com os olhos, os seus lábios estenderam-se para o pescoço fino e branco, e as mãos vagueavam pelo corpo do cachorrinho. O Fai sentia que ia vomitar ali mesmo com aqueles toques, mas continha-se, a perceber que não havia saída e que só restava resignar-se àquele destino.


No corredor ouviu-se um barulho qualquer, mas os três estavam tão entretidos com os meninos que não lhe prestaram atenção. Os soluços do Fon iam ficando cada vez mais altos — o que acendia cada vez mais o interesse do homem ao lado dele.


🗡 Zás!


Quase ao mesmo tempo, o sangue salpicou os corpos dos cachorrinhos. Os rapazes gritaram com o susto. No ombro do canalha que segurava o Fon estava espetada a lâmina de uma faca de arremesso, com sangue a pingar da ponta. O que apalpava o Fai caiu ao chão, a esvair-se em sangue e a arquejar, porque a faca lhe tinha trespassado o pescoço. O homem ao lado do Fon virou-se: diante dele estava a Kira, com uma faca de arremesso fina, de cabo vermelho, na mão. O olhar dela trespassava até aos ossos, gelando a espinha de quem o encarava. O que segurava o Fon atirou-se a ela.


Pumba!


O homem caiu no chão, inconsciente, com um pontapé rodado. O terceiro continuava a segurar o Fai, como um escudo.


— Escondes-te de uma mulher atrás de uma criança? — disse a Kira numa voz grave, mas o homem não se mexeu.


O Fon desatou a soluçar, e ela encaminhou-se para ele, para o abraçar. O homem atrás do Fai achou que aquela era uma boa oportunidade e, empurrando o cachorrinho, atirou-se à mulher. O Fai caiu ao chão e ainda tentou esticar as pernas para o homem tropeçar, mas não conseguiu.


— Mãe! — disseram os meninos quase ao mesmo tempo, ao verem o homem a avançar para ela; e a Kira, quase sem se virar, arremessou a faca contra o homem, acertando-lhe na barriga.


Ele caiu, a contorcer-se de dores — precisamente no momento em que o Stas entrava na sala.


— Madame Kira… apanhámo-lo — relatou o Stas em russo e, ao ver a camisa rasgada do Fai, despiu o casaco e pousou-o sobre os ombros do Fai. O Fai acenou, agradecido.
— Levem-nos a todos e descubram quem está por trás deste idiota. Ele não tinha miolos que chegassem para agir com tanto cuidado — disse ela com dureza e, virando-se para o Fon, puxou-o para os seus braços.


A Kira tirou mais uma faca do estojo do cinto e cortou as abraçadeiras das mãos do Fon; o Stas fez o mesmo ao Fai, e depois o homem chamou mais dois rapazes, que arrastaram os dois feridos para fora do cubículo.


— Chiu… meu menino, não chores. A mãe está aqui. Eu bem te disse que não deixava ninguém fazer-te mal — com uma voz de ternura, ela acalmava o Fon; e ele só chorava ainda com mais força, abraçado ao corpo dela.
— Fai, meu menino, estás bem? Consegues vestir-te sozinho? — virando-se para o Fai, a Kira perguntou-lhe, e ele, com um aceno, puxou as calças para cima.


Ela puxou o Fai para si por um braço, a abraçar os dois rapazes ao mesmo tempo, e fazia-lhes festas meigas nas costas.


— Acabou-se, meus pequeninos. Agora estão em segurança! — sempre com a mesma voz carinhosa, a mãe sossegava os rapazes — uma voz com um timbre tal que até o Fai começou a chorar.


O Fai nunca tinha pensado que os seus sentimentos pudessem coincidir com as palavras de alguém. Mas, naquele momento, o cachorrinho acreditava sem reservas no que ela dizia. Pela primeira vez na vida, o Fai sentia-se verdadeiramente protegido, nos braços de uma mulher frágil.


— Meu menino obediente… — a Kira virou-se para o Fai e beijou-o na testa com ternura.
— Mãe… — soluçava o Fai, porque havia tanto tempo que não recebia carinho de pai ou de mãe.


Dos últimos três anos, o Fai não conseguia lembrar-se de quantas vezes a sua própria mãe o tinha abraçado ou animado. Agora, a Kira oferecia ao Fai aquele calor que tanto lhe faltava. As mãos bondosas e a voz meiga dela foram como uma avalancha a desabar sobre o muro de sorrisos e de paciência que ele construíra — a arrasar aquele muro até aos alicerces.


— Nunca tirem o colar e, assim, estejam onde estiverem, eu encontro-vos sempre, meus pequeninos — explicou ela.


Soltando os meninos do abraço, a Kira levou a mão ao peito, tirou do bolso interior do blusão mais um colar, este em forma de gota de chuva, e pô-lo ao pescoço do Fon.


— Khun Kira, temos de ir. Mandei uma mensagem ao Khun Hima a dizer que os rapazes estão connosco — o Leon entrou e prestou contas à patroa.
— Encosta o carro mais perto do edifício e dá-me o «Menpo» — ordenou ela, e o Stas estendeu-lhe uma garrafa de água e dois comprimidos; ainda em casa, a Kira lhe tinha dito o que era preciso preparar.
— Fai, Fon… bebam; é um calmante. Agora, o que vocês precisam é de descansar — disse ela com carinho, e deu um comprimido a cada um dos meninos.


O Labrador e o Husky engoliram-nos, obedientes, e o Leon e o Stas ajudaram-nos até ao carro. Não passaram nem cinco minutos e os dois meninos já dormiam profundamente. O carro continuava no terreno de uma fábrica abandonada, no bairro de Bang Kapi*; não muito longe, estavam estacionados vários carros estrangeiros, de cores diferentes. A Kira percebeu porque é que os filhos não tinham encontrado a carrinha preta: depois de se verem livres das câmaras, os raptores não só trocaram de carro, como levaram logo vários. Nem que os homens deles tivessem passado o Huai Khwang inteiro a pente fino, teriam encontrado os meninos.


(N. da A. : Bang Kapi é o distrito vizinho de Huai Khwang.)


— Leva-os para casa, senão aqueles dois idiotas dão em malucos, se não os virem em casa — ordenou a mulher ao Leon, e ele acenou.


A Kira, depois de confirmar que os meninos dormiam, afastou-se do carro e voltou para dentro do edifício, onde a esperavam os cinco guarda-costas e um molho de vilões feridos. O carro partiu. A Kira estava numa fúria tal que, naquele momento, mesmo sem facas, era capaz de pôr fosse quem fosse a implorar pela morte.


— Onde está ele? — perguntou a Kira numa voz grave, e o Stas levou-a até uma divisão que, ao que tudo indicava, tinha sido um vestiário.


Quando ela entrou, o Gas estava estendido no meio da divisão, no chão, espancado, mas ainda consciente. A Kira acocorou-se diante dele, a levantar-lhe o focinho do chão, com desleixo, com a ponta da faca afiada, para ele lhe poder ver a cara. A lâmina era afiada e, com o peso da cara do Gas, cortou-lhe o queixo, e da ponta da faca começou a pingar sangue.


— Ouvi dizer que tentaste drogar o meu filho, para dormires com ele? Mas isso pareceu-te pouco, por isso roubaste-me os meus dois meninos e deixaste que os teus canalhas imundos lhes tocassem. Tu achas mesmo que sais daqui vivo, Gas? Por tua causa, os meus pequenitos choraram. E, no mundo inteiro, o que eu mais odeio é que alguém faça mal aos meus bebés… — dizia-o num tom que arrepiou a espinha até ao Stas, e olhem que ele já trabalhava com ela havia dez anos, e já a tinha visto em todo o tipo de situações.


O Stas passou-lhe o telemóvel do Gas, e ela, encostando-lhe o dedo do Gas, desbloqueou-o. Ao percorrer a lista de chamadas e as SMS, a sobrancelha dela ergueu-se ao de leve.


— Stas: aos dois que tocaram nos meus meninos, cortem-lhes os dedos — disse ela com desdém, e o homem acenou.
— E então… Gas… Vamos brincar? Há tanto, tanto tempo que eu não me divirto — perguntou ela, a sorrir de leve, e avançou na direção do Gas.


📩 TLIM.


Chegou uma SMS ao telemóvel do Gas, e a Kira leu-a com um sorriso.


📩 Khun Yufa ‹Mata esses dois. O Hima não mordeu o isco.› 


— Os dedos desses cabrões, mandam-nos pelo correio, como aviso. E do cadáver dele desfazem-se de maneira a parecer que fugiu do país — ordenou a Kira, devolvendo o telemóvel do Gas ao Stas.
— Não… Khun Kira… não… eu conto-lhe tudo… — implorava-lhe o Gas com a voz a tremer.
— Não é preciso, Gas. Eu já sei tudo. Eu só quero brincar contigo — respondeu a mulher, e na cara dela apareceu um sorriso de gelar o sangue nas veias. A Kira avançou devagar para o Gas…


🍃 🍃 🍃


No hotel «Lux»


O carro parou à entrada principal do melhor hotel da cidade. Para ali convergiam, àquela hora, gente rica e influente, para participar no leilão. Entre os lotes havia tanto edifícios novos como casinos e hotéis já lucrativos, além de terrenos para construção.


Do carro saiu um guarda-costas que se distinguia dos restantes por não vestir um fato preto, mas azul-escuro. Abriu a porta de trás, e de lá saiu o Hima, num fato castanho de riscas claras, com uma camisa branca e uma gravata de um bordô vivo; o cabelo louro ia solto, e o vento despenteava-lho, dando-lhe ainda mais charme. A seguir a ele apareceu o Dao, num fato cor de índigo, camisa azul-clara e um laço azul furta-cores. Nas caras dos dois estava agora uma máscara de indiferença e de inacessibilidade — embora, cá dentro, aos dois lhes rugisse uma tempestade.


O Hima e o Dao, escoltados por quatro guarda-costas, encaminharam-se para a entrada. As portas escancararam-se; no átrio, havia pessoal a indicar aos recém-chegados a sala para onde deviam ir. 

Subiram de elevador ao trigésimo quinto andar. Percorrido o corredor até ao salão de banquetes, dois mordomos abriram-lhes as portas, e os olhares de todos os presentes se voltaram para os dois homens aprumados. Um empregado de mesa aproximou-se deles a oferecer champanhe; os rapazes pegaram numa taça cada um e seguiram para a mesa que lhes estava reservada.


O Hima e o Dao irradiavam uma aura simplesmente assassina, que antes não existia. Agora, dentro de cada um deles, ardia uma chama de fúria misturada com a aflição pelos seus cachorrinhos adoráveis.


— Pi'Hima, bom dia! — soou uma voz feminina cristalina.


Os guarda-costas barraram o caminho à rapariga. À mesa deles tinha-se aproximado uma bela jovem, num vestido comprido vermelho, deslumbrante, de decote fundo e racha até meio da coxa. O pescoço dela era adornado por um magnífico colar de diamantes graúdos.


O Hima lançou-lhe um olhar de passagem e bebeu um gole da taça, ignorando a rapariga.


— E porque é que vieram os dois sozinhos? Ainda há pouco tempo encontrei a Khun Kira: andava às compras com um rapaz. Parece-me… que ela disse que ele era filho dela — perguntou a rapariga com interesse, a sorrir.


O Hima virou a cabeça para a rapariga e, nos olhos dele, faiscou uma centelha; mas apagou logo a perturbação, e o olhar voltou ao que era.


— Sim, a minha esposa é muito querida — respondeu o Hima com um sorriso, dando mais um gole.


A rapariga não estava à espera de que o Hima fosse confirmar, ali mesmo, as palavras da mãe dele.


— E porque é que ele não está convosco? — continuava a Yufa a perguntar. O Hima calou-se por um instante.
— A minha mãe está a ensiná-lo a montar a cavalo. No próximo evento, ele acompanha-me de certeza — ele esforçava-se por se dominar, porque as perguntas da Yufa lhe pareciam suspeitíssimas.


Fez um aceno aos guarda-costas, e eles barraram a rapariga em definitivo. À Yufa não restou outra coisa senão voltar para a sua mesa, onde estava sentada com o pai, o San.


Precisamente nessa altura, começou o leilão. O lote que interessava aos rapazes era o penúltimo. A Yufa não parava de olhar para o Hima. Passados quinze minutos do início do leilão, o telemóvel do Hima vibrou-lhe no bolso, e ele tirou-o. Os olhos dele brilharam, e estendeu o telemóvel ao Dao, que sorriu de leve e emborcou o champanhe da taça de um só trago.


Era uma mensagem com o texto:

📩 ‹Estão connosco.›


Trinta minutos depois, chegou a vez do lote que lhes interessava, e os rapazes arremataram-no. O Dao deitou uma olhadela ao San e à Yufa. A rapariga estava claramente descontente, tal como o pai. Ela tirou o telemóvel da malinha, escreveu qualquer coisa e voltou a guardá-lo.


Terminado o leilão, o Dao e o Hima assinaram os documentos e seguiram para casa.


🍃 🍃 🍃


Em casa


Mal o carro parou na faixa de acesso, o Dao e o Hima quase entraram em casa a correr.


— Onde é que ele está? — perguntaram os rapazes quase em uníssono.


O pai, que lia o jornal, ergueu os olhos e olhou para os filhos.


— Vocês vieram a correr desde o hotel? — perguntou ele, brincalhão. — Oh… pronto, não olhem assim para mim. O Fai está no quarto dele, e o Fon no quarto ao lado do quarto do Dao — continuou o pai num tom calmo, baixando outra vez os olhos para o jornal.


O Hima e o Dao subiram as escadas num pé e num salto.


O Hima abriu a porta do quarto do Fai e viu-o a dormir na cama. O Hima aproximou-se da cama e, sentando-se ao lado do seu cachorrinho, fez-lhe uma festa terna no cabelo. O olhar do homem foi atraído pelo lábio rebentado do Fai que, pelos vistos, já tinha sido tratado. Tocou com um dedo nos lábios quentes dele.


— Perdoa-me. Nunca mais deixo ninguém tocar-te. Meu menino lindo — sussurrou o Hima baixinho e, debruçando-se, beijou com ternura a ferida no canto da boca do Fai.


O Hima deitou-se ao lado dele na cama, a apertar o menino amoroso contra o peito. Só a abraçar o seu cachorrinho é que o Hima sentia que a sua alma pertencia, toda e sem condições, àquele rapaz. O cansaço e a tensão acumulados desde a véspera pesavam nas pálpebras do Hima, e ele adormeceu.


O Dao já tinha preparado o quarto para o Fon havia muito, logo naquele dia em que a mãe o ameaçou, depois da conversa na sala. Ela dera-lhe duas semanas para aquele menino amoroso se mudar para lá.


O Dao entrou no quarto, e o coração estremeceu-lhe por o seu Husky adorável estar deitado em casa dele, abraçado ao cobertor. Aproximou-se, e o enlevo deu lugar a um inesperado sentimento de culpa, quando viu os olhos vermelhos e inchados do Fon.


— A culpa disto tudo é minha. Eu devia ter voltado para ti logo naquele dia. Sou uma pessoa horrível: fiz-te chorar. Sabes como me custou não ir ter contigo, pequenino? Nunca mais te deixo — disse o Dao baixinho; deitou-se na cama e abraçou o Fon por trás, com as mãos frias dele seguras nas suas.


As sobrancelhas dele franziram-se quando sentiu que o seu Husky adorável tinha emagrecido.


— Ficaste ainda mais pequenino. Serás capaz de me perdoar, meu pequenino? — sussurrava o Dao ao ouvido do Fon, mas ele dormia profundamente, sob o efeito do Menpo.


O Dao acariciava com meiguice as costas da mão do Fon, a tentar dar-lhe o máximo de calor que conseguia. E fazia-o já nem tanto pelo Fon, mas por si próprio, para se convencer, finalmente, de que o seu menino estava ali, nos seus braços, e de que estava tudo bem com ele. A respiração baixinha e regular do Fon sossegava o Dao. Os olhos dele foram pestanejando cada vez mais devagar.


— Amo-te… meu Husky — murmurou o Dao, e mergulhou no sono.

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