20 – Mãe (parte 1 de 2)
— O que é que tu disseste? Repete! — o Hima só sonhava, naquele momento, com ter ouvido mal.
— Não ouviste mal, Hia. Foram raptados — repetiu o Dao em voz baixa.
— Non! — soou o grito furioso do Dao, e o Non entrou a correr no gabinete.
— Sim, chefe — disse o homem em voz baixa, sem perceber com que é que tinha provocado a ira do patrão.
— Quem é que devia estar hoje a vigiar a terceira entrada?! — o tom de voz do Dao não mudava.
— O Pat, chefe… Mas já não o vejo há uns vinte minutos. Aconteceu alguma coisa? — respondeu o Non com ar de culpa, porque era sobre os ombros dele que caía a distribuição dos homens pela pista.
— ENCONTRA-MO IMEDIATAMENTE! — o grito do Hima soou tão alto que até o Dao estremeceu com o susto.
O Non baixou a cabeça e desapareceu logo do gabinete.
— Quem é que teve a estupidez de roubar um homem meu dentro da minha própria propriedade?! — falava o Hima sozinho, num tom bruto.
📲 Trum… trum… trum…
Tocou o telemóvel do Dao; ele tirou-o do bolso das calças e atendeu.
📞— [Chefe… O Pat desapareceu.] — ligava o Non ao patrão.
📞— “Revistem cada canto da pista e encontrem-no!” — gritou o Dao.
📞— [Agora isso vai ser complicado, chefe… não se esqueceu de que tem corridas a decorrer?] — disse o Non baixinho, com medo da ira do patrão.
— As corridas acabaram. O novo piloto vai ser o Fon. Todos os visitantes suspeitos: detidos, interrogados e revistados — o Dao tomou a decisão e terminou a chamada.
Meia hora depois, na pista só restavam os funcionários e os seguranças. O Non encontrou o Pat sem sentidos, com a cabeça rebentada, perto do posto dele. O Hima ligou logo ao Dew, para ele vir observar o Pat e fazê-lo voltar a si. Ao chegar, o Dew prestou-lhe os primeiros socorros, mas por causa do traumatismo na cabeça, o Pat não recuperava os sentidos, e o Dew seguiu com ele para o hospital.
— Chefe! Encontrámos um telemóvel partido junto à saída da pista — o Non entregou o telemóvel ao Hima.
O Dao marcou o número do Fon, e o telemóvel nas mãos do Hima vibrou, mas o ecrã estava partido, e não havia imagem.
— Maldição… — praguejaram os dois, porque tinham a esperança de que o telemóvel do Fon os pudesse ajudar na busca dos miúdos.
O Hima, naquele momento, puxava freneticamente pela memória, a passar em revista todos os inimigos que pudessem ter descoberto que o Fai era importante para ele. Mas, quanto mais pensava, mais nomes vinham ao de cima.
📩 Tlim…
Aos telemóveis dos dois chegou o lembrete do leilão do dia seguinte, pelo terreno para o hotel em Pattaya. E, embora soubessem que aquele leilão não passava de uma formalidade, já tinham acordado tudo com o dono do terreno —, para não darem aos outros mais um pretexto de vingança, tinham decidido participar.
Agora , nenhum dos dois tinha cabeça para isso. Tentavam seguir, pelas câmaras de rua, o percurso da carrinha preta que tinha levado os seus cachorrinhos. Seguiram-na até Huai Khwang* — e ali perderam-na de vista, porque o bairro estava mal equipado de câmaras.
(N. da A. : Huai Khwang é um dos 50 distritos (khet) de Banguecoque, na Tailândia. Fica a leste do centro da cidade.)
Agora, nem o Hima nem o Dao largavam os telemóveis das mãos, à espera de uma chamada dos raptores.
— Se calhar, foi o Gas. Ele conhece o Fai de cara, e o Fon simplesmente estava no sítio errado, à hora errada — o Hima tentava acalmar o irmão nervoso, porque via que ele se culpava pelo rapto do Fon.
— Leon! Que os teus rapazes me tragam informação sobre o Gas. O que é que ele fez na última semana, com quem se encontrou. Tudo, até ao mais pequeno pormenor! E a mexer! — gritava o Dao, a perceber que podia ter sido o Gas.
Dez minutos depois, os rapazes tinham toda a informação sobre o que o Gas andara a fazer na última semana. Não encontraram nada de suspeito. Nem ele, nem os homens dele se tinham interessado pelo Hima ou pelo Fai, o que só deixou os dois ainda mais furiosos.
Passaram a noite inteira a rever as câmaras das saídas de Huai Khwang, na esperança de encontrarem a carrinha preta. O Hima e o Dao não pregaram olho toda a noite e, perto das oito da manhã, foram para casa, falar com os pais.
🍃 🍃 🍃
Os cachorrinhos, depois do sonífero
O Fai acordou e sentiu uma náusea ligeira e tonturas. Tinha as mãos presas atrás das costas com uma abraçadeira de plástico, e estava deitado num chão de pedra, frio. O Fai virou a cabeça e viu ao seu lado o Fon, ainda inconsciente. O cachorrinho focou o olhar e correu a sala com os olhos: aquilo parecia mais uma cave; paredes cinzentas a descascar, chão de cimento, uma janelinha com grades, uma única porta e nem um móvel. O Fai tentou lembrar-se de alguma coisa do que tinha visto antes do rapto, mas a última coisa de que se lembrava era de estar a abraçar o Fon. O jovem sentou-se, com as pernas recolhidas debaixo de si.
— Fon… Fon… acorda! — chamou o Fai, sem levantar muito a voz.
— Fai… só mais cinco minutinhos… para onde é que vais com tanta pressa, as aulas são só a partir do almoço… — resmungou o Fon com a voz rouca.
— Acorda, idiota! Fomos raptados — continuava o Fai a falar a meia-voz.
O Fon abriu os olhos devagar e percebeu que o amigo não estava a mentir. Tentou sentar-se; estremunhado, não o conseguiu à primeira.
— Para que é que eles nos querem? Nós somos estudantes normais, que proveito é que tiram de nós? — o Fon pôs-se a pensar, sem entrar em pânico, porque nas aulas lhes tinham ensinado a negociar em situações de emergência.
— Temos de decidir o que fazer agora, e como sair daqui. O Hia e o Pi'Dao o mais certo é já andarem à nossa procura — pensava o Fai em voz alta.
— O telemóvel? — perguntou o Fon baixinho, e os dois ficaram a pensar.
— O meu ficou com o Hia, quando eu estava à tua espera na pista — respondeu o Fai.
— E o meu partiu-se. Quando eu vi a foto, um rapaz esbarrou em mim e o telemóvel caiu ao asfalto. Eu estava tão furioso que nem sequer o apanhei — disse o Fon em voz baixa.
Os rapazes ouviram barulho atrás da porta e calaram-se de imediato. Pouco depois, entrou pela porta um homem que nenhum dos dois conhecia.
— Chefe, estes dois acordaram! — gritou ele, e os rapazes ouviram passos pelo corredor vazio.
— O que é que querem de nós? Nós não temos dinheiro, somos simples estudantes — perguntou o Fon em voz baixa, sem olhar o homem nos olhos, a tentar pôr em prática o que o professor lhes ensinara.
— Simples estudantes? Cof-cof… Desde quando é que um estudante normal é levado à universidade por um guarda-costas? — soou a voz alta do homem que entrava pela porta, claramente a fazer troça da frase do Fon.
— Deves ser muito bom na cama, para o Hima proteger assim o brinquedo dele — continuou o recém-chegado, com desprezo.
O Fai reconheceu-o: era o Gas. Vinha a coxear ligeiramente.
— Khun Gas, certo? — perguntou o Fai, para confirmar.
— O-o-oh, ainda por cima lembras-te do meu nome, fedelho? Por tua causa, perdi rios de dinheiro! Por tua causa, já não vou poder praticar capoeira*! Por tua causa, o Hima espancou-me até eu ficar meio morto, e os homens dele… fizeram de mim gato-sapato durante dois dias! — a cada palavra, a voz dele ficava mais alta e mais raivosa, e ele aproximava-se cada vez mais do Fai.
(N. da A. : a capoeira é uma arte marcial tradicional brasileira, que junta ao combate elementos acrobáticos, acompanhada de música popular brasileira; a técnica de base compõe-se de 52 movimentos, com golpes de pernas e braços, rasteiras, projeções e cabeçadas.)
— A culpa não é minha, Khun. O senhor sabia que o Khun Hima era contra o uso de drogas no estabelecimento dele! E o senhor não só decidiu levá-las para o negócio, como ainda decidiu usá-las em… — dizia o Fai com um sorriso, em voz baixa, mas não teve tempo de acabar a frase.
Plaf!
A cara do Fai sacudiu-se quando o Gas lhe bateu com toda a força, com as costas da mão. No canto da boca dele apareceu sangue. O Fai voltou a cabeça para a frente e olhou para o Gas com o mesmo sorriso.
— É só disto que és capaz? De bater num miúdo amarrado? Não admira que não tenhas interessado ao Hima — perguntou o Fai com sarcasmo, sem largar o sorriso.
Plaf!
O Gas bateu-lhe outra vez, mas o Fai continuou na mesma.
— Desamarra-me, e vemos qual de nós é o mais forte — continuava o Fai a provocá-lo, enquanto o Fon observava, a avaliar a situação.
— Não há necessidade nenhuma de o averiguar. Eu perdi muito dinheiro; agora o Hima vai perder uma soma ainda maior, e o terreno para o hotel. E, mais ainda… vai fazer tudo o que eu quiser, porque o brinquedo sexual dele está nas minhas mãos — disse o Gas em tom de troça, tirando o telemóvel do bolso.
O Gas marcou um número, e do outro lado demoraram a atender.
📞— “Obrigado, linda, por me teres ajudado a apanhar este fedelho. Os teus homens fizeram tudo limpinho. Nem tivemos de nos ralar com os telemóveis deles, porque afinal não os tinham… O quê? Não sei quem é o segundo… Os teus rapazes disseram que os apanharam quando os dois estavam abraçados ao pé da pista… sim… Agora o teu papá já vai poder ficar com o terreno… sim… Depois do leilão, trato deles eu mesmo… Liga quando acabarem… Ah, sim… Mando já a foto” — falava o Gas ao telefone com alguém.
Pela conversa, os rapazes perceberam que era uma rapariga. O Gas terminou a chamada, tirou uma foto aos cachorrinhos sentados no chão e enviou-a, a julgar pela conversa, àquela rapariga. Depois aproximou-se do Fai e ergueu-lhe a cara pelo queixo.
— Por agora, precisam de vocês inteiros, mas mal o leilão acabe… os meus rapazes vão divertir-se convosco até se cansarem. O teu namoradinho também vai poder participar. É tão giro e tão pequenino que os rapazes já marcaram a vez na fila para ele — disse o Gas, virando-se para o Fon e passando-lhe a mão pela bochecha. O Fon arrancou a cara da mão dele.
— Tira as mãos da minha cara. Eu sou alérgico a cabrões! — disse o Fon, alto e bom som.
— Ah-ah-ah… Não faz mal, miúdo: esse teu topete não tarda a murchar — riu-se o Gas, e encaminhou-se para a saída.
— Não lhes deem nada. Nem água, nem comida — ordenou o Gas com severidade, e a porta fechou-se.
— De onde é que o conheces? — perguntou o Fon baixinho, e o Fai contou-lhe como o Gas tentara aproveitar-se do Hima.
Não sabiam há quanto tempo estavam naquele cubículo, porque não tinham telemóveis nem relógios. Tudo o que podiam fazer era ter esperança de que o Hima e o Dao tivessem percebido que eles tinham desaparecido — e de que fossem, de facto, importantes para eles.
🍃 🍃 🍃
A mansão da família Kittichat
O Hima e o Dao fizeram barulho a mais quando entraram em casa. Puseram absolutamente toda a gente a pé, para distribuir quem ia tratar do quê. A casa estava em polvorosa, e os pais saíram do quarto ensonados.
— Meninos… que barulheira é esta tão cedo? — perguntou a mãe baixinho, a bocejar, ao aproximar-se das escadas para o primeiro andar com o marido, os dois de pijama. Lá em baixo, na sala, o Hima e o Dao tentavam encontrar uma pista que fosse. Nem sequer a ouviram. — Eu perguntei: que rebuliço é este logo de manhãzinha, filhos da mãe?! — o grito da mãe fez toda a gente gelar e virar-se para a dona da voz.
— Mãe, ontem à noite raptaram o Fai e o Fon na pista — disse o Dao com ar de culpa, porque a pista era a menina dos olhos dele, pela qual respondia e que tanto amava.
— O QUÊ?! — os olhos dela arregalaram-se ao ouvir aquilo, e a Kira desceu as escadas num relâmpago.
Plaf! Plaf!
Os dois filhos levaram uma bofetada da mãe, um a seguir ao outro. O pessoal da casa observava em silêncio; ninguém se atrevia sequer a respirar alto.
— Seus idiotas, os dois! Porque é que não nos ligaram logo? — continuava ela num tom severo.
— Passámos a noite à procura. Pelas câmaras da cidade, o carro com eles desapareceu no bairro de Huai Khwang, mas o carro nunca de lá saiu — disse o Hima com a voz a tremer, a tentar explicar à mãe.
O pai viu o estado em que os filhos estavam, pegou na mão da mulher e abanou a cabeça, a tentar amaciar-lhe a raiva. Os dois rapazes estavam lívidos, porque ambos percebiam: se aquela gente se tinha decidido a raptar os miúdos na pista deles, não era certamente para lhes ir pagar um gelado.
📩 TLIM.
Chegou uma mensagem ao telemóvel do Hima, e ele tirou-o do bolso. Ao abri-la, os olhos incendiaram-se-lhe de fúria e ele apertou o telemóvel na mão. De um número desconhecido, tinha recebido uma foto dos meninos sentados no chão de uma cave qualquer e, ao ampliá-la, viu o lábio rebentado do Fai.
Naquele momento, estava pronto a apanhar quem tinha feito aquilo ao seu cachorrinho adorável e a despedaçá-lo, como um tigre despedaça a hiena estúpida que se atreveu a tocar na sua cria. Por baixo da foto, uma legenda:
📩 ‹Se não os queres receber aos bocados, não participes hoje no leilão.›
O Dao aproximou-se do irmão e, ao ver o Fon naquele estado, sentiu o coração a rasgar-se em pedaços. O seu Husky pequenino estava sentado no chão e, embora não parecesse assustado, o Dao percebia que os dois estavam com medo.
— O leilão está cancelado — disse o Hima com severidade, e atirou o telemóvel para o sofá.
— Tu endoideceste? O pai passou o dia de ontem inteiro a negociar aquele terreno! Deixa-te de te portar como um miúdo sem juízo! — indignava-se a Kira.
Aproximou-se do sofá, apanhou o telemóvel e, ao olhar para a foto, sorriu.
— Que criança tão obediente… — disse ela com carinho, e virou-se para os filhos e para o marido.
O Nai olhou para a mensagem que a mulher lhe mostrou e deu a ordem:
— Localizem o número de onde veio a mensagem!
O Rio pegou no telemóvel e saiu a cumprir a missão.
— O leilão começa às onze. Vocês vão lá — os dois. E portam-se como se não tivesse acontecido nada. Têm de me trazer as escrituras do terreno, entendido? — deu a Kira a ordem, com severidade. A voz dela era gélida a tal ponto que, naquele estado de espírito, até o marido lhe tinha um certo medo.
— Mãe! — indignaram-se os rapazes a duas vozes, levantando o tom.
— Atrevem-se a levantar a voz à mãe, depois da asneira que fizeram? A culpa é vossa de os meus meninos estarem naquele sítio! Vão ao leilão, e não há discussão. Os meninos, vou buscá-los eu própria — disse ela numa voz grave, com a ênfase toda no «eu própria», e a Kira foi trocar de roupa.
O Dao e o Hima entreolharam-se e não se atreveram a desobedecer à ordem da mãe, porque sabiam o que queria dizer o «eu própria» dela.
— Kat! Junta os cinco melhores rapazes, que vão com a mãe. Quatro vêm connosco ao leilão — ordenou o Hima, sem coragem para desobedecer à mãe.
— Por precaução, vou ligar ao doutor Dew, para ele vir cá a casa — disse o pai, e subiu para ir ter com a mulher.
Meia hora depois, a Kira desceu; em baixo esperavam-na os cinco guarda-costas em quem os rapazes mais confiavam. Vinha vestida com umas calças pretas cheias de bolsos, uma camisola preta de alças e um blusão de cabedal, com sabrinas nos pés. O cabelo estava apanhado num rabo de cavalo. Os guarda-costas ficaram de boca aberta porque, em todo o tempo que trabalhavam com o Hima e o Dao, a Khun Kira sempre andara de vestido ou de saia. Parecia sempre tão feminina e tão frágil. Mas só quem tinha trabalhado com o Nai sabia o que aquela mulher era na realidade.
— Stas! Trouxeste a «pequena Buer»? — perguntou a Kira em russo ao seu secretário, e ele, com um aceno, estendeu-lhe um pequeno aparelho, pouco maior do que a palma da mão, parecido com um netbook em miniatura.
A mulher olhou para o aparelho e, com um sorriso, saiu de casa, acompanhada por seis homens. O Hima e o Dao ficaram a vê-la partir e, passando os olhos pelo relógio de parede; 9h45; foram os dois para os quartos, trocar de roupa para o leilão, no hotel «Lux».