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19 – Duas palavras (parte 2 de 2)

O Dao, depois de sair do apartamento


O Dao sabia que aquelas palavras iam ferir de certeza o amor-próprio do Fon, mas não podia agir de outra maneira. Se não as dissesse, para o Fon ele seria só mais um rapaz de uma noite. Ao entrar no elevador, ligou ao Non, para o vir buscar. O Non chegou trinta minutos depois, e foram para a pista.


O Dao desaparecia muitas vezes para a pista quando precisava de pensar em alguma coisa.


Até que ponto é que ele vai ficar magoado? Passei das marcas? E se lhe ligasse? Não. Não posso. — pensava o Dao pelo caminho.


Entrou no seu quarto na pista, onde muitas vezes passava a noite. Abriu o armário, tirou de lá roupa e foi para o duche. Ao despir-se, o olhar dele prendeu-se, no espelho da casa de banho, às marcas vermelhas no seu corpo. Passou-lhes a mão por cima e sorriu, a lembrar-se de como aquele menino era amoroso enquanto lhas deixava.


— Desculpa, pequenino. Prometo que, mais tarde, te vou mimar tanto quanto tu quiseres — falava o Dao sozinho.


Tomou o duche, trocou de roupa e secou o cabelo. O Dao sentou-se à secretária do gabinete e, abrindo o portátil, continuou a busca de um local para o novo casino. E, nisto, o Dao lembrou-se do Gas. Ligou ao Leon.



📞— [Sim, chefe?] — atendeu o Leon.
📞— “Já soltaram o Gas?” — quis saber o Dao.
📞— [Sim. Levámos o Gas para o estaleiro mais próximo dele, como o Khun Hima mandou.] — respondeu o Leon com franqueza.
📞— “Que alguém fique de olho nele. Aquele cabrão é vingativo como poucos” — ordenou o Dao, porque percebia que o número que o Hima tinha feito podia trazer problemas.
📞— [Sim, chefe.]


O Dao abriu os ficheiros com os vídeos do dia anterior, do Fon a examinar a mota. Olhava para o ecrã e sorria, ao ver aquele Husky todo contente, que pura e simplesmente irradiava felicidade ao pé das motas.


Espreitou o relógio e decidiu ir jantar fora. Ao sair do gabinete, viu o Non.


— Non, leva-me ao Akira Back*. Liga pelo caminho e reserva uma mesa à janela — ordenou o Dao.


(N. da A. : o Akira Back Bangkok é um restaurante que é um lugar único no mundo. Ultrapassa as culturas e as convenções, propondo uma cozinha inventiva, asiática na essência e internacional no espírito, criada com paixão gastronómica.)


— Sim, chefe — respondeu o Non, e tirou o telemóvel.


Será que o pequenino já comeu? — passou o pensamento pela cabeça do Dao.


O Non levou o Dao ao restaurante, mas os pensamentos do homem estavam todos com o menino amoroso que ele tinha deixado de manhã. Não comeu quase nada: provou só uns quantos pratos e molhou os lábios num copo de vinho tinto.


O Dao olhou para o relógio: marcava quase sete da tarde. Tinha uma vontade enorme de ligar ao Fon, mas proibiu-se de o fazer. Com um suspiro pesado, o Dao saiu do restaurante e pediu ao Non que o levasse a casa. Naquele dia, o Dao estava especialmente calado, e o Non reparou, mas não perguntou nada.


Cerca de uma hora depois, o Dao chegou a casa e subiu para o seu quarto. Tinha os pensamentos tão ocupados com o Fon que se esqueceu por completo de que, na véspera, tinham chegado os pais. O Dao despiu o fato e vestiu uma t-shirt branca e uns calções pelo joelho.


O Dao estava deitado na cama do quarto e, na sua cabeça, pairava a cara atordoada do Fon quando ele o beijou antes de sair.


— Desculpa ter mentido, Fon… tu foste incomparável — disse o Dao em voz alta.


Ficou um tempo deitado na cama, a recordar a noite da véspera. Os retalhos de memória eram tão escaldantes que o Dao ficou com a garganta seca. Desceu à cozinha para beber água. Tirando do frigorífico uma garrafa de água, o Dao encheu um copo e deu uns golos.


— DAONYA!!! — soou um grito na sala de estar, e o Dao por pouco não deixou cair o copo. Ainda bem que já tinha engolido a água.
— Mãe… — o Dao lembrou-se de que os pais tinham aterrado na véspera, e ele nem sequer lhes tinha ligado — quanto mais ir vê-los.


O Dao despachou a água e saiu para a sala de estar, onde estavam a mãe e o Hima. Aqueles dois não estavam, claramente, na melhor das disposições. A mulher descalçou um sapato e atirou-o ao Dao, que por milagre conseguiu desviar-se.


— Mãe! Não é crueldade a mais, atirares-me sapatos? — indignou-se o Dao, mas o Hima abanou a cabeça, a dar-lhe a entender que agora era melhor estar calado.
— Se fosse uma faca, eu não tinha falhado! — disse a mãe num tom zangado e, descalçando o segundo sapato, atirou-lho também.


Desta vez, acertou-lhe na mão, com o salto. Aproximou-se dele e, agarrando-o por uma orelha, arrastou-o para o sofá.


— Ai… Ai… mãe… Dói… Eu já não sou nenhuma criança. O que é que eu fiz, para seres assim tão cruel comigo? — suplicava o Dao, a seguir a mãe até ao sofá.
— E ainda tens a lata de perguntar? — perguntou ela num tom severo, sem lhe largar a orelha, enquanto se sentava no sofá. O Dao ficou de pé.


Como o Dao era mais alto do que ela, os olhos dele ficaram exatamente ao nível da blusa suja.


— Mamã, o que é que aconteceu à tua blusa? — fez o Dao a pergunta, e o Hima deu-lhe um empurrão no ombro, o que ainda aumentou mais a dor na orelha.
— À minha blusa… aconteceu-lhe um filho canalha! Eu aterrei ainda ontem, e hoje já ando a limpar a porcaria que tu deixaste para trás! — respondeu ela, e empurrou o Dao para longe de si, com força.
— Mãe, eu vou para o meu quarto ligar ao Fai, saber como estão as coisas. E tu… oh… Daonya… — o Hima olhou para a mãe, depois passou o olhar para o irmão e, abanando a cabeça, encaminhou-se para o segundo andar.
— Espera, Hima! Não me deixes sozinho! — gritou o Dao, mas o olhar zangado da mãe pregou-o ao cadeirão.— E onde está o Nong Fai? Porque é que ele não dorme em casa? — o Dao tentou mudar de assunto, mas só conseguiu atiçar ainda mais a fúria da mãe.
— O Fai… dorme em casa de um menino amoroso que passou quase duas horas a chorar no meu ombro! — disse ela com severidade, e atirou ao Dao uma almofada do sofá. — Se não me contares tudo imediatamente, faço de ti alvo de treino! — a Kira estava fora de si de raiva, porque não tinha ensinado os filhos a portarem-se daquela maneira.


O cérebro do Dao processava a informação, a tentar juntar as peças todas. E, então, caiu-lhe a ficha.


— O quê?! O Fon esteve a chorar?! — o Dao não esperava que as suas palavras e os seus atos ferissem tanto o pequenino.
— Conta-me tudo, imediatamente! — a mãe voltou a levantar a voz, mas reparou em como a cara do filho tinha mudado, e abrandou um bocadinho.


O Dao baixou a cabeça e, com ar de culpa, começou a contar tudo desde o princípio.


🍃 🍃 🍃


Na manhã seguinte, o Fai e o Fon foram juntos para a universidade. O Fon sentia-se melhor do que na véspera. O Fai esforçava-se por não puxar a conversa daquela noite, nem mencionar o Dao.


O Fon não conseguia parar de pensar no Dao. Tentava ocupar a cabeça com as aulas ou com as corridas, para arrancar aquele homem cruel dos pensamentos. Mas, quanto mais tentava esquecer, com mais força se lembrava de cada pormenor.


🍃 🍃 🍃


Passados dez dias


Às vezes, quando o Fai chegava à universidade, o Fon sabia que naquele carro tinham levado o Dao, porque apanhava no Fai o aroma da água-de-colónia dele, e o coração do pequeno Husky punha-se logo a bater mais depressa. Agora, o Fon voltava todas as noites a dormir a casa dos pais, e no apartamento nunca mais tinha posto os pés. O Fai chamava-o para o cinema, para o café, para o clube, mas o Fon limitava-se a sorrir com doçura e a aceitar, para não magoar o amigo. O Fai esforçava-se por nunca pronunciar as palavras «nada mau» à frente do Fon, com medo de lhe tocar na ferida. Em casa, o Fai quase não via o Dao. Ele saía de manhã cedo e voltava já pela noite dentro.


— Fai… O Pi'Dao anda com alguém? — ao almoço, na universidade, o Fon fez a pergunta num tom sério, e o Fai deixou cair a colher.
— Eu… eu não sei. Nos últimos tempos, ele sai cedo e volta tarde. Quando pergunto por ele ao Hia, ele fica calado — respondeu o Fai com franqueza.


O Fon suspirou e continuou a esgravatar a comida com a colher. Ultimamente comia pouco, apesar de o Fai fazer questão de lhe comprar sempre os pratos preferidos.


— Tu gostas mesmo dele, não gostas? — o Fai decidiu perguntar, já que fora o Fon o primeiro a puxar o assunto. O Fon ficou imóvel — e depois acenou.
— Hoje, na pista, há uma corrida importante. O Hia disse que o Dao vai lá estar. Queres que eu vá contigo? — propôs o Fai, porque tinha ouvido o Dao e o Hima a discutirem os novos pilotos.
— Não me parece que seja boa ideia, Fai… Não quero criar problemas — respondeu o Fon, e o coração encolheu-se-lhe todo com estas palavras.


Porque tinha sido exatamente isso que o Dao lhe pedira: que não criasse problemas. E não interessava nada que, naquela manhã, o Fon lhe quisesse dizer que esperava que aquela noite não tivesse sido a última. O Dao tinha-o interrompido. O Fai olhou para o amigo e abanou a cabeça.


— Vão escolher um piloto novo. As corridas são nas motas dos candidatos. Tu adoras ganhar, ou não? É uma oportunidade excelente de mostrares de quem é que ele abriu mão — o Fai tentava animar o amigo.
— É uma oportunidade excelente de devolver ao Pi a mota dele e de recuperar a minha scooter — respondeu o Fon, e olhou para a mochila onde trazia as chaves da Kawasaki.


Desde aquele dia, o Fon nunca mais se tinha sentado ao comando da Kawasaki; andava na mota do Dream.


— Se tu não fores, eu também não vou — o Fai tentava dar força ao Fon.
— Está bem. A que horas começa?
— Às sete — respondeu o Fai, entusiasmado, na esperança de que aqueles dois finalmente conversassem.
— Eu chego lá pelas oito — o Fon aceitou, mas mesmo assim hesitava.


Depois do almoço, os rapazes separaram-se, cada um para a sua faculdade, e combinaram encontrar-se na pista do Dao por volta das oito da noite. O Fai chegou mais cedo, com o Hima. O cachorrinho disse ao Hima que, por volta das oito da noite, ia haver uma surpresa para o Dao. O Hima percebeu logo do que o seu pequenino estava a falar, e contou-o em segredo ao Dao.


Chegou a hora do início das corridas, e os primeiros candidatos saíram para a partida. O Dao ia vendo as corridas sem grande vontade, só para encurtar o tempo que faltava até às oito da noite, quando voltaria a ver o Fon.


Depois de mais uma corrida, o rapaz novo que tinha vencido o adversário aproximou-se do Dao e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Fai viu aquilo — e ainda conseguiu tirar uma foto, na qual se via nitidamente o jovem a pousar a mão no joelho do Dao e a debruçar-se para ele.


O Fai mandou a foto ao Husky, com uma mensagem curta:


📩 ‹Despacha-te.›


O Fon, naquele momento, já vinha a caminho da pista, e não ouviu o som da mensagem. Chegou pela mesma entrada por onde ele e o Dao tinham saído.


Deixaram-no passar sem perguntas, porque os rapazes reconheceram a mota. O Fon estacionou a mota perto da entrada da pista e, tirando o capacete, pegou no telemóvel para ligar ao Fai.


O Fon viu a mensagem no Line e abriu-a. O pequenino gelou, ao ver a foto. Naquele dia, ele estava preparado para ver fosse o que fosse, menos aquilo. As mãos começaram a tremer-lhe e um rapaz que ia a passar esbarrou-lhe sem querer no ombro — e o telemóvel caiu das mãos do Husky para o asfalto.


— Desculpe. Não foi de propósito — desculpava-se o jovem, de mãos juntas num wai.
— Não faz mal, o desastrado sou eu — o Fon, naquele momento, nem pensava naquele rapaz; nem sequer apanhou o telemóvel do chão. Pegou no capacete e encaminhou-se para a mota.


O Fon precisava de se acalmar e, naquele momento, estava exatamente no sítio certo: quando entra na pista, esquece-se de tudo. Por isso, pôs o capacete, sentou-se na mota e seguiu para a partida. Ao princípio, o Husky só queria devolver a mota e levar a sua scooter, por isso é que estava de casaco de ganga, t-shirt amarela e jeans azuis. Aquela foto esticou até ao limite os seus nervos já em franja, e ele não conseguia controlar as emoções; precisava de se acalmar. E a única saída era uma corrida.


O Fai e o Hima, sentados nas bancadas, reconheceram o Fon, mas o Dao não estava à vista em lado nenhum.


— Porque é que ele está na partida sem fato? Não me disseste que ele não queria participar? — o Hima virou-se e perguntou ao Fai, que só encolheu os ombros.


O Fai tirou o telemóvel e abriu o Line, para ligar ao Fon. E viu que o Fon tinha lido a mensagem.


— Liga ao Pi'Dao! O Fon não pode entrar na pista! — o Fai deu um salto e correu para a linha de partida, a tentar ligar ao amigo.


O Hima não percebeu o que se passava com o seu cachorrinho, mas o tom aflito do Fai levou-o, mesmo assim, a tirar o telemóvel e a marcar o número do Dao.


Enquanto o Fai furava por entre a multidão de espectadores, mais um participante saiu para a partida.


— Fon! Fon! Não! Parem a contagem! — gritava o Fai, mas, com a gritaria da multidão, ninguém o ouvia.


O vermelho passou a verde, e as duas motas arrancaram. O Fai gelou. Estava aflitíssimo com o amigo. O Hima aproximou-se dele e pousou-lhe a mão na cintura. O Fai estremeceu.


— Se lhe acontecer alguma coisa, a culpa vai ser minha… — disse o Fai em voz alta, e o Hima ouviu.
— Não te preocupes. Não lhe vai acontecer nada. Ele conhece a pista, e não é a primeira vez que anda de mota — o Hima tentava acalmar o Fai, mas ele estava quase a chorar.
— O que é que se passa? — perguntou o Dao em tom sério, ao chegar ao pé do Hima, que consolava o Fai.
— Por onde é que tu andavas, Pi?! Não devias estar de olho em todos os participantes?! — o Fai, com lágrimas nos olhos, quase gritava com o Dao.
— Mas o que é que está a acontecer?! — perguntou o Dao — e o seu olhar foi atraído por um som de motor que conhecia bem. — O Fon? Porque é que ele está na pista? Quem é que o deixou entrar sem equipamento? — o Dao olhou, espantado, para a mota que passou a voar por eles.
— A culpa é minha… — culpava-se o Fai, agarrado ao braço do Hima.


Enquanto os três estavam ali, ralados com o jovem na Kawasaki, o Fon voava pela pista, esquecido de tudo. Naquele momento, à frente dele havia só a estrada; não pensava em mais nada. Nem no primeiro encontro com o Dao nas bancadas, nem nos acontecimentos no carro, nem na noite deles, nem na foto por causa da qual tinha ido parar agora à pista.


O Fon entrou na última volta, e os três rapazes deslocaram-se para a meta. O Fai estava pronto para dar um açoite ao Fon, pelo pavio curto, e a si próprio, pela sua estupidez. O Husky venceu a corrida com um avanço enorme. Parou na meta, desligou o motor e tirou o capacete devagar. O Fai, o Hima e o Dao foram ter com ele. O pequenino, como de costume, passou a perna por cima do assento, e o Dao sorriu. Ele adorava a maneira como o Fon fazia aquilo. O Husky tirou as chaves da ignição e encaminhou-se para o Dao.


— Eu não preciso disto — disse o Fon com desprendimento e, pousando as chaves na mão de um Dao apanhado de surpresa, seguiu para a saída da pista. O Fai correu atrás dele.


O Fai apanhou-o já depois da vedação da pista e agarrou-lhe a mão. O Fon estremeceu: pensou que fosse o Dao, e ficou desiludido quando viu o Fai. Ali não estava mais ninguém além dos dois; estavam todos ocupados na pista.


— Tu fazes ideia de como eu estava preocupado contigo, idiota?! — ralhava o Fai com o amigo, e o Fon calado.


O cachorrinho puxou-o para um abraço, e o Fon deixou-se estar, sem se mexer.


De repente!


Diante dos rapazes parou uma carrinha preta sem matrículas, da qual saltaram quatro homens com lenços na cara. Dois agarraram o Fon e o Fai, e os outros dois apertaram-lhes contra a cara um pano com clorofórmio. Quando os corpos dos dois rapazes deixaram de resistir, meteram-nos na carrinha, que desapareceu tão depressa como tinha aparecido.


🍃 🍃 🍃


O Dao, depois de o Fon sair


Quando o Husky pousou as chaves da Kawasaki na mão do Dao e se afastou à pressa, o Fai correu atrás dele. O Dao quis ir no encalço, mas o Hima travou-o.


— Não te precipites; deixa primeiro o Fai falar com ele. Sabes porque é que ele entrou na pista? — o Hima agarrou-lhe o braço e fez a pergunta. O Dao abanou a cabeça.
— O Fai mandou-lhe isto — o Hima estendeu-lhe o telemóvel do Fai, que tinha tirado da mão dele enquanto o seu cachorrinho, na meta, esperava pelo Fon, cheio de nervos.


O Dao pegou no telemóvel do Fai e viu a foto, com a mão do piloto pousada no seu joelho. Percorreu um bocadinho a conversa dos dois e percebeu que, naqueles dias todos, o Fon se tinha sentido pessimamente. Apesar de ele mandar o Non ficar de olho no Fon, o Non dizia sempre que o Husky estava bem. O Dao esfregou o cabelo com a mão, devolveu o telemóvel ao Hima e foi atrás do Fon e do Fai.


— Quê? Onde é que eles estão? — espantou-se o Dao, a olhar em volta: tinha ido atrás deles quase de imediato, mas não via ninguém.


O Dao voltou para junto do Hima com um ar desnorteado. O Hima ficou tenso.


— Passa-se alguma coisa? Ele mandou-te dar uma volta? — perguntou o Hima, mas o Dao abanou a cabeça.


O Dao tirou o telemóvel e marcou o número do Fon: os toques de chamada seguiam-se, mas ninguém atendia. O Dao arrancou o telemóvel do Fai das mãos do Hima e ligou a partir dele; também não houve resposta. O Dao começou a ficar nervoso.


— Dá-me o teu telemóvel — o Dao estendeu a mão, e o Hima tirou o telemóvel do bolso e passou-o ao irmão. O Dao marcou o número do Fon — e ninguém atendeu. Uma sensação estranha de angústia rasgava-lhe o coração.
— O que é que se passa?! — perguntou o Hima, sério, quando o Dao lhe devolveu o telemóvel.
— As câmaras! Pois claro! Ali há câmaras! — gritou o Dao, e correu para o gabinete, para verificar.


Entrou quase a voar, abriu o portátil e pôs-se a procurar, à pressa, as gravações daquela saída.


Crás!


Contra a parede, ao lado da porta, voou a garrafa de uísque caro que estava na mesa, ao lado do portátil. Nesse momento, o Hima entrou pela porta.


— Vais desfazer o gabinete só porque o teu pequenino não quer falar contigo?! — perguntou o Hima com severidade, virando a cabeça da parede por onde o uísque escorria para o irmão, em cujos olhos viu medo, pela segunda vez na vida.
— Foram raptados… — disse o Dao baixinho, e aquelas palavras trespassaram o coração do Hima como uma faca afiada.

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