top of page

18 – Duas palavras (parte 1 de 2)

— Nada mau? Eu fui… nada mau? — o Fon estava parado no meio da sala, em choque, a repetir as palavras do Dao.


Quando ouviu aquelas palavras, o Husky sentiu o coração encolher-se e nem soube o que responder.


— Eu?! Eu, «nada mau»?! Como é que tu te atreves?! — quando a ficha caiu, o Husky desatou aos gritos.
— Oh… espero bem nunca mais te ver, Pi'Dao! — disse o Fon com maldade, de olhos semicerrados, e foi pôr a casa em ordem depois daquela noite.


O Fon esfregava com uma fúria especial todos os vestígios do que se tinha passado, e as palavras do Dao,  «nada mau» — não paravam de soar na cabeça do Husky. Depois de gastar umas três horas nas limpezas, deixou-se cair na cama, irritado, de braços abertos. O Fon nem sequer tinha comido nada. Já lhe tinham dito coisas do género, mas nessas alturas ele sabia que as palavras eram ditas por despeito, porque ele é que lhes pedia que não lhe arranjassem problemas. E, normalmente, esses homens acabavam sempre por voltar, a pedir mais. Agora era tudo diferente. Aquilo não tinha sido a resposta a uma recusa dele de continuar a relação, nem a recusa ao pedido de um homem por mais uma noite.


Nada mau? Tipo, podia ter sido melhor? Ou «nada de especial»? Se isto é «nada mau», então o que é que é magnífico? Que se lixe o magnífico, ao menos «bom»? — os pensamentos não largavam aquela cabecinha, que só pensava naquelas palavras.


O Fon esticou-se para a mesa de cabeceira, pegou no telemóvel e ligou ao amigo.


📞— [Estou… Fon… estás aí?] — o Fai atendeu a chamada, mas o Fon estava calado. — [Fon! Fon! Aconteceu alguma coisa?] — continuava o Fai a perguntar.
📞— “Fai… Podes vir ao meu apartamento?” — pediu o Fon em voz baixa.
📞— [Sim, claro. Estou aí num instante. Comeste?] — o Fai preocupou-se, porque nunca tinha ouvido o amigo falar com aquela voz.
📞— “Eu não… não me lembro.” — o Fon falava baixinho; tão baixinho que o Fai ficou ainda mais aflito.
📞— [Não saias daí, ouviste?]— o Fai já estava a calçar-se enquanto o dizia.
📞— “Hum-hum” — resmungou o Fon, e desligou.


O Fai chegou quarenta minutos depois; a muito custo convenceu o Mix a não subir com ele e a esperar no carro. O Fai subiu ao andar certo e bateu à porta. O Fon não abriu logo. O Fai entrou e sentiu um cheiro intenso a produtos de limpeza.


— O que é que aconteceu, Fon? O Pi'Dao fez-te mal? — o Fai olhava para o amigo e viu as marcas vermelhas no pescoço dele. — Desde quando é que tu deixas alguém deixar-te marcas no corpo? — perguntava o Fai, espantado, mas o Fon continuava calado. — FON! Diz alguma coisa, ao menos! — o Fai estava já quase a gritar, de pura impotência.


O Fon olhou para o amigo, e as lágrimas rolaram-lhe pelas bochechas. Nem ele próprio sabia porque estava a chorar, mas agora já não era capaz de parar.


Se calhar era do «nada mau» do Dao; ou de ter deixado aquele homem deixar-lhe marcas no corpo; ou de ele ter sido o primeiro a quem tratou pelo nome durante o sexo. Doía-lhe tanto, com todas aquelas emoções que não entendia, que não conseguia segurar-se.


— Fon… desculpa, não grito mais — disse o Fai baixinho, e abraçou depressa o amigo, que desatou a chorar ainda com mais força.


Sempre abraçado a ele, o Fai levou o Fon devagarinho até ao sofá e sentou-o. O Fon continuava agarrado ao peito dele, a chorar. O Fai não perguntou nada; só lhe fazia festas na cabeça, a embalá-lo de leve. 

Quando os soluços começaram a espaçar, o Fai olhou para o amigo: o Fon tinha adormecido. O cachorrinho deitou o Husky devagar no sofá e foi ao quarto buscar um cobertor.


Depois de tapar o amigo com o cobertor, o Fai foi à cozinha preparar qualquer coisa para comer. Abriu o frigorífico e ficou especado: lá dentro havia só quatro ovos e uma tigela pequena de arroz. O Fai lembrou-se de que, naquele dia, tinha feito o pequeno-almoço da mãe com os mesmos ingredientes. Marcou o número do Mix e pediu-lhe que comprasse na mercearia mais próxima os ingredientes para poder cozinhar a comida preferida do Fon; Khao Tom Khai*; e que comprasse também a sobremesa preferida dele, a que lhe levantava sempre o humor: as «Nuvens de Morango».


(N. da A. : Khao Tom Khai — sopa de arroz com almôndegas de frango.)


O Mix trouxe tudo em quinze minutos e subiu. O Fai proibiu-o de bater à porta e disse-lhe para ligar para o telemóvel. O Fai sentiu a vibração no bolso e foi abrir a porta. O Mix estendeu-lhe o saco, e o Fai mandou-o para casa, dizendo que hoje ia dormir ali. Depois foi para a casa de banho, para ligar ao Hima.


📞— [Aconteceu alguma coisa?] — o Hima ficou alarmado com a chamada repentina do seu cachorrinho, que nunca antes lhe tinha ligado.
📞— “Hoje durmo em casa do Fon. Não sei o que é que o teu irmão foi fazer, mas eu conheço o Fon desde pequeno, e ele nunca se portou assim. Mandei o Mix para casa; que alguém me traga os manuais e os cadernos para as aulas de amanhã.” — disse o Fai num tom ligeiramente irritado, mas sem levantar muito a voz, para não acordar o amigo.
📞— [Está bem. O Fon está bem? Quando o Dao voltar, falo com ele.] — o Hima acolheu com compreensão a preocupação do Fai com o amigo.
📞— “Amanhã temos o horário igual. Vamos juntos para a universidade. Não é preciso mandares ninguém, está bem?”— pediu o Fai, porque pensou que o Fon podia voltar a ficar em baixo.
📞— [Está bem — mas o Mix vai buscar-te depois das aulas. E isso não se discute.] — o Hima fez a sua parte do compromisso.
📞— “Pronto. Vou fazer-lhe qualquer coisa para comer. Acho que ele hoje não comeu nada” — concordou o cachorrinho, e desligou.


O Fai foi para a cozinha e meteu mãos à obra. Passado um tempo, acabou e sentou-se no sofá ao lado do amigo. O Fon ainda dormia. O Fai tirou o telemóvel e decidiu adiantar o projeto. Lá fora já começava a escurecer quando o Fon começou a remexer-se, a acordar.


— Fon… dói-te alguma coisa? — perguntou o Fai baixinho, ainda antes de o Fon abrir os olhos.
— Não. Tenho é fome — confessou o Husky com franqueza, e abriu devagar os olhinhos, ligeiramente inchados e vermelhos.


O Fai levantou-se e trouxe da cozinha o Khao Tom, pousando-o na mesa diante do Fon.


— Foste tu que fizeste, papá? — perguntou o Fon, ao esticar-se para o prato.
— Estás a ver aqui mais alguém que te possa dar de comer? — o Fai olhou para o amigo, que olhou para o prato, hesitante, mas lhe pegou. — Não querias comer? Eu esforcei-me, cozinhei. Parece que ficou nada mau — disse o Fai a sorrir, e o Fon deixou cair o prato das mãos, para o chão. — Fon! Estás bem? — o Fai atirou-se para o amigo, porque a sopa ainda estava bem quente, e o conteúdo do prato tinha-se despejado nas pernas do Fon.


O Fai correu à casa de banho buscar uma toalha húmida e fresca, para pôr nas pernas do amigo. O Fon nem se tinha mexido, nem com o prato caído, nem com a toalha molhada.


— Mas o que é que tu tens? Se eu não te conhecesse, dizia que te partiram o coração — brincou o Fai, mas o Fon não reagiu.


O Fai encostou-lhe a toalha molhada às pernas e foi à casa de banho buscar uma bacia com água fresca, para ir molhando a toalha.


— Fon… queres contar-me o que aconteceu? — perguntou o cachorrinho, a mergulhar outra vez a toalha na água e a torcê-la ao de leve. O Husky continuava calado.


O Fai não estava habituado a vê-lo assim. Normalmente, era precisamente o Fon quem, em qualquer situação, o consolava e lhe dava ânimo. Neste momento, o Fai estava furioso com o Dao, porque nem sequer conseguia arrancar ao amigo o que é que aquele patife tinha feito.


O Fai acomodou o amigo meio sentado no sofá, com as pernas enroladas na toalha húmida. O cachorrinho limpou num instante a sopa e o prato do chão, mas estava decidido a alimentar o amigo. Por isso, foi à cozinha, pegou num prato lavado e voltou a servir a sopa. Foi ele mesmo a dar de comer ao Fon, sem lhe pôr nas mãos nada que ele pudesse deixar cair.


— Não quero mais — resmungou o Fon, e o Fai olhou para o prato.
— Mas tu nem metade comeste. Não está bom? — perguntou o Fai, e olhou para o amigo, que abanava a cabeça.
— Só não quero.


O Fai levantou-se e levou o prato para a cozinha. Abriu o frigorífico, tirou de lá a arma mágica, pô-la num prato e voltou para junto do amigo.


— E sobremesa, queres? — o Fai tentava despertar o interesse do Fon.
— Quero — mas aquilo saiu sem sombra de entusiasmo.
— Lindo menino — elogiou o Fai o amigo, e estendeu-lhe o prato com o suflé.


Os olhos do Fon voltaram a marejar quando ouviu «lindo menino», e ele fez tudo o que podia para segurar as lágrimas.


— Ei… Fon… Desculpa, eu disse alguma coisa que não devia? — o Fai viu as pestanas do amigo a tremer e pousou o prato na mesa.


O Fon pegou no suflé e começou a comer. Mas não lhe soube nem de longe tão bem como antes e, logo ao primeiro bocado, voltou a desfazer-se em lágrimas.


— Ei… chiu… Não chores. Eu estou aqui. Queres ir a algum lado? A um clube? A um pub? Eu vou contigo para onde quiseres — o Fai não sabia o que fazer. O Fon abanou a cabeça.


🚪 Dlim-dlão.


Tocaram à campainha, e o Fai levantou-se para abrir a porta. No corredor estava o Hima, com a mochila do Fai.


— Pediste que te trouxessem os cadernos e os manuais. Trouxe-os eu. Posso entrar? — perguntou o Hima, ao ouvir os soluços, e o Fai recuou, deixando-o entrar.
— Porque é que vieste tu mesmo? — quis saber o Fai, e tirou-lhe a mochila das mãos.
— Fon? Ele fez-te mal? Diz-me o que é que aquele idiota fez, e eu trato do assunto — disse o Hima em tom sério, ao ver o estado do Fon.
— Não precisam de se preocupar comigo. Podem ir os dois para casa — disse o Fon com a voz a tremer, a enfiar na boca mais um bocado de suflé sem sabor nenhum.


O Hima e o Fai entreolharam-se, a perceber que o Fon não estava mesmo nada bem. O Hima tirou o telemóvel e marcou um número.


📞— “Estou… Que o Mix te leve à morada onde deixou o Fai. É urgente… Sim… Agora” — o Hima conduziu o diálogo num tom calmo e, depois, desligou.
— A quem é que ligaste? — perguntou o cachorrinho num sussurro, para o Fon não ouvir.
— A quem pode ajudar — respondeu o Hima no mesmo sussurro.


O Hima instalou-se no cadeirão da sala; o Fai sentou-se ao lado do Fon, que ia engolindo, de vez em quando, bocadinhos de suflé.


🚪 Dlim-dlão.


Tocaram à campainha cerca de meia hora depois do telefonema, e o Fai foi abrir a porta. Estava à espera de ver qualquer pessoa, menos…


— Mãe? — espantou-se o Fai, ao ver à porta do apartamento do Fon a mãe do Hima.


O Fai recuou, e a mulher entrou; ao ver o Fon, sentou-se logo ao lado dele. O Fon voltou a levantar a mão com o suflé espetado no garfo, para comer, mas ela deteve-lhe a mão. O Husky ergueu os olhos para a pessoa que lhe segurava a mão.


A Kira, com a outra mão, tirou-lhe o garfo dos dedos e puxou a criança para os seus braços. O Fon desatou a chorar. A mulher abraçou-o ainda com mais força, e as mãozinhas do Fon enroscaram-se na cintura dela.


— Está tudo bem, meu menino. Conta à mãe: quem é que te fez mal? — ela fazia-lhe festas no cabelo e apertava-o contra o seu ombro.


A Kira não queria saber para nada de que a sua blusa nova ia ficar toda coberta de lágrimas e de ranho. 

Naquele momento, só queria consolar aquele rapazinho, que parecia completamente destroçado.


— Filho, a mãe está aqui. Ninguém se atreve a fazer-te mal outra vez. Chiu… diz-me quem é o infame, que eu própria trato dele — continuava a mulher a falar com o Fon com todo o carinho, a abraçá-lo.
— Snif… ele… ele é tão mentiroso… snif… primeiro pediu para estar com ele… E depois… ha-a-a-a… — o Fon tentou explicar, mas desatou outra vez a chorar.
— Chiu… Não chores. Meu pequenito. Diz lá quem é que se atreveu a magoar um menino tão amoroso, hm? — continuava ela a perguntar, a fazer-lhe festas nas costas.


O Hima e o Fai entreolharam-se.


— Mãe… Este é o amigo de quem eu te falei ontem… — disse o Fai baixinho, e a mulher olhou para o Hima com um olhar severo; o Hima baixou a cabeça.


A Kira desceu o olhar e viu, a espreitar por baixo da t-shirt do Fon, uma marca vermelha. Afastou um bocadinho de si aquele corpinho, e, no pescoço, viam-se ainda marcas de dentadas.


— Meu menino… Ele forçou-te? — perguntou ela, erguendo-lhe a carinha lavada em lágrimas. O Fon abanou a cabeça. — Ele fez-te mal? Podes dizer-me a verdade, filho — a Kira voltou a apertá-lo contra si, enquanto ele soluçava.
— Ele… snif… Ele disse… que aquilo foi… nada mau… snif… — o Fon disse-o, e desatou outra vez a chorar por tudo e por nada.


A mulher soltou um suspiro de alívio, quando percebeu qual era o problema. O Hima e o Fai olharam para a mãe, que sorriu ao de leve.


— Meu menino, meu menino querido. Não chores. Chiu… eu castigo aquele malandreco. Vá… meu pequenito. Olha só para ti: ele é cego, se acha que tu és só «nada mau». Tu és maravilhoso. Anda… vamos mostrar àquele idiota que ele está enganado, está bem? — a Kira fez festas na cabeça e nas costas do menino, até os soluços dele se calarem e ele voltar a adormecer.


O Hima levou-o em braços para a cama. Os três sentaram-se na sala.


— Obrigado, mãe. Passei horas a tentar saber o que se passou. Mas não lhe consegui arrancar uma palavra — agradeceu o Fai em voz baixa.
— E agora, alguém me pode explicar o que é que se está aqui a passar? — perguntou a mãe, e olhou para o filho.
— Mãe, não olhes assim para mim. Eu sei tanto como o Fai — o Hima não lhe foi contar que o Dao gostava daquele miúdo.
— Ah, espera. Lá em baixo, no estacionamento, vi a mota que o Dao comprou há uns quatro dias. Antes, estava no salão de exposição pessoal dele, na pista — lembrou-se o Hima, porque aquele modelo era difícil de arranjar.
— Quando eu cheguei, estava um fato de corrida na casa de banho… — o Fai tirou o telemóvel do bolso, marcou um número e pôs em alta-voz.


📞— [Olá, Nong. Como vai isso?] — respondeu uma voz.
📞— “Pi'Prem, o Fon ontem correu?” — perguntou o Fai logo de caras, porque aquela era a única hipótese que explicava tudo.
📞— [O-o-oh. Ontem foi a corrida mais épica de sempre. O Dream desafiou o Cerejinha e, pelas condições dele, o miúdo tinha de correr numa mota própria. Se não fosse aquele bonitão, o Fon tinha ido parar à escravatura do Dream. Aquele cabrão, se ganhasse, exigia uma relação com o Cerejinha até ele, Dream, decidir acabá-la…] — o Prem contou tudo ao pormenor, até ao momento em que o Fon partiu com o Dao na mota. — [O Fon nunca mais me ligou. E eu não sei o que hei de fazer à mota do Dream…] — o Prem começou a afligir-se, porque tinha deixado várias mensagens ao miúdo, mas o Fon não as lera.
📞— “Ele está bem. Está a dormir. A mota, por agora, fica contigo. Amanhã o Fon diz-te o que fazer com ela. Obrigado, Pi” — agradeceu o Fai, e desligou.
— Agora é que eu não percebo mesmo nada… — disse a mãe, e recostou-se no encosto do sofá.
— Fai, filho, acho melhor ficares com ele. Chorou tanto, que tenho medo de que lhe suba a febre — preocupava-se a Kira, e o Fai acenou. — Ah, tenho uma prenda para ti. Quero que a uses sempre. Gostas? — a mulher estendeu-lhe um pendente em forma de chama. O Fai acenou, e ela pendurou o colar ao pescoço do cachorrinho.
— Filho, vamos para casa. Quero ter uma conversa com o Dao… — ela pôs a ênfase toda na palavra «conversa», e o Hima percebeu que, naquela noite, o melhor era o Dao não aparecer em casa.


O Fai foi levar a mãe e o Hima à porta e foi jantar à cozinha. Lavou a loiça e arrumou a sala. O cachorrinho tocou na testa do amigo e suspirou de alívio: a temperatura estava normal. Deitou-se ao lado do Fon, eles dormiam juntos muitas vezes. Com as aflições por causa do amigo, estava moralmente de rastos, por isso adormeceu num instante.

bottom of page