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14 🔞 – Labrador e Husky (parte 1 de 2)

O Kat acenou e foi para o vestiário, a ligar pelo caminho ao gerente, que já estava em casa, para lhe transmitir a ordem do chefe.


Tirou as coisas do cacifo do Fai e levou-as para a sala cinco. Tal como o Hima ordenara, ia deixá-las no sofá, mas parou quando viu nele umas manchas brancas. Correu a sala com os olhos e corou, quando lhe caiu a ficha do que ali se tinha passado.


As manchas esbranquiçadas estavam no assento do sofá, no encosto, na cómoda, no vidro da janela grande, no cadeirão, no tapete. A porta da casa de banho estava escancarada e, no chão da casa de banho, jazia a farda do Fai. A divisãozinha onde ficava a cama estava fechada.


O Kat pousou as coisas, com cuidado, numa zona limpa do encosto do sofá e saiu em silêncio. Um instante depois voltou, ao lembrar-se de que o Hima lhe mandara levar o telemóvel do Fai, e o smartphone estava na mala dele, que o Kat já tinha deixado na sala. O Kat tirou-o de lá e dirigiu-se ao gabinete do chefe.


🍃 🍃 🍃


Entretanto, o Hima


O Hima bem gostaria de estar agora na cama com o seu cachorrinho mas, por causa da véspera, tinha um problema em mãos: além de o Gas estar na cave, agora ainda era preciso procurar com urgência um novo local para o casino de Pattaya, por isso encarregou o Kat de levar o Fai a casa.


O Hima entrou no gabinete, e o Dao entrou atrás dele.


— Ei! Não me queres contar o que aconteceu depois de teres entrado na sala cinco? Ou vou eu ver com os meus próprios olhos? — provocava-o o Dao, porque agora, à luz do sol que caía pela cortina aberta, via no pescoço do Hima mais umas quantas marcas daquele mesmo «está bem».
— De onde vem tanta curiosidade, Dao? — indignava-se o Hima, a tentar fugir à pergunta.


Truz-truz.


Bateram à porta, e o Hima autorizou a entrada. O Kat estendeu ao Hima o telemóvel do Fai, que estava a vibrar. O Dao apanhou-o primeiro e atendeu a chamada.


📞— “Olá, pequenino” — respondeu o Dao com malícia, e o Hima ficou imóvel, de mão estendida para ele.
📞— [Quem fala? Onde está o Fai?] — perguntou o Fon com rispidez, porque aquela não era, de certeza, a voz do Fai.
📞— “Ohhó, e esta criança não foi ensinada a cumprimentar primeiro?” — o Dao pôs a ênfase toda na palavra «criança».
📞— [Ã-ã-ã… Pi'Dao? Porque é que tens o telemóvel do Fai?] — o Fon não percebia o que se estava a passar.
📞— “Oh, o meu irmão diz que o teu amigo está bem e que está a dormir. Mas eu não…” — o Dao tentava levar o Fon a explodir de emoções.
📞— [O teu irmão? O que é que o teu irmão tem a ver com o Fai? O que é que se passa com o meu amigo?] — o Fon sabia que o Fai se levantava sempre cedo e que nunca dormiria até perder as aulas — ainda por cima agora, que o regime dele estava muito mais brando do que nos últimos três anos.
📞— “Ontem houve… um pequeno incidente. O Fai hoje não vai às aulas. Ligo eu ao decano, ou avisas tu o professor?” — o Hima arrancou o telemóvel ao Dao, e o Fon só ouviu esta última pergunta.
📞— [Khun Hima? O irmão do Pi'Dao?] — o cérebro do Fon processava a informação devagar de mais, porque estava aflito com o amigo.
📞— “Sim. Então, avisas tu? Amanhã o Fai vai às aulas” — o Hima percebia que o Fon estava um bocado lento, por causa das palavras do Dao.


— Ah-ah, tens a certeza de que o Nong consegue sair da cama até amanhã, Hia? — disse o Dao suficientemente alto para o Fon ouvir.
— Daonya! Desculpa, Fon, o Fai liga-te quando acordar — o Hima ralhou com o irmão e, baixando o tom, encerrou a conversa com o Fon.
— Kat, dizes ao Fai que o amigo dele ligou. Esperas por ele à porta da sala, e nem te passe pela cabeça acordá-lo. E diz ao Leon que, quando acabarem de brincar com o Gas, o larguem num dos estaleiros dele — o Hima devolveu o telemóvel ao Kat e deu a ordem com severidade.


O Kat acenou e foi esperar junto à sala cinco.


— Daonya! Estás a fazer isto de propósito, não estás? É assim que queres descobrir? — o Hima estava irritado com o comportamento do Dao.
— Eu só quero saber se ontem me deixaram a arder por uma boa razão… — disse o Dao com uma pontinha de pena de si mesmo. O Hima olhou para ele com interesse.


O Hima, precisamente naquele momento, estava a rever os vídeos das câmaras da noite anterior.


De repente!


— Daonya! Desde quando é que tu te portas assim? Que raio se passa? Conheço-te há tanto tempo — onde é que foi parar o princípio do «não quero o que é dos outros»? Beijaste o namorado de outro?! — gritou o Hima, quando viu a gravação junto ao elevador; mas não conseguia distinguir a cara do rapaz, porque ele estava de costas.


O Hima passou para a câmara do segundo andar, e desatou a rir.


— A sério, Dao? O amigo do Fai? Gostas dele? — o Hima decidiu aproveitar a situação e provocar o irmão de volta.
— Sim. — Uma resposta destas, o Hima não esperava.
— Ah-ah… diz-me que estás a brincar, Dao? — o Hima riu-se, mas fez a pergunta já num tom sério. O Dao abanou a cabeça.
— Maldição… Nem sei de qual de vocês hei de ter mais pena. Dele, porque aquele miúdo se tornou o teu alvo — ou de ti, sabendo eu o que vale aquele pequeno rinoceronte — o Hima selecionou as gravações que lhe interessavam, sobretudo as da sala número cinco, e carregou em «apagar».


🍃 🍃 🍃


A sala número cinco


O Fai tentou abrir os olhos, mas, ao virar a cabeça, sentiu uma pequena enxaqueca. A mão pousou-lhe na testa; estava ligeiramente fresca, e isso ajudava um bocadinho. Abriu os olhos devagar e viu um teto desconhecido. Os acontecimentos da noite anterior começaram a vir-lhe à cabeça, aos fragmentos, e o Fai, ao que parece, corou até às orelhas.


Será que sonhei? — pensou o Fai, e sentou-se. O relógio marcava 13h35.


Sentiu no corpo o fresco do ar condicionado, levantou o cobertor — e praguejou. Estava nu.


Merda… Quer dizer que não foi um sonho… — o Fai correu a sala com o olhar e, para onde quer que olhasse, vinham-lhe imagens dele e do Hima a fazerem sexo…


O coração do Fai bateu mais depressa quando, na sua cabeça, ecoaram os gemidos do Hima: «meu menino».


Levantou-se e foi à casa de banho. Ao atravessar a sala, o Fai reparou nas suas coisas, no encosto do sofá. 

Pegou nelas, tomou um duche e vestiu-se.


O Fai abriu a porta e viu o Kat no corredor.


— Fai, o chefe pediu para te dizer que o teu amigo ligou. Anda, levo-te a casa — o Kat estendeu o telemóvel ao jovem e mediu-o com um olhar avaliador.


O Kat já tinha visto, mais de uma vez, o estado em que os parceiros do chefe costumavam ficar na manhã seguinte, mas o Fai estava perfeitamente bem. Na cabeça dele, os factos não batiam certo: a sala inteira estava salpicada dos vestígios de uma noite escaldante, mas o Fai estava de pé e andava como se nada fosse.


— Onde está o teu chefe? — o Fai evitava pronunciar o nome do Hima, porque sentia que ia corar logo só de o mencionar.
— Por causa do… acontecimento de ontem, ele e o Khun Dao andam à procura de um sítio novo para o casino — respondeu o Kat, e o Fai sentiu-se culpado.
— Vamos, Pi. Tenho fome — respondeu o Fai, e marchou animado para o elevador. O Kat ficou a observar-lhe o andar: era exatamente o mesmo de sempre.


Entraram no carro, e o Kat levou-o em direção a casa. Pelo caminho, o Fai pensava no que tinha acontecido. Sim, ele não negava que o quisesse foder, mas isso era só um desejo impossível. Como é que foi acontecer que um homem como o Hima lhe permitiu fazer aquilo com ele? Se calhar, depois de o Fai ter saído, também drogaram o Hima? Agora o Hima anda a evitá-lo? Foi por isso que mandou o Kat levá-lo a casa? Como é que se olha o Hima nos olhos? E o que é que vai ser agora do trabalho? Como pagar a dívida, se o despedirem? Tantas perguntas, e nem uma resposta. O Fai percebia que tinha passado uma linha que não se devia passar. Mas o que estava feito estava feito, e já nada se podia mudar.


E agora, o que faço? Como me comporto com ele? Se calhar é melhor fingir que não aconteceu nada, para não pôr o Hima em embaraços? — os pensamentos na cabeça dele iam-se atropelando uns aos outros.


— Ohh… — o Fai soltou um suspiro bem alto, e o Kat espreitou pelo espelho retrovisor.
— O que foi, Fai? Estás enjoado? Queres que pare? — perguntou o Kat, porque sabia que, depois da droga, o Fai podia ter náuseas.
— Está tudo bem, Pi — disse o Fai com um sorriso, mas os olhos dele estavam tristes e cheios de arrependimento. Tirou o telemóvel e ligou ao amigo.

📞— “Fon…” — o Fai só teve tempo de dizer o nome do amigo, porque ele desatou logo aos gritos.
📞— [Fai, estás bem? Onde estás? O que é que aconteceu ontem, para dormires até perderes as aulas? Fai? Só não me digas que te arranjaste um marido!? Diz-me a morada, que eu vou já para aí.] — as perguntas caíam tão depressa como num concurso contrarrelógio.
📞— “Ei, ei, ei, não fales por cima de ti próprio. Ainda estás na universidade? Eu vou ter contigo. Encontramo-nos no café” — o Fai decidiu que podia pedir conselho ao amigo, que afinal já tinha tido muitos parceiros.
📞— [Sim, as aulas acabam daqui a vinte minutos. Por falar nisso, não viste a minha scooter?]— lembrou-se o Fon, porque de manhã, ao chegar à universidade, não tinha encontrado no parque o seu companheiro de aço.
— Kat, quanto tempo é até à universidade? — dirigiu-se o Fai ao motorista.
— Uns trinta minutos, mas o chefe disse para te levar a casa — respondeu o Kat, que não queria desobedecer à ordem.
📞— “Fon, espera por mim no café e pede qualquer coisa para eu comer. —— Estou a morrer de fome” — o Fai ignorou a resposta do Kat, decidido a falar com ele depois de acabar a conversa com o amigo.
📞— [Está bem, papá, despacha-te.] — disse o Fon, e o amigo desligou.
— Kat, leva-me à universidade. Dizes ao chefe que eu ameacei saltar do carro em andamento, se ele ralhar contigo. Assumo a responsabilidade toda — o Fai falava num tom suave, e o Kat, com um suspiro, aceitou.


Chegados à universidade, o Fai mandou o Kat para casa, com a promessa de que voltava de táxi. Ao Kat não lhe agradou nada o plano do jovem, mas, ao lembrar-se da sala número cinco, concordou.


O Fai entrou no café, onde o Fon já o esperava com o almoço. Mal lhe chegou o cheiro da comida, a barriga traiu-o com um ronco. Sentou-se à mesa e começou a comer em silêncio; o Fon olhava para ele e, para já, decidiu não perguntar nada, ao ver que o amigo estava mesmo esfomeado. Quando o Fai já estava quase a acabar, o Fon não se aguentou.


— Tu conheces o Pi'Dao?! — perguntou o Fon de repente, e o Fai até se engasgou com o café.
— Espera lá, de onde é que TU o conheces? — em vez de uma resposta, o Fon recebeu uma pergunta.
— Bem… responde e pronto, Fai — esquivou-se o Fon.
— Só não me digas… que lhe puseste o olho em cima, Fon?! — adivinhou o Fai, porque o Fon só se interessava por rapazes para dormir com eles. O Fon encolheu os ombros e sorriu, todo amoroso.
— Foda-se, Fon. O Pi'Dao não é pessoa com quem se brinque. Queres que depois te encontrem o corpo no golfo do Sião, idiota?! — ralhava o Fai com o amigo.
— E se, em vez disso, tu me contasses porque é que o Pi'Dao achou que tu hoje não ias conseguir sair da cama? — o Fon decidiu virar a conversa para outro lado.
— O quê? Quando é que ele disse isso? — perguntou o Fai, a tentar perceber.
— De manhã. Liguei-te, e quem atendeu o telemóvel foi o Pi; mas depois o Khun Hima tirou-lho e disse que hoje não ias às aulas — e o Fai corou, ao perceber que o Hima não tinha contado ao Dao os pormenores da noite anterior.
— Hmm… Fon… se tu dormisses com uma pessoa com quem não devias ter dormido, o que é que fazias? — o Fai fez a pergunta de caras, porque não gostava de conversas com rodeios.
— Dormiste com alguém? Quanto tempo passou desde o Nong Leo? Um ano? Quem é o desgraçado? — o Fon não sabia se havia de ficar contente pelo amigo, por finalmente lhe ter calhado sexo ao fim de tanto tempo, ou se havia de ter pena do pobre coitado que ia agora ser atirado para o ignorar.
— Quase dois anos… Fon, diz-me só o que é que eu faço — disse o Fai num tom triste.
— É rapaz, ou rapariga? — o Fon decidiu começar de longe.
— Rapaz.
— Quer dizer que gostas dele? — o Fon conhecia o amigo como ninguém.
— Sim — respondeu o Fai com franqueza, porque, só de pensar naqueles olhos azuis sem fundo, o coração começava a bater-lhe mais depressa.
— Eu não tencionava fazê-lo. Puseram-me droga na bebida — disse o Fai baixinho.
— Foi ele?
— Não, ele não. Naquele momento, eu percebia o que estava a fazer, e que aquilo estava errado. Mas não conseguia parar — disse o Fai, culpado.
— Forçaste-o? — o Fon tentava perceber o que se passava com o amigo, e porque é que ele parecia um cachorrinho que tinha feito asneira.
— Hmm… não. Foi ele que me beijou primeiro.
— Ele também estava drogado? — o Fon tentava juntar as peças todas.
— Não tenho a certeza, Fon… — o Fai não sabia mesmo.
— Tu lembras-te de tudo, certo? Mesmo que tenham tomado os dois a droga, isso quer dizer que estavam os dois conscientes e que se lembram de tudo. E se ele não tomou nada? Não pode ser que tu também lhe agrades? Quem é ele? Um guarda-costas do teu chefe? — raciocinava o Fon em voz alta.


O Fai ficou calado. Afastava de si a ideia de que pudesse agradar ao Hima. Um homem esplêndido daqueles nunca repararia num miúdo tolo como ele. E, depois de tudo, até parecia que o Hima o andava a evitar. Afinal de contas, o Fon não ajudou nada, só acrescentou perguntas novas. O Fai estava sentado no café, a tamborilar com os dedos na mesa. Não sabia o que fazer.


— Uau… Alguém domou o meu papá — o Fon decidiu brincar, mas o Fai só sorriu por um instante; depois, a cara dele voltou ao mesmo ar tenso.
— Ouve. Eu não sei o que aconteceu exatamente, nem quem é essa pessoa, mas agora está tudo nas tuas mãos. Podes, claro, fingir que não te lembras de nada. Podes falar abertamente com ele. Ou podes simplesmente ignorar o rapaz. Mas pensa nisto antes de decidires: o que é que tu queres, no fim das contas? Se se tratasse de mim, eu provocava-lhe ciúmes, para lhe ver a atitude. Mas não estamos a falar de mim — quando era preciso, o Fon deixava-se de palhaçadas e começava a pensar como um adulto.


📲 Trum… trum… trum…


De repente, tocou o telemóvel do Fon. Era um número desconhecido, que já lhe tinha ligado umas duas semanas antes. Mas o Fon não devolvia chamadas de números que não estivessem nos contactos. Ignorou a chamada, mas do outro lado estavam claramente decididos a obter resposta.


📞— “Fala” — o Fon estava irritado por o terem interrompido numa conversa importante: agora tinha perdido a ideia que ainda não conseguira dizer ao amigo.
📞— [Tu ao menos sabes falar como deve ser?] — perguntou o interlocutor, como que a rir-se da irritação do Fon.
📞— “Estou numa conversa importante. Quem és e o que é que queres?” — o Fon esforçava-se por não ser mal-educado, mas amável é que não tencionava ser.
📞— [Pequenino, não perdeste nada?] — com esta pergunta, o Fon ficou ligeiramente desarmado; a voz pareceu-lhe conhecida.
📞— “O que é que tu queres?” — o Fon queria acabar a conversa o mais depressa possível.
— Quem é? — perguntou o Fai, e quem ligava ouviu-o.
📞— [O Fai não devia estar em casa?! Onde é que vocês estão?] — perguntou o homem ao telefone, e o Fon sorriu, ao perceber quem era.
📞— “Eu e o Fai estamos num encontro duplo às cegas. Porquê?” — mentiu o Fon, para picar o interlocutor.
📞— [Diz-me onde estão, e eu fico um bocadinho mais bonzinho contigo — o suficiente para te propor ganhares de volta a tua scooter.] — o Dao não percebia se o Fon estava a falar a sério ou só a gozar com ele.
📞— “Encontra-me, se conseguires. Cof-cof” — o Fon soltou uma risadinha e, cortando a conversa, desligou o telemóvel.


O Fon pediu um bubble tea e, enquanto o Fai bebia um frappuccino, o Fon contou-lhe onde tinha passado as duas semanas.


Vinte minutos depois, ouviu-se à porta do café o tilintar do carrilhão de vento, e entraram dois homens altos, de fatos caros e caras fechadas, acompanhados de quatro guarda-costas. O Fon estava sentado de frente para a entrada e, ao ver quem entrava, sorriu e debruçou-se para o amigo.


— Só não me digas que gostas do teu chefe e que dormiste com ele? — o Fon perguntou-o a brincar, mas a cara do Fai corou logo. — A sério, Fai?! — o Fon ficou passado, quando viu a cara envergonhada do amigo.
— Eu disse-te para ires para casa. Então porque é que estás aqui?! — soou uma voz severa, e muitos dos clientes se viraram para o dono dela.


O Fai estremeceu ao ouvir a voz do Hima, que estava claramente descontente por o seu cachorrinho não ter ido para casa.


— O Kat não lhe disse, Khun, que fui eu que lhe pedi que me trouxesse à universidade? — meio virado para os recém-chegados, o Fai sorriu com doçura, embora tivesse corado um bocadinho ao ver, no pescoço do Hima, a marca dos seus próprios dentes.


O Hima estava atrás do Fai, a um metro da mesa deles. Tinha a cara mais negra do que uma nuvem de trovoada e, dos olhos, saltavam-lhe literalmente relâmpagos. O Dao não estava muito diferente do irmão, a passar o café em revista com um olhar desconfiado.


— Tens a certeza de que lhe “pediste”, e não que o chantageaste? Não gosto de repetir-me. Porque é que estás aqui? — o Hima já tinha percebido que o Fon estivera a gozar com o Dao ao telefone e que, por obra do acaso, com aquele pequeno rinoceronte estava o seu cachorrinho.
— Bem, pelo contrato, eu não posso convidar o Fon lá para casa. Por isso pedi ao Kat que me trouxesse aqui — o Fai decidiu lembrar-se a si próprio de que não passava de um brinquedo que o Hima tinha comprado.
— Nong, eu posso ajudar com isso — o Dao olhava para o Fon, que continuava sentado, a sorrir e a beber o chá.


O Fai e o Hima olharam para o Dao. E só o Fon continuou sentado, a chuchar no chá, a passar devagarinho dois dedinhos pela palhinha grossa do copo, para cima e para baixo, sem prestar atenção nenhuma ao Dao.


— Nanico, ainda precisas da tua scooter? — perguntou o Dao à queima-roupa; o Fon nem se mexeu.
— Com os cem mil que tu me deste, posso comprar uma nova — o Fon despegou os lábios da palhinha e respondeu com desprendimento; e, embora pudesse de facto comprar a mota que quisesse, a scooter tinha sido a primeira coisa que comprara com o prémio da sua primeira corrida.
— Ah, quer dizer que posso desmontá-la para peças? — o Dao provocou-o e, ao que parece, resultou.

O Fon deu um salto, saiu de trás da mesa e aproximou-se do Dao, que sorria.


Zás!


Mal aquele miúdo teimoso ficou à distância de um braço esticado, o Dao agarrou-o pela mão e, atirando aquele corpinho por cima do ombro, encaminhou-se para a saída.


— Ei, larga-me! — gritava o Fon para o café inteiro, a espernear e a dar-lhe socos nas costas com os punhos pequeninos; mas o Dao não lhe ligava nenhuma. — Eu mordo-te, se não me largares! — ameaçava o Fon, só conseguindo arrancar gargalhadas ao Dao.
— Morde-me, e eu fodo-te dentro do carro, em andamento! — disse o Dao num tom sério e grave; o Fon calou-se, e os clientes do café observavam a cena, cheios de curiosidade.


Nhac!


— Achas que estou a brincar, tampinha?! Criança malcriada! — o Dao deu-lhe uma palmada no rabo redondo por ele o ter mordido mesmo — e saiu do café.


O Fai e o Hima entreolharam-se. O Hima aproximou-se da mesa e sentou-se no lugar do Fon.


— Neste momento não tenho a certeza, mas parece-me que o teu amigo não percebeu que o Dao não estava a brincar — disse o Hima em voz baixa, porque não queria atrair ainda mais atenções.
— Espero que o Pi saiba com quem se está a meter… — murmurou o Fai, mas o Hima ouviu-o.
— Então… vens para casa comigo pelo teu pé, ou como o teu amigo? — provocava-o o Hima, com uma voz carinhosa.


As bochechas do Fai ficaram rosadas. Não por ter vergonha de ser levado ao ombro — mas porque o tom de voz do Hima era amoroso de mais.


— Eu vou — sorriu o Fai; levantou-se da mesa e encaminhou-se para a saída.


O Hima pousou mil baht na mesa e foi atrás dele, a contemplar as belas nádegas do Fai a bailarem à sua frente, dentro das calças justas que ele próprio lhe tinha comprado.


Porque é que este nozinho é assim tão apetitoso? — o Hima queria agarrar aquele cachorrinho ali mesmo e obrigá-lo a gemer o seu nome, como na noite anterior.


— Khun? O senhor está bem? — o Fai viu o Hima abrandar o passo, e por isso perguntou.
— Sim; entra no carro — o Hima estugou o passo.


O Fai abriu a porta e esperou que o Hima se sentasse primeiro. Só depois se sentou ao lado dele.


Mal a porta do carro se fechou, o Hima agarrou o Fai pela mão e puxou-o para si.


— Atreves-te a não cumprir as minhas ordens, menino mau? — o tom da voz dele era duro e, ao mesmo tempo, tremendamente sensual.


O Fai engoliu em seco. Aquele timbre aveludado, o olhar penetrante dos olhos azuis, a mão quente no seu pulso e as palavras «menino mau» excitavam o Fai, a fazerem-lhe o coração bater mais depressa.


— Khun… — tentou o Fai justificar-se.
— Eu ontem disse-te para me chamares Hia — o Hima debruçou-se para o ouvido dele e sussurrou-lho; o corpo inteiro do Fai cobriu-se de arrepios, a respiração acelerou-lhe, e ele fechou os olhos, a render-se à pessoa ao seu lado.


Tudo aquilo de que o cachorrinho queria falar com ele um instante antes voou-lhe da cabecinha, e ele só conseguiu dizer baixinho: 

— Sim, Hia.


O Hima largou-lhe a mão, mas o cachorrinho deixou-se ficar deitado no peito dele, como que enfeitiçado. O Fai ergueu a cabeça e olhou, com aqueles seus olhos grandes, para a cara da pessoa que lhe provocava uma tempestade de emoções. Os olhares encontraram-se, e o Hima já não conseguiu segurar-se. Aqueles olhos negros sem fundo engoliam-lhe a razão como um buraco negro. Com a mão, ergueu o queixinho do seu cachorrinho e beijou-o com sofreguidão. O Fai respondeu ao beijo com um gemido. O Hima queria beijar aqueles lábios doces desde a manhã.


Passou a outra mão para as costas do Fai, a descê-la até ao rabinho tentador. Os dois estavam tão embrenhados um no outro que se esqueceram do motorista.


O Fai gemeu ainda mais alto quando o Hima lhe apertou com força o rabinho firme. O beijo era tão sôfrego que se ouviam sons indecorosos, que excitavam os dois ainda mais — e o pobre motorista subiu o vidro divisório entre os bancos e esforçava-se por chegar a casa o mais depressa possível.


As mãos do Hima levantaram-lhe a fralda da camisa por trás, passando a mão quente pelas costas do Fai. Com aquele toque, o cachorrinho arqueou-se com um gemido ao encontro do homem em cujos braços estava, intensificando o beijo.


— Fai… — gemeu o Hima baixinho, e afastou-se dos lábios do jovem.


O seu cachorrinho estava tão sensual naquele momento: os olhos a brilharem de desejo, os lábios vermelhos e inchados do beijo, as bochechas rosadas, a respiração desencontrada, o calor do corpo branco nos seus braços. Agora percebia a vontade do Dao de fazer sexo dentro do carro. O Hima queria possuí-lo por inteiro — cada milímetro daquele corpo lindo. Se pudesse, o Hima fechava-o à chave no quarto, para o Fai só olhar para ele, só sorrir para ele, só falar com ele, e para que só ele lhe pudesse tocar.

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