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11 – «TRINITY» (parte 2 de 2)


O Fon não queria ceder assim sem mais nem menos e, mesmo a calhar, chegou-lhe uma mensagem ao telemóvel. O Fon tirou o telemóvel do bolso, abriu o Line — e sorriu.


📩 PREM ‹Já acabaste as aulas? Estou à tua espera no café atrás do campus. É urgente, miúdo.>


— Desculpa, Pi, tenho de voltar à sala. Esqueci-me do caderno com os apontamentos para amanhã — disse o Fon e, sem esperar pela resposta, foi-se embora para a entrada da universidade. Entrou no edifício e saiu pelo refeitório, porque era o caminho mais curto para o café, onde o Prem já o esperava.
— Chegaste mesmo a tempo, Pi. O que é que aconteceu? — perguntou o Fon, porque via que o Prem estava nervosíssimo.
— Consegues largar as aulas por uma ou duas semanas? Não tens exames para breve? — perguntou o Prem, a dar voltas ao telemóvel nas mãos.


O Fon nunca o tinha visto naquele estado. Era como se ele lhe estivesse a implorar ajuda.


— O que é que se passa, Pi'Prem? Exames não tenho. Diz lá, em que é que eu posso ajudar? — agora era o Fon que começava a ficar preocupado.
— O Lux… teve um acidente e partiu uma perna. Tu sabes que ele não tem ninguém além de mim. Eu sei que ele te tem na conta de irmão mais velho. Podes tomar conta dele até lhe darem alta do hospital? Por favor? Eu liguei-lhe, mas o Lux disse que, se eu largar a pista e for ter com ele, deixa de aceitar o dinheiro que eu lhe mando para os estudos. Declarou que, se alguém pode ir, só podes ser tu — explicou o Prem.


O Fon ficou a pensar. Já tinha reparado que o Lux mostrava um fraquinho por ele, mas dois passivos juntos não dão liga. E, além disso, o Lux só tinha feito dezoito anos no mês passado. O Fon tratava-o como um irmão mais novo. E, nisto, lembrou-se de que não tinha ido buscar a scooter ao estacionamento e de que, para já, planeava andar a fugir daquele bonitão, por isso, a proposta do Prem vinha mesmo a calhar. Só não lhe apetecia nada ir de autocarro até Lopburi*.


(N. da A. : Lopburi — província do centro da Tailândia, a 150 km de Banguecoque.)


— Pi, eu vou, não te preocupes. Eu tomo conta do Nong. Só que a minha scooter ficou no estacionamento, e anda por lá um ex à coca — disse o Fon; e, no fundo, não mentiu, porque o Som se tinha estacionado perto da universidade, na esperança de apanhar o Fon.
— Isso não é problema, Cerejinha. Podes levar o meu carro. E, se tens medo de que o ex fique à tua espera ao pé de casa, vamos mas é comprar-te roupa nova para as duas semanas. Eu pago tudo. Liga aos teus pais a avisá-los. E, se for preciso arranjar uma justificação para a universidade, como se tivesses estado doente, eu trato de tudo — disse logo o Prem.
— Vens? — perguntou o Prem, levantando-se e indo para o seu carro. O Fon foi atrás, e foram à loja mais próxima comprar as coisas de que o Fon precisava.


No centro comercial levaram quase duas horas; voltaram a casa do Prem, e ele tirou da garagem um Audi RS Q3 de um verde deslumbrante. O Fon pôs as coisas no banco de trás do Audi e partiu para o hospital de Ban Mee, em Lopburi.


🍃 🍃 🍃


No clube Trinity


O Rio trouxe o Fai ao clube quase às dezassete horas, e entraram os dois juntos. Como o horário de trabalho ainda não tinha começado, o clube abria às seis da tarde, o gerente convidou o Fai para o gabinete e explicou-lhe as suas funções. Depois chamou a administradora, uma rapariga bonita chamada Candy, a quem pediu que mostrasse o clube ao Fai.


A rapariga foi-lhe mostrando as secções do clube, as salas VIP, as salas normais, o salão comum, o bar, a pista de dança da zona VIP e o elevador para o segundo e o terceiro andares, onde ficavam os quartos para quem procurava privacidade e os gabinetes dos donos do clube.


O «Trinity» era famoso pela privacidade e pela alta qualidade do atendimento aos clientes, apesar de haver câmaras por todo o lado, para a segurança dos clientes e do pessoal. Tal como no antigo emprego do Fai, um cliente VIP podia convidar alguém do pessoal para lhe fazer companhia, desde que o funcionário aceitasse. E a regra mais importante para os clientes: no recinto do clube, droga nenhuma. Fosse um afrodisíaco, um sedativo ou erva — no clube, era proibido usá-los. O Hima sabia que pessoas dessas iam aparecer na mesma, por isso, à porta de cada sala estava um segurança: se um funcionário sentisse que lhe tinham posto alguma coisa na bebida, podia carregar num botão, num sítio escondido do sofá, e o segurança entrava.


A Candy contou tudo isto ao Fai e mostrou-lhe onde ficava o botão, porque tinha gostado daquele jovem de sorriso amoroso. Levou-o à sala do pessoal e mostrou-lhe o seu cacifo. A rapariga trouxe-lhe a farda, e o Fai foi logo para o vestiário trocar de roupa. Quando ele saiu, a rapariga abriu um grande sorriso, porque, naquela farda, ele estava um encanto.


Um colete bordô de decote fundo, com dois botões; calças da mesma cor, a moldarem-lhe as pernas esguias; camisa branca, sapatos castanhos e um laço bordô. O Fai prendeu a parte de cima do cabelo num rabo de cavalo baixo, para o cabelo não lhe cair para os olhos. No primeiro dia, puseram-no no salão comum, para se habituar à ementa e se ambientar um bocadinho.


O Fai saiu para o salão, pegou na ementa e sentou-se a uma mesa a estudá-la, para a decorar mais depressa. O tempo voou sem ele dar conta, e os clientes começaram a chegar. A entrada estava disposta de tal maneira que todos os clientes passavam pelo bar, ao pé do qual o Fai agora estava. Atraía as atenções de clientes e de clientas mas, aos convites dos clientes VIP para se sentar com eles, o Fai recusava com delicadeza, com a justificação de que era o seu primeiro dia de trabalho. Pelo contrato, o Fai trabalhava no clube dia sim, dia não, para poder dormir como deve ser e dar conta das aulas.


🍃 🍃 🍃


O Dao, depois da fuga do Fon


O Dao e o Mix ficaram ao pé da scooter do Fon quase uma hora. Até o Dao perceber que o Fon se tinha posto a andar.

— Fedelho ingrato! — praguejou o Dao, e virou-se para o Mix.
— Leva a scooter dele para a nossa pista — disse o Dao, e tirou o telemóvel. O Mix meteu a scooter na bagageira do carro.


O Dao abriu o documento do Dark e marcou dali o número do Fon. Não atenderam. O Dao ligou-lhe dez vezes, mas ninguém atendia, porque o Fon, àquela hora, andava às compras com o Prem e, ainda por cima, esquecera-se de tirar o telemóvel do silêncio depois das aulas.


— Tu ao menos sabes quem andas a ignorar, tampinha?! — rosnou o Dao; olhou para o relógio e percebeu que o clube não tardava a abrir.
— Leva-me ao clube. Preciso de falar com o Fai — disse o Dao. Estava desiludido.


Nunca ninguém se tinha atrevido a fazer-lhe o que o Fon lhe fez. Não só lhe mentiu e lhe fugiu, como ainda por cima não atendia o telefone. Quanto mais o Dao pensava naquilo, mais se enfurecia.


O Mix levou o Dao ao clube, a esforçar-se por não falar com o chefe, porque não queria que lhe sobrasse. Estacionado o carro no parque, ao lado do elevador privativo, o Mix saiu para abrir a porta — mas o Dao abriu-a ele mesmo. E ainda a bateu com tanta força que o carro estremeceu. O Mix ficou de cabeça baixa, sem se atrever a dizer nada. O Dao subiu ao clube pelo elevador que dava para o terceiro andar, onde ficavam os gabinetes do Hima e do Dao.


Que raio vim eu fazer ao gabinete? Eu preciso é do Fai. — resmungou o Dao por entre dentes, e desceu ao clube.


— Onde está o novato? — perguntou o Dao à Candy, de má Katadura; a rapariga estremeceu e apontou para o salão comum.


O Dao foi para lá, à procura do Fai. Chegado ao balcão do bar, varreu o salão com o olhar e viu o Fai ao pé de uma mesa ao fundo, a servir as bebidas a um grupo de raparigas que lhe sorriam. O Fai sorria-lhes em resposta, era o trabalho dele. O Dao encaminhou-se para ele. Quando chegou à mesa, o Fai tinha acabado de pousar o último copo e pegava no tabuleiro. O Fai virou-se e viu o Dao.


— Pi, aconteceu alguma coisa? Porque estás aqui? — o Fai inclinou-se mais para ele, porque a música estava alta.
— Anda — disse o Dao secamente e, agarrando o Fai pelo pulso, arrastou-o para a saída do salão.


O Dao ia depressa, e o Fai esforçava-se por lhe acompanhar o passo, porque ele lhe apertava a mão com força e o puxava atrás de si.


— Pi, podes explicar-me o que se passa? — perguntou o Fai, quando o Dao o meteu no elevador e carregou no botão do terceiro andar, sem lhe largar a mão.
— Falamos no gabinete — disse o Dao com secura, e o Fai calou-se, a tentar desesperadamente lembrar-se do que poderia ter feito de mal.


TLIM.


Soou o sinal do elevador e, quando as portas se abriram, o Dao arrastou o Fai para o seu gabinete.


A porta do gabinete abriu-se, o Dao puxou o Fai até ao cadeirão em frente da sua secretária e largou-lhe a mão.


— Senta-te — disse o Dao com rispidez, e o Fai sentou-se, obediente, enquanto o Dao se deixava cair no cadeirão em frente.


O Fai esfregava a mão por que o Dao o arrastara todo aquele tempo: doía-lhe um bocadinho.


— Pi… — ia o Fai perguntar, mas o Dao interrompeu-o.
— Liga ao teu amigo — disse o Dao em tom severo, a olhar para o Fai.
— A que amigo? — perguntou o Fai, perdido, porque não percebia de onde é que os amigos dele podiam conhecer o Dao.
— Deixa-te de fitas, Fai! Liga ao Fon! — gritou o Dao, e bateu com a palma da mão na secretária. O Fai estremeceu.
— O que é que se passa, Pi? — perguntou o Fai, aflito. Temia que o amigo estivesse metido em sarilhos.
— Eu disse… liga-lhe imediatamente! — o Dao exaltava-se cada vez mais.
— Estou a perder a paciência, Fai! — gritava o Dao, sem ele próprio perceber porque é que o comportamento do Fon o punha assim fora de si.


Se o Fon lhe aparecesse à frente naquele momento, aquele rapaz atrevido levava, com toda a certeza.


— Pi'Dao, mas eu… — o Fai tentava explicar que não tinha o telemóvel com ele, porque estava no vestiário; mas, mal o Dao ouviu o «mas» da boca do Fai, achou que ele estava a recusar.
— Imediatamente! Não me obrigues a revistar-te e a tirar-to à força! — continuava o Dao aos gritos.
— Sim, Pi. Faz o que achares necessário — disse o Fai, porque via que o Dao não o estava a ouvir.
— Fai! — gritou o Dao ainda mais alto e, saltando do cadeirão, foi ter com o Fai.


Puxou-o pela mão, e o Fai levantou-se, obediente. O Dao começou a apalpar-lhe os bolsos das calças e do colete, e o Fai deixou-se estar quieto, de braços abertos para os lados. O Dao estava de costas para a porta de entrada, a revistar o Fai freneticamente.


— Que raio estás tu a fazer, Daonya?! — soou uma voz grave atrás dele. O Dao virou-se — e gelou.


O Hima tinha ouvido os gritos do Dao e, ao princípio, não lhes ligou grande coisa; mas, quando ele gritou o nome do Fai, o Hima decidiu ir verificar. Ao entrar, viu o Dao a apalpar descaradamente o seu cachorrinho, que estava especado, obediente, de braços abertos. Fosse outro que não o Dao, já tinha levado nas fuças, com certeza.


— Tira as mãos! O que é que tu te permites?! — perguntou o Hima e, aproximando-se, arrancou a mão do Dao da cintura do Fai.
— Eu pedi-lhe para ligar, e ele recusou! — tentava o Dao recompor-se.
— Pi, eu não recusei. Tu é que não me ouviste. Pediste-me para ligar, mas eu não o posso fazer agora, porque o meu telemóvel está no cacifo, no vestiário. Disseste que mo tiravas à força, e eu não resisti, certo? — explicou o Fai com um sorriso.
— Se mo tivesses dito lá em baixo, no salão, tínhamos ido logo ao vestiário e eu ligava — continuava o Fai a falar, baixinho e com calma, sem deixar de sorrir.
— Fai, vai trabalhar — disse o Hima em voz baixa. O Fai, a sorrir, acenou e saiu do gabinete.


O Hima foi ao armário e tirou um garrafão de conhaque e dois copos. Pousou-os na mesa, encheu-os até um terço e estendeu um ao Dao. O Dao pegou no copo e despejou-o de um trago.


— E agora conta lá: que cão foi que te pôs em estado de histeria? Há anos que não te via assim — perguntou o Hima; sentou-se no cadeirão e molhou os lábios no álcool.
— Aquele tampinha… — o Dao respirou fundo, porque percebia que se estava a exaltar outra vez.
— Encontrei o Fon à porta da universidade — até o ajudei a resolver uma situação com um idiota qualquer. Ele disse que se tinha esquecido do caderno na sala e fugiu-me. Nem a scooter dele levou, Hia. Esperámos quase uma hora… Liguei-lhe para aí dez vezes, e ele não atendeu — o Dao começou calmo, mas, lá para o fim, já estava outra vez a ferver.
— Uau… O meu maninho levou uma tampa de um miúdo, ah-ah-ah! — o Hima não se aguentou e desatou a rir. O Dao deu-lhe um pontapé na perna, por baixo da mesa.
— Ai! Vá lá, Dao, não te zangues — sorriu o Hima; o pontapé não fora forte, só inesperado.
— Seja como for… Não devias ter gritado com o Fai — e muito menos tê-lo apalpado — disse o Hima, ao lembrar-se.
— Oh, desculpa lá, esqueci-me de que não gostas que mexam nas tuas coisas — o Dao acalmou um bocadinho e voltou logo a picar o Hima.
— Ainda queres que o Fai te ajude? — atirou o Hima, seco, e levantou-se do cadeirão.
— Anda. Histérico — continuou o Hima, e saiu do gabinete. O Dao foi atrás dele.


Desceram ao clube e foram para o salão comum, parando junto ao bar. O Hima observava o Fai. Ele andava por entre as mesas, a distribuir as bebidas, e sorria com doçura aos clientes.


De repente...


As sobrancelhas do Hima franziram-se, quando um rapaz qualquer pegou na mão do Fai, no momento em que ele pousava uma bebida na mesa. O Fai sorriu-lhe e disse-lhe qualquer coisa; e o jovem tirou uma caneta e escreveu qualquer coisa num papelinho, que meteu na mão do Fai. O Fai pousou o papelinho no tabuleiro e dirigiu-se ao balcão do bar. Ao ver o Dao e o Hima, sorriu e foi ter com eles. A primeira coisa que o Hima fez foi tirar o papelinho do tabuleiro e desdobrá-lo: lá dentro estava um número de telemóvel. Olhou para aquele rapaz e, amachucando o papelinho, atirou-o para o lixo.


— Anda, Fai — disse o Hima, e encaminhou-se para o vestiário. Atrás dele iam o Dao e o Fai.


No vestiário, a música já não se ouvia tão alto.


— Desculpa, Nong. Exaltei-me — disse o Dao, ao perceber que tinha descarregado no Fai sem razão nenhuma.
— Está tudo bem, Pi — respondeu o Fai com um sorriso, e tirou o telemóvel do cacifo.


Ligou logo ao Fon, mas ninguém atendeu a chamada. O Fai ligou mais umas quantas vezes, e o resultado foi o mesmo.


— O que é que se passa? — perguntou o Fai, aflito, porque normalmente o Fon atendia sempre as chamadas dele.


O Fai ligou de imediato à mãe do Fon. Ela disse que o Fon não tinha voltado para casa nem lhe tinha ligado. Aí é que o Fai ficou ainda mais preocupado. Normalmente, se o Fon se atrasava ou ia para algum lado, avisava sempre a mãe, para ela não se ralar; mas já eram quase oito da noite, e o Fon calado, sem atender as chamadas.


— Se calhar caiu-lhe mais uma vítima na rede, e ele anda entretido? — disse o Fai em voz alta, a olhar para o telemóvel, porque, com as aflições, se esqueceu de que não estava sozinho.
— De que é que estás a falar? — perguntou o Dao.
— Bem… o Fon gosta de namoriscar com rapazes bonitos, Pi. Aliás, tu és mesmo o tipo dele. Pi'Dao, podes dizer-me para que é que andas à procura dele? — explicou o Fai, e perguntou; e o Dao calou-se.
— Desculpa, Fai, por enquanto não posso dizer. Mas não te preocupes, não lhe vou fazer mal — respondeu o Dao, e o Fai não fez mais perguntas.


Acabada a conversa, os três voltaram ao trabalho. Quando o clube fechou, o Rio levou o Fai a casa.


🍃 🍃 🍃


A manhã seguinte


O Fon ligou às sete e meia da manhã, mesmo quando o Fai acabava de voltar da corrida. O Fon disse que ia estar fora da cidade por uns tempos, porque um amigo dele tinha ido parar ao hospital noutra província. Não quis contar ao Fai que esse amigo era o Lux, porque o Fai já tinha visto como o rapaz olhava para o Fon. O Fai sabia que o Lux era capaz de tudo para dormir com o Fon. E, se isso acontecesse, o Fon partia de certeza o coração ao miúdo, e o Prem ficava furibundo. Depois de conversarem um bocadinho, o Fai desligou e desceu para tomar o pequeno-almoço.


— Oh, Pi, Khun. Bom dia — disse o Fai, e juntou as mãos num wai. O Hima e o Dao, sentados à mesa, acenaram em resposta.
— Porque é que desceste tarde? — perguntou o Hima, sem parar de comer a papa.
— O Fon ligou-me quando eu voltei da corrida — disse o Fai, e o Dao virou-se para ele.
— Disse que ontem teve de sair à pressa, porque um amigo dele foi parar ao hospital noutra província, e o Fon vai tomar conta dele até lhe darem alta. O telemóvel estava no silêncio e, depois, ainda ficou sem bateria. Ele vinha estafado da viagem e adormeceu na enfermaria. Quando acordou, pôs logo o telemóvel a carregar e ligou-me a mim e à mãe — contou o Fai a conversa com o amigo, porque tinha visto o olhar interessado do Dao.


O Dao suspirou, mas não disse nada. Decidiu esperar pelo regresso do Fon — afinal de contas, a scooter dele estava com o Dao.


🍃 🍃 🍃


Duas semanas depois


O Fon queria fazer uma surpresa ao Fai, porque hoje regressava a Banguecoque. O Fon planeava aparecer no clube do Fai.


O Fai esforçava-se por escapar aos clientes insistentes, que lhe impingiam com fervor os seus números de telefone. Aos convites para as salas VIP, o Fai dizia sempre que não. Quando o Hima estava no clube, seguia muitas vezes o Fai pelas câmaras de videovigilância.


Hoje, o Fai estava no salão comum. Andava a distribuir bebidas e petiscos pelos clientes. No balcão do bar já estavam umas cinco bebidas diferentes, que os clientes tinham pedido para o Fai, mas ele não tinha tocado em nenhuma, com medo de ofender os outros. Porque, se bebesse uma delas, o cliente ia achar que o Fai lhe tinha aceitado a corte, e os outros clientes ficavam tristes. O Fai não queria magoar ninguém — mas também não podia bebê-las todas, por isso decidiu, simplesmente, ignorar aquilo.


O Fai voltou ao balcão e pousou o tabuleiro com os copos vazios.


— Posso convidar este papá tão amoroso para uma sala privada? — soou uma voz atrás dele, e o Fai, a sorrir, virou-se.
— Fon! — exclamou o Fai, e abraçou o amigo, porque não se viam há duas semanas.
— Ohhó, tantas saudades minhas, é? — brincava o Fon, pousando a cabeça no ombro do Fai.
— Porque é que não disseste que chegavas hoje? Eu tinha trocado de turno! — disse o Fai, a sorrir ao amigo.
— Nã-ã! Assim não te via neste visual de arrasar. Tu sabes que, neste momento, estás… mesmo muito sexy? — disse o Fon, a medir o amigo de alto a baixo com um olhar avaliador.
— Tu sabes que os teus encantos não funcionam comigo, Fon. Aliás, nem sei com quem é que esses truques funcionam — respondeu o Fai com desprendimento, mas o Fon não se ofendeu.
— Não queres pagar um copo ao amigo? — perguntou o Fon, e o Fai virou-se para o balcão.
— Escolhe qualquer uma destas bebidas — o Fai passou a mão do primeiro copo ao último, dos que os clientes lhe tinham oferecido.
— Obrigadinho — disse o Fon, e escolheu o «Sex on the Beach».


O Fai voltou ao trabalho e o Fon, despachado o cocktail, foi dançar, sempre a picar o Fai de vez em quando.


Perto das dez, chegou ao clube o Dao, para descontrair. Subiu ao gabinete, ligou as câmaras de videovigilância e foi passando os ecrãs, à procura de alguém com quem se pudesse divertir naquela noite. O olhar dele parou no salão comum, onde viu uma figura conhecida, a dançar com um rapaz qualquer. O Dao achou que tinha visto mal e continuou a folhear. Passado um tempo, voltou outra vez ao salão comum, mesmo no momento em que o Fon passava em frente à câmara, com o rapaz com quem dançava a abraçá-lo pela cintura. Agora o Dao tinha a certeza: era mesmo o Fon. Fechou o portátil e desceu. Ao entrar no salão comum, não viu nem o Fai nem o Fon.


O Dao lembrou-se de que aqueles dois tinham saído, e aproximou-se do segurança mais próximo.


— Saíram agora mesmo dois rapazes do salão comum, um deles pequenote, de t-shirt amarela. Para onde é que eles foram? — perguntou o Dao.
— Oh, iam em direção às casas de banho, chefe — disse o homem, e o Dao foi atrás deles.


Quando o Dao abriu a porta, não estava nada à espera de ver aquilo. Viu um homem alto a apertar o Fon contra o lavatório, a amassar-lhe as nádegas e a beijá-lo. O Fon tinha enfiado a mão por baixo da t-shirt do rapaz e acariciava-lhe o peito, com uns gemidos abafados.


O Dao chegou ao pé deles, agarrou o Fon pela mão livre e empurrou o rapaz para longe dele.


— Ei! Mas que raio, meu?! — indignou-se o rapaz; mas o Dao fulminou-o com um olhar assassino, e o outro, concluindo que aquilo era o namorado do Fon, pôs-se a andar num instante.
— Apanhei-te, tampinha! — disse o Dao com mordacidade, e o seu olhar escorregou para os lábios do Fon, avermelhados do beijo de há pouco, e com um ar tremendamente apetecível.

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