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10 – «TRINITY» (parte 1 de 2)

O Hima desviou o olhar para a cara do Fai e viu que as orelhas dele estavam vermelhas.


— Está tudo bem, só está calor a mais — respondeu o Hima, depois de recompor as ideias.
— Ah, amanhã o Rio leva-te à universidade. Depois das aulas, não vás a lado nenhum: ele vai buscar-te e leva-te ao clube. Lá, o gerente recebe-te, mostra-te tudo e explica-te tudo — explicou o Hima; retirou com cuidado a sua mão da mão do Fai e saiu do quarto, sem esperar pela resposta.


O Fai ficou sem perceber o que tinha acabado de acontecer. Ficou ali um tempo, parado a assimilar o sucedido, antes de ir ao quarto do Hima pedir-lhe que lhe mostrasse o leopardo-das-neves. O Fai bateu à porta, mas ninguém respondeu e, depois de esperar ali cerca de um minuto, abriu-a.


Ao entrar no quarto, o Fai percebeu que a disposição dos quartos deles era diferente. A cama do Hima ficava junto à parede contígua à casa de banho do Fai e, ao lado dela, havia uma secretária com um portátil; em frente à cama havia duas portas, o Fai calculou que fossem a casa de banho e o quarto de vestir. Junto à janela havia um sofazinho. Quando entrou, ouviu o barulho de água na casa de banho, que passado um tempo se calou. O Fai não se atreveu a sentar-se no sofá, por isso ficou de pé no meio do quarto.


🚪 Clac…


A porta da casa de banho abriu-se e dela saiu o Hima, só com uma toalha na cintura, enquanto com outra secava o cabelo, e, por isso, não viu logo que não estava sozinho no quarto.


O Fai atrapalhou-se ao ver o belo corpo do Hima. Esqueceu-se do que queria perguntar, porque ficou enfeitiçado pela tatuagem. Era a tatuagem de um longo dragão chinês, que serpenteava pelo corpo do Hima: a cauda sumia-se debaixo da toalha, e a cabeça repousava no peitoral direito do Hima. Apesar de a tatuagem não ser a cores, era um espanto — o dragão estava desenhado ao pormenor. O Fai não conseguia arrancar os olhos do Hima; percebia perfeitamente o que sentia, queria aquele rapaz.


O Hima tirou a toalha da cabeça e viu o Fai no seu quarto, de cara corada, a olhar para ele sem pestanejar.


— Queres? — perguntou o Hima, percebendo que o rapaz estava a olhar para a tatuagem.
— Sim — respondeu o Fai sem pensar; e só depois é que se deu conta de que o Hima o tinha visto. O Fai baixou os olhos para o chão.
— Khun, não era isso que eu queria dizer. Falo da tatuagem — emendou-se o Fai à pressa, e corou ainda mais, porque queria mesmo era ele, e não a tatuagem. O Hima segurou um sorriso e olhou para o rapaz.
— Aconteceu alguma coisa? Porque estás aqui? — perguntou o Hima, preocupado com a hipótese de o Fai não se estar a sentir bem.
— Oh, nada, Khun… Queria pedir para ir ver o leopardo-das-neves. O senhor disse que não se podia ir sozinho, e os seus homens mandaram-me vir pedir-lhe autorização — respondeu o Fai em voz baixa.
— Queres que eu vá assim, neste preparo? — o Hima ergueu uma sobrancelha e olhou para o Fai com um sorrisinho trocista.
— Ã-ã-ã… não — o Fai não estava à espera daquela resposta e não soube o que dizer. O Hima riu-se baixinho e foi para o quarto de vestir.
— Podes sentar-te no sofá e esperar enquanto me visto e seco o cabelo — disse o Hima lá de dentro. O Fai sentou-se no sofá, obediente.


Ao canto, junto à parede, em frente à cama, havia um toucador com um pufe verde, baixinho e fofo.


O Hima vestiu uma t-shirt branca e umas calças de linho cinzentas, largas. Saiu e sentou-se no pufe, tirando da gaveta um secador. O Fai virou-se e olhou para ele.


— Khun, posso ajudar? — perguntou o Fai baixinho, por delicadeza, com um sorriso na cara. Percebia perfeitamente que aquele era um momento bastante íntimo, mas não conseguiu deixar de perguntar.
— Está bem — respondeu o Hima, apesar de, até ali, só a mãe lhe ter arranjado e secado o cabelo.


O Fai aproximou-se e pegou na escova e no secador. Ia escovando com cuidado os longos cabelos brancos, segurando-os com a mão perto das pontas. Ligou o secador numa temperatura média, secou um pouco o cabelo e desligou-o. Todo aquele tempo, o Hima esteve a observá-lo pelo espelho.


— Khun, pode virar-se para mim? — pediu o Fai, e o Hima virou-se.


O Fai voltou a ligar o secador e fez um penteado ao Hima, para o cabelo não lhe cair tanto para os olhos quando estivesse solto. Durante o processo, o Hima não despregou os olhos daquela carinha amorosa à sua frente.


— Pronto — disse o Fai, e desligou o secador. Fazia aquilo muitas vezes à mãe.


O Fai sorria, a olhar para o Hima, porque estava contente com o seu trabalho. O Hima virou-se para o espelho e sorriu com o canto da boca.


— Não ficou nada mal — disse o Hima, e levantou-se.
— Anda, vou mostrar-te o Rossi. Mas primeiro tens de fazer uma coisa… — continuou a olhar para um Fai todo satisfeito. O Fai olhou para ele, desconfiado.


Saíram do quarto e desceram, e lá em baixo deram de caras com a tiazinha Nari.


— Tia, hoje eu e o Fai jantamos tarde. Não precisa de pôr a mesa agora — disse o Hima, e o Fai olhou para ele.
— Kat, prepara o carro e avisa o Mix, o Rio e o Leon. Vamos sair — ordenou o Hima. O Kat acenou.
— Aonde é que vamos? — perguntou o Fai, porque já eram quase seis da tarde.
— É isso que tens de fazer — respondeu o Hima, enigmático, e saiu de casa.


Entraram no carro, e o Hima mandou o destino ao motorista por SMS. Passado um tempo, pararam junto ao «Paragon».


— Khun, porque é que viemos aqui? — perguntou o Fai a medo, porque sabia perfeitamente que o «Siam Paragon» era o centro comercial mais caro de Banguecoque.
— Estamos aqui para te comprar roupa — disse o Hima com calma.
— Mas… — tentou o Fai protestar, mas interromperam-no.
— Nada de «mas», Fai. Não posso deixar-te andar por aí com isso… Em casa podes usar as tuas coisas, mas um homem meu tem de ter, em público, a aparência adequada. Vamos — respondeu o Hima com severidade, e o Fai não discutiu, porque percebia que o outro não o estava a tentar diminuir.


O Kat saiu do carro e abriu a porta ao chefe. O Fai saiu sozinho, do outro lado. Caminhava obediente ao lado do Hima, com dois guarda-costas à frente e dois atrás deles. A comitiva atraía a atenção dos outros visitantes.


— Escolhe. Com o preço não te preocupes. Mas hoje, no mínimo, tens de comprar cinco t-shirts, cinco camisas, cinco calças, um par de fatos, roupa interior e seis pares de calçado. Escolhe a cor que quiseres, menos preto — disse o Hima, e o Fai esboçou um sorriso forçado, cheio de vergonha.
— Vamos — disse o Hima e, agarrando o Fai pelo pulso, arrastou-o para a loja de marca mais próxima.


O Fai tentava escolher coisas baratas, mas, a cada prova, o Hima só abanava a cabeça, enquanto ia escolhendo, em paralelo, outra coisa para ele. No fim de contas, depois de arrastar o Fai por seis boutiques de marcas conhecidas e de lhe fazer provar uma montanha de roupa, compraram imensa coisa. Só que, o que o próprio Fai escolheu, contava-se pelos dedos de uma mão. Agora, o Fai ia vestido com uma camisa creme, calças cinzentas e sapatilhas brancas.


Para que é que ele me disse para escolher eu, se no fim comprámos o que ele queria… — resmungava o Fai baixinho, por entre dentes.


— Que andas aí a resmungar? Diz alto — disse o Hima, porque não tinha percebido as palavras do Fai.
— Nada, Khun. Proponho voltarmos para casa. A tia vai ficar triste se não jantarmos em casa. Ela esforçou-se a cozinhar — disse o Fai com um sorriso; o Hima olhou para ele e acenou.


Voltaram para casa; o Hima disse ao Kat que levasse as compras para o quarto do Fai, e os rapazes foram para a sala de jantar. O Dao já lá estava sentado, e a tiazinha acabara de lhe pôr os pratos na mesa.


— Oh, vieram comer? — perguntou a mulher, a sorrir.
— Sim, tia — respondeu o Fai, e ele e o Hima sentaram-se à mesa.


O Dao olhou para o Fai e sorriu.


— Fai, hoje estás diferente do costume. Onde é que vocês estiveram? — perguntou o Dao com um sorriso.
— Fomos ao «Siam». Comprei roupa ao Fai. A propósito, já passou uma semana — encontraste a tua criança? — disse o Hima em tom monocórdico, virando logo a conversa para o trabalho.


Um suspiro de desilusão.


— Não. Na pista nunca mais apareceu. Já vi as fichas de todos os alunos do secundário e de todos os caloiros das universidades. Daqui a nada rebenta-me a cabeça, com a quantidade de fotos que já vi — disse o Dao com tristeza, e continuou a comer.
— Perdeste alguém? — perguntou o Fai, interessado.
— Perder, não perdi. Só não o consigo encontrar. Há uma semana que os meus homens andam a tentar encontrar um rapaz — explicou o Dao, sem entrar em pormenores.
— Conta-me, Pi, se calhar posso ajudar. Amanhã volto à universidade — disse o Fai.


O Dao olhou para o Hima, que se manteve calado.


— Ainda tenho esperança na «Ariel» e nos meus homens. Não te quero carregar com trabalho a mais, senão o Hia ainda me bate — brincou o Dao.
— Hum-hum — o Hima deu a entender ao Dao que saber calar-se a tempo era um superpoder fora do alcance dele.


Depois do jantar, o Hima levou o Fai ao cercado do leopardo-das-neves. Era um recinto vedado com uma rede, de cento e cinquenta metros quadrados. Lá dentro cresciam árvores grandes, de ramos fortes, e havia também estrados de madeira, uma casinha, uma cama de rede, um arranhador enorme, várias bolas, pedras grandes ligadas por troncos e uma pequena piscina. Em cima de um dos troncos estava deitado um belo leopardo-das-neves.


— Rossi! — chamou o Hima bem alto, e o bichano virou-se na direção deles. Levantando-se devagar e saltando lá de cima, encaminhou-se para o dono.
— Uaaau… — foi tudo o que o Fai conseguiu dizer, num suspiro; e um sorriso enorme de satisfação abriu-se-lhe na cara, quando o Rossi se sentou a meio metro da rede.


O Fai percebia que era perigoso aproximar-se mais, por isso admirava-o à distância. E o Hima olhava para aquele Cachorrinho de labrador todo contente, que estava pronto não só a abanar o rabinho, mas a saltar de felicidade.


— Posso tirar uma foto? — perguntou o Fai, encantado, sem virar a cabeça.
— Podes, mas sem flash — disse o Hima, e o Fai tirou o telemóvel do bolso e tirou várias fotos.
— Quem é que lhe pôs o nome? — continuava o Fai, curioso.
— A mãe. Ofereceu o Rossi, com três meses, a mim e ao Dao, há quatro anos, quando o pai nos passou os negócios. Disse que nos oferecia uma fêmea quando eu e o Dao casássemos. Ah-ah, às vezes acho que o Rossi vai morrer virgem — o Hima nem ele próprio percebia porque estava a contar aquelas coisas pessoais ao Fai; mas contou-as, porque lhe apeteceu.


O Hima olhou para o relógio e viu que já eram dez e meia.


— Anda, está na hora de te ires deitar. Amanhã tens aulas de manhã e, a seguir, o primeiro dia de trabalho. Tens de dormir bem — disse o Hima.


O Fai acenou, e cada um foi para o seu quarto. O Fai pôs o despertador para as sete da manhã e deitou-se. Ao acordar de manhã com o som do despertador, o Fai levantou-se com bastante facilidade. Lavou os dentes e saiu para a corrida pelo recinto da mansão. O Fai não gostava de correr na passadeira, porque gostava de se exercitar ao ar livre, a sentir o vento a bater-lhe na cara. Depois da corrida, voltou ao quarto, tomou um duche e desceu à cozinha para tomar o pequeno-almoço. A tia Nari já tinha posto na mesa os pratos com a comida: em cada um, um ovo estrelado, duas salsichas, umas rodelas de tomate e uma folha de alface. Ao lado estavam as tigelas de arroz e a água. A mesa estava posta para três pessoas. 

O Hima desceu precisamente nessa altura, para tomar o pequeno-almoço com o Fai. O Dao ainda não tinha aparecido. Estavam quase a acabar a refeição quando o Dao entrou na sala de jantar.


— Bom dia, Pi. Hoje acordaste espantosamente tarde — cumprimentou-o o Fai com um sorriso.
— Pois, ontem deitei-me tarde. Estive a ver fichas… — disse o Dao.


Há uma semana que o Dao tentava encontrar o Cerejinha. A pista do Prem estava permanentemente vigiada pelos homens dele. Ia vendo as fichas de todos os rapazes da idade certa de Banguecoque inteira. Mas tudo sem resultado.


— Fai, hoje o Rio leva-te e vai buscar-te — disse o Hima, ao sair de casa para a faixa de acesso, onde estavam três automóveis.


O Fai só pôde acenar, porque percebia que discutir com ele era inútil. Entrou no carro, e o Rio levou o Fai à universidade. O Rio parou mesmo em frente à entrada do edifício, atraindo imensa atenção dos estudantes. O Fai abriu a porta e saiu. Trazia uma t-shirt nova, comprada na véspera, e a camisa bordô dos engenheiros. O Fai sentiu uma vibração no bolso e tirou o telemóvel. Era o Fon a ligar.


📞— [Uau! Agora trazem-te de motorista privado, num carrão de luxo?]
📞— “Onde é que tu estás, Fon?” — perguntou o Fai, percebendo que o amigo o estava a observar.
📞— [Estou numa mesa à entrada] — disse o Fon, acenando com a mão, e o Fai desligou, indo ter com o amigo.


🍃 🍃 🍃


Entretanto, o Hima


O Hima calculou que eles chegavam à universidade em trinta minutos, por isso, passado esse tempo, ligou ao Rio, já a caminho do escritório.


📞— "Estaciona o carro longe da universidade e fica de olho no Fai. De toda a gente com quem ele falar, dás-me conta — e mandas-me fotos" — ordenou o Hima.
📞— [Sim, chefe] — disse o Rio, e fez como o chefe lhe ordenou.


O Hima entrou no escritório com o Dao, mas tinham vindo em carros separados, por isso o Dao não ouviu a conversa com o Rio.


Passaram à sala de reuniões, porque era preciso discutir a viagem com o Anton a Roma, para participarem num leilão fechado. O Hima e o Dao sentaram-se lado a lado diante do tablet, a falar em russo, por videochamada, com um homem chamado Anton. Acertados os pormenores, terminaram a chamada, e o Hima viu a foto que tinha recebido. Abriu-a sem segundas intenções, só para ver… O Dao deitou uma olhadela à foto — e, de repente, arrancou o tablet das mãos do Hima.


— Ei! Mas que raio? — indignou-se o Hima.
— Estás a gozar comigo? Eu aqui há uma semana sem dormir como deve ser, a procurá-lo por Banguecoque inteira, e o teu miúdo encontrou-o em cinco minutos na universidade?! — indignava-se o Dao.
— Vê lá a língua: ele não é o meu menino — corrigiu-o o Hima; o Dao olhou-o de esguelha, com um sorrisinho torto.
— Como é que ele se chama? De onde é que o Nong Fai o conhece? — o Dao não se continha.
— Porque é que me perguntas a mim? A foto tirou-a o Rio; liga-lhe — disse o Hima, a olhar para um Dao entusiasmado. O Dao sacou num instante do telemóvel e ligou ao Rio.
📞— “Rio, acabaste de mandar uma foto ao Hia. Quem é o rapaz da foto com o Fai?” — perguntou logo o Dao, sem esperar pela resposta do outro lado.
📞— [Oh, chama-se Fon, é amigo do Fai. Quando chegámos, ele ligou-lhe; o Fai tratou-o pelo nome] — disse o Rio com franqueza.
📞— “Rio, não lhe tires os olhos de cima! Descobre em que ano e em que faculdade ele anda”— ordenou o Dao. O Hima olhou para ele e sorriu.
📞— [Ã-ã-ã… chefe, o que é que eu faço se ele e o Fai se separarem? Estou aqui sozinho, e os rapazes são dois] — disse o Rio baixinho, ao perceber que os seus dois chefes lhe tinham dado a mesma missão, mas para rapazes diferentes.
— Pronto, pronto… que o Rio fique, para já, de olho no teu menino. O Fai não foge para lado nenhum. Manda para lá o Mix, para fazer companhia ao Rio — disse o Hima, ao ver o interesse enorme do Dao naquele rapaz.
📞— “Rio, ouviste o Hia? Liga-me quando souberes a que horas é que ele acaba as aulas” — disse o Dao com entusiasmo.
📞— [Chefe, diga ao Mix que me ligue quando chegar] — disse o Rio, e tratou de se manter à distância, para o Fon não dar por ele.


O Rio seguiu-o até à faculdade e mandou a informação ao Dao. O Dao ficou sentado à espera da mensagem do Rio. Quando soube a faculdade, o nome, o apelido e a idade, o Dao enviou os dados ao Dark, que normalmente se ocupava da recolha de informações, e pediu-lhe que descobrisse tudo.


Passado um tempo, chegou ao telemóvel uma mensagem com a informação detalhada sobre o rapaz. Logo a seguir, veio uma mensagem do Rio: as aulas do Fon acabavam às quinze horas. O Dao olhou para o relógio — eram só nove e meia da manhã. E agora não sabia em que se havia de ocupar, para o tempo deixar de se arrastar tão devagar.


O Fon, como de costume, veio almoçar ao refeitório com o Fai, que já lhe tinha ido buscar o almoço. Estavam sentados na conversa quando o Fai reparou no Rio, não muito longe do refeitório.


— Fon, espera por mim aqui, é já — disse o Fai; foi à cafetaria e, com um pãozinho e um pacote de leite na mão, dirigiu-se ao Rio.


O Fon não lhe obedeceu e foi atrás dele, porque o Fai ainda não lhe tinha contado bem a situação. O Rio ficou espantado quando o Fai lhe estendeu o pãozinho e o leite.


— O Pi afinal nunca chegou a ir-se embora, pois não? Tome, não tem de passar fome por minha causa, Pi Rio. Faltam-me três aulas, e depois pode levar-me ao clube e, finalmente, descansar — disse o Fai com um sorriso. O Fon estava atrás dele, e o Rio olhou para ele.


O Fai virou-se e deu o braço ao Fon.


— Pi Rio, este é o meu melhor amigo, o Fon. Fon, este é o Pi Rio; trabalha para o Khun Hima e foi ele que me trouxe de manhã — apresentou o Fai os dois.


O Fon ergueu as mãos num wai e sorriu todo amoroso. O Fai viu o olhar matreiro do amigo e percebeu que estava na hora de o levar dali, senão ele começava de certeza a namoriscar com o Rio.


— Pi, nós vamos comer. Não é, Fon?! — disse o Fai, e puxou o amigo pelo braço; o Fon acenou.


Os rapazes voltaram para a mesa deles e puseram-se a comer; durante o almoço, o Fai contou os pormenores do acordo com o Hima.


Hoje, o Fai acabava as aulas uma hora depois do Fon. Saiu da universidade, e o Rio já o esperava para o levar ao clube. O Fai não sabia o que tinha acontecido uma hora antes…


🍃 🍃 🍃


Uma hora antes


O Fon acabou as aulas e saiu do edifício, a caminho do parque de estacionamento. Não muito longe do parque, viu uma cara conhecida e lembrou-se: era o rapaz que lhe tinha proposto a aposta com aquele bonitão. Foi logo direito a ele.


— Olá, Pi. Que ventos te trazem por cá? — perguntou o Fon, a segurar a mochila à frente do corpo com as duas mãos e a baloiçar-se ligeiramente de um lado para o outro.
— Nong, as aulas acabaram? Eu estou aqui… em trabalho — disse o Mix com franqueza.
— Como te chamas, Pi? Gostava de saber o nome do rapaz que quero conhecer melhor — disse o Fon, e sorriu, encantador.
— Mix. Chamo-me Mix. E tu… — já ia o Mix perguntar, para não levantar suspeitas no rapaz até o chefe chegar.
— Fon! — soou uma voz grave e rude atrás do Mix.
— Maldição… — praguejou o Fon baixinho, ao ver o seu ex, o Pi Som — a vir na direção deles.
— Porque é que não atendes as minhas chamadas nem respondes às SMS? — perguntou o Som, aproximando-se do Fon e do Mix.
— Pi Som, acho que nós já conversámos tudo. Então para quê atender as tuas chamadas? Acabámos há mais de um mês. O que é que tu queres de mim? — perguntou o Fon num tom imperturbável, porque não era a primeira vez que ex-parceiros de cama lhe faziam cenas.
— Eu não acabei contigo. Foste tu que decidiste acabar tudo. Estavas assim tão mal comigo? — perguntou o Som, quase aos gritos.


O Mix não sabia o que fazer, porque o chefe não tinha dado instruções para casos daqueles. Disseram-lhe para não tirar os olhos do Fon — e é o que ele faz; enquanto o Fon estiver bem, o Mix limita-se a observar a situação.


— Nós nunca namorámos, Pi Som. Só nos divertimos. Tu não te opuseste e disseste que não ia haver problemas. Então o que estás a fazer agora — isto não é um problema? — falava o Fon com desprendimento, a mostrar que estava nas tintas para os sentimentos do interlocutor.
— Agora andas com este, é? — o Som acenou com nojo na direção do Mix.


O Fon soltou um suspiro pesado e encaminhou-se para a sua scooter. O Som agarrou-lhe o braço e puxou-o para si.


— Tu vens comigo, Fon! — rosnou o Som, e o Mix já se ia mexer para ajudar o Fon, mas estacou ao ver o chefe atrás daquele rapaz barulhento.


O Som deu um passo atrás, para dar meia-volta e arrastar o Fon para o carro dele, mas a mão com que segurava o Fon foi apertada com tanta força que o Som, por reflexo, abriu os dedos.


— Ei! — gritou o Som, e virou-se para dar um murro a quem lhe agarrara a mão; mas, ao ver a expressão feroz da cara e a aura arrepiante, ficou pregado ao chão.
— Quem és tu? Para onde, e com que ideia, te preparavas para levar o meu tampinha? — perguntou o Dao com severidade; com o tom daquela voz, um calafrio correu pelas costas do Som, mas ele tentou não perder a pose. O Fon ouviu as palavras «o meu tampinha» e ficou espantado.
— Isso é um assunto entre mim e ele! Quem és tu para te meteres? — disse o Som, e o Mix avançou para ele, mas o Dao abanou a cabeça, a mandar não fazer nada.
— Pi Som, repito-to pela última vez: entre nós não há nada, e não vai voltar a haver. Tu aborreces-me — e isso disse-to eu há um mês. Só dormimos juntos umas quantas vezes, nada de especial — não aguentou o Fon, e despejou aquilo no Som, irritado. Com a frontalidade do Fon, o Dao largou a mão do Som.


O Som virou-se para o Fon e levantou a mão, ferido por os seus sentimentos pelo Fon serem «nada de especial», mas o Dao agarrou-lhe a mão num relâmpago e torceu-lha atrás das costas.


— Espero que agora o tenhas ouvido, e que não o voltes a incomodar — disse o Dao com severidade, e puxou-lhe mais o braço, a fazer ao Som ainda mais dói-dói.
— Não precisas de o procurar mais. Se eu souber que voltaste a aparecer, dou-te de comer ao meu bicho de estimação — declarou o Dao num tom sério, e empurrou o Som para a frente, largando-lhe o braço de tal maneira que ele quase caiu.


O Som meteu-se no carro e desapareceu. O Fon olhava para o Dao como para mais uma das suas vítimas, com a qual tencionava brincar.


— Obrigado, Pi. Mas eu safava-me sozinho. Não valia a pena meteres-te. Então… porque é que vocês os dois estão aqui? — disse o Fon, a sorrir com doçura ao Dao.
— Preciso de discutir uma coisa contigo, Nong. Que tal falarmos no carro?

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