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09 – Maçãs da discórdia (parte 2 de 2)

Entretanto, o Hima


O Hima e o Dao passaram o dia inteiro na estrada. Primeiro foram ao Trinity, avisar o gerente de que, dentro de uma semana, iam ter um funcionário novo. O clube ficava perto do escritório, por isso o Hima decidiu não telefonar — foi lá. Do clube, seguiram para o armazém das armas, para preparar o carregamento para o Elijah. No carro, o Hima pediu ao Kat que ligasse para a universidade do Fai a dizer que ele estava doente e que ia faltar nos próximos cinco dias. O Kat ligou ao decano ali mesmo, à frente dele, e explicou tudo. No armazém, a lida levou-lhes quase três horas. O Hima olhou para o relógio e viu que já eram quase duas da tarde. Olhou para o telemóvel: de casa, nenhuma chamada.


O Dao propôs ao Hima tomarem um café a caminho do escritório, porque ainda não tinham almoçado. Pararam numa cafetaria perto do escritório, e o Leon comprou aos chefes café para levar e dois croissants para cada um. Os rapazes comeram à pressa, porque tinham marcada uma videochamada com os investidores coreanos. Discutiram o concurso para a compra do terreno para a construção do novo casino. As negociações levaram cerca de duas horas. O Dao e o Hima ficaram satisfeitos com os resultados.


O Hima voltou a olhar para as horas, e o Dao reparou que, naquele dia, o seu querido maninho olhava para o relógio vezes de mais.


— Tens pressa de ir para algum lado, Hia? — perguntou o Dao, a sorrir.
— Não, só estou a ver as horas — respondeu o Hima com voz imperturbável.
— Só isso? Passaste o dia todo a olhar para o relógio — continuou o Dao.
— Achas que, se não ligaram de casa, está tudo em ordem por lá? — perguntou o Hima, com ar de quem pensava nalguma coisa.
— Ah-ah… Esse rapaz é cá uma peça! — riu-se o Dao, percebendo de quem o Hima estava a falar.
— Podes ir para casa, se quiseres. À pista posso ir eu sem ti. Pede só à tiazinha que faça alguma coisa boa para o jantar — disse o Dao, a testar se o Hima ia mesmo para casa ou não.
— Está bem. Se houver problemas, liga — respondeu o Hima, deixando o Dao de boca aberta.


O Hima saiu da sala de reuniões e acenou ao Kat. Foram para casa. Mal chegou, foi direito à cozinha, falar com a tiazinha.


— Tia… — chamou o Hima, e a mulher virou-se para ele, porque ele a apanhou ao fogão, a cozinhar.
— Oh, Khun Hima. Hoje vem cedo — aconteceu alguma coisa? — perguntou ela logo, porque normalmente o chefe não voltava para casa antes das onze da noite, e eram quatro e cinquenta da tarde.
— Nada. Como está o Fai? Não houve problemas? — perguntou ele sem rodeios, porque não gostava de conversas à volta.
— Khun, ele é uma criança tão boa. Com a comida não houve problema nenhum — disse a Nari com um sorriso, e o Hima soltou o ar dos pulmões.
— Ah, tia, já me ia esquecendo. O Dao pediu que fizesse alguma coisa boa para o jantar — disse o Hima, lembrando-se. A mulher acenou.


O Hima saiu da cozinha e subiu ao segundo andar. Apesar de já estar farto do fato e da gravata, a primeira coisa que fez foi ir ao quarto do Fai. Quando abriu a porta, viu-o deitado na cama de barriga para baixo, de costas para ele. As pernas do Fai estavam dobradas nos joelhos e cruzadas, e ele baloiçava-as de um lado para o outro. Via-se que estava ocupado com alguma coisa, mas o Hima não via com o quê.


— Em que estás ocupado? — perguntou o Hima, sem levantar muito a voz.
— Estou a fazer apontamentos para o projeto — respondeu o Fai, imperturbável, sem se virar.


O Hima avançou e sentou-se no sofá. Do sofá, via-se o Fai perfeitamente. Notou que o rapaz já se sentia claramente melhor do que de manhã.


— Como te sentes? — continuou o Hima a perguntar.


Tinha piada estar a ver um Fai completamente diferente: um que não lhe chamava «Khun», que não sorria tantas vezes como numa conversa normal, e que estava ali tão concentrado. Quando o Fai voltou a embrenhar-se na leitura de um artigo, meteu maquinalmente a caneta na boca. O Hima nunca tinha pensado que um gesto daqueles lhe pudesse provocar pensamentos indecentes.


— Bem — disse o Fai, a continuar a escrever.
— A comida estava boa? — O Hima não parava, porque as perguntas, ao menos, lá o iam distraindo das indecências.
— Sim. O almoço estava delicioso. E depois o Pi Non ainda me deu maçãs de comer — disse o Fai com toda a tranquilidade, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.


Ao ouvir o que o Fai disse, as sobrancelhas do Hima franziram-se. Pensou que talvez tivesse ouvido mal, e que o Fai queria dizer que o Non lhe tinha trazido as maçãs — por isso decidiu tirar as dúvidas.


— O Non deu-te de comer? — perguntou o Hima.
— Sim — respondeu o Fai, sem segundas intenções.


O Hima levantou-se do sofá, aproximou-se da cama e sentou-se na borda, diante do Fai, que continuava a escrever sem prestar atenção à pessoa à sua frente. O Hima tirou-lhe o bloco das mãos, e o Fai ergueu logo os olhos.


— Ei! …Khun… — O Fai ia protestar, mas, quando viu quem era, calou-se.
— E agora repete tudo o que acabaste de dizer — disse o Hima com severidade. O Fai sorriu.
— Khun, o almoço estava delicioso. Eu estava ocupado a procurar informação para o projeto, e o Non ameaçou queixar-se de mim ao senhor. Eu disse-lhe que, se ele queria que eu comesse as maçãs, tinha de me dar ele de comer — respondeu o Fai com franqueza, a olhar nos olhos do Hima e a sorrir.


O Hima olhava para o Fai e via nele um cachorrinho de golden retriever, engraçado e amoroso. Como é que era possível zangar-se com ele? Os olhos dele, muito abertos, brilhavam de sinceridade, o sorriso era de derreter, se ele tivesse um rabinho, de certeza que o estava a abanar. O cabelo despenteado do Fai emoldurava-lhe a cara, que ele agora apoiava nas duas mãos, o que tornava aquele miúdo ainda mais tentador. E, apesar de todo derretido com ele, o Hima estava irritado por o Non lhe ter dado de comer, e não conseguia parar de franzir o sobrolho. O Hima começou a folhear o bloco que tinha tirado ao Fai, e ficou de boca aberta. Apesar de o bloco ser um bocadinho mais pequeno do que um caderno normal, tinha mais de quinze folhas escritas.


— Há quanto tempo estás a fazer apontamentos? — perguntou o Hima com severidade, e o Fai olhou para as horas.
— Hm… — O Fai pensou e começou a fazer contas.
— Liguei ao Fon perto da uma, conversámos um bocadinho. As aulas dele começam à uma, e ele já estava quase atrasado… Portanto… desde a uma e meia, mais ou menos — raciocinava o Fai em voz alta; mas, a cada palavra dele, o Hima só ia ficando mais sombrio.
— Eu bem te disse… — começou o Hima a ralhar, mas o Fai interrompeu-o.
— Eu lembro-me de tudo, Khun. O senhor disse que eu tinha de comer bem e de me deitar até às dez da noite, nos próximos cinco dias. Hoje, não me deixou sair do quarto. Eu não saí. Então, o que é que eu havia de fazer, sozinho e fechado? Não gosto de desperdiçar tempo. O senhor, como pessoa adulta, deve saber que o tempo desperdiçado é o caminho para a degradação — dizia o Fai num tom terno e, como sempre, a sorrir.
— Tu tens é de descansar, não de passar quatro horas em cima dos apontamentos! Queres que te tire o telemóvel, a caneta e o bloco, e que te amarre, para teres mesmo a certeza de que não fazes nada? — perguntou o Hima; e o Fai limitou-se a sorrir.
— Isso é tudo muito intrigante, claro, mas não acha que o shibari*, para nós, ainda é um bocadinho cedo? — perguntou o Fai, a olhar nos olhos do Hima e a sorrir.


(N. da A.: o shibari, ou sibari, é a arte estética da amarração com cordas, que não é isenta de propriedades meditativas. Tem um subtexto erótico: o shibari pode ser usado para imobilizar o parceiro. Além disso, alguns elementos da amarração podem estimular as suas zonas erógenas.)


— Fai! Não brinques comigo! — disse o Hima, a olhar o Fai nos olhos. O Fai só sorria.


O Fai soergueu-se e sentou-se no meio da cama, com as pernas recolhidas debaixo de si. Levou as mãos atrás das ancas e apoiou-se nelas, ligeiramente inclinado para trás.


— Desculpe, Khun — disse o Fai, ao reparar em como as bochechas do Hima tinham ficado rosadas.
— Eu queria falar consigo. O que é que digo ao meu amigo sobre isto tudo? Normalmente, quando os nossos horários coincidem, ele ia buscar-me a casa para irmos para a universidade. E ele não vai sossegar enquanto eu não lhe der uma resposta convincente. Não sei o que é que o senhor me deixa contar e o que não deixa, por isso decidi perguntar-lhe primeiro — disse o Fai.
— Podes dizer-lhe a verdade — respondeu o Hima, a olhar para o Fai, em cuja cara logo se abriu um sorriso terno.


Maldição… Miúdo, para de sorrir de maneira tão sedutora. — pensou o Hima para consigo.


O Fai ficou contente com aquela resposta, porque não gostava de mentir — e muito menos ao melhor amigo.


Truz-truz.


Bateram à porta, e entrou o Non. Viu o chefe e o Fai sentados na cama e baixou logo a cabeça.


— Chefe, a tia mandou-me perguntar ao Fai o que é que ele quer amanhã para o pequeno-almoço. E o jantar já está pronto. Trago-o para o quarto? — disse o Non.
— Não é preciso, descemos para jantar na sala de jantar — disse o Hima com firmeza, e o Fai abriu um sorriso enorme.
— A sério? Posso sair do quarto? — perguntou o Fai, entusiasmado, com um sorriso. O Hima acenou.
— Deixo-te andar pela casa e pelo recinto, com uma condição… — disse o Hima. O Fai ergueu uma sobrancelha, interrogativo.
— Enquanto o médico não disser que estás bom, deixo-te estar nos apontamentos meia hora de cada vez, e não mais de duas horas por dia. Se aceitares, mostro-te a casa — disse o Hima, e olhou para o Non com um olhar de poucos amigos, ao lembrar-se de o Fai ter dito que o Non lhe dera de comer.
— Sim, Khun Hima. Prometo — disparou o Fai num instante, a sorrir de orelha a orelha.
— Non, podes ir. Ah, e Non — a partir de amanhã, trabalhas com o Tar — disse o Hima.


O Non levantou a cabeça, porque sabia que, para a pista do Tar, mandavam trabalhar quem tinha feito alguma asneira, o Tar tinha um feitio insuportável. O Non não percebia o que tinha feito de mal, mas não se atreveu a perguntar.


— Vamos, Fai. Primeiro comemos, e depois mostro-te tudo — disse o Hima, levantando-se da cama.


O Fai pôs-se de pé num salto e foi atrás dele, deixando o Non especado no quarto.


Desceram à sala de jantar, onde a tiazinha já estava a pôr a mesa. A mulher virou-se e viu o Hima e o Fai a chegarem juntos.


— Tia, o Fai janta comigo — disse o Hima, e a Nari, com um aceno, foi buscar mais um conjunto de talheres e pratos.


Serviu à mesa Kai Yab*, Khao Pad Sapparod* e Khanon Chan*. Na mesa havia também fruta e legumes, e um jarro de vidro com água.


O Fai sentou-se à mesa, e os olhos arregalaram-se-lhe quando viu a quantidade de pratos.


— Tia Nari, e a senhora considera isto um jantar leve? — perguntou o Fai, espantado.
— Oh, Nong Fai, não te preocupes, eu lembro-me de que comes pouco — disse a mulher, e pôs-lhe à frente pratos com meia dose de cada coisa. O Fai acenou, agradecido e sorriu-lhe.


Depois do jantar, o Hima, como prometera, mostrou a casa ao Fai. Primeiro, percorreram a casa principal por dentro. Depois o Hima levou-o ao ginásio e à carreira de tiro, mostrou-lhe a piscina, o jardim com um pequeno lago de lótus, a sala de descompressão; onde se pode partir absolutamente tudo o que lá está dentro;  e as salas de descanso e de entretenimento. Mas o que mais prendeu a atenção do Fai foi o cercado com um leopardo-das-neves, a cavalariça e um grande terreiro, parecido com um campo de tiro com arco, mas sem alvos nem suportes com arcos. O Hima proibiu-o de sair para o recinto da casa sem companhia.


E o Fai gostou ainda das flores à entrada da casa.


— Khun, que flores são estas? São magníficas — apontou o Fai para as «foguinhas», a sorrir.
— És tu — sorriu o Hima, e respondeu.


A cara do Fai parecia espelhar uns quantos processos mentais em curso, porque o Hima, ao ver o embaraço dele, se riu.


— Chamam-se «foguinhas». Mesmo como o teu nome. A mãe trouxe-as da terra dela. Estão no Livro Vermelho* — explicou o Hima.


(N. da A.: o «Livro Vermelho» — o registo oficial russo das espécies raras e ameaçadas, equivalente à lista vermelha das espécies protegidas.)


— Posso? — perguntou o Fai, e o Hima fez um gesto de convite com a mão.


O Fai aproximou-se do canteiro, acocorou-se e tocou com cuidado num botão de cor viva, como se fosse a planta mais frágil do mundo. Inclinou-se um bocadinho para o cheirar: o aroma era suave, mas agradável.


— Mmmm… É lindo — disse o Fai num suspiro, a sorrir e a levantar-se. O Hima sorriu-lhe em resposta.
— Vamos para dentro — disse o Hima, e voltaram ao quarto do Fai.


Ao entrar, o Fai ouviu o telemóvel a vibrar na mesa de cabeceira e apressou-se a pegar-lhe. Era o Fon a ligar. O Fai atendeu.


📞— [É a quinta vez que te ligo! Já estava a pensar que tinhas perdido os sentidos outra vez!] — gritava o Fon, de tal maneira que até o Hima o ouvia.
📞— “Não grites assim, estou ótimo. Fui só dar um passeio” — respondeu o Fai com calma.
📞— [Disseste que não era conversa para telefone.] — o Fon não desistia das perguntas.


O Fai virou-se e olhou para o Hima. O Hima sentou-se no sofá e deu umas palmadinhas no lugar livre. O Fai aproximou-se e sentou-se ao lado dele. O Hima tirou-lhe o telemóvel das mãos e ligou o alta-voz.


📞— “Eu não sei onde estás, com quem estás, nem o que aconteceu. Porque é que não estás em casa?” — continuava o Fon a perguntar.
📞— “Olá. O teu amigo agora vive comigo. Chamo-me Hima. A mãe dele vendeu-me o Fai por causa das dívidas. Ele veio comigo de livre vontade. O médico já o observou, e é por isso que ele não está nas aulas” — respondeu o Hima, em tom monocórdico, a cada pergunta que o Fon fizera.
📞— [Fai! Quem é este homem? Ele disse a verdade?] — o Fon baixou o tom e perguntou ao amigo.
📞— [Sim, Fon. Fui eu que aceitei vir com ele. Não te preocupes comigo. O Khun Hima trata-me bem] — tentava o Fai acalmar o amigo.
📞— [Podes não te preocupar com o teu amigo. Ele não está em escravidão. Assim que o médico o deixar voltar às aulas, ele aparece na universidade] — disse o Hima, sempre com a mesma calma.
📞— [Fai, eu quero confirmar isso com os meus próprios olhos. Liga o vídeo!] — disse logo o Fon, com firmeza.


O Fai virou-se para o Hima, e ele acenou. O Fai passou para videochamada.


📞— [Tu… tu não tens ar de doente. Onde é que estás?] — perguntou o Fon, espantado, ao ver o encosto de um sofá.
📞— “Estou no meu quarto. Khun, posso mostrar-lhe o quarto?” — o Fai virou a cabeça para o Hima, e ele acenou.— “Olha, Fon: a cama; aqui é a casa de banho; isto é o quarto de vestir…” — o Fai andava pelo quarto, a mostrá-lo ao amigo. O Hima continuava sentado no sofá, imperturbável, a ler uma revista.
📞— [Para, para, para! Mostra-me outra vez o sofá.] — o Fon travou o amigo, porque tinha visto no sofá um rapaz bonito.
📞— “Para quê?” — perguntou o Fai, admirado.
📞— [É esse o bonitão que te comprou? Ei… se ele decidisse comprar-me a mim, eu também ia por vontade própria!]


— Fai! Termina lá a visita guiada — o Hima olhou para o relógio de pulso e percebeu que, dali a pouco menos de duas horas, o Fai tinha de se ir deitar. — Está na hora de beberes o sumo e de tomares as vitaminas. Lembras-te do que o médico disse? — disse o Hima, sem parar de ler a revista.
— Sim. Khun, eu lembro-me de que me tenho de deitar às dez… “Fon, desculpa, falamos amanhã, está bem?” — respondeu o Fai aos dois, um a seguir ao outro.

📞— [Ah-ah-ah, sim, claro, vai. Vai, senão ainda levas umas palmadas no rabo por desobediência.] — gozou com ele o Fon, e desligou num instante.
📞— “Fon! Sacana! Espera que eu te apanhe!” — ralhava o Fai com o amigo, todo envergonhado.


O Fai olhou para o Hima, que estava sentado a segurar um sorriso. O Fai respirou fundo e aproximou-se do Hima.


— Khun, desculpe. O Fon é sempre assim, não sabe travar a língua. Hm… trago-lhe alguma coisa da cozinha? Eu vou lá de qualquer maneira, buscar o sumo — desculpava-se o Fai pelo comportamento do amigo.
— Não é preciso. Descemos juntos — disse o Hima, levantando-se do sofá e saindo do quarto com o Fai.


O Hima foi controlar o Fai e depois foi para o gabinete. O Fai decidiu não voltar já para o quarto: foi antes até ao jardim, ao lago, ao pé do qual havia um caramanchão de madeira. Não muito longe estava um guarda-costas. O Fai ficou sentado a apreciar os lótus a baloiçarem no lago. A brisa leve, apesar de morna, era agradável. O Fai pensava em como estaria agora a mãe: se tinha comido, se não andaria a beber… Teria feito bem em deixar a mãe sozinha? Quem ia olhar por ela agora? Naquele momento, ele bem gostaria de se ver livre daquelas aflições. O Fai deixou-se ali estar um tempo, e não ouviu aproximarem-se dele.


— Nong Fai. O chefe manda-te voltar. Já são nove e meia — disse uma voz de homem, que fez o Fai estremecer. Virou a cabeça e viu um homem de fato azul.


O Fai acenou e encaminhou-se para casa. O Hima esperava-o na cozinha com a tia Nari, que tinha nas mãos um copo de água e os comprimidos. O Fai tomou-os e subiu para o seu quarto. Adormeceu em menos de meia hora. Às dez horas, o Hima espreitou o quarto do Fai e, depois de se certificar de que ele dormia, partiu para o casino.


Foi neste ritmo que o Hima e o Fai viveram os cinco dias. O Hima chegava a casa pelas nove e meia da noite, para se certificar de que o Fai tomava os comprimidos. Às vezes chegava mais cedo, e jantavam juntos. O Fai conheceu o Dao. O Dao gostava daquele miúdo, como de um irmão mais novo. O Fai começou a habituar-se à vida na casa. O Fon ligava-lhe todos os dias, e conversavam muitas vezes. De manhã, o Fai corria pelo recinto da casa e depois ia tomar o pequeno-almoço à cozinha. Às vezes, ajudava a tia Nari a cozinhar. Depois trabalhava no projeto mas, como tinha prometido ao Hima, não mais de duas horas por dia. O Hima propôs ao Fai pôr-lhe uma secretária no quarto, para estudar mais à vontade, mas ele recusou. Gostava de estudar na sala de estar ou na cozinha, porque gostava da sensação de não estar sozinho.


🍃 🍃 🍃


O dia do exame


O doutor Dew veio de dia, quando o Hima já tinha saído para o escritório. Por isso, encontrou o Fai sozinho na sala de estar, ocupado com o projeto. Observou-o e, finalmente, deu-lhe autorização para voltar no dia seguinte à vida normal, mas sem grandes esforços. O Fai, contentíssimo com as palavras dele, ligou ao Fon a dizer que no dia seguinte voltava à universidade.


O Fai ajudou a tiazinha com o jantar e, quando já estava quase tudo pronto, subiu ao quarto de excelente humor. Havia muito, muito tempo que o Fai não se sentia assim… feliz e livre. Pegou no telemóvel e pôs música a tocar, porque estava contente. Foi preparar a mala para a universidade no dia seguinte, meio a dançar. A música enchia o quarto todo, e o Fai ia-se deixando levar. Acabou de arrumar as coisas, e, nisto, começou a tocar a sua canção preferida. O Fai dançava no meio do quarto, a olhar pela janela, sem suspeitar de que alguém tinha entrado no quarto e o observava.


🍃 🍃 🍃


Entretanto, o Hima


De volta a casa para o jantar, decidiu subir ao quarto para trocar de roupa, porque o dia o tinha deixado exausto. O Dew já lhe tinha ligado antes, a dar conta do estado do Fai e de que ele podia voltar às aulas. Ao subir as escadas, o Hima ouviu música vinda do quarto do Fai e decidiu ir ver. Ao abrir a porta sem bater, viu o Fai — de t-shirt verde e calções cinzentos acima do joelho — a dançar… Os movimentos dele eram tão naturais e tão bonitos; acertava na perfeição no ritmo da música. E quando ouviu a letra da canção, a imaginação do Hima soltou-se da corrente em que ele a tentara manter presa toda aquela semana.


 (Nota da autora: desfrutem juntamente com o Fai — Ofrin, «Make it, Break it».)


🎶 While I'm confused by the numbers,

🎶 Though I'm drowning, I can't stop.

🎶 'Cause I just can't kick the habit.

🎶 But I never get enough

🎶 But you know I got many partners.

🎶 No, I never get enough

🎶 'Cause that's all that I have

🎶 Walking through the city

🎶 Now I'm making a decision

🎶 Pointing out what I've been missing

🎶 Come on, try to satisfy me.

🎶 But I never get enough.

🎶 Come here girl, come to bed

🎶 Come here girl, come to bed

🎶 I'm doing it while I'm doing it wild

🎶 Get loose while I'm doing it wild…


O Fai dançava de uma maneira tão erótica, e na cabeça do Hima desfilavam imagens do Fai a dançar ao som daquela canção só de boxers brancos, a convidar a que lhe tocassem no corpo. As imagens sucediam-se umas às outras: o Fai a beijá-lo com paixão e a encostá-lo à porta do quarto, a desabotoar o fato do Hima; o Hima a abraçar o Fai e a mordiscar-lhe a orelhinha, e o Fai a inclinar a cabeça para trás de prazer, a deixá-lo descer-lhe pelo pescoço; o Fai a amarrar-lhe as mãos com a gravata que acabara de tirar do pescoço do Hima, a descer com beijos pelo pescoço dele, cada vez mais abaixo; o Fai sentado em cima dele, a mexer as ancas sem pressa, a morder o lábio e a gemer docemente; o Fai a gemer cada vez mais alto e, em vez de «Khun», a chamar-lhe «Hia», o que excita o Hima loucamente…


— Khun… Khun… — a voz do Fai devolveu o Hima à realidade. O Fai tinha-se virado e via agora o Hima parado à porta, aparentemente perdido em pensamentos. A cara do Hima estava um pouco corada, mas isso até se notava menos do que a respiração acelerada dele.
— Sim? — perguntou o Hima com a voz rouca, porque, com todas aquelas imagens, tinha ficado com a garganta seca.
— O senhor está bem? Quer água? — perguntou o Fai num tom meigo, desligando a música e aproximando-se do Hima, porque lhe pareceu que o Hima não estava bem.


O Hima não respondeu, e o Fai, já ao pé dele, pegou-lhe no pulso, preocupado.


— Khun? — voltou o Fai a perguntar, a olhar para os olhos azuis do Hima. Nem o próprio Fai sabia porque lhe tinha pegado na mão — mas, agora, aqueles dois oceanos azuis dos olhos do Hima desabavam sobre ele como um tsunami, roubando-lhe a capacidade de respirar.


*******************


Notas da Autora:

• Kung Keow Wan (Gang Keow Wan) — um dos pratos mais famosos e populares da cozinha nacional tailandesa: o caril verde. Pasta de caril verde, leite de coco, rebentos de bambu, frango, manjericão-sagrado tailandês, beringelas tailandesas e, como manda a tradição, galanga, erva-príncipe, lima e outras ervas e folhas enchem este prato de uma combinação inesquecível de requintes. Faz-se bastante espesso e serve-se com uma taça de arroz, que absorve cada gota do caril.


• Khao Na Phet — o pato assado é reconhecido em toda a Ásia por a sua carne ser mais gorda e de sabor mais pronunciado do que a do frango. O prato tailandês Khao Na Phet é servido num prato com arroz: sobre o arroz põem-se pedaços escolhidos de pato, regados por cima com caldo de pato e folhas de acácia.


• Kai Yab — a famosa massa larga, que parece um charuto grosso num caldo dourado. A fazer-lhe companhia, outros ingredientes a boiar: língua, pulmão, pele de porco estaladiça e cebolinho. O fator decisivo do êxito do prato é a pimenta-preta e o seu aroma agradável e característico. Uma sopa tailandesa leve e saborosa, que sabe bem ao jantar.


• Khao Pad Sapparod (ou, simplesmente, «arroz no ananás») — antes de mais, uma apresentação espetacular: em vez do prato, o arroz vem servido na metade de um ananás fresco e, como é salteado com passas, fruta e pedaços do próprio ananás, resulta num prato muito aromático.


• Khanon Chan — sobremesa preparada segundo uma receita antiga do reino tailandês. O doce tradicional compõe-se de nove camadas. A textura é lisa, ligeiramente untuosa, e o aroma é herbáceo. Leva leite de coco, arroz moído, araruta e tapioca, além de açúcar e extratos de plantas, que tingem cada camada de uma determinada cor.

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