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08 – Maçãs da discórdia (parte 1 de 2)

O Fai foi à casa de banho tomar um duche. Já lá tinha visto uma estante alta de quatro prateleiras, onde estavam os artigos de banho: toalhas de vários tamanhos, champôs, cremes e mais uns frasquinhos em que o Fai não quis mexer. Abriu a água, despiu-se e entrou com cuidado no duche. O Fai, normalmente, gostava de tomar duches quentes, depois deles, sentia o corpo a descansar, a largar o cansaço acumulado ao longo do dia.


Já quase a acabar, o Fai sentiu uma tontura e apressou-se a sair do duche. Tirou uma toalha da prateleira e, depois de enxugar ao de leve o cabelo e o corpo, enrolou-a à volta da cintura.


Por causa do duche quente, a tontura do Fai piorou. Abriu a porta; o Hima estava sentado no sofá e ergueu os olhos ao som da porta a abrir-se. Ficou a olhar para o Fai, que caminhava devagar: as bochechas rosadas da água quente, para as quais caíam da franja molhada gotinhas de água, que lhe escorriam pelo pescoço abaixo, até à toalha na cintura. O Hima seguia as gotinhas de água que desciam pelo corpo do Fai.


— Khun… — disse o Fai baixinho, porque se sentia pior do que antes do duche. — Posso deitar-me? — perguntou o Fai, no mesmo tom baixo, e cambaleou.


O Hima levantou-se num ápice e foi ter com ele. O Fai já tinha quase chegado à cama quando um corpo forte, de roupão bordô, lhe apareceu à frente. O Hima meteu-se entre a cama e o Fai, para o caso de ele voltar a desmaiar — para que o Fai não batesse com a cabeça na borda da cama.


O Fai cambaleou, e o Hima estendeu-lhe a mão, a tentar não o deixar cair de costas. Agarrou-lhe o pulso e puxou-o para si. Pela inércia, o corpo do Fai chocou com o corpo do Hima, que deu um passo atrás e, ao embater na cama, perdeu o equilíbrio. O Hima caiu na cama, e por cima dele aterrou o Fai. Por instinto, o Hima abraçou o Fai. As caras deles estavam tão perto que conseguiam sentir a respiração um do outro. O coração do Hima falhou um par de batidas, enquanto olhava para o rosto afogueado do Fai e para os olhos toldados dele, a fecharem-se.


Ao Fai, a cabeça rodou-lhe ainda mais com a queda repentina, e ele deixou-a descair para a curva do pescoço do Hima. A respiração dele parecia tão quente, e os seus lábios quase tocavam o pescoço forte do Hima, por cujo corpo galopou um tropel de arrepios. O Fai virou a cabeça e pousou-a no ombro do loiro.


O Fai sentia o calor do corpo em cima do qual estava deitado. Até podia ter tentado levantar-se, mas o cheiro do corpo do Hima era tão atraente e, ao mesmo tempo, tão apaziguador, que ele simplesmente se rendeu. Os braços frescos do Hima, a abraçarem o Fai, fizeram o jovem sentir que a cara lhe tinha corado, e já não era nada do duche quente.


— Fai! Tu queres morrer? Não sabes que não se pode tomar um duche quente no estado em que estás?! — indignava-se o Hima.
— Khun… desculpe — sussurrou o Fai, e o Hima sentiu que o rapaz no seu ombro estava a sorrir.
— E ainda tens a lata de sorrir, fedelho? — O Hima levantou o tom, mas sabia-lhe tão bem abraçar o Fai que não fazia a mínima tenção de o largar.


Truz… truz… truz…


Nesse momento, bateram à porta, e ela abriu-se. O Hima inclinou a cabeça para trás, para ver quem entrava, e viu o Dao, que passou a soleira — e estacou ao vê-los.


— Que queres? — perguntou o Hima.


Diante dos olhos do Dao estava um quadro: o Hima deitado na cama, de roupão, e em cima dele um rapaz praticamente nu, com o rabinho tapado só por uma toalha. O jovem estava aninhado no ombro do Hima, de bochechas vermelhas e com uma respiração esquisita. O que é que o Dao havia de pensar?


— Ãhh… Tínhamos combinado encontrar-nos de manhã, esqueceste-te? — conseguiu o Dao, por fim, inventar uma resposta.
— Fai? Consegues levantar-te? — perguntou o Hima baixinho, quase a tocar-lhe na orelha com os lábios.


O Fai acenou que sim. O Hima percebia que ele estava a mentir, porque o corpo amolecido dele continuava deitado nos seus braços.


— Não me mintas! Vamos… devagar — disse o Hima em tom firme, e sentou-se com cuidado, quase com o Fai ao colo.


O Hima levantou-se da cama com cuidado, a segurar o Fai pela cintura com uma mão, para ele não cair, enquanto com a outra afastava o cobertor. Deitou-o na cama e tapou-o.


— Se te levantares da cama antes do almoço, vais arrepender-te. E depois não me acuses de ser cruel de mais! — disse o Hima com severidade.
— Hum — murmurou o Fai baixinho, porque não gostava de discutir — e, além disso, naquele momento nem estava em condições de se levantar.


O Dao observava a cena com interesse e um sorrisinho torto.


— Desculpem, interrompi-vos a meio de alguma coisa interessante? Volto mais tarde? Ou podemos ir trabalhar? — provocava o Dao o Hima.
— Daonya! — indignou-se o Hima, virando-se para o Dao; e o Dao limitou-se a rir.
— Pronto, pronto. Vamos para o gabinete. Ou estás a planear trabalhar com ele na cama? — O Dao não sossegava, porque achava divertidíssimo observar o comportamento do irmão. Dito isto, deu meia-volta e saiu do quarto a rir-se baixinho.


O Hima virou-se e olhou para o Fai, que parecia já estar a adormecer. Saiu do quarto e, fechando a porta, foi para o gabinete.


Ao entrar no seu gabinete, viu o Dao sentado no cadeirão — de certeza que ouvira a porta abrir-se, mas não se virou. O Hima avançou e sentou-se no seu cadeirão, diante do Dao, que sorria com malícia.


— Para de te portar como um rafeiro descarado! — disse o Hima.
— Mas o que é que eu fiz, Hia? Se tu entrasses e visses o que eu vi, pensavas exatamente o mesmo! — defendia-se o Dao. Encolheu os ombros: até queria picar o Hima, mas decidiu que não valia a pena irritar o tigre.
— Ontem estive nas corridas do Prem e descobri quem anda a atrair as atenções para a pista dele. Toda a gente lhe chama Cerejinha. Perdi uma corrida contra ele — disse o Dao, para o Hima parar de se zangar com as brincadeiras.
— É assim tão bom? Ou deixaste-o ganhar, para lhe chamares a atenção? — perguntou o Hima.
— É isso mesmo, Hia. Eu não me deixei ganhar. Se o tivesses visto, não acreditavas que aquela criança fosse capaz de uma coisa daquelas — disse o Dao, quase com admiração.
— Criança? — repetiu o Hima.
— Sim, Hia. À vista, não tem mais de vinte, de certeza. Um tampinha, não me chega aos ombros. Se calhar um aluno do secundário, ou um caloiro. O Prem guarda-o como um tesouro. Em público não tira o capacete; ninguém lhe sabe o nome verdadeiro. Deixei a «Ariel» no balneário deles. Não temos foto dele, mas eu vi-lhe a cara — contou o Dao.
— Queres aliciá-lo, ou fodê-lo? Faz o que quiseres — disse o Hima, dando a entender que o Dao podia usar os métodos que bem entendesse. O Dao sorriu.


Falaram ainda um bocado sobre a conversa da véspera com o Elijah, e o Hima contou ao Dao que, mal o Fai se recompusesse, ia trabalhar no Trinity como empregado de mesa. O Dao ficou um bocadinho surpreendido; era o melhor clube deles; mas, lembrando-se da manhã daquele dia, não disse nada.


Depois, cada um foi à sua vida. O Hima tomou um duche e vestiu-se, para ir para o escritório. Saiu do quarto e entreabriu a porta do quarto do Fai. Ao ver que ele dormia, o Hima fechou a porta sem barulho e desceu à cozinha.


— Tiazinha, nos próximos cinco dias é preciso fazer pequeno-almoço, almoço e jantar. Que alguém leve a comida ao quarto ao lado do meu. Entre as refeições principais, levem-lhe fruta ou sumo. Ele tem de se alimentar bem. Se recusar a comida, ligue-me — disse o Hima, e a mulher acenou, pousando-lhe na mesa uma caneca de café e um par de torradas.


O Hima tomou o pequeno-almoço e saiu da sala de jantar; pelo caminho, cruzou-se com o Non.


— Non! Hoje ficas em casa — ordenou o Hima, e o Non acenou.
— Hoje tomas conta do Fai. Vais vê-lo de hora a hora. Está proibido de se levantar da cama até ao almoço e, além disso, hoje proíbo que o deixem sair do quarto — continuou o Hima, e o Non acenou.


O Non estava contente por ficar em casa naquele dia, porque o tinham encarregado de olhar pelo Fai. Aquele rapaz fazia o Non sentir-se de uma maneira nova. E, embora o Non cumprisse sempre as ordens do chefe, desta vez ia cumpri-las com especial prazer.


O Hima saiu de casa e olhou para o relvado, de que o jardineiro já estava a tratar. Dirigiu-se ao carro, onde o Dao o esperava, e partiram para o escritório.


Como o chefe ordenara, o Non ia ver o Fai de hora a hora. Ao meio-dia, a tia Nari disse ao Non que o almoço estava pronto. O Non subiu ao segundo andar, bateu à porta e ficou a matutar… Como havia de tratar o rapaz? Khun? Nong? Ou simplesmente Fai? O chefe não tinha dito qual era o estatuto daquele rapaz ali em casa.


O Non abriu a porta e entrou no quarto. O Fai dormia, com o cobertor atirado para o lado e abraçado a ele com uma perna, como se fosse uma almofada comprida. E continuava só de toalha. O coração do Non pôs-se a bater como o de um colibri, e a cara corou-lhe com a visão sensual do Fai. Engoliu em seco, respirou fundo e, por fim, conseguiu pôr as ideias em ordem.


— Fai? Fai! Acorda, é hora de almoçar — disse o Non, e o Fai mexeu-se.
— Hã? Já é o almoço? Posso dormir mais um bocadinho? Só mais uma horinha? Por favor… — pediu o Fai, ensonado, num tom de súplica.
— Tens de comer. Se o chefe souber que não comeste a horas, sou castigado. E a ti também te cai em cima — disse o Non em tom calmo.


O Fai não queria arranjar problemas a ninguém, por isso abriu os olhos devagar — e deu-se conta de que não estava vestido.


— Hm… Pi, dê-me dez minutos para me vestir, e desço para comer — disse o Fai, a tentar disfarçar o embaraço.
— O chefe mandou não te deixar sair do quarto hoje. Desculpa. Trago-te o almoço daqui a quinze minutos — disse o Non com ar de culpa, porque não queria desiludir o Fai.
— Está tudo bem. Eu compreendo — disse o Fai, e sorriu ao Non.


Com aquele sorriso meigo na cara ensonada do Fai, o Non sentiu que o coração lhe ia saltar do peito. Acenou e saiu do quarto, fechando a porta.


O Non desceu à cozinha, onde a Nari já tinha o almoço pronto: Kung Keow Wan e Khao Na Phet, um copo de água e ainda duas tangerinas, porque ele não as tinha comido entre o pequeno-almoço e o almoço, por estar a dormir, e ela punha-as agora.


— Non, está tudo pronto. Posso levá-lo eu? Gostava de o conhecer e, já agora, de saber do que é que ele gosta de comer — pediu a mulher, e o Non acenou.
— Ele acabou de acordar. Suba daqui a uns dez minutos — disse o Non, e foi para a sala de estar.


A mulher subiu ao quarto e bateu; foi o próprio Fai que abriu a porta. Já se tinha vestido com as coisas que trouxera de casa: uma camisa azul simples e uns calções pretos, um pouco abaixo do joelho. O Fai sentia-se muito melhor; a cabeça já não lhe andava à roda.


— O seu almoço, Khun. Não sabia do que ia gostar, por isso escolhi eu, ao meu critério — disse a mulher, e entrou no quarto, para pousar o tabuleiro da comida na mesinha.
— Oh, não é preciso, tiazinha, não me chame Khun. Chame-me só Fai. Muito obrigado por ter feito o almoço — mas eu também o podia ter feito — respondeu o Fai com um sorriso, erguendo as mãos num wai, porque tinha à sua frente uma mulher mais ou menos da idade da mãe dele.
— Chamo-me Nari. Trato da cozinha e da limpeza na casa do Khun Hima. Se calhar queres alguma coisa especial para o jantar, Nong Fai? Diz, que eu faço — disse a mulher, que tinha logo ficado a gostar do rapaz.
— Ah, e há alguma coisa que não gostes de comer? E de que fruta gostas mais? — continuava a Nari a perguntar.
— Não se preocupe tanto, tia Nari. Eu como de tudo. Ao jantar pode ser um prato só — e que seja leve — disse o Fai, e sentou-se no sofá.


Olhou para as tigelas de comida e virou-se para a mulher.


— Tiazinha, isto é de mais. Não estou habituado a doses tão grandes. E se me fizesse companhia? Vamos comer juntos — propôs o Fai a sorrir; ela olhou para ele sem saber o que responder.
— Tiazinha, eu não quero comer sozinho. Por favor… — disse o Fai com meiguice, e ela lá cedeu. — Eu não digo nada ao seu chefe. Prometo — sussurrou o Fai, arrancando um sorriso à mulher.


Depois do almoço, o Fai não sabia em que se ocupar, porque não o deixavam sair do quarto. Lembrou-se do Fon, a quem prometera ligar mais tarde.


Encontrou o telemóvel, deitou-se na cama e marcou o número. Durante um tempo, ouviram-se os toques de chamada, mas do outro lado acabaram por atender.


📞— [Uau, sempre te dignaste a ligar-me.] — disse o Fon, descontente.
📞— “Desculpa, estava a dormir. Não te estou a tirar das aulas?” — perguntou o Fai, lembrando-se.
📞— [Não, papá. Estamos mesmo no intervalo. Conta: onde estás, como estás e, acima de tudo, com quem estás? Porque é que o professor disse que ainda faltas mais cinco dias?] — perguntou o Fon; porque, quando fora avisar o professor por causa do Fai, afinal o professor sabia ainda mais do que o Fon.
📞— “É uma história comprida, Fon. Conto-te quando nos virmos; não é conversa para telefone. Não precisas de te preocupar comigo” — respondeu o Fai, a pensar que à noite tinha de perguntar ao Khun Hima o que é que podia contar ao amigo.
📞— [Como te sentes? Comeste?] — perguntou o Fon.
📞— “Agora já estou melhor. Ontem perdi os sentidos. De manhã ainda tinha umas tonturas. Mas, depois de um bom pequeno-almoço e de dormir, sinto-me muito melhor” — disse o Fai a verdade, a sorrir, porque o Fon era a única pessoa para quem ele não tinha segredos.
📞— [O QUÊ?! Desmaiaste?! Tu não te podes esfalfar assim, Fai. Se morreres, a dívida da mãe não diminui nada com isso!] — gritava com ele o Fon.
📞— “Sim, eu sei. Já te disse: não te preocupes. E tu, almoçaste? Ou estiveste outra vez a mirar os rapazes do refeitório?” — decidiu o Fai brincar, para aliviar o ambiente.
📞— [Sim, papá. Comi. Omelete e arroz frito com manjericão. E tu? Não me digas que só tomaste o pequeno-almoço!?] — o Fon não parava de ralhar com ele.
📞— “Sim, eu almocei. Kung Keow Wan, Khao Na Phet e duas tangerinas. Estás contente? Para de ralhar comigo como se eu fosse uma criança” — disse o Fai.
📞— [Uau, tu, que poupas cada baht — de onde veio o dinheiro para um almoço desses? Ganhaste a lotaria e não me disseste?] — perguntava o Fon ao amigo, de boca aberta, porque normalmente o Fai não gastava mais de trinta baht num almoço.— [Pronto… tenho de ir para as aulas. Esta conversa não ficou terminada. Ligo-te à noite.] — disse o Fon, porque já estava atrasado.
📞— “Vai, despacha-te, chegar atrasado é feio. Ah, Fon” — podes ligar até às dez da noite, o mais tardar? Depois dessa hora, não tenho a certeza de poder atender — lembrou-se o Fai, porque o Hima tinha dito que ia controlar pessoalmente a hora a que o Fai se deitava.
📞— [Espera lá...desde quando é que tu te deitas assim tão cedo?] — o Fon ficou tão espantado que nem para brincar teve cabeça.
📞— “O médico disse que tenho de cumprir um regime de sono e de alimentação. Quero voltar depressa às aulas, que tenho o projeto aí à porta. Chega de perguntas, vai para as aulas” — respondeu o Fai, e terminou a chamada.


O Fai pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e, com a mão na testa, pôs-se a pensar: como contar ao Fon… e o que é que lhe havia de contar.


Ainda ficou um tempo deitado na cama; depois, veio-lhe o tédio. Voltou a esticar-se para o telemóvel, abriu o browser e começou a procurar material para o projeto. O Fai levantou-se, foi ao armário, abriu-o e tirou um bloco de notas e uma caneta, para tomar apontamentos para o projeto. Deitou-se atravessado na cama, com os pés para a porta, e embrenhou-se de tal maneira que nem deu pelo tempo a voar. Estremeceu quando bateram à porta.


A porta abriu-se e entrou o Non.


— Fai, trouxe-te maçãs. São de castas diferentes; a tia Nari disse para provares todas e dizeres de qual gostas mais — disse o Non, pousando na mesa um prato de maçãs cortadas em gomos.
— Sim. Obrigado, deixa na mesa. Logo provo — disse o Fai, sem despregar os olhos do bloco e do telemóvel.
— Fai! Queres que ligue ao chefe? — tentou o Non ameaçá-lo, porque concluiu que o Fai tinha recusado com delicadeza.
— Liga. Mas diz-lhe que não tenho tempo para falar com ele. Se queres ver o prato vazio, come-as tu — ou dá-me tu de comer. Estou ocupado — respondeu o Fai; porque, quando estava embrenhado nalguma coisa, estava-se nas tintas para quaisquer ameaças ou propostas. Só o Fon sabia que, para desviar a atenção do Fai para outra coisa, era preciso arrancar-lhe das mãos aquilo que o ocupava.


O Non não esperava que a ameaça de ligar ao chefe não fizesse efeito nenhum no Fai. Não sabia o que fazer, a olhar ora para as maçãs, ora para o Fai.


— Olha que eu dou-te mesmo de comer! — continuava o Non a ameaçar.
— Está bem. Se fazes tanta questão — dá. Só não me distraias, pode ser? — disse o Fai com toda a calma, sem parar de escrever no bloco.


O Non corou ao ouvir o que o Fai disse. O coração bateu-lhe com mais força. Pegou no prato da fruta e num palito e sentou-se na cama, ao lado dele.


— Achas que estou a brincar? — perguntou o Non, para tentar pressioná-lo outra vez.


O Fai, sem olhar para ele, abriu a boca, à espera de um gomo de maçã.


— Então? — perguntou o Fai, sem parar de percorrer a página no smartphone e de apontar no bloco.


O Non estava espantado com o comportamento do Fai: nunca pensou que aquele rapaz sossegado, sempre a sorrir e a concordar com tudo, se pudesse portar com tanto descaramento. Espetou um gomo de maçã no palito e levou-o aos lábios do Fai. O Fai abriu a boca e sacou o gomo com os dentes, sem interromper os apontamentos. O Non ia-lhe dando as maçãs, e o Fai comia-as de boa vontade.


O Non observava o Fai enquanto lhe dava de comer: o olhar do Fai estava tão concentrado e tão sério, ele parecia um encanto. De vez em quando, quando lia alguma coisa no telemóvel, metia a ponta da caneta na boca e mordiscava-a ao de leve. Quando encontrava alguma coisa interessante, o Fai sorria, a mostrar os dentinhos brancos. Com todos aqueles gestos, o Non começou a sentir-se excitado. De caneta na boca, o Fai era tão sexy que pouca gente conseguiria resistir ao carisma dele.


— De qual gostaste mais? Se eu não disser à tiazinha, ela queixa-se ao chefe — perguntou o Non.
— O terceiro gomo e o quinto — respondeu o Fai, virando a folha do bloco e continuando a escrever.


O Non levou o prato e saiu do quarto. Sentia um aperto dentro das calças, por isso despachou o prato na cozinha a correr, disse à tiazinha qual era a maçã, e meteu-se na casa de banho…


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