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07 – Marido ou esposa? (parte 2 de 2)

 A manhã seguinte


O Fai acordou com vontade de ir à casa de banho e, ao sentir um incómodo no braço, tentou focar a vista. A última coisa de que se lembrava era de ir a andar na rua, debaixo de chuva, com a mala ao ombro, e de a cabeça lhe começar a andar à roda. Quando a visão voltou ao normal, viu por cima de si um teto desconhecido. Ao virar a cabeça para o lado das sensações desagradáveis no braço, o Fai viu um soro.


Onde estou? — pensou o Fai.


Tentou sentar-se com cuidado; ainda sentia uma ligeira tontura. E ficou imóvel, ao sentir nos pés descalços a frescura do soalho e da lateral da cama. Olhou para si e percebeu que tudo o que tinha em cima era os seus boxers e uma t-shirt branca que não era dele. O Fai decidiu levantar-se e, apoiando-se no suporte do soro, dirigiu-se à primeira porta que viu no quarto.


Para seu azar, era o quarto de vestir. Lá dentro havia um grande espelho de corpo inteiro, e o Fai viu nele a sua figura: o cabelo desgrenhado do sono caía-lhe para a cara, a tapar os olhos e as olheiras escuras por baixo deles. A t-shirt era dois números acima do dele, por isso o decote em V ficava largo de mais, se o Fai se inclinasse só um bocadinho, ver-se-ia todo o seu peito e a barriga. Desceu o olhar e viu que a t-shirt acabava uns dois centímetros abaixo da bainha dos boxers, a deixar à vista as pernas compridas e esguias. Se alguém entrasse naquele momento no quarto, teria achado a imagem daquele rapaz muito sedutora.


Ena, este quarto de vestir é do tamanho do meu quarto. — passou pela cabeça do Fai, enquanto media o espaço com os olhos.


O Fai suspirou, porque, por causa do soro, tinha líquido a mais no organismo. Por isso, teve de se arrastar com o suporte através do quarto todo, até à outra porta, não longe da cama.


Enquanto caminhava devagar, ia observando o quarto: era do tamanho da sala de estar da casa dele. À entrada, junto à parede da esquerda, uma grande cama de casal em madeira escura, com os pés e a cabeceira entalhados. Dos dois lados da cama, duas mesas de cabeceira, que mais pareciam elegantes mesinhas de pernas arqueadas para fora; em cima de cada uma, um pequeno candeeiro de mesa. À direita da porta, encostado à parede, um sofá azul de dois lugares e uma mesinha de centro em vidro. Entre o sofá e a janela grande ficava a porta do quarto de vestir. Na janela, uns cortinados azuis, pesados, de um tecido espesso com relevo.


O Fai, a cambalear, chegou à porta e, ao abri-la, suspirou de alívio. Finalmente, era a casa de banho. Entrou devagar, e os pés metálicos do suporte do soro chiaram nos ladrilhos, por o Fai se apoiar nele ao andar. Encolheu-se com aquele som, com medo de acordar as outras pessoas. Porque o Fai não sabia onde estava, nem quem dormia nos quartos ao lado. Não queria causar incómodos às pessoas daquela casa.


Despachados os seus assuntos na casa de banho, lavou as mãos e voltou ao quarto. O Fai viu a sua mala no sofá e lembrou-se de que não tinha conseguido avisar o amigo. Dirigiu-se ao sofá, para tirar o telemóvel da mala.


Com o telemóvel na mão, o Fai sentou-se no sofá, porque a cabeça lhe andava à roda, e viu várias chamadas perdidas e SMS do Fon e do trabalho. Antes de mais, o Fai olhou para o canto superior do ecrã e viu que já eram quase sete da manhã. Ia ligar ao amigo, mas lembrou-se de que, na véspera, o Fon tinha estado nas corridas, e de que hoje as aulas dele eram só na segunda metade do dia. Por isso, abriu primeiro o Line, para ler as mensagens.


Quando os horários dele e do Fon não coincidiam, o Fai ia para a universidade de autocarro. Ligou o som do telemóvel, para o caso de lhe telefonarem, mas baixou o volume.


Ao olhar para o saco no suporte, viu que a infusão estava quase no fim. O Fai correu a patilha do tubo para cortar o fluxo, tirou um lenço da mala e, retirando a agulha, apertou o lenço contra o sítio da picada e dobrou o braço pelo cotovelo. Sem se levantar do sofá, tirou da mala as coisas para a universidade. O Fai preparava-se para ir tomar um duche.


Levantou-se do sofá e encaminhou-se para a casa de banho, ligeiramente a cambalear. A meio do quarto, a cabeça começou a andar-lhe à roda, e ele levou a mão à testa e fechou os olhos, para não cair.


Normalmente, o Hima tem um sono muito leve, por isso, de manhã, acordou com um barulho que não soube identificar — e lembrou-se de que, agora, no quarto ao lado morava o Fai. Levantou-se da cama, foi ao toucador, penteou-se e prendeu o cabelo num rabo de cavalo. No pufe, diante do toucador, estava um roupão bordô. O Hima vestiu-o por cima e atou o cinto, porque lhe pareceu que ir ter com o Fai só de calças de pijama não era grande ideia. Saiu do seu quarto e abriu a porta do quarto do Fai.


— Estás bem? — perguntou o Hima, a olhar para o Fai, que segurava a cabeça com a mão.


Ao ouvir a voz, o Fai abriu os olhos e virou-se para a origem dela. A cabeça ainda lhe girava e via o recém-chegado desfocado, mas lembrava-se de que aquela era a voz do homem que o tinha comprado.


— Sim, Khun, está tudo bem. Só me levantei do sofá depressa de mais — respondeu o Fai com um sorriso, embora não se sentisse lá muito bem. Não estava habituado a queixar-se.


O Hima viu-lhe a roupa nas mãos e admirou-se.


— Onde é que tu vais? — perguntou, mas com o olhar pregado às pernas brancas do Fai.
— Tenho aulas às nove. O senhor prometeu que eu ia estudar — respondeu o Fai.


As sobrancelhas do Hima franziram-se e ele, aproximando-se do Fai, tirou-lhe as coisas das mãos.


— Enquanto o médico não te observar e não disser que podes ir à universidade, ficas aqui — disse o Hima com severidade, a olhar para a cara pálida do Fai.
— A julgar pela tua palidez e pelas tonturas, que até eu vejo — hoje é que não vais mesmo a lado nenhum — continuou o Hima.
— Não precisa de se preocupar tanto, Khun. É só um leve mal-estar — respondeu o Fai com um sorriso.
— Tu… — O Hima preparava-se para lhe ralhar, mas viu o sorriso dele e ficou parado.
— Tu perdeste os sentidos. Isso, para ti, é um leve mal-estar? — continuou, já mais calmo.
— Ligas tu para a universidade, ou faço-o eu? — pressionava o Hima, em tom severo.
— Eu ligo a um amigo — respondeu o Fai, e foi, a cambalear, até à cama, onde tinha deixado o telemóvel.


O Hima observava-o, mas o olhar descia-lhe, sem ele querer, do decote fundo no peito para as perninhas esguias.


— Ligas à minha frente. Agora — ordenou o Hima. O Fai sentou-se na cama, pegou no telemóvel e marcou o número do Fon.
📞— [Sim…]— soou a voz ensonada do Fon, que atendeu a chamada sem olhar para o ecrã.
📞— “Fon, desculpa ter-te acordado. Hoje não vou à universidade.” — disse o Fai, de maneira a que a pessoa que estava no quarto o ouvisse com toda a nitidez.
📞— [O quê? Porquê? Estás doente? Passo por tua casa antes das aulas.]— Ao ouvir as palavras do amigo, o Fon acordou num instante, porque o Fai não faltava às aulas, a não ser com uma doença a sério.
📞— “Não precisas de vir. Não estou em casa” — respondeu o Fai com voz de culpado.
📞— [Espera lá… O quê? Como assim, não estás em casa? Engataste alguém ontem, e foi por isso que não chegaste ao trabalho e ainda não voltaste para casa? Cof-cof…] — provocava-o o Fon.
📞— “Fon! Não digas disparates, para com isso. Diz só ao professor que eu entrego o relatório mais tarde” — travou o Fai o amigo, porque sabia que a imaginação dele já tinha descarrilado para o lado errado.
📞— [Oh-hó, arranjaste uma esposa e estás a tentar escondê-la de mim? És um amigo horrível.] — O Fon estava tão interessado que não conseguia parar.
📞— “Fon! Tu ouves o que estás a dizer?”— indignava-se o Fai com o descaramento do amigo.
📞— [O quê? Não é esposa? Arranjaste um marido?] — perguntou o Fon, todo interessado.
📞— “Ufa… não quero discutir contigo. Espera só que eu volte à universidade, e vais ver o que te faço, bebé!” — ralhava o Fai com o amigo, esquecido de que o Hima estava ali no quarto.
📞— [Sim, sim, papá. Agora é que já não consigo adormecer. Vais ter de me contar tudo.] — O Fon não sossegava.


O Hima ouviu as palavras «bebé» e «papá» — e aproximou-se do Fai.


— Acaba a conversa, Fai — disse o Hima com firmeza, sem se ralar com o que pudesse pensar o interlocutor do Fai.
📞— [Quem é esse, Fai? Porque é que eu estou a ouvir uma voz de homem? Fai! Fai!] — A chamada desligou-se, deixando o Fon sozinho com a sua imaginação fervilhante.
— Khun! — O Fai levantou o tom quando o Hima lhe arrancou o telemóvel da mão e terminou a chamada.
— Chamo-me Hima. O médico não tarda aí para te observar — disse ele, com uma expressão imperturbável.
— Khun Hima, não é preciso incomodar o médico tão cedo. Eu durmo só mais um bocadinho e fico melhor — disse o Fai a sorrir; mas nesse momento a barriga traiu-o, com um ronco bem alto.
— Tens fome? Vou mandar trazer o pequeno-almoço — disse o Hima, lembrando-se de que o Fai, de certeza, não comia pelo menos desde as três da tarde do dia anterior.
— Posso fazê-lo eu. Não vale a pena incomodar ninguém — protestou o Fai, a tentar não dar trabalho.
— Non! — chamou o Hima em voz alta, e pela porta entrou o guarda-costas alto que o Fai tinha visto na véspera.
— Sim, chefe? — perguntou o Non, mas o olhar dele resvalou para o Fai, sentado na cama de maneira tentadora, só com a t-shirt branca.
— Diz à tia Nari que faça papa com legumes e um sumo de laranja. Quando ela acabar, trazes tudo para aqui — disse o Hima sem se virar para o Non; em vez disso, olhava para o Fai como quem lhe mostra que ele já tinha perdido.
— Sim, chefe — recompôs-se o Non, e saiu do quarto.
— Khun Hima, podemos conversar? — perguntou o Fai em tom sério, porque na véspera tinha planeado esclarecer a situação e combinar como iria pagar a dívida da mãe.
— Queres saber como é que, exatamente, vais pagar a dívida da tua mãe? — perguntou o Hima sem rodeios, e o Fai acenou.
— Trabalho num clube, como empregado de mesa, cinco dias por semana. O ordenado não é lá muito grande, mas entrego-o todo — disse o Fai com franqueza, e sorriu.
— Já lá não trabalhas. A farda, devolvem-na ao clube os meus homens. Ontem liguei para o clube e disse que não voltavas ao trabalho — disse o Hima com calma.
— Khun! É o meu único ganha-pão! — indignou-se o Fai, a olhar o Hima nos olhos.
— Que grande teimoso. Não te ensinaram que interromper é feio? Ainda não acabei. Quando estiveres recuperado, vais trabalhar como empregado de mesa no meu clube. O ordenado base vou descontá-lo por conta da dívida; as gorjetas ficam todas para ti. O contrato já o preparei. Setenta mil por mês é o que me vais entregar — explicou o Hima, imperturbável.
— Quanto? Khun, um simples empregado de mesa ganha setenta mil? — voltou o Fai a perguntar, espantado, para ter a certeza do número que tinha ouvido. O Hima acenou.
— Vais viver aqui. Este é o teu quarto. Se precisares de alguma coisa para os estudos, diz aos meus homens — eles arranjam tudo. Para a universidade e para o trabalho, levam-te os meus homens, e também te vão buscar. A única regra: ninguém pode saber onde fica esta casa — continuou o Hima.
— Pelo alojamento e pela comida não tens de pagar. A partir de hoje, tu pertences só a mim — disse o Hima; e, nesse momento, entrou o Non pela porta, com um tabuleiro nas mãos: uma tigela de papa e um copo de sumo.


O Non ouviu a última frase que o Hima disse ao Fai — e ficou muito espantado com o tom com que o chefe a dissera. O Hima sempre respeitara todos os que trabalhavam para ele, e nunca os considerara propriedade sua. O Non ficou um instante imóvel, com o tabuleiro nas mãos.


— Eu compreendo, Khun — disse o Fai num tom meigo, como se não tivesse ouvido as palavras do Hima, e sorria-lhe com doçura.


Ao ouvir a voz do Fai, o Non voltou a si.


— Chefe, a comida está pronta — disse o Non, a olhar para o Fai e a dar um passo em frente.
— Ótimo. Pousa na mesa e vai. Quando o doutor Dew chegar, que suba logo para aqui. Eu espero cá — disse o Hima, e foi sentar-se no sofá.


O Non acenou, pousou o tabuleiro na mesa e saiu do quarto, fechando a porta.


— Senta-te e come. Não comes desde ontem. Para estudares e trabalhares, precisas de forças — disse o Hima, e convidou-o com um gesto da mão a sentar-se no sofá, ao lado dele.


O Fai levantou-se e dirigiu-se ao sofá. Não se apressou, porque ainda se sentia mal. Sentou-se no sofá e pôs-se a comer, porque percebia que não valia a pena envergonhar-se nem discutir. Vencida metade da tigela, bebeu meio copo de sumo. A papa estava saborosa, mas o Fai não estava habituado a comer tanto.


Virou-se para o Hima, que estava recostado no encosto do sofá, de pernas cruzadas. O braço dele repousava, senhorial, no braço do sofá. As abas do roupão do Hima tinham-se entreaberto ligeiramente com a pose, a desnudar parte do peito musculado — e o Fai reparou.


Uhhh… Assim, ele fica com um ar tão… giro… — pensou o Fai.


O Fai era pansexual. Não ligava ao género — simplesmente andava com quem lhe agradava. Mas, nos últimos tempos, não tinha ninguém, porque, entre os problemas de dinheiro e a ocupação constante, o parceiro anterior o deixara. E mais uma coisa: sempre fora ele o ativo.


Truz-truz.


Bateram à porta, e ela abriu-se. Entrou um homem de uns quarenta anos, com uma pequena maleta na mão.


— Bom dia, Khun Hima — disse ele, e ergueu as mãos num wai.
— Doutor Dew, este é o Fai. Fai, este é o doutor Dew; foi ele que ontem te pôs o soro… Podes observá-lo — disse o Hima, e o Fai ergueu as mãos num wai, a cumprimentar o médico.


O Dew dirigiu-se ao sofá; o Hima levantou-se, cedendo o lugar ao médico, e passou para a cama. O médico verificou-lhe o pulso e a tensão, auscultou-lhe o coração e perguntou ao Fai como se sentia — e ele respondeu com franqueza. O doutor Dew tirou uma folha da maleta.


— Aqui tem, Khun Hima. Os resultados das análises de sangue do jovem. Pelos resultados do exame e pelas análises, tem esgotamento e subnutrição. A avaliar pelo estado em que está agora, recomendar-lhe-ia que cumprisse um regime de alimentação e de sono nos próximos cinco dias. Depois disso, observo-o outra vez e, se estiver melhor, pode voltar à vida normal — disse o médico, a olhar alternadamente ora para o Hima, ora para o Fai. Ambos se ensombraram com as palavras do médico.


O próprio Hima não percebia porque é que ficou tão contrariado por aquele miúdo se ter esfalfado até àquele ponto. E o Fai afligia-se por, agora, não poder sair para lado nenhum durante uma semana — e faltar às aulas.


— Se não tiveres alergias, aconselhava-te ainda um complexo vitamínico e, se tiveres problemas em dormir — e vais ter —, também um sedativo leve. Toma. As vitaminas tomam-se duas vezes por dia; o sedativo, um comprimido meia hora antes de deitar — concluiu o médico, pondo nas mãos do rapaz um frasco de vitaminas e uma embalagem de comprimidos; ao Hima, entregou-lhe a folha com os resultados das análises, e saiu do quarto. — Vou dar ordens para que te tragam comida três vezes ao dia. Para além disso, ao longo do dia tens de comer no mínimo quatro frutas diferentes, que te trarão entre as refeições principais, ou sumo. Tens de te deitar às dez. E isto não se discute. A toma das vitaminas, de manhã e à noite, e do sedativo antes de dormir, vou controlá-la eu pessoalmente — disse o Hima num tom calmo, mas severo.
— Não é preciso, Khun Hima. É demasiada trabalheira para si. Eu consigo seguir sozinho as indicações do médico. Também quero voltar depressa às aulas — disse o Fai em voz baixa.
— Ouviste o médico? Tens de comer e de dormir. Portanto, acaba a papa — disse o Hima com firmeza.
— Ouvi, mas posso primeiro tomar um duche e trocar de roupa? É que, assim, sinto-me… — o Fai olhou para si próprio e sorriu de leve.
— …como depois de uma noite escaldante — continuou o Fai, e virou-se para o Hima com um sorriso.


O Hima corou ligeiramente: o cérebro dele, sem autorização, desenhou-lhe uma imagem na cabeça — o Fai a gemer, com as bochechas rosadas de excitação, a morder o lábio de baixo, gotinhas de suor a escorrerem-lhe pelo corpo…


Estás a brincar com o fogo, miúdo… A minha paciência não tem nada de angelical. Se acordares o Diabo, depois não te queixes de o caldeirão estar quente.— Pensou o Hima.


— És sempre assim tão direto, Fai?! — perguntou o Hima, para disfarçar o embaraço.
— Disse alguma coisa de mal? — perguntou o Fai, com espanto sincero.
— Vai ao duche. Se te sentires mal, chama-me. Eu fico aqui — disse o Hima. O Fai acenou; não queria nada desmaiar na casa de banho.


🍃 🍃 🍃


No corredor, o Dew cruzou-se com o Dao, que já estava de fato e o olhava com ar interrogativo.


— O Khun Hima está no quarto do rapaz. Isto está interessante… — disse o Dew com um sorriso, e começou a descer as escadas.


🍃 🍃 🍃


Flashback — a noite da véspera, o Hima


Depois das três horas de conversa com o Elijah, o Hima pegou no telemóvel e ligou ao homem que normalmente se ocupava da recolha de informações. Pediu-lhe que averiguasse tudo sobre o Fai. Meia hora depois, chegou-lhe um documento ao correio eletrónico. O Hima leu-o e percebeu que o Fai era um rapaz normal, a quem o destino não tinha poupado. Agora sabia quase tudo sobre o Fai. Ao lembrar-se do nome do clube na farda, o Hima procurou-o na internet. Leu as opiniões dos clientes, e o nome do Fai aparecia lá a toda a hora. Os clientes elogiavam-no pelo bom serviço e pelo sorriso encantador, e muitas vezes juntavam às opiniões fotos em que o Fai sorria de orelha a orelha. Ele olhava para as fotos e nem ele próprio percebia porque é que aquelas fotos o irritavam tanto. Ao olhar para o relógio, viu que já eram quase dez da noite, e o Hima ligou para o clube onde o Fai trabalhava.


📞— “Passe-me ao gerente” — disse o Hima com severidade, e o interlocutor não se atreveu a discutir.
📞— [Diga.]
📞— “A partir de hoje, o Fai já não trabalha aí. Não precisa de acerto de contas: a compensação, pago-lha eu. A farda, leva-a amanhã um homem meu” — disse o Hima, e desligou.


O Hima abriu mais uma vez o ficheiro sobre o Fai e leu-o com atenção. Ficou a saber que o Fai estudava Engenharia com uma bolsa desportiva. Na escola, tinha sido o melhor em muay thai*


(N. da A.  muay thai — o boxe tailandês. No muay thai moderno podem dar-se golpes com os punhos, as canelas, os cotovelos e os joelhos, e é por isso que lhe chamam «o combate das oito armas».) 


E, o mais importante: o documento continha informação sobre os pais do Fai. Foi então que o Hima percebeu que a Kalliou não tinha mentido.


Fim do flashback


🍃 🍃 🍃


O Dao ficou a olhar para o médico que se afastava e decidiu, finalmente, ir conhecer o novo inquilino da casa deles. Já se preparava para abrir a porta quando viu o Kat a descer as escadas.


— Kat. Vem comigo — chamou-o o Dao, e o outro estremeceu.


O Kat seguiu-o, obediente, até ao gabinete do Dao, e ia muito nervoso, porque não tinha conseguido cumprir a missão que o chefe lhe dera na véspera.


— E a foto daquele rapaz? — perguntou o Dao. O Kat baixou a cabeça.
— Chefe… desculpe… Ontem vigiei a pista até à uma e meia da madrugada, mas não vi o rapaz sair. Nem quando a pista fechou ele saiu — disse o Kat, baixinho e com ar de culpado.
— Tens de o encontrar. Dou-te uma semana — disse o Dao em tom severo, e o Kat suspirou de alívio por não ter sido castigado.
— Traz-me a «Úrsula», e a mexer. Se eu ontem não tivesse deixado a «Ariel» no balneário, não tínhamos rigorosamente nada. Despacha-te — disse o Dao, irritado, e recostou-se no cadeirão.


O Kat saiu do gabinete a correr e voltou cinco minutos depois com um portátil pequeno, que tinha gravada a inscrição «Úrsula para Ariel»,  uma das melhores criações deles: um sistema de escuta que funciona a uma distância de até duzentos quilómetros. O Dao abriu-o e ouviu os últimos ficheiros.


— Raios, ele é bom. Nem quando estão só os dois o Prem o trata pelo nome… — resmungou o Dao.
— Mas eu encontro-te na mesma, Cerejinha… — disse o Dao, ao sair do gabinete, voltando para o quarto do Fai.


Truz… truz… truz…


O Dao bateu à porta e abriu-a. Mal deu um passo para lá da soleira, ficou especado e perdeu a fala…

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