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06 – Marido ou esposa? (parte 1 de 2)

O Prem tirou o smartphone, entrou na aplicação e introduziu o valor pretendido. O Dao encostou o cartão ao telemóvel dele, ouviu o sinal de que a transferência estava concluída e voltou para as bancadas.


O Dao levantou o braço e olhou para o relógio, que marcava quase onze da noite.


📩 TLIM.


Chegou uma mensagem ao telemóvel do Kat. Ele tirou-o e leu-a. Ao ver a foto anexada à mensagem, ficou especado.


— Chefe… Chegou uma SMS de casa, do Leon. Dizem que aconteceu alguma coisa — disse ele baixinho, mostrando-lhe a foto.


O Dao olhou para a foto e franziu as sobrancelhas. Na foto estava o carro do Hima, estacionado no relvado.


— Vamos voltar — disse ele, sério, desiludido por ter de ir para casa antes do tempo.
— Sim, chefe — disse o Kat, e encaminharam-se para a saída da pista precisamente no momento em que o Fon rodava para a linha de partida para a última corrida — mas isso o Dao já não viu.
— Kat, tenho uma missão para ti. Ficas aqui até as corridas acabarem. Preciso de uma foto daquele rapaz das bancadas, o da t-shirt vermelha — disse o Dao, e o Kat acenou, dirigindo-se à saída principal dos visitantes.


De volta ao carro, estacionado não muito longe da pista, o Dao sentou-se lá dentro e marcou o número do Hima.


— O que aconteceu? Não tinhas ido só ver um devedor? Estás bem? — perguntou logo o Dao, preocupado.
— Sim. Estou bem. Quando chegares a casa, temos uma coisa para discutir — disse o Hima com calma.
— Estou em casa dentro de uma hora — respondeu o Dao e, terminada a conversa, acenou ao Mix que podiam ir para casa. Apesar de ter planeado esperar pelo fim das corridas e falar com o Cerejinha.


🍃 🍃 🍃


O Cerejinha ganhou também esta corrida. Quando desmontou da mota, esperava-o o Prem, a tamborilar nervosamente com o dedo no ecrã do smartphone. O rapaz que o Fon acabara de vencer tinha vindo à corrida com o seu próprio fato, por isso não precisava de passar pelo balneário.


— O que se passa, Pi? Estás com um ar de quem tem problemas — perguntou o Fon.
— Vamos falar no balneário — disse o Prem, percebendo que o Fon estava cansado e precisava de trocar de roupa. E, além disso, lá dentro nunca havia olhos nem ouvidos a mais.


Os dois entraram na sala e o Prem fechou a porta. O Fon foi trocando de roupa, e o Prem sentou-se no cadeirão, à secretária.


— Vê a conta — disse o Prem.


O Fon olhou para ele e esticou-se para ir buscar o telemóvel à mochila. Abriu a SMS do depósito e ficou pensativo.


— Pi, normalmente pagas as corridas em dinheiro vivo. E porquê tanto? — perguntou o Fon, porque por hoje devia receber sessenta e nove mil, e na conta tinha cem

.

O Prem tirou do bolso um envelope com dinheiro e estendeu-o ao Fon. O Fon esticou a mão, desconfiado, pegou no envelope, abriu-o, e deixou escapar um «ah» de espanto.


— Não estou a perceber, Pi… — disse o Fon, a olhar para o Prem com ar interrogativo.
— Para ser franco, Cerejinha, eu também não percebo lá muito bem. O que é que aconteceu no balneário, depois da corrida com aquele rapaz? — perguntou o Prem, e o Fon ficou a pensar.
— Oh… nada de especial, Pi'Prem. Ia para o duche e disse-lhe que tinha dez minutos para se trocar — disse o Fon, a lembrar-se do toque da mão quente no seu ombro.
— Depois de ele sair, esse rapaz disse que estes cem mil eram pessoalmente para ti, Cerejinha. Por isso estou curioso: o que é que tu fizeste? — voltou o Prem a perguntar, a olhar para o Fon com desconfiança.


O Fon sorriu e não disse mais nada.


— Se alguém decidir desafiar-me, escreve-me, Pi. Agora tenho de ir ter com o «papá» ao clube. Tenho medo de que amanhã ele volte a adormecer nas aulas, se eu não lhe comprar umas horas de sono — disse o Fon, e tirou do armário uma roupa completamente diferente daquela com que estivera nas bancadas.


O Fon ia muitas vezes ao clube, ter com o Fai. Reservava a sala VIP, para a qual podia convidar qualquer funcionário do clube, um empregado de mesa ou um barman, se eles não se importassem. O Fon escolhia sempre o Fai, e pagava todo o tempo de trabalho que lhe faltava, para que ele simplesmente dormisse na sala enquanto o Fon jogava no telemóvel. Acordava o Fai quinze minutos antes de o clube fechar e depois levava-o a casa; e, de manhã, ia outra vez buscá-lo, para o levar à universidade.


O Prem acenou, compreensivo. Conhecia o Fai e a situação difícil dele, porque, de vez em quando, ele vinha com o Fon às corridas.


O Fon vestiu uma t-shirt branca às riscas vermelhas, de decote fundo, e pôs por cima um casaco azul que assentava na perfeição com as calças azuis. Despediu-se do Prem, pegou na mochila e saiu para a scooter pela entrada do pessoal.


Montou-se na sua scooter e seguiu para o clube; o On the Sky, onde o amigo trabalhava. A viagem levou-lhe pouco mais de uma hora.


Ao entrar no clube, o Fon olhou em volta e não viu o Fai. Apanhou pelo braço o primeiro empregado de mesa que lhe passou à frente dos olhos.


— Onde está o Fai, Black? — perguntou, inclinando-se para o ouvido dele, porque a música estava alta.
— Não sei, Pi'Fon. Hoje não veio. Estamos com falta de braços. Desculpa — disse o jovem, e foi ter com os clientes.


O Fon franziu o sobrolho, saiu do clube e marcou o número do amigo. Ligou-lhe umas cinco vezes, mas ninguém atendeu. Não se atreveu a ir a casa do Fai, porque era já quase uma da manhã. De tantos em tantos meses, acontecia o Fai falhar o trabalho, simplesmente por adormecer em cima dos trabalhos de casa ou a ver televisão enquanto esperava pela hora de sair.


Por isso, o Fon montou-se na scooter e foi para casa, a matutar em quem seria aquele rapaz bonito da pista. Nem sequer lhe sabia o nome, mas tinha ficado com os olhos castanhos dele bem gravados, e com o aroma da água-de-colónia, e com a mão quente no seu ombro.


Ao chegar a casa, o Fon abriu o Line e viu que o Fai não tinha lido a mensagem que ele lhe mandara depois do jantar. Foi ao duche e meteu-se na cama, levando o telemóvel consigo para dar uma vista de olhos ao Instagram. Quando os olhos já se lhe começavam a fechar, o Fon pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e adormeceu.


🍃 🍃 🍃


A casa do Hima e do Dao


O carro do Dao entrou no recinto da mansão e parou como devia ser, antes do relvado. O Mix abriu a porta ao Dao, e os dois seguiram pelo carreiro até à casa. Ao ver as marcas das rodas no relvado estragado, o Dao abanou a cabeça e apressou-se a entrar.


Dá graças, Hia, por os pais só virem de visita a meio do mês que vem. Senão, a mãe puxava-te as orelhas pelo que fizeste ao relvado dela… — pensou o Dao, e entrou em casa.


Apesar de a casa ser do Hima e do Dao, os pais tinham metido a mão na organização e na decoração. A mãe escolhera o tipo de relva e as flores, e também o design do interior, para que a casa não parecesse o castelo abandonado do conde Drácula. O pai ajudara com os sistemas de segurança, e os funcionários da casa eram todos pessoas verificadas pessoalmente pelo pai.


O Dao entrou em casa, e o Leon indicou-lhe com um aceno de cabeça o gabinete do Hima, no segundo andar. O Dao foi para lá, com o Mix atrás. À porta do gabinete não estava ninguém, porque de noite ficavam só cinco guardas, espalhados pela casa, que de manhã eram rendidos por outros homens.


— Mix, vai descansar. Amanhã preciso de ti logo de manhã — disse o Dao. O Mix acenou e subiu para o seu quarto.


O Dao abriu a porta do gabinete e viu o Hima sentado no cadeirão, à secretária, a olhar para o vazio.


— Hima… — chamou-o o Dao em voz baixa, e o outro ergueu os olhos para ele.


O Dao avançou e sentou-se no cadeirão em frente, cruzando as pernas. O Hima continuava calado.


— Vais ficar assim, calado? O que aconteceu? Estragaste o relvado da mãe. Se ela o vê neste estado, ainda lhe dá um ataque! — disse o Dao, sério, a olhar para o amigo.
— Não vê. Avisei que quem lhe fosse com a novidade, ou lhe mandasse uma foto, ficava sem língua ou sem mãos — respondeu o Hima.
— Conta lá — disse o Dao com um suspiro.
— Comprei uma pessoa — disse o Hima com voz neutra, recostando-se no cadeirão e observando a reação do Dao.
— Certo. Compraste… o quê?! O que é que tu acabaste de dizer? — Ao princípio, o Dao não percebeu as palavras do Hima; depois caiu-lhe a ficha, os olhos arregalaram-se-lhe, e a voz calma das três primeiras palavras acabou num grito.
— Comprei uma pessoa — repetiu o Hima no mesmo tom.
— Enlouqueceste, Hima?! Que raio estás tu a fazer? Sabes o que os pais te fazem quando souberem?! — continuou o Dao aos gritos.
— Daonya! — disse o Hima, alto e com firmeza.


Só chamava o Dao pelo nome completo quando ele tinha culpa de alguma coisa ou estava a fazer asneira. O Dao sabia-o, e agora é que não percebia mesmo nada do que se estava a passar.


— O QUÊ?! — gritou o Dao.
— Não grites, que ainda o acordas. O doutor Dew disse que ele precisa de descansar — disse o Hima, de novo em tom calmo.
— Espera… O quê? Ele? É um rapaz? E está cá? — O Dao não conseguia de maneira nenhuma perceber o que se passava.


Não estava a gritar tão alto que as pessoas do primeiro ou do terceiro andar o pudessem ouvir. O Dao não era nada parvo, mas, naquele momento, o cérebro dele processava mal o que o seu Hia lhe dizia.


— No quarto ao lado — disse o Hima no mesmo tom sereno.
— Ei, quem és tu, e onde é que meteste o meu irmão? — tornou o Dao a perguntar.
— Cala-te, idiota! — respondeu o Hima, e suspirou.
— O-o-oh… Esse suspiro não augura nada de bom. Está bem. Admitamos que compraste um rapaz. O que é que isso tem a ver com aquilo em que o relvado está transformado? — O Dao continuava sem ver a ligação entre os dois acontecimentos.


O Hima contou-lhe o que se tinha passado em casa do Fai. Quanto mais ele contava do Fai, mais os olhos do Dao se arregalavam. E não era só pelo comportamento do rapaz — era também pelo do Hima.


— Estás a gozar comigo, não estás? Quem é que aceitaria uma coisa destas? — O Dao não conseguia acreditar na história do irmão.


Desde que o Dao, depois da morte dos pais, fora viver com a família Kittichat, o pai levava-os muitas vezes a encontros com gente de todo o género, para os rapazes ganharem experiência nas mais variadas situações. Mas, em todos aqueles anos, nunca ninguém se comportara como o Hima acabava de descrever.


— Quando ele acordar, podes perguntar-lhe se é verdade o que eu digo, ou não — disse o Hima, e levantou-se, virando-se para a janela, a olhar para as luzes da cidade noturna que se viam ao longe.
— Agora estou cansado e quero dormir. Estive à tua espera. Amanhã contas-me o que andaste a fazer hoje — disse o Hima; virou-se, deu uma palmadinha no ombro do Dao e foi para o seu quarto, deixando o Dao ali sentado, a digerir a informação recebida.


Pouco depois, o Dao saiu do gabinete e passou pela porta do quarto do Fai; deteve-se um instante diante dela, mas não entrou — foi dormir para o seu quarto.

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