05 – Dirty Cherry (parte 2 de 2)
Entretanto, o Dao
O Dao e dois guarda-costas estavam sentados nas bancadas, a observar a pista. Os três vestiam-se como pessoas comuns: o Dao com uma t-shirt cinzenta e jeans azuis, o Kat com uma t-shirt azul e jeans azul-claros, e o Mix com uma t-shirt branca e jeans azuis. Só os ténis caros nos pés do Dao lhes denunciavam o estatuto, o Kat e o Mix calçavam sapatilhas pretas e brancas, simples e confortáveis.
Qualquer pessoa que pagasse a entrada podia aceder à pista, por isso ninguém suspeitou deles. Sentaram-se nas bancadas mais acima, para terem boa vista sobre a pista toda. Normalmente, os espectadores eram deixados entrar uma hora antes das corridas, para poderem escolher bons lugares.
— Chefe, soubemos que hoje lhes chegaram duas motas novas. O mais certo é haver uma rodagem antes das corridas. Quer ver? — perguntou o Mix ao Dao.
— Excelente ideia. Normalmente, a rodagem das motas novas só é confiada ao melhor piloto — afirmou o Dao, virando-se para o Kat, que tinha um tablet nas mãos.
— Segundo os dados dos nossos homens, o melhor piloto do Prem é a Dirty Cherry — respondeu o Kat, estendendo ao chefe o tablet, onde havia fotografias do rapaz na mota, de fato e capacete, em várias corridas — mas nenhuma sem capacete.
— Porque é que ainda não há uma fotografia decente? Desaprenderam de trabalhar de vez? — perguntou o Dao com rispidez. O Kat e o Mix baixaram a cabeça.
— Desculpe, chefe. O balneário não tem janelas e só lá se entra pela garagem. Este rapaz nunca tira o capacete em público — disse o Kat, em tom de desculpa.
— Verificaram toda a gente que lá trabalha? Não pode ser o amante ou o irmão de alguém? — perguntou o Dao, a olhar para as fotos no tablet.
— Sim, chefe. Ninguém encaixa. Tudo o que temos são estas fotos. Até parece que este rapaz é um ninja — disse o Mix.
A atenção do Dao desviou-se para a saída para a pista: reparou que o tal Cerejinha, com o equipamento completo, tinha rodado para a pista com a Yamaha de um vermelho vivo. As bancadas explodiram em gritos e aplausos quando os espectadores viram o Fon. Era raro os espectadores terem a oportunidade de assistir ao teste de motas novas.
— E este é o melhor piloto que eles têm? — perguntou o Dao com um risinho, observando o Fon.
A essência do reparo do Dao é clara para quem, como ele, percebe de corridas. Ele sabia que um piloto tem de se desembaraçar bem com a mota nas curvas e ter força para a segurar inclinada. E, a julgar pela estatura e pela compleição do Fon, à primeira vista pareceu ao Dao que lhe assentava melhor uma pequena mota de cross do que uma Yamaha grande.
O Fon era fanático por corridas de motas desde criança, por isso, aos quinze anos, começou a ir ao ginásio. Treinava sobretudo a força e a resistência: a base do programa dele eram os exercícios isométricos, para manter a relação ideal entre o peso do corpo e o da mota. Para além disso, ia a aulas de fitball, que também ajudavam a treinar o equilíbrio e a concentração.
O Fon passou a perna por cima do assento com elegância, sentou-se e ligou o motor. Quando o Fon tocava no guiador, o mundo inteiro deixava de existir para ele: via apenas a estrada à sua frente e ouvia o som do motor da sua beleza por baixo de si.
Fez duas voltas de teste com a Yamaha e trocou para a Honda, com que fez também duas voltas.
O tempo aproximava-se das sete, o que queria dizer que a primeira corrida do Cerejinha seria dali a duas horas.
O Fon voltou ao balneário e trocou de roupa: uma t-shirt vermelha com um ursinho de peluche fofo estampado e umas calças de fato de treino pretas. Foi para as bancadas, porque gostava não só de correr, mas também de ver. E gostava de ouvir os espectadores a falar do Cerejinha.
Sentou-se quase no topo das bancadas e ficou a observar os preparativos das corridas dos outros participantes, enquanto escutava as conversas das pessoas ao lado. O Fon não deu pelo tempo a passar e, durante um bocado, limitou-se a apreciar as corridas dos outros.
— Manau… quero tanto ver a cara daquele rapaz sexy do fato preto e vermelho que esteve agora na pista. Ah… aquele fato assenta-lhe tão justo ao corpo… — dizia uma rapariga à amiga, num suspiro. O Fon ouvia e sorria.
— Ploy, também o quero… Dizem que o Cerejinha costuma aparecer nas bancadas depois das corridas. Achas que já cá está? — respondeu a outra rapariga. O Fon limitou-se a abanar a cabeça, sem deixar de sorrir.
— Ei, Nong, que disseste tu agora mesmo? — intrometeu-se logo, sem cerimónia, uma voz grave na conversa das raparigas; e elas, e o Fon, viraram-se quase ao mesmo tempo.
Ao verem o dono da voz, as raparigas ficaram especadas: era a voz de um rapaz bonito de t-shirt cinzenta. O Dao olhou para elas — e a atenção dele foi apanhada pela carinha gira do rapaz da t-shirt vermelha. Quando o Fon tinha passado para se ir sentar nas bancadas, ia a olhar para a pista, de maneira que quem estava sentado mais acima não lhe tinha conseguido ver o rosto.
— Perguntei: que disseste tu agora mesmo? — repetiu o Dao, a olhar para as raparigas como se estivessem num interrogatório.
— Eu… dizem que o Cerejinha costuma estar nas bancadas, Pi… — repetiu a rapariga, timidamente.
O Fon continuava a olhar para o Dao: era, sem dúvida, o seu tipo — um rapaz alto e bonito, de ombros largos, pescoço comprido, rosto bonito e um barítono magnífico. Mediu-o de alto a baixo com um olhar avaliador.
— Então, Pi, também queres comer o Cerejinha? Ouvi dizer que ele gosta de rapazes — disse o Fon, compondo no rosto um sorrisinho trocista.
As raparigas suspiraram de tristeza ao ouvir as palavras do Fon, ao perceberem que não tinham hipótese nenhuma.
— É o teu rabo que eu quero, tampinha. Não te metas quando os outros estão a falar. — O Dao virou a cabeça e olhou para o Fon, que estava sentado a tentar conter o riso com a frase que o Dao acabara de dizer.
Raios… Se tu soubesses, Pi, que eu estava pronto a dar-to por dois ou três assaltos… — pensou o Fon, e riu-se baixinho dos próprios pensamentos.
— Então, Pi? Foste tu que te meteste na conversa das raparigas, ou não foste? — disse o Fon, e por um momento o Dao ficou calado.
O Kat já se preparava para se levantar e ir ter com o Fon, mas o Dao abanou de leve a cabeça, proibindo-o de armar confusão — ia atrair atenções de que não precisavam.
📩 Tlim…
Chegou uma SMS ao telemóvel do Fon. Ele tirou-o e leu-a: era o Prem a escrever-lhe que o segundo participante tinha chegado para a corrida.
— Desculpa, Pi, fica a conversa para a próxima vez — disse o Fon; sorriu com doçura, meteu o telemóvel no bolso, levantou-se e foi-se embora.
O Dao ficou a olhar para as costas do rapaz que se afastava. Pensou que aquele miúdo devia ter acabado a escola há pouco, porque parecia um aluno do secundário ou um caloiro a tentar dar nas vistas: a t-shirt moldava-lhe o tronco como se fosse um número abaixo do dele, a acentuar as curvas do corpo; as calças de treino apertavam-lhe as nádegas redondas, apesar de folgadas nas coxas.
O Fon voltou ao balneário, trocou outra vez de roupa e saiu para a zona onde estavam o adversário e as motas para a escolha. Antes de cada corrida, todas as máquinas são levadas para essa zona, para os participantes poderem escolher em qual vão correr.
O Dao soergueu-se, interessado, e encaminhou-se para a rede que vedava a zona. Embora estivesse a alguma distância, conseguia ouvir a conversa dos participantes.
— Hoje estou de excelente humor e vou deixar-te escolher a mota primeiro — disse o Fon com um sorriso que ninguém viu, porque já tinha o capacete posto; mas o tom de voz deixava perceber que ele estava, sem dúvida, a rir-se do interlocutor.
— Não preciso de esmolas de um anão — bufou o rapaz.
— Ooo, então depois não te queixes de que a corrida não foi justa — disse o Fon, e foi direito à Ducati preta.
— Pi'Prem, eu vou nesta. Toda a gente ouviu que lhe dei a escolher primeiro. Ele recusou — disse o Fon, virando-se para o Prem e para as pessoas junto à vedação.
A multidão agitou-se, a antecipar uma corrida interessante.
— Aposto duzentos mil em como o Cerejinha, depois de ganhar, tira o capacete à frente dos espectadores — soou uma voz vinda da multidão, e todos se viraram para o dono dela.
— Desculpa, Pi, mas apostas dessas não temos cá na pista — disse o Fon, e virou-se para a mota. Ainda bem que estava de capacete e ninguém lhe via o sorriso satisfeito a abrir-se-lhe na cara toda.
— Trezentos mil — repetiu o Dao; depois pensou em qualquer coisa e segredou algo ao Mix.
O público imobilizou-se e fez-se silêncio, à espera da resposta do Prem ou do Cerejinha.
— Quinhentos mil! — O Dao olhava para o Prem, a calcular que um dinheiro daqueles o havia de interessar. À volta, as pessoas sussurraram ao ouvir a quantia.
— Desculpa, Pi, mas já disse: não temos apostas dessas — respondeu o Fon sem se virar, montando-se na mota. O Prem limitou-se a encolher os ombros.
Embora o Fon percebesse que, ao aceitar aquele dinheiro só por tirar o capacete, podia ajudar o Fai com as dívidas, sabia muito bem que o Fai não lho aceitaria, já lhe tinha oferecido ajuda mais de uma vez, e ele limitava-se a sorrir e a recusar.
O adversário do Fon escolheu a Honda que o Fon acabara de rodar. O rapaz sorriu e olhou para ele.
— Hoje é que perdes mesmo, anão! — disse, e montou-se na mota, pondo o capacete.
O Dao, ao ver a escolha dos dois, percebia que a mota do adversário do Cerejinha era claramente mais potente. Então porque não a escolhera ele, e fora antes para a Ducati?
— Menos conversa. Vamos ver na prática se tens razão ou não. E não te esqueças: são três voltas — disse o Fon com mordacidade, ligou o motor e dirigiu-se para o ponto de partida.
As duas motas ficaram na linha de partida, a dar gás, até as luzes à frente delas passarem de vermelho a verde, a anunciar a toda a gente que a corrida tinha começado.
O Fon estava tão descontraído que arrancou com cinco segundos de atraso. Pode parecer um número insignificante, mas, para um piloto, é já um atraso enorme.
A multidão escandia o nome do Cerejinha cada vez mais alto. O Fon arrancou como sempre, a ver apenas a estrada à sua frente. Na primeira volta, apanhou o adversário quase na meta. Na segunda, brincou com ele, deixando-o de vez em quando ir à frente. A meio da terceira, já ia adiantado dois comprimentos de mota. O Fon cortou a meta em primeiro. Ia tão à frente que teve tempo de parar, desligar o motor e desmontar da mota sem pressa, naquele seu jeito sedutor. Só depois é que o adversário cruzou a linha de chegada.
— Obrigado pela corrida, Pi — disse o Cerejinha, e foi ter com o Prem, ignorando o adversário mal-disposto.
O Prem passou-lhe um braço à volta do pescoço e foram os dois para o balneário.
— Espera, Cerejinha! Tenho uma proposta! — gritou o Mix.
O Prem e o Fon viraram-se, a olhar para ele sem perceber.
— Não queres uma corrida com o meu amigo? — continuou o Mix, olhando para o Dao, que estava de braços cruzados sobre o peito, com um leve sorriso.
O Fon desviou o olhar para o homem que o Mix indicava com os olhos e, não fosse o capacete, o Dao teria visto os olhos do Fon a brilhar e o seu enorme sorriso de satisfação. O Prem olhou para o Fon, e este acenou que sim.
— Qual é o prémio? E nem sonhes que tiro o capacete — disse logo o Fon.
— Oh, se ganhares, dou-te duzentos mil em dinheiro vivo. Se eu ganhar, dás-me o teu número — disse o Dao, e sorriu.
— Ótimo — respondeu o Fon.
Nunca o Fon tinha desejado tanto perder como agora. Havia qualquer coisa naquele rapaz à sua frente… qualquer coisa que o deixava todo agitado.
— Pi, é a primeira vez que cá estás, certo? Deixo-te escolher a mota primeiro e dar duas voltas para te habituares à pista — propôs o Fon, amistoso.
— Está bem — respondeu o Dao com voz neutra.
O Prem acompanhou o Dao ao balneário, para ele vestir o equipamento de corrida. O plano do Dao tinha resultado, estava dentro do balneário. O Prem mediu o Dao com um olhar avaliador e tirou um fato azul que, a seu ver, lhe serviria.
— Tens dez minutos para te equipares. O Cerejinha veste-se em cinco — disse o Prem com um sorriso, e saiu, deixando ali o Dao sozinho.
O Dao trocou de roupa em cinco minutos, porque não era a primeira vez que o fazia; mas, para não levantar suspeitas, só saiu ao fim de dez.
O Dao saiu do balneário com o capacete azul na mão e dirigiu-se à zona das motas, onde o Cerejinha o esperava.
Quando o público se calou, o Fon virou-se, e não conseguiu mexer-se. Não conseguia despregar os olhos do rapaz que vinha na sua direção: o fato azul-escuro com aplicações azul-vivas assentava na perfeição no corpo do Dao, a realçar os ombros largos e a cintura estreita. Na mão trazia o capacete azul, encostado de lado à cintura. O vento despenteava-lhe o cabelo, e no rosto trazia um sorriso leve. Com a mão livre, afastou uma madeixa que lhe caíra para a testa. Perante aquele espetáculo, o Fon engoliu em seco…
Ai, meu Deus… Se calhar, é melhor perder? — pensou o Fon consigo mesmo.
— Estou pronto. E, já que me deram a mim o direito de escolher primeiro, quero que tudo seja justo. O que quer dizer que as motas têm de ser iguais — disse o Dao.
O Prem olhou para o Cerejinha, que levantou ligeiramente a mão, como quem propõe fazer a vontade ao recém-chegado.
— Só temos dois modelos em dois exemplares: aquele em que o Cerejinha acabou de ganhar e a Kawasaki Ninja — disse o Prem, aguardando a resposta.
— A Kawasaki — respondeu o Dao, porque, na pista deles, era a sua mota preferida
O Dao montou-se na mota, ligou-a e avançou para a linha de partida, para as duas voltas de reconhecimento. Não se apressou muito, para memorizar bem a pista, e, terminada a rodagem, voltou à linha de partida, onde o Fon já o esperava.
Os dois deram sinal de que estavam prontos, e à frente acenderam-se as luzes vermelhas… No verde, as duas motas dispararam. No fim da primeira volta, o Fon percebeu que o adversário não era um amador como o rapaz de antes
O Dao ultrapassava-o de vez em quando, com atrevimento, pelo exterior, mas o Fon tinha uma vantagem: já rodava naquela pista havia meio ano e conhecia cada centímetro dela. Há muito que o Fon não sentia uma excitação assim. O Cerejinha percebia que, se estivessem os dois numa pista desconhecida, podia perder para aquele rapaz. Essa consciência atiçou-lhe de tal maneira o espírito competitivo que quis ganhar a todo o custo. E o Fon ganhou — a diferença foi de só meio comprimento de mota, mas chegou.
Parados na meta, foram os dois para o balneário. O Fon estava cansado das duas corridas seguidas e um bocadinho suado dentro do fato, por isso queria tomar um duche antes da corrida seguinte.
Ao entrar no balneário, tirou o capacete e pousou-o na mesa, de costas para a porta — pela qual, atrás dele, entrou o Dao. O Fon ia desapertando o fato devagar. Ao ouvir passos nas suas costas, sorriu, mas não se virou.
— Obrigado pela corrida. Foi divertido — disse o Fon, a puxar o fato dos ombros suados.
O Dao aproximou-se por trás e pousou o seu capacete ao lado do capacete do Fon. Pousou a mão quente no ombro nu do Fon — que, com o toque, se arrepiou todo — e virou-o para si, de tal maneira que o Fon, apanhado de surpresa, teve de se apoiar com o rabinho na beira da mesa.
— Ei! — exclamou o Fon, e levantou a cabeça para olhar para aquele atrevido. Os olhares encontraram-se, e o Dao ficou imóvel…
— Bem me parecia que eras tu, pequenino — disse o Dao, sem conseguir arrancar os olhos daqueles olhos negros sem fundo, que o puxavam mais para dentro a cada segundo, como um buraco negro.
— Tens dez minutos para te equipares. Despacha-te. Eu vou ao duche — respondeu o Fon, sorrindo-lhe; tirou a mão do Dao do seu ombro e foi para o duche.
O Dao não o reteve — já tinha conseguido o que queria. Agora sabia como ele era, embora ainda não lhe soubesse o nome. O Fon ferira o amor-próprio do Dao ao vencê-lo. E, embora o Dao percebesse que, se estivessem na pista dele, não teria perdido, agora não podia fazer nada quanto àquele miúdo.
O Dao trocou de roupa depressa e foi ter com os seus homens, que já tinham entregado o dinheiro ao Prem. Embora tivesse planeado sacar-lhe logo o número, agora já lhe tinha visto a cara — e isso facilitava-lhe a busca de informações sobre ele. E mais: tinha deixado uma pequena surpresa no balneário…
— Cem mil, pessoalmente para o Cerejinha, deste cartão — disse o Dao ao Prem com ar displicente, estendendo-lhe um cartão preto sem limite. O Prem abriu a boca de espanto e acenou.