03 – Bom filho (parte 2 de 2)
A manhã do Hima
Depois de acordar às oito e de lavar a cara, o Hima desceu ao ginásio, no piso de baixo da mansão. Pela casa enorme fora havia guarda-costas por todo o lado, que baixavam a cabeça em sinal de respeito à sua passagem. Não se ralou com a roupa e foi com as mesmas calças de pijama que tinha vestidas. Prendeu os cabelos brancos num rabo-de-cavalo alto, para não lhe caírem nos olhos. Enquanto malhava nas máquinas, entrou no ginásio o Dao, de fato azul-escuro, camisa cinzenta e gravata cor de bordô, com um tablet nas mãos. O Hima viu-o pelo canto do olho, mas não se virou. O Dao sorriu e sentou-se no banco de uma das máquinas.
— Bom dia, Hia. Queres saber já ao que venho, ou é melhor eu contar-te ao pequeno-almoço? — perguntou o Dao, com um arzinho trocista.
— Diz lá agora. Tenho a certeza de que veres-te a esta hora todo aperaltado e de tablet na mão só pode ser mau agoiro. Não quero estragar o apetite ao pequeno-almoço — respondeu o Hima com calma, e trocou de máquina.
— Está bem. Ligou o Pi Ton. Uma senhora deve ao casino e aos agiotas dele uma bela maquia. Ele mandou os homens falar com ela, mas não sacaram nada. Está a pedir ajuda — explicou o Dao. O Hima parou.
— Hm… mas que raio de gente é essa, que não é capaz de meter na ordem uma mulher? — bufou o Hima. — Pronto. Quanto é que ela deve? — perguntou, a atirar uma toalha ao pescoço.
— Ao todo, 65 milhões — disse o Dao em voz baixa. O Hima franziu o sobrolho.
— Diz a esse idiota que é a última vez que o ajudo com devedores destes. Já lhe disse que não pode haver dívidas acima dos 5 milhões. Para a próxima, atiro-o eu aos peixes por causa de números destes — o rosto voltou logo à expressão impassível de há um instante.
— Sim, Hia. E a segunda questão: há hoje uma corrida na pista do Prem. Ultimamente andam a ficar populares de mais. Vamos fazer alguma coisa quanto a isso? — continuou o Dao.
— Como é que a mãe nos ensinou? Dividir para reinar. Eu trato da dívida com os rapazes, e tu vais à pista. E, por favor, veste-te como toda a gente. Leva só o Kat e o Mix. E agora vamos tomar o pequeno-almoço — disse o Hima, a limpar o suor da cara com a toalha.
Terminada a conversa, saíram os dois do ginásio. O Hima foi direito ao duche, e o Dao foi para a sala de estar. Depois de esperar que o Hima descesse, foram para a sala de jantar, onde a mesa já estava posta: café quente, ovos estrelados com salsichas, tomate, salada e arroz. Despacharam a refeição depressa e foram para o carro, que já os esperava à entrada.
Não eram os habituais carros pretos, mas sim cinzentos, o Hima não gostava da cor preta. Toda a frota da família estava equipada com o que há de mais moderno: carros blindados, com compartimentos para armas (para casos de emergência), os sensores de GPS mais precisos do mundo, nitro e até a possibilidade de conduzir sem ninguém ao volante.
Ao chegarem ao escritório, o Dao mostrou-lhe finalmente a informação no tablet. Perguntam vocês: porque não o fez em casa? Porque o Hima não suporta que lhe gastem o tempo pessoal com trabalho. Por isso têm uma regra: podes falar de trabalho em casa, mas não trabalhar em casa. Como dizia a mãe, dividir para reinar.
Depois de ver os dados, decidiu tratar primeiro da papelada dos clubes e dos carregamentos de armas, porque isso era claramente mais importante do que uns meros 65 milhões.
Despachadas as coisas importantes, o Hima olhou para o relógio e viu que eram quase três da tarde. Pegou no telefone de trabalho e mandou a secretária chamar o Rio, o Non e o Kris ao gabinete. Bem instalado no cadeirão, atrás da grande secretária de madeira nobre, ficou a olhar para a porta. Uns minutos depois, entraram três guarda-costas.
— Preciso de dois carros. Aqui está a morada. O Kris vem comigo. O Rio e o Non vão no outro. Digam aos motoristas para verificarem o trajeto, não quero ficar preso no trânsito — ordenou o Hima com calma, a prender os cabelos num rabo-de-cavalo.
— Sim, chefe — responderam os três em uníssono, e saíram do gabinete.
O Hima tirou do cabide o casaco cinzento, que combinava na perfeição com a camisa branca e a gravata vermelha às riscas, pô-lo ao braço e desceu ao parque de estacionamento. O Kris e o Non esperavam-no à porta do gabinete; o Rio tinha ido falar com os motoristas.
A viagem até à morada levou-lhes uns quarenta minutos. Ao parar em frente à casa, o Hima espreitou pela janela e percebeu porque é que os homens do Ton tinham voltado de mãos a abanar.
Diante dele estava uma casinha pequena, de um só piso, há muito ao abandono. A tinta dos caixilhos das janelas já estava a descascar em vários sítios, ao alpendre faltava metade do gradeamento e o telhado estava todo remendado. Suspirou, saiu do carro e seguiu pelo caminho de pedra até à porta.
O Kris bateu à porta e, com o empurrão, ela abriu-se, estava destrancada. Ao entrar, o Hima olhou em redor: à esquerda, uma cozinha pequena, onde mal cabiam o frigorífico, o micro-ondas, a panela do arroz, uma mesa pequena e coçada e três cadeiras. Em cima da mesa havia dois pratos de comida. Na pequena sala de estar, um sofá em frente à televisão e um cadeirão a um canto, ao lado de uma cómoda. Sobre a cómoda, uma jarra de flores artificiais cobertas por uma fina camada de pó, algumas revistas e uma pilha de contas e de cartas. O Hima sentou-se no cadeirão e continuou a examinar a casa.
Ao ouvir barulho, saiu do quarto a Kalliou, com uma garrafa de cerveja na mão, e estacou de surpresa.
— A senhora é a Kalliou Chairat, correto? — perguntou o Hima em tom frio e calmo.
A mulher atravessou a sala a cambalear e sentou-se no sofá, a acenar que sim.
— Deve 65 milhões ao meu casino. Como tenciona pagar? — continuou ele, no mesmo tom.
Ela olhou com os olhos turvos de álcool para os homens que tinham entrado e depois fixou o rosto de quem falava. O olhar penetrante e frio dele deixou-a sem voz, e um arrepio percorreu-lhe a espinha em tropel.
— Eu… eu… não sei — balbuciou ela, a baixar a cabeça e a desviar o olhar, sem parar de beber, para tentar conter de alguma forma o tremor e o medo.
— A sua casa não vale o dinheiro que a senhora deve. Percebe o que lhe estou a dizer? — perguntou ele, a recostar-se no cadeirão e a cruzar as pernas.
— Khun, sou uma mulher desempregada, que o marido abandonou por uma miúda mais nova, a deixar-nos com dívidas e um crédito à habitação. Mal conseguimos chegar ao fim do mês — disse a mulher entre soluços.
— Acha que eu jogo no casino por ser viciada no jogo? Não, Khun. Eu só estava a tentar ajudar o meu filho a trabalhar menos. Desde que o pai se foi embora e a empresa onde eu trabalhava fechou, ele trabalha todas as noites — falava ela, com as lágrimas a escorrer-lhe pela cara.
O Hima olhava para ela e ouvia em silêncio.
— Todas as noites chega a casa às quatro e levanta-se às sete, para não se atrasar para as aulas e para me fazer o pequeno-almoço. Há quase três anos que vive assim. Tentei arranjar trabalho, mas quem é que quer uma mulher velha? — continuou ela. — Não é que eu queira uma vida destas. Mas o destino é cruel. Se eu pudesse dar ao meu filho uma vida melhor, dava-lha — disse a mulher, a limpar as lágrimas.
De repente, a porta da rua abriu-se e entrou um jovem, com um sorriso no rosto, precisamente no momento em que a mãe estava prestes a dizer mais alguma coisa.
O Non, que estava de pé perto da porta, ficou paralisado ao ver o rapaz encantador que entrava em casa. O sorriso doce e sincero do Fai fez-lhe o coração falhar uma batida.
Ao ver estranhos em casa, o Fai não deixou de sorrir. Já estava habituado a que os agiotas aparecessem lá em casa a exigir dinheiro. Mas aquela gente era claramente diferente. Correu a sala com o olhar e viu, no cadeirão, um homem que; pareceu-lhe; iluminava a sala de estar inteira. Os cabelos brancos e os olhos azuis dele faiscaram com a luz que entrava pelo vão da porta aberta.
— Boa tarde — disse ele, a erguer as mãos num wai, e abriu ainda mais o sorriso. Cambaleou ligeiramente ao descalçar-se, mas achou que fora o peso da mochela dos livros a fazer-lhe perder o equilíbrio.
Ao levantar os olhos para o rapaz que entrara, o Hima ficou paralisado. Viu-o cambalear, mas não deu importância, de tão surpreendido que estava. Nunca tinha topado com gente assim. Um rapaz com ar de uns vinte anos, de uniforme de estudante e mochila ao ombro, entrava em casa e, em vez de perguntar «quem são os senhores?» ou «o que querem?», abria um sorrisão e cumprimentava.
Este está bom da cabeça? Que pessoa em seu juízo é que sorri ao ver bandidos dentro de casa? — pensou o Hima.
A mãe olhou para o filho e virou-se para o homem no cadeirão.
— Pode levá-lo como pagamento — disse ela, a virar-se para o filho.
O Hima ergueu uma sobrancelha e olhou para a mulher que, com tanta facilidade, entregava o próprio filho por uns meros 65 milhões. Desviou o olhar para o rapaz — mas este continuava a sorrir.
Ora aqui está uma coisa que já não é nada normal. Estão a vendê-lo e ele sorri. Se calhar não a ouviu? Impossível… até eu ouvi, e ele está mesmo ao lado dela — voltou a pensar, sem tirar os olhos do rapaz.
— Tem a certeza? — perguntou em tom calmo.
— Tenho — confirmou a mulher, e bebeu mais um gole.
— Mãe, eu disse-te para não beberes antes de comer. Porque é que foste buscar cerveja e não comeste o pequeno-almoço? Ainda vais parar ao hospital — disse o rapaz em tom carinhoso, a sorrir com doçura para a mãe e a tirar-lhe a garrafa das mãos.
O Hima olhava para o homem à sua frente e não entendia o que se passava. Pela primeira vez na vida, ficou completamente encravado. Já vira muita gente a comportar-se das mais variadas maneiras em situações destas. Mas aquele rapaz, com o seu sorriso genuíno e a sua voz meiga, era coisa nova. Porque é que agia como se a conversa sobre estar a ser vendido por uma dívida nunca tivesse existido? E foi então que decidiu: precisava daquele sorriso. E, embora tivessem uma regra; nada de tráfico de pessoas; aquele rapaz era mais interessante do que a regra.
— Ó rapaz, ouviste o que estávamos aqui a falar? — não se conteve o Hima, e resolveu perguntar.
— Ouvi — respondeu ele, a agachar-se em frente à mãe, no sofá, e a tirar a mochila do ombro. Não parava de lhe sorrir, apesar de sentir uma ligeira tontura.
— Tens mesmo a certeza de que percebeste? — insistiu o Hima, porque nunca ninguém encarara com tanta calma a hipótese de ser entregue por uma dívida.
Os guarda-costas entreolharam-se ao ouvir as palavras do chefe. Afinal, era ele próprio quem proibia usar pessoas como pagamento ou moeda de troca. Teriam percebido mal? O Non não tirava os olhos do rapaz.
No passado, também houve devedores que tentaram entregar filhos ou esposas como pagamento, mas todos os «lotes» se portavam da mesma maneira: em histeria, a atirar-se a quem os oferecia, indignados e em prantos. O Hima nunca aceitava propostas dessas; não precisava disso. Se lhe apetecia sexo, bastava um telefonema e traziam-lhe quem o ajudasse a desanuviar. Mas naquele rapaz havia qualquer coisa… qualquer coisa que o levava a cometer disparates como aquele.
— Não sou surdo, Khun. Ouvi a minha mãe oferecer-me como pagamento da dívida. O Khun aceitou. É isso? — a desviar o olhar da mãe, o Fai virou-se para ele e disse-o com toda a calma, com um sorriso no rosto que arrepiou o Hima.
Ao ouvir-lhe o tom de voz e ao ver-lhe o sorriso sereno, o Hima não soube o que dizer. O cérebro entrou-lhe em reinício, porque não percebia como é que aquilo era possível.
O Fai percebeu que não se tratava de um agiota qualquer, como os que lá tinham aparecido antes. Não culpava a mãe, porque, depois de o pai se ir embora, ela ficara abatida e destroçada. Por muito que ele tentasse ajudá-la e cuidasse dela, sabia que havia de chegar um dia em que ela não iria conseguir mais tê-lo por perto, porque ele era demasiado parecido, por fora, com o pai que ela tanto amara. Achava que aquilo até podia ser um recomeço para ela: sem dívidas, sem créditos, sem o lembrete constante da dor que o pai lhe causara. Só conseguia sorrir, a olhar para a mãe. Se calhar nunca mais a veria, não sabia o que o esperava, nem quem era aquele homem, nem com que intenção o comprava. E, embora essas perguntas lhe andassem pela cabeça, o Fai não as fez.
— Khun, tenho só um pedido. Não...dois pedidos — continuou o Fai, e o som inesperado da voz dele fez o Hima estremecer.
Nunca ninguém tentara negociar com ele. Ninguém ousava sequer levantar os olhos na presença dele.
— Fala — disse o Hima secamente, a pousar os dois pés no chão e a apoiar os cotovelos neles, ligeiramente inclinado para a frente, com o rosto entre as mãos.
— Primeiro: estou no quarto ano e gostava de acabar o curso. Segundo: não sei quanto é que a minha mãe lhe deve, mas, já que o senhor leva daqui a única pessoa capaz de trazer dinheiro para casa, devia depositar-lhe 10 milhões na conta. E não a deixe entrar em nenhum dos seus casinos. Acho que seria um acordo justo — disse o Fai, a olhar o Hima mesmo nos olhos, em tom carinhoso, a sorrir enquanto afagava a mão da mãe, que chorava calada.
O Hima olhava para ele e não percebia porque é que sentia que não era ele quem ali tinha ido cobrar uma dívida, mas antes que alguém tinha vindo ter com ele. Mas o que é que este rapaz se permitia?
— Bem… a decisão já está tomada. Não tens escolha — disse o Hima em tom equilibrado, sem tirar os olhos do rapaz.
— Eu compreendo — respondeu o Fai, e sorriu.
— Chefe… — disseram os três rapazes em uníssono; mas ele lançou-lhes um olhar tal que não se atreveram a continuar.
— Tens vinte minutos para fazer as malas — respondeu o Hima, a recostar-se de novo no cadeirão.
— Se calhar apetece-lhe um café? Eu faço — a soltar a mão da mãe, o Fai levantou-se.
Quando se pôs de pé, tinha a cara mais pálida do que antes, e cambaleou um bocadinho.
Ó rapaz, mas que valente, ainda por cima ofereces-me café — pensou o Hima, e acenou que sim.
— Preto, com um açúcar — respondeu.
— Muito bem — disse o Fai com um sorriso, e encaminhou-se para a cozinha.
— Oh, que falta de educação a minha! Desculpem. Os senhores querem café? — parou à entrada da cozinha e dirigiu-se aos três guarda-costas.
Os três entreolharam-se e viraram-se para o chefe. Este fitou-os com um olhar severo. Os rapazes abanaram a cabeça.
O Fai foi à cozinha e fez o café para o Hima e uma chávena de chá para a mãe. A cara ficou-lhe pálida, e até o Hima reparou — mas não disse nada.
— O seu café, Khun — o Fai estendeu-lhe a caneca em primeiro lugar, e depois foi sentar-se ao lado da mãe no sofá.
Os guarda-costas quiseram abrir a boca para impedir o chefe de beber da caneca — afinal, não sabiam se aquilo era seguro, mas o Hima abanou a cabeça e eles perceberam sem uma palavra. Levou a caneca aos lábios e aspirou o aroma do café. Por alguma razão, pareceu-lhe delicioso, diferente do que faziam lá em casa. Ele próprio não percebia porque é que tinha aceitado o café, já que, normalmente, não bebia nem comia nada que os seus homens não tivessem verificado antes. Bebeu um gole e voltou o olhar para o rapaz.
— Mãe, bebe o chá de gengibre — ajuda com a ressaca. Não bebas mais, tens de me prometer — disse o Fai com carinho, a sorrir de orelha a orelha para a mãe e a pôr-lhe a caneca quente nas mãos. Ela acenou que sim, sem levantar a cabeça.
Certificou-se de que ela segurava bem a caneca, levantou-se e foi ao quarto fazer as malas. Mesmo com o tempo que levou a fazer o café, o Fai não passou dos vinte minutos. Levou apenas os livros e os cadernos, o uniforme da universidade, roupa interior, os artigos de higiene, algumas t-shirts, calças e calções. E foi então que reparou na farda de trabalho no cabide e se lembrou de que tinha ido a casa precisamente para se trocar e ir trabalhar.
Dobrou-a também, por via das dúvidas, fechou a mala e saiu do quarto. Não sabia o que o esperava em casa daquele homem, nem o que iam fazer dele, mas levou a farda de trabalho para o caso de não ficar prisioneiro. No pior dos casos, se não o deixassem sair, tinha de a devolver ao clube.
Enquanto o Fai fazia as malas, o Hima preparou um contrato a declarar que a dívida da senhora Kalliou ficava saldada e que, em breve, seriam transferidos 20 milhões para a conta dela. Mandou também saldar o crédito à habitação. Ficava proibida de entrar nos casinos dele e de pedir dinheiro aos agiotas locais. O contrato estipulava ainda que, a partir da assinatura, nem ela nem nenhum outro familiar poderia contactar o Fai, salvo em caso de doença grave ou de morte de um parente. O Hima não estava certo da sinceridade da mulher, por isso quis precaver-se. Ela assinou.
Ao fechar a porta do quarto, o Fai amparou-se de leve na ombreira. O Non, ao ouvir o estalido do trinco, virou-se e reparou que havia qualquer coisa que não estava bem com o rapaz. Deu uns passos em frente, mas parou ao apanhar o olhar pesado do chefe.
Nesse momento, ouviu-se um trovão lá fora e, contra todas as previsões dos meteorologistas, começou a chover. O Fai voltou à sala e agachou-se em frente à mãe. Beijou-lhe a face molhada de lágrimas e, com um sorriso, virou-se para o Hima.
— Podemos ir — disse o Fai, e encaminhou-se para a saída. O Hima levantou-se do cadeirão e foi atrás dele.
Assim que o Hima pisou o alpendre, o motorista aproximou-se e abriu-lhe logo o guarda-chuva por cima, a ignorar por completo o rapaz cambaleante, de mala na mão, que ia devagar à chuva pelo caminho de pedra. O Hima reparou no estado do Fai e adiantou-se depressa, sem ligar à chuva nem aos guarda-costas. Faltavam-lhe poucos passos para o alcançar quando viu a figura molhada do rapaz começar a cair.
Por instinto, correu para a frente e amparou-o. Os guarda-costas precipitaram-se para ajudar o chefe, mas o Hima olhou para eles como se estivessem a tentar tocar em algo muito precioso. Mandou-os pegar na mala e, a erguer ao colo o corpo inconsciente do Fai, caminhou com ele até ao carro.
— Chefe, podemos deitá-lo no banco de trás. Eu vou com ele e o Rio vai consigo — disse o Non, a olhar para o rapaz nos braços do chefe.
— Não é preciso. Ele vai no meu carro — disse o Hima, e as cinco pessoas ficaram paralisadas.
Teriam ouvido bem? O chefe disse que o rapaz que conhecera havia uma hora ia no carro dele? Nem os guarda-costas que trabalhavam com ele há mais de um ano tinham autorização para se sentar sequer no lugar do passageiro da frente, quanto mais ir ao lado dele.
— E então? Tenho de esperar muito para me abrirem a porta do carro?! — ralhou ele, e o Non abriu logo a porta do passageiro.
O Hima acomodou o rapaz no carro com cuidado e sentou-se ao lado dele.
— Neste carro vamos só eu e ele — disse, e voltou a surpreender os seus homens.
Os guarda-costas entraram, obedientes, no segundo carro, e o Hima deitou com cuidado a cabeça do Fai no seu colo, a contemplar-lhe o rosto. Parecia um golden retriever. Os cabelos castanhos molhados combinavam na perfeição com a pele pálida. As pestanas compridas, ainda com pinguinhos de chuva, eram adoráveis e completavam aquela figura fofa. Não resistiu a tocar-lhe. O que é que este rapaz lhe tinha feito? Nem se importava que o seu fato caro estivesse a ficar encharcado por causa dos cabelos molhados do Fai.
Tirou o telemóvel e ligou à secretária para que, quando chegassem a casa, o quarto ao lado do dele estivesse pronto — e o médico à espera.
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Notas da tradutora:
• Hia — forma carinhosa de tratar um irmão mais velho.
• Pi — tratamento informal para alguém mais velho.
• Khun — tratamento formal e respeitoso, equivalente a Sr./Sra., sem género.
• Nong — forma carinhosa de tratar alguém mais novo.
• Wai — gesto de saudação tailandês (juntar as mãos)