02 – Bom filho (parte 1 de 2)
A manhã do Fai
Na manhã de segunda-feira, ao Fai, como sempre, custou-lhe a abrir os olhos ao som do despertador do telemóvel. De manhã, tentava sempre sair a correr para se manter em forma, mesmo tendo dormido só umas três horas, porque trabalhava no clube até às quatro e meia. Estava terrivelmente cansado de correr de mesa em mesa e de aturar as cantadas untuosas dos clientes.
Depois de lavar a cara, não tomou banho, porque a seguir à corrida ia ficar todo suado na mesma. Vestiu uns calções pretos até aos joelhos e uma t-shirt vermelha com um abacate estampado, pôs os auriculares, ligou a música e saiu a correr. Àquela hora ainda não estava muito calor lá fora, mas para a tarde prometiam outra vez mais de 32 graus. Deu a volta ao quarteirão em quinze minutos e voltou para casa. A mãe ainda não se tinha levantado — e ele já estava habituado a que, ultimamente, ela não lhe ligasse grande importância.
De volta ao quarto, tomou um duche, vestiu o uniforme da universidade e foi fazer o pequeno-almoço para os dois. Ao abrir o frigorífico, o Fai deu com tristeza por ali só haver quatro ovos, o arroz do dia anterior e um pouco de manjericão. Sem pensar duas vezes, tirou tudo do frigorífico, fritou os ovos com manjericão e aqueceu para si metade do arroz que restava. Enquanto comia, ia pensando a que horas é que a mãe se teria deitado, se teria jantado ou se teria ficado só a beber. Apesar destes pensamentos nada animadores, sorria.
Terminado o pequeno-almoço, o Fai lavou o prato e toda a loiça que estava no lava-loiça. Deixou o pequeno-almoço em cima da mesa, com um bilhete:
📝 ‹Mãe, não te esqueças de comer, senão estragas de vez o estômago. Amo-te.›
Voltou ao quarto e sentiu uma ligeira tontura. Sem lhe dar importância, arrumou os livros e os cadernos na mochila; e ouviu o som de uma mota a aproximar-se, a acelerar de leve em frente a casa. O Fon sabia muito bem que não devia buzinar, porque o Fai tinha cuidado com a mãe. O Fai despachou-se para a rua, porque já sabia quem era. Agarrou no telemóvel que estava em cima da mesa da cozinha e, quase a calçar-se em andamento, saiu de casa com um sorriso de orelha a orelha.
À porta já o esperava o seu melhor amigo, o Fon. São amigos desde o secundário e entraram na mesma universidade, mas em cursos diferentes. O Fai estuda Engenharia e o Fon, Psicologia. As profissões, escolheram-nas seguindo o chamamento do coração.
O Fai pegou no capacete que o outro lhe estendia e pô-lo, ao mesmo tempo que se sentava no banco de trás da mota. Os dois chegaram à universidade e cada um foi para a sua faculdade.
Na pausa do almoço, almoçavam sempre juntos. Na cantina da Engenharia a comida era mais saborosa, por isso o Fon costumava ir almoçar para lá. A camisa azul da Medicina dele destacava-se à distância no meio das camisas cor de bordô dos engenheiros. Corria o boato, pela universidade, de que os dois andavam juntos, porque estavam sempre lado a lado, em todo o lado. Os rapazes não ligavam, porque tanto lhes fazia o que os outros pensavam deles.
Ao ver o amigo de camisa azul, o Fai acenou-lhe com um sorriso e chamou-o para a mesa, onde já havia uma dose a mais. O Fai não se sentia lá muito bem, mas não deu importância.
— Mmm… tão atencioso, como sempre — disse o Fon com um sorriso, a sentar-se à mesa.
— Claro. Se não o fizesse, ficavas outra vez a dar conversa aos engenheiros enquanto escolhes a comida e, no fim, ficavas em jejum — disse o Fai a sorrir; mas o Fon não se ofendeu, apenas encolheu os ombros.
Pois é, o Fon era do género que adora namoriscar. Não tinha um par fixo, porque se fartava depressa de todos.
— Vais ao clube outra vez hoje? Posso ir contigo? Vá lá, por favooor! — o Fon agarrou o Fai pelo braço, aquele que segurava a colher. Ainda bem que já não tinha comida, senão a mesa e a camisa do Fai teriam ficado à balda, de tal maneira ele lhe sacudia o braço.
— Larga — disse o Fai a sorrir, a puxar o braço e a apertar mais a colher para ela não cair.
— Não te esqueceste de nada? Tens uma corrida hoje às nove. Qual clube, qual quê? — lembrou-lhe o Fai, a continuar a comer o arroz com legumes.
— Ai… e hoje já é dia dezanove? Baralhei-me um bocado no calendário — respondeu o Fon, espantado. O Fai acenou que sim.
— Obrigado, papá, por te lembrares sempre daquilo que a mim me foge da cabeça — agradeceu o Fon. O amigo ergueu os olhos e sorriu.
Terminado o almoço, cada um voltou para a sua faculdade. As aulas do Fai iam até às três. O Fon acabava mais tarde, por isso o Fai decidiu não o esperar e voltar sozinho. Mandou-lhe uma mensagem e foi para casa.