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09 – O Novo Leo

O Refúgio ficava numa rua estreita perto do rio, atrás de uma porta de madeira escura sem letreiro nenhum. Quem sabia, sabia. Quem não sabia, passava ao lado.

Lá dentro era outra coisa. Luz baixa, cor de âmbar. Paredes de pedra antiga. Música funda, que se sentia no peito antes de se ouvir. Um bar comprido de madeira, sofás de couro em recantos meio escondidos, e ao fundo um corredor com portas fechadas onde nem toda a gente podia entrar. Era um bar para quem gostava de homens, de mulheres, ou de ambos, e para quem gostava de certas regras, e de as ver cumpridas. Leo, o Henrique e o Mário tinham-no aberto juntos, anos antes. Mas era o Mário que mandava ali, com uma calma e uma firmeza que ninguém esperava de alguém tão novo.

Leo atravessou a sala sem parar e foi direto ao escritório do fundo.

Encontrou-os como os encontrava muitas vezes: o Henrique sentado no sofá, com um copo na mão, e o Mário no chão, aos pés dele, com a cabeça encostada à coxa do companheiro e os olhos meio fechados, como um gato ao sol. Havia naquilo uma paz que Leo sempre invejara em silêncio. Ele próprio já tinha estado do outro lado daquelas regras, muitas vezes, com muita gente. Nunca tinha sentido aquela paz. Sentia o corpo, sentia o controlo, e depois ia para casa e sentia o vazio.

— Boa noite — disse, a fechar a porta.

O Henrique nem o deixou sentar-se.

— Que raio se passa contigo?

— Boa noite para ti também. — Leo inclinou a cabeça para o Mário. — Mário.

— Leo. — O Mário abriu os olhos e fez menção de se levantar. — Querem que saia? Parece conversa séria.

— Fica. — Leo fez-lhe sinal com a mão. — Vocês contam tudo um ao outro de qualquer maneira. E eu confio em ti.

Sentou-se na poltrona em frente. Ficou um bocado calado, com os cotovelos nos joelhos.

— Não sei o que se passa comigo, Henrique — disse, por fim. — A sério. Não me reconheço. Passei o dia inteiro a fazer coisas que não faço. Aquele rapaz… — Passou a mão pela cara. — Com qualquer outro, a esta hora já tinha acontecido tudo. Com ele, não fui capaz. Nem lhe toquei a boca. E não foi por falta de vontade. Foi porque não quis estragar nada.

O Henrique riu-se baixinho.

— Bem-vindo ao clube, meu amigo. Eu vi-o durante cinco minutos e percebi logo que não era como os outros. — Ficou sério. — Mas vai devagar, Leo. É muito novo.

— Eu sei.

— E muito tímido. E muito…

— Eu sei, Henrique.

O Mário tinha fechado os olhos outra vez. O Henrique passava-lhe os dedos pelo cabelo, devagar, sem pensar, e Leo deu por si a olhar para aquela mão.

— Dei-lhe de comer — disse, baixinho. — Hoje. Na sala de descanso. Dei-lhe de comer à boca, garfada a garfada, e ele deixou. E foi a coisa mais… — Não encontrou a palavra. — Nunca me senti assim com ninguém.

O Henrique parou a mão.

— E o resto? — perguntou, com cuidado. — Isto. — Fez um gesto que abrangia a sala, o bar, as portas fechadas do corredor. — Aquilo que tu és. Ele sabe?

— Claro que não sabe. Conheci-o hoje.

— E se ele não aceitar?

Leo demorou a responder.

— Então talvez eu mude.

O Henrique ficou a olhar para ele como se ele tivesse dito uma coisa numa língua estrangeira.

— Tu. Mudar. Por alguém.

— Por ele, se for preciso. — Leo encolheu os ombros, e a voz saiu-lhe mais baixa. — O mais estranho é que, com ele, nem penso nisso. Não me apetece mandar. Apetece-me cuidar. — Riu-se de si próprio, sem graça. — Não conheço este Leo. Juro-te que não o conheço.

— Eu também não. — O Henrique sorriu, meio terno, meio preocupado. — Mas gosto dele.

— O Rafael — disse Leo, quase para si. — O meu anjo.

Aos pés do Henrique, o Mário abriu os olhos de repente.

Foi só um instante. Ninguém reparou, a não ser Leo, e Leo não percebeu o que viu. Uma sombra que atravessou a cara do rapaz e desapareceu. A mão dele fechou-se sobre o joelho do Henrique, com força, e depois abriu-se outra vez.

— Rafael — repetiu o Mário, em voz baixa. — É um nome bonito.

E voltou a encostar a cabeça, e a fechar os olhos, e não disse mais nada.

🍃 🍃 🍃

Quando saiu do escritório, a sala estava cheia.

Leo conhecia aquele cenário de cor. Noutra noite qualquer, teria circulado pelas mesas, cumprimentado quem conhecia, deixado que alguém se aproximasse ou aproximado-se ele, conforme lhe apetecesse, sem se importar muito com quem. Naquela noite, encostou-se ao balcão com um copo de água com gás e não teve vontade de falar com ninguém.

Sentiu-a antes de a ver. O perfume, primeiro. Doce, pesado, a baunilha e qualquer coisa escura por baixo.

— Boa noite, Leo.

A Vera encostou-se ao balcão ao lado dele, tão perto que o braço dela tocou no dele. Cabelo negro, liso e comprido, a cair-lhe pelas costas. Olhos verdes, muito abertos, que não pestanejavam o suficiente. Vestia de negro, sempre, e movia-se como quem sabe que está a ser olhada e gosta.

Leo conhecia-a de outras noites. De uma noite, sobretudo, meses antes, de que não se orgulhava muito.

— Vera.

— Sozinho? — Ela inclinou a cabeça. — Não é costume.

— Hoje sim.

— Não costumas recusar companhia. — Pousou-lhe a mão no braço. Tinha as unhas pintadas de vermelho-escuro e, no dedo anelar, uma aliança de ouro fina, gasta, que Leo já tinha visto antes e sobre a qual nunca perguntara nada. — Posso fazer-te esquecer o que te preocupa. Basta dizeres que sim.

Leo tirou-lhe a mão do braço. Devagar, com educação, mas tirou.

— Agradeço. Mas não.

Durante um segundo, alguma coisa endureceu nos olhos dela. Depois o sorriso voltou. Mas já não era o mesmo sorriso.

— Um dia vais perceber que ninguém te conhece como eu — disse, baixinho. — Ninguém. E espero que nesse dia não seja tarde demais.

Afastou-se pela sala cheia, a costurar entre as pessoas, e antes de desaparecer voltou-se para trás e olhou para ele. Um olhar comprido, fixo, como quem tira uma fotografia.

Leo sentiu um arrepio nas costas e não soube dizer porquê.

🍃 🍃 🍃

Quase meia-noite.

Leo olhou para o relógio e depois para o telemóvel, pousado no balcão ao lado do copo. O contacto *R.* continuava lá. A mensagem por escrever também.

*Já estará a dormir?*

*Estará melhor?*

*Terá pensado em mim, um bocadinho que seja?*

Pegou no telemóvel. Escreveu. Não apagou, desta vez. Carregou em enviar antes que a coragem fugisse, e guardou-o no bolso como quem esconde uma prova.

🍃 🍃 🍃

Do outro lado da cidade, Rafael estava deitado às escuras, com os auscultadores nos ouvidos e a música tão alta que já nem a ouvia.

Tinha tentado de tudo. Um jogo no computador. Uma série. Um livro. Tinha tentado dormir, e não conseguira, porque cada vez que fechava os olhos sentia uma mão na nuca.

Entre duas músicas, o telemóvel vibrou em cima do peito.

*O Nuno outra vez*, pensou, sem pressa. Só lhe pegou quando a música acabou.

Não era o Nuno. Era um número que ele não conhecia.

📩 — <Boa noite, anjo. Estás melhor?>

Rafael sentou-se na cama tão depressa que os auscultadores lhe caíram para o colo.

Leu outra vez. E outra. *Anjo.* Só havia uma pessoa no mundo que lhe chamava aquilo, e essa pessoa tinha-o conhecido nessa manhã.

Os dedos tremiam-lhe.

📩 — <Leo?>

A resposta demorou nada.

📩 — <Sim, sou eu. Surpreendido?>

📩 — <Um bocado. Como é que o senhor conseguiu o meu número?>

📩 — <Só te digo quando deixares de me tratar por senhor.>

Rafael mordeu o lábio. Escreveu *não sei se consigo*, apagou, voltou a escrever, enviou.

📩 — <Não sei se consigo.>

A resposta, desta vez, demorou mais.

📩 — <Achas-me assim tão velho?>

No bar, Leo ficou a olhar para a mensagem que acabara de enviar e arrependeu-se dela imediatamente. *Estúpido. Estúpido. Se ele disser que sim…*

O telemóvel vibrou.

📩 — <Não! Não te acho velho. Acho-te… crescido. Alguém que sabe o que quer. Eu gosto disso.>

Leo ficou a olhar para aquilo durante muito tempo. Não sabia que cara estava a fazer, mas o barman passou por ele duas vezes e à segunda perguntou-lhe se estava bem.

📩 — <Tu deixaste o teu número na ficha da escola. Esqueceste-te?>

Rafael levou a mão à testa. Claro. A ficha. E logo a seguir, uma coisa quente a subir-lhe pelo peito: *ele foi procurar a ficha. Ele foi procurar-me.*

📩 — <Esqueci. Pensei que não tinhas gostado de mim. Por eu ser tão novo.>

📩 — <Gostei. Muito. Por isso é que te estou a escrever à meia-noite como um adolescente.>

Rafael riu-se sozinho, no escuro, e tapou a boca com a mão para não acordar os pais.

📩 — <Janta comigo amanhã? Só para conversar. Sem pressa nenhuma.>

Rafael deixou cair o telemóvel na cama. Apanhou-o. Leu outra vez.

*Jantar.* Ele queria jantar com ele. *Com ele.*

Quase saltou da cama. Depois lembrou-se da porta do quarto dos pais, ao fundo do corredor, e da cara que o pai fazia quando ele chegava depois das onze.

📩 — <Tenho de perguntar aqui em casa primeiro. Não sei se deixam.>

Mandou e ficou logo arrependido. *Que ridículo. Tenho dezoito anos e vou pedir autorização para jantar fora. Ele vai achar que sou uma criança.*

📩 — <Claro. Esqueço-me de que ainda vives com os teus pais. Desculpa. Não te quero pôr em sarilhos.>

E logo a seguir:

📩 — <Se quiseres, falo eu com eles.>

Rafael sentiu uma coisa apertar-se-lhe no peito. Não era pena. Não era troça. Era outra coisa, que ele ainda não sabia chamar.

📩 — <Não. Eu falo. Amanhã digo-te.>

📩 — <Está bem. Vai dormir, anjo. Não penses demasiado.>

📩 — <Tu também. Boa noite, Leo.>

Foi a primeira vez que lhe escreveu o nome sem mais nada à volta. Ficou a olhar para ele no ecrã, com o coração aos saltos, antes de apagar a luz.

🍃 🍃 🍃

No bar, Leo guardou o telemóvel e deu por si a sorrir para o copo de água como um idiota.

O Henrique apareceu no corredor, com o Mário atrás dele, e parou quando o viu.

— Olha-me para esta cara. — Cruzou os braços. — Não aguentaste até amanhã, pois não?

— Amanhã vou jantar com ele — disse Leo. — Se os pais deixarem.

O Henrique abriu a boca e voltou a fechá-la.

— *Se os pais deixarem* — repetiu, devagar. — Tu. Leo Mattos. À espera de que os pais deixem.

— Cala-te.

— Não, não, eu calo-me. — Mas estava a rir. — Só estou a guardar este momento para o contar no teu casamento.

Atrás dele, o Mário não se riu. Tinha ficado muito quieto quando ouviu a palavra *pais*, e olhava para o chão como se lá estivesse escrita uma coisa que só ele conseguia ler. Pensava em alguém que o devia ter protegido e que tinha sido quem mais o magoou.

— Os pais — disse, baixinho. — Isso é sério.

Leo olhou para ele. O Mário sorriu, depressa, e desviou os olhos.

— Sabes o que é mais estranho? — disse Leo ao Henrique. — Até há pouco tempo, quando me falavam da Beatriz, ainda me doía. Hoje, lembrei-me dela e não senti nada. Nada. Como se tivesse tirado uma armadura que usava há anos sem dar por isso.

— Tu nunca amaste a Beatriz. Achaste que sim.

— Pode ser. — Leo pegou no casaco. — Mas também achava que não voltava a sentir nada. E olha.

O Henrique pôs-lhe a mão no ombro.

— Vai devagar, Leo — disse, e já não estava a brincar.

Leo levantou a mão sem se virar e saiu.

🍃 🍃 🍃

Do fundo da sala, meio escondida atrás de uma coluna de pedra, a Vera viu-o sair.

Tinha visto tudo. O telemóvel. O sorriso para o copo de água. Um sorriso que ela nunca lhe tinha visto, nem naquela noite, meses antes, em que ele a levara a casa e se fora embora antes de amanhecer.

Apertou o copo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

Com a outra mão, sem dar por isso, tocou na barriga. Devagar. Como quem acalma uma coisa que já lá não está.

Depois pousou o copo no balcão, ainda cheio, e saiu atrás dele para a noite.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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