Capítulo 9 — O Novo Leo
O destino de Leo era “O Refúgio”, um bar LGBT com uma atmosfera subtilmente marcada pelo BDSM. O espaço, que pertencia a Leo, Henrique e Mário, era conhecido pela energia vibrante e pela sensação de liberdade que oferecia a quem ali entrava. Mário, apesar da pouca idade, geria o bar com uma competência admirável, equilibrando firmeza e sensibilidade.
Leo entrou sem hesitar e dirigiu-se ao escritório de Mário. Encontrou os dois juntos, num ambiente de intimidade tranquila. Henrique e Mário tinham uma relação equilibrada, feita de desejo, afeto e respeito mútuo. Leo, embora participasse ocasionalmente nas dinâmicas do bar, nunca encontrara ali verdadeira realização. O envolvimento era mais curiosidade do que necessidade — e, mesmo nos momentos mais intensos, sentia sempre um vazio discreto, uma ausência que não sabia explicar.
Via em Mário uma entrega total, quase hipnótica, e perguntava-se se algum dia seria capaz de sentir algo assim. Mesmo quando o corpo reagia, a alma permanecia distante, como se faltasse sempre uma peça essencial.
Assim que Leo entrou, Henrique não lhe deu tempo para respirar.
— Que se está a passar contigo? Não reconheço o teu comportamento.
O tom direto cortou o ar do escritório. A preocupação era evidente, mas também a familiaridade de quem conhece o outro há anos. Henrique não precisava de rodeios — e Leo sabia que aquela pergunta era inevitável.
— Boa noite para ti também… boa noite, Mário.
Apesar da tensão, Leo fez questão de cumprimentar o companheiro do amigo. Mário correspondeu com um sorriso leve.
— Boa noite, Leo. Queres que eu saia? Já percebi que a conversa é séria…
Mário começou a levantar-se, mas Leo fez um gesto com a mão, pedindo que ficasse.
— Podes ficar à vontade. És companheiro do Henrique, e vocês contam tudo um ao outro. E eu confio em ti.
Henrique cruzou os braços, esperando. Leo respirou fundo.
— Olha, Henrique… sinceramente, nem sei o que se passa comigo. Juro que não me reconheço. Estou a fazer coisas que nunca imaginei. Aquele rapaz deu-me cabo da cabeça. Deixa-me todo baralhado… fiquei tão excitado, a sério, mas por mais estranho que pareça, não consigo avançar como fazia com os outros. Nem sequer o beijei na boca! Com qualquer outro já tinha acontecido tudo, mas com ele… não consigo. Não quero apressar nada. Quero ir com calma, esperar pelo momento certo.
Henrique soltou um riso breve.
— Meu amigo… acho que foste apanhado na teia do amor. Bem-vindo ao clube. Eu mal conheci o rapaz, mas percebi logo que ele não era como os outros. É muito novo, tímido… e pareceu gostar de ti! Vai com calma, até porque ele é muito novo.
Henrique sorriu, deslizando os dedos pela cabeça de Mário, que se aninhava na sua coxa com um suspiro satisfeito. A cumplicidade entre os dois fez Leo sentir uma pontada de ternura — e uma inveja boa. Desejava algo assim: simples, verdadeiro, confortável.
— Ele mexeu mesmo contigo, não mexeu? — comentou Henrique.
— Mexeu mesmo— confessou Leo, o olhar perdido. — Adorei mimá-lo, dar-lhe carinho, sentir que ele se deixava envolver… até cheguei a alimentá-lo, Henrique. Parece uma coisa simples, mas nunca me senti assim com ninguém. E dou por mim a pensar… se ele não me aceitar como sou, talvez por ele eu fosse capaz de mudar.
O silêncio caiu pesado. Henrique arregalou os olhos.
— Estarias mesmo disposto a deixar de ser quem és, só por ele?
Leo respirou fundo. Imagens do passado atravessaram-lhe a mente — relações falhadas, impulsos que afastaram pessoas, a dificuldade em ceder. Mas agora… era diferente.
— Acho que sim, Henrique. Se for preciso, mudo. Por ele, vale a pena. Nunca senti isto antes. Quero fazer tudo certo.
Henrique sorriu, meio terno, meio resignado.
— Se ele gostar de ti, vai aceitar-te tal como és. Mas, meu amigo… estás mesmo apanhado pelo teu jovem.
Leo sorriu, e os olhos suavizaram-se de um jeito que Henrique não via há muito tempo.
— Acho que estou mesmo. O Rafael… o meu Anjo.
Mário, encostado nas coxas de Henrique, sentiu um aperto no coração ao ouvir o nome Rafael. Imediatamente, uma torrente de memórias tomou conta da sua mente. A lembrança de um Rafael trouxe-lhe uma dor suave, e uma saudade impossível de ignorar.
— Leo… a tua cara ao falares dele não tem descrição, nunca te vi assim — disse Henrique, meio a brincar, meio a rezar internamente para que aquele rapaz correspondesse ao amigo. Sabia que Leo tinha a capacidade de fazer feliz quem amasse — e desejava que, desta vez, fosse retribuído.
— Eu nunca me senti assim… — Confessou Leo, hesitando, visivelmente perturbado.
Fez uma pausa longa, os olhos perdidos no chão.
— E eu tenho medo de estragar tudo — disse Leo, com um suspiro pesado. — Tenho medo de assustá-lo, de ser demasiado intenso, de ele achar que eu só quero uma coisa. Porque não é verdade. Eu quero conhecê-lo, ganhar a confiança dele, conquistar o coração dele.
As palavras saíram-lhe secas, carregadas, como se tentasse expulsar a confusão que o consumia.
— Henrique, ajuda-me a pensar — Leo passou as mãos pelo cabelo, desesperado. — E o pior é que, com ele, eu quero ser melhor. Quero ser claro. Quero ser digno do que ele desperta em mim. Só não sei como avançar sem o pressionar.
Leo inspirou devagar, antes de continuar.
— Sinto-me preso a uma transparência que nunca me exigiram… e isso mexe comigo. Faz-me questionar quem sou e o que procuro.
Henrique respirou fundo, analisando cada palavra.
— Tu mesmo já deste a resposta. — Henrique disse, sério. — O teu coração já decidiu, não compliques. A partir de agora, não há espaço para mais ninguém... concentra-te no que queres construir com o Rafael.
— Sim… no fundo eu já escolhi.
Henrique assentiu, sério.
— Tens noção de que vais ter uma luta grande pela frente se avançarem. A diferença de idades nem sempre é bem aceite. Ele é muito novo.
Leo suspirou, pesado.
— Eu sei disso. Nem imaginas o quanto me preocupa. Tenho medo do julgamento, da rejeição, e de como os meus pais e amigos vão reagir. Sei que podemos enfrentar problemas sérios se não formos cuidadosos…, mas se ele me aceitar, eu estou disposto a lutar. Só queria ter a certeza de que ele sente, pelo menos, uma parte do que eu sinto. Ainda nem sei o que ele pensa de mim, e isso consome-me. Tenho de o conquistar passo a passo, sem pressa — e com verdade.
Henrique sorriu com ternura.
— É para isso que servem os amigos. E acredita… desejo de coração que esse rapaz te retribua tudo o que sentes. Sei o quanto és capaz de fazer quem amas feliz.
Leo soltou uma gargalhada leve, finalmente respirando melhor.
— Vá lá, vamos animar isto! Que tal irmos beber um copo? Ou preferem ficar aqui só a provocar inveja aos solteiros?
— Nós ficamos por aqui. Vai lá divertir-te. — respondeu Henrique, acariciando o ombro de Mário, que sorriu de volta. Leo afastou-se com um sorriso aberto, sentindo-se mais leve do que quando chegara.
🍃 🍃 🍃
Começou a vaguear pela sala cheia, um cenário habitual para ele. Normalmente, circulava entre as mesas, conversando, rindo, convivendo com quem ali estivesse. Quando alguém despertava o seu interesse, tomava a iniciativa — ou deixava-se ser abordado, sem distinção de género. Mas naquela noite, algo estava diferente. Não tinha disposição para interações casuais.
Encostado ao balcão, perdido nos próprios pensamentos, Leo sentiu uma presença aproximar-se. Era impossível não reparar nela.
Vera.
Uma mulher de presença magnética, impossível de ignorar. Os cabelos negros, lisos e longos, caíam-lhe pelos ombros com uma elegância felina, enquadrando um rosto delicado, mas marcado por uma intensidade perturbadora. Os olhos, de um verde profundo, observavam tudo com atenção predatória. O sorriso enviesado misturava charme e desafio, como se guardasse segredos que ninguém mais podia decifrar.
A postura dela era confiante, quase provocadora. Movia-se com uma segurança estudada, revelando uma necessidade de controlo e afirmação. Vestia-se de negro, com roupas justas que acentuavam a silhueta elegante e envolviam-na numa aura de mistério. O perfume doce e intenso permanecia no ar mesmo depois de ela se afastar, como uma marca silenciosa.
Apesar da beleza evidente, havia algo de inquietante em Vera — uma energia contida, uma tensão no olhar, como se estivesse sempre à beira de um impulso inesperado.
Aproximou-se de Leo, encostando-se ligeiramente a ele.
— Boa noite, Leo…— disse, com a voz baixa e envolvente.
— Não costumas recusar companhia, pois não?
Leo reconheceu-a de outras noites no bar. O olhar dela nunca vacilava, e isso deixava-o desconfortável.
— Hoje não estou com disposição — respondeu, cordial, mas firme.
Ela inclinou-se mais, deixando o perfume preencher o espaço entre ambos.
— Tens a certeza?— insistiu, pousando a mão no braço dele. — Posso fazer-te esquecer o que te preocupa. Basta quereres…
Leo afastou-se com delicadeza.
— Agradeço, mas não. Não procuro isso esta noite.
Por um instante, o olhar dela endureceu. Depois, o sorriso voltou — mas já não era o mesmo.
— Um dia vais perceber que ninguém te entende como eu, Leo — murmurou, com uma nota de desafio. — E quando esse dia chegar… espero que não seja tarde demais.
Ela afastou-se, mas antes de desaparecer na multidão, lançou-lhe um último olhar, intenso e prolongado. Leo sentiu um arrepio estranho percorrer-lhe a espinha.
Quando olhou para o relógio, viu que era quase meia-noite. E, sem intenção, uma série de perguntas surgiu-lhe na mente:
“Ele já estará a dormir?
Será que está melhor?
E terá pensado em mim?”
A tensão tornou-se insuportável. Com os dedos trémulos, Leo escreveu uma mensagem curta, quase tímida, e enviou-a. Sabia que era tarde, que Rafael provavelmente já dormia, e que a resposta — se viesse — só chegaria com o dia. Mas precisava de quebrar o silêncio, nem que fosse com um sussurro digital.
Guardou o telemóvel no bolso e tentou retomar a rotina, circular pelo espaço como se nada tivesse mudado. Mas o coração estava inquieto, atento, como se esperasse um milagre.
🍃 🍃 🍃
Do outro lado da cidade, Rafael já não conseguia esconder o sorriso. A mensagem de Leo tinha-lhe mudado o estado do mundo em segundos.
Desistiu de se distrair. Deitou-se, colocou os fones e deixou a música preencher-lhe a mente, na esperança de que o sono chegasse e lhe trouxesse algum alívio.
Absorvido no som, perdeu a noção das horas. A música abafava quase tudo — mas não completamente. Entre melodias, ouviu o som discreto de uma notificação.
Assumiu que era o melhor amigo. Não se apressou. Mas quando finalmente pegou no telemóvel e viu um número desconhecido, hesitou.
Abriu a mensagem.
E o sorriso nasceu antes mesmo de terminar a leitura.
📩 — [Boa noite, meu Anjo. Estás melhor?]
Leo.
Era ele.
O coração de Rafael acelerou. A confirmação de que Leo pensara nele naquele momento encheu-o de uma felicidade tão intensa que quase doía.
🍃 🍃 🍃
No bar, Leo sentiu o telemóvel vibrar no bolso.
Parou.
O som discreto pareceu ensurdecedor. O coração disparou. A esperança explodiu dentro dele.
📩 — Leo?
📩 — Sim, meu Anjo, sou eu mesmo… surpreendido?
Rafael ficou imóvel, com o peito apertado entre o encanto e o receio. Uma pergunta ecoou-lhe de imediato na mente — “como é que ele tinha conseguido o seu número?” A dúvida percorreu-lhe o corpo como um arrepio, mas a alegria era impossível de esconder.
📩 — Um pouco. Como conseguiu o meu número de telemóvel?
Do outro lado da linha, Leo sorriu ao ler a pergunta do seu pequeno anjo.
📩 — Só respondo quando me começares a tratar por tu.
📩 — Não sei se consigo!
A hesitação de Rafael era quase palpável. Os dedos tremiam-lhe ligeiramente enquanto relia a mensagem, como se cada palavra fosse um passo em terreno desconhecido. O suspense entre os dois parecia um fio invisível, esticado, vibrante.
📩 — Achas-me muito velho?
E agora?
Leo hesitou um instante ao ler, e o medo surgiu-lhe como um golpe: e se Rafael o achasse demasiado velho? E se aquilo fosse, afinal, um obstáculo?
Como poderia Rafael responder sem o magoar… ou sem revelar que justamente essa maturidade era uma das coisas que mais o atraíam?
A resposta chegou depressa.
📩 — Não, eu não te acho velho! Maduro, alguém que sabe o que quer! Eu gosto disso!
O peito de Leo aqueceu de imediato. Sentiu-se visto, desejado, aceite.
Um sorriso tolo escapou-lhe sem que pudesse evitar. Era incrível como aquele rapaz conseguia mexer tanto com ele apenas com palavras num ecrã.
📩 — Ótimo! Tu deixaste o teu número na ficha que enviaste para a escola, esqueceste disso?
Rafael levou a mão à testa. Claro — que estupidez. Tinha deixado o número na ficha. Isso só podia significar uma coisa: Leo pensara nele, fora procurá-lo, e essa certeza fez-lhe o coração dar um salto.
📩— Esqueci sim. Pensei que não tinhas gostado de mim por eu ser tão novo!
As mãos tremiam-lhe enquanto enviava a mensagem, e a expectativa era quase dolorosa.
📩 — Meu Anjo, eu gostei de ti, sim. Olha, vou fazer-te um convite. Janta comigo amanhã e vamos conversar um pouco. Que me dizes?
Rafael congelou, depois explodiu.
JANTAR. ELE TINHA-O CONVIDADO PARA JANTAR. ELE QUERIA SAIR COM ELE.
O coração parecia prestes a saltar-lhe do peito.
Quase se levantou da cama aos pulos, mas conteve-se — ainda havia a questão dos pais.
📩— Tenho de perguntar aqui em casa. Não sei se eles deixam!
Leo respondeu quase de imediato.
📩— Esqueço que és tão novo e ainda dependes dos teus pais. Desculpa-me! Só queria estar contigo um pouco.
Rafael sentiu um aperto doce no peito.
Leo não estava a pressioná-lo — estava a cuidar.
📩 — Tudo bem… posso dar-te a resposta amanhã?
Ele mordia o lábio, nervoso, não queria que Leo desistisse dele por causa de um simples pedido aos pais.
📩— Claro, meu querido! E, se quiseres, posso falar com eles por ti!
A ternura transbordava das palavras, e Rafael sentiu-se protegido… e corajoso.
📩 — Não… eu… eu falo com eles.
Queria mostrar maturidade, mesmo com o estômago às voltas.
📩 — Vai descansar, meu Anjo. Não penses demasiado… Amanhã falamos, está bem? Dorme bem.
📩 — Boa noite, Leo. Até amanhã!
🍃 🍃 🍃
Na penumbra do bar, Vera observava.
O sorriso de Leo — aquele sorriso aberto, raro, genuíno — caiu em Vera como uma facada no orgulho. Sentiu o coração apertar-se, e a inquietação dentro dela transformou-se em algo mais escuro.
Para Vera, Leo era dela, e vê-lo feliz por causa de outra pessoa era simplesmente intolerável. O brilho nos olhos dele parecia-lhe uma ameaça, e soube, com uma certeza fria, que não descansaria enquanto não recuperasse o que considerava seu.
🍃 🍃 🍃
Henrique, com Mário a reboque, surgiu no corredor iluminado, trazendo consigo uma energia diferente. Assim que avistou Leo ao longe, Henrique não conseguiu evitar o comentário:
— Leo, estás com um ar de tolinho a sorrir para o nada. Que bicho te mordeu, homem? —disse, divertido.
Leo ergueu os olhos, ainda com o brilho no rosto, e respondeu com uma alegria que transbordava na voz:
— Amanhã vou jantar com o meu garoto… se os pais deixarem, claro.
O sorriso de Mário esmoreceu por um instante ao ouvir aquelas palavras. Jantar. Conhecer os pais. Para Leo, que nunca levara ninguém a sério, aquilo era quase impensável. Ficou calado alguns segundos, algo a apertar-lhe o peito sem que conseguisse explicar porquê, antes de recuperar o tom habitual.
— Os pais…— murmurou Mário, quase para si. — Isso é sério.
Fez uma pausa, como se ponderasse dizer mais alguma coisa, mas limitou-se a sorrir de novo, desviando o olhar.
Henrique, sem notar nada de especial na reação do companheiro, retomou o tom brincalhão:
— Falaste com ele? Não conseguias esperar até amanhã? Esse miúdo deu-te um nó na cabeça.
Leo sorriu — aquele sorriso meio bobo, meio encantado, impossível de disfarçar.
— SMS… Eu tentei, juro que tentei. Mas não sei o que se passa comigo, Henrique. Quero-o por perto. Merda… nunca me senti assim. Nem com a Ana. E tu sabes o que eu passei. — Leo continuou, mais para si do que para Henrique. — Até há pouco tempo, só de ouvir o nome dela sentia um aperto. Hoje… é como se ela nunca tivesse existido.
Henrique pousou uma mão firme no ombro do amigo.
— Sei bem o que ela te fez passar, mas tu não a amavas. Agora, nem te lembras que ela existiu e já dizes o nome dela sem te afetar.
Leo assentiu, respirando fundo.
— Tens razão. Achei mesmo que ela era a mulher da minha vida. Quando tudo acabou, fechei o meu coração e achei que nunca mais ia sentir nada assim. Mas de repente, esse miúdo apareceu e mudou tudo em poucas horas. É estranho… ainda há pouco, o nome dela pesava-me no peito, mas agora sinto-me leve, como se tivesse tirado uma armadura. É como se ele tivesse acendido uma luz cá dentro… uma coisa boa, quente. E sabes? Não quero que ele desapareça. Quero encontrar espaço no coração dele e ficar ali, perto, por muito tempo.
— Gosto de te ver animado — disse Henrique, com um sorriso cúmplice. — E perceber em ti um outro Leo que eu nem sabia que existia. Mas acho que este novo Leo também é desconhecido para ti.
Mário estava ali, calado, ouvindo em silêncio. Pensava em alguém que deveria protegê-lo, mas que foi quem mais o magoou.
Leo suspirou.
— Sim… nem eu me reconheço quando estou com ele. Não conheço o Leo meigo, carinhoso, preocupado. Não conheço o Leo protetor, que coloca a vontade do seu garoto acima da sua. Com ele não consigo ser a pessoa fria que sou e gosto. Aliás… com ele nem penso sequer em dominar. E sabes? Gosto desse Leo que aparece quando estou com ele.
Henrique encolheu os ombros, mas o brilho nos olhos não enganava.
— Espero que o consigas conquistar… porque eu já gosto desse garoto, capaz de te devolver o sorriso.
Leo sorriu, com o coração cheio.
— Eu quero continuar a sentir isto… e acho sinceramente que sou correspondido.
Despediu-se de Henrique e Mário.
Leo saiu do bar com um sorriso leve, quase luminoso, como quem carrega um segredo bom no bolso. O telemóvel ainda vibrava na memória, e cada passo parecia mais leve do que o anterior. Henrique e Mário ficaram à porta do escritório, observando-o com expressões distintas.
Henrique sorria, feliz pelo amigo, mas havia uma sombra de preocupação nos olhos.
Mário, mais silencioso, parecia captar algo que escapava aos outros.
— Vai com calma, Leo…— murmurou Henrique, como quem sabe que a felicidade também pode ser frágil.
Leo ergueu a mão num gesto despreocupado, sem olhar para trás. Estava entregue à promessa do jantar, ao brilho de Rafael, ao que poderia vir.
Parcialmente oculta, imóvel, olhos fixos em Leo. O olhar não era de curiosidade — era de cálculo. Frio, atento, como quem estuda um alvo. Um leve movimento da cabeça acompanhou-o até ele desaparecer.
Vera apertava o copo com força, o coração pesado de mágoa. Leo partia leve, entregue à promessa do jantar — sem perceber que deixava alguém ferido para trás.
Leo entrou no carro e, ao conduzir para casa, deixou que a mente se desprendesse do presente, recaindo novamente em Rafael.
Entrou em casa, onde ninguém o esperava. Por instantes, sentiu o peso da solidão — tão diferente do que deixara para trás. Mas havia um nome que lhe aquecia o peito e contradizia o vazio: Rafael.