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08 – Rafael

Leo ficou dentro do carro até a porta verde se fechar.

Depois ficou mais um bocado. O motor a trabalhar, o ar condicionado a soprar frio contra a cara, as mãos pousadas no volante. A rua estava vazia, a não ser por um gato que atravessou o passeio sem pressa e se deitou à sombra de uma laranjeira.

*Vai, enquanto eu ainda tenho juízo.*

Tinha dito aquilo em voz alta. A um rapaz de dezoito anos que conhecera nessa manhã. Com a mão na nuca dele.

Encostou a cabeça ao banco e fechou os olhos.

Não era a primeira vez que desejava alguém. Desejava muita gente, ou pelo menos deixava-se levar, e no dia seguinte não se lembrava dos nomes. Mas aquilo tinha sido outra coisa. Tinha pousado a mão no joelho dele sem pensar, e depois, quando pensou, deixou-a ficar só para ver o que ele fazia. Se o rapaz se tivesse afastado um centímetro, teria tirado a mão e pedido desculpa e nunca mais lhe tocava. Não se afastou. Ficou quieto como um bicho que não quer assustar outro, a respirar devagar, com as orelhas vermelhas. E Leo teve de agarrar o volante com a outra mão para não fazer mais nada.

Abriu os olhos. Meteu a primeira.

Durante todo o caminho de volta, a cena que lhe vinha à cabeça não era a do carro. Era a outra. O rapaz estendido na passerelle, de lado, a camisa colada às costas, a cara da cor da parede. O estojo preto aberto no chão da sala de descanso, e ele, Leo Mattos, de joelhos, sem saber o que fazer com uma caixinha laranja.

Nunca mais, pensou. Nunca mais ia ficar parado a olhar.

🍃 🍃 🍃

O Henrique estava à porta da escola, a despedir-se dos últimos candidatos, quando o viu sair do elevador da garagem. Esperou que a Sara e o Miguel desaparecessem na rua e só então se virou.

— Então?

— Deixei-o em casa. Está bem. Comeu tudo.

— Deixaste-o em casa. — O Henrique cruzou os braços. — E?

— E nada.

— Leo.

— Nada, Henrique. — Leo baixou a voz, apesar de não haver ninguém por perto. — Não o beijei, se é isso que queres saber.

O Henrique ficou a olhar para ele como se ele tivesse dito que não sabia nadar.

— Não o beijaste.

— Não.

— Tu. Leo Mattos. Não beijaste uma pessoa de quem gostas.

— Fala baixo, por amor de Deus. — Passou a mão pelo cabelo. — Beijei-lhe a testa. Está bem? A testa. E a cara. Estava mal, tinha acabado de desmaiar, não ia…

Não acabou a frase. O Henrique também não a acabou por ele. Ficaram os dois calados um bocado, à porta da escola, com o calor da tarde a subir do passeio.

— Tens a ficha dele? — perguntou Leo, por fim.

— Tenho. Porquê?

— Preciso do número.

O Henrique suspirou, um suspiro comprido, de quem conhece aquela cara desde os seis anos.

— Leo. Vai com calma. O miúdo teve um dia pesado.

— Eu sei.

— E tu tens trinta e dois anos.

— Também sei isso.

— E sabes o que andam a dizer lá dentro? Que chegou pela tua mão, que saiu ao teu colo…

— Sei. — Leo olhou para ele. — Dá-me o número, Henrique. Não lhe vou ligar hoje. Só quero tê-lo.

O Henrique olhou para ele mais um bocado. Depois abanou a cabeça, devagar, e riu-se sem vontade.

— Está em cima da minha secretária. A pasta azul. — E, quando Leo já se afastava: — Hoje à noite, no Refúgio. Tu e eu. E o Mário. Não é um pedido.

Leo levantou a mão sem se virar.

A ficha estava onde o Henrique dissera. Uma folha simples, preenchida à mão, com uma letra redonda e cuidadosa. *Rafael Cardoso Wei. 18 anos.* Uma morada que ele já conhecia. Um número de telemóvel. No sítio das observações, numa letra mais pequena, quase envergonhada: *Diabético.*

Leo ficou a olhar para aquela palavra muito tempo.

Depois copiou o número para o telemóvel, guardou-o sem nome, só com um *R.*, e fechou a pasta.

🍃 🍃 🍃

Quando voltou ao sétimo andar, a Luísa estava à secretária, com a caixa das coisas da Maria já feita e fechada a um canto, e três pilhas de papéis alinhadas à frente dela como soldados. Levantou-se quando o viu, tão depressa que uma folha escorregou para o chão.

— Desculpe, Sr. Leo. Estava só a arrumar o que ficou por tratar.

— Sente-se, Luísa. Não precisa de se levantar sempre que eu passo.

Ela sentou-se. Apanhou a folha. Não sabia o que fazer às mãos.

— Correu tudo bem? — perguntou ela, e depois corou, como se tivesse perguntado uma coisa que não devia. — Quer dizer… saiu com pressa.

Leo lembrou-se da cara com que tinha saído, e de que ela o tinha visto.

— Correu. Um dos candidatos do casting sentiu-se mal. Já está em casa.

Não disse mais. Ela não perguntou mais. Leo gostou disso, outra vez.

Entrou no gabinete e deixou a porta aberta. Durante uma hora tentou trabalhar. Leu contratos. Respondeu a e-mails. Assinou as provas de capa do mês seguinte sem olhar bem para elas. De cinco em cinco minutos, pegava no telemóvel, abria o contacto *R.*, olhava para o número, e voltava a pousá-lo com o ecrã virado para baixo.

Às seis carregou no intercomunicador.

— Luísa, pode vir cá um minuto?

Ela apareceu à porta com um bloco na mão.

— O que tenho marcado para amanhã?

— Às dez, reunião com a representante da Gucci em Portugal, aqui no escritório. Ao almoço, a Sra. Amélia. — Olhou para o bloco. — Não tem apelido na agenda. Só *Amélia, almoço, não faltar*, sublinhado três vezes. À tarde, entrevista para a Caras, às quatro. Mais nada.

Leo sorriu. Foi o primeiro sorriso verdadeiro desde o bar.

— A *Sra. Amélia* é a minha sobrinha. Vai fazer dezoito anos daqui a umas semanas e manda em mim desde que nasceu. O *não faltar* foi ela que o escreveu, na agenda da Maria, há três meses. — Abanou a cabeça. — Pode tirar o *Sra.* Ela ia adorar, mas depois não se aturava.

A Luísa riu-se. Pela primeira vez, alto, sem tapar a boca. Parou logo, como se tivesse sido apanhada em falta.

Leo olhou para ela com mais atenção. Tinha olheiras que não tinha de manhã. O cabelo começava a soltar-se do elástico. Estava ali desde as dez, sem saber onde ficava nada, numa sala que ainda cheirava ao perfume de outra pessoa.

— Vá para casa, Luísa.

— Ainda não são seis e meia, Sr. Leo.

— Eu sei que horas são. — Encostou-se na cadeira. — Amanhã quero-a comigo na reunião da Gucci, e quero-a acordada. Vá. A sua irmã deve estar à sua espera.

Ela hesitou. Depois acenou, devagar.

— Obrigada.

— Luísa.

Ela parou à porta.

— Hoje foi um bom dia de trabalho. — Pensou um segundo. — Apesar de mim.

Ela não respondeu. Mas quando saiu, levava os ombros um bocadinho mais direitos do que de manhã.

🍃 🍃 🍃

A vivenda estava às escuras quando chegou.

Acendeu só a luz da cozinha. Abriu o frigorífico, fechou-o. Serviu-se de um copo de vinho que não bebeu. Sentou-se ao balcão, com o telemóvel à frente, e ficou a olhar para ele.

Abriu o contacto *R.*

Escreveu: *Olá. É o Leo. Queria saber se estás bem.*

Apagou.

Escreveu: *Comeste?*

Apagou também. Parecia a mãe dele. Parecia pior do que a mãe dele.

Abriu o navegador, em vez disso, e escreveu na barra de pesquisa, devagar, como quem tem vergonha de ser apanhado: *hipoglicemia o que fazer.*

Leu tudo. Os sinais, o suor frio, a confusão, as mãos a tremer. O que fazer se a pessoa estiver acordada. O que fazer se não estiver. O glucagon, onde se espeta, quanto tempo demora. Leu duas vezes a parte da injeção, até ter a certeza de que, da próxima vez, não ficaria de joelhos a olhar para uma caixinha laranja como um idiota.

*Da próxima vez*, pensou. E percebeu que já estava a contar que houvesse uma próxima vez.

O telemóvel vibrou na mão dele. O coração deu um salto ridículo.

Era o Henrique.

📩 — <Refúgio. 22h. Não te atrevas a faltar.>

Leo ficou a olhar para a mensagem. Depois para o copo de vinho, cheio. Depois para o contacto *R.*, ainda aberto por trás da conversa com o Henrique, com o cursor a piscar numa mensagem que ele não tinha coragem de escrever.

Levantou-se e foi mudar de camisa.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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