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07 – Quase

A garagem subterrânea cheirava a betão e a gasolina, e o eco dos passos dos dois ia à frente deles, como se anunciasse qualquer coisa.

Rafael parou quando viu o carro. Um Mercedes preto, baixo, de linhas compridas, a brilhar debaixo das luzes frias como uma coisa que não devia estar estacionada ao pé de carros normais.

Leo reparou na cara dele e riu-se baixinho. Era a primeira vez que Rafael o ouvia rir.

— Gostas?

— É… — Rafael procurou a palavra. — É muito carro.

— É muito carro — concordou Leo, e abriu-lhe a porta do lado do passageiro. Esperou que ele se sentasse. Só depois fechou a porta e deu a volta.

Rafael ficou a olhar para as próprias mãos, pousadas nos joelhos. Ninguém lhe abria portas. Nem o pai, que era o homem mais bem-educado que conhecia. Não sabia o que fazer com aquilo.

— A morada? — pediu Leo, ao ligar o motor.

Rafael disse-lha. Leo meteu-a no GPS sem comentar.

🍃 🍃 🍃

Lá fora, a tarde de julho pesava sobre a cidade, branca de calor. Leo conduzia devagar, mais devagar do que precisava, com uma mão no volante e o cotovelo apoiado na janela.

— Moras longe do centro — disse.

— Numa zona de vivendas, lá para cima. A casa era dos meus avós. — Rafael olhava para a estrada. — Moro com os meus pais. Os meus irmãos já saíram de casa, sou o único que lá está.

— Quantos irmãos?

— Dois. O Jorge, que se vai casar para o ano, e o Luís, que está em Direito. — Hesitou. — Sou o mais novo. Nota-se, não é?

— Porque é que se havia de notar?

— Porque toda a gente me trata como se eu fosse de vidro.

Leo olhou para ele de lado, um segundo, e voltou a olhar para a estrada. Não disse nada. Mas Rafael teve a sensação de que tinha ouvido mais do que ele dissera.

— E o senhor? — perguntou, para quebrar o silêncio. — Tem família?

— Leo. Já combinámos.

— Leo. — Corou. — Desculpe. É difícil.

— Porquê?

— Porque é… — *O Leo Mattos das revistas. O homem cuja fotografia está presa atrás de um cartaz no meu quarto.* — É mais velho — disse, por fim, que era a parte que podia dizer.

Leo soltou uma coisa que não chegou a ser um riso.

— Obrigado pela parte que me toca.

— Não queria dizer isso! Não é velho, é só…

— Eu sei o que querias dizer. — Parou num semáforo e olhou para ele. Havia qualquer coisa de divertido nos olhos claros, e qualquer coisa por baixo, mais funda. — Trata-me por tu, Rafael. Por favor.

— Está bem. — Respirou. — Tens família?

O semáforo ficou verde. Leo arrancou.

— Tenho dois irmãos. O Lorenzo, o mais velho, casado, com dois filhos.

Rafael sentiu o estômago dar uma volta. *Dois filhos. Um deles é o meu melhor amigo, e tu não fazes ideia.* Abriu a boca para dizer, e fechou-a outra vez. Não sabia porquê. Talvez porque, se dissesse, aquilo deixava de ser só dele.

— E o outro? — perguntou.

— O Lucca. O mais novo. É médico, vive mais no hospital do que em casa. — Uma pausa. — E a minha mãe.

Não disse mais nada. Rafael esperou. O silêncio esticou-se.

— E o teu pai? — arriscou.

— Morreu há uns anos.

— E a tua mãe… está bem?

Leo demorou tanto a responder que Rafael pensou que não ia responder.

— Está viva — disse, por fim. — Mas doente.

A cara dele fechou-se de uma maneira que Rafael ainda não tinha visto, nem no salão, nem na sala de descanso. Como uma porta que alguém encosta devagar para não fazer barulho.

— Lamento — murmurou Rafael.

Leo não respondeu. Mas tirou a mão do volante e pousou-a no joelho de Rafael. Assim, sem aviso. Uma mão grande, quente, pesada, pousada ali como se tivesse ido parar ao único sítio onde fazia sentido.

Rafael deixou de respirar.

Devia afastar a perna. Sabia que devia, ou pelo menos achava que devia, embora não soubesse bem porquê. Não afastou. Ficou muito quieto, a olhar em frente, com o coração a bater-lhe nos ouvidos, e sentiu o calor daquela mão atravessar a ganga e espalhar-se-lhe pelo corpo todo, até às orelhas.

Leo não a mexeu. Não apertou, não subiu. Deixou-a ficar, e conduziu o resto do caminho só com a outra mão, e nenhum dos dois disse uma palavra.

🍃 🍃 🍃

A rua de Rafael era sossegada, com vivendas de muros baixos e laranjeiras nos quintais. Leo parou em frente ao portão verde que ele lhe indicou e desligou o motor.

A mão continuava no joelho dele.

— Por favor… — escapou-lhe a Rafael.

Não sabia o que estava a pedir. Que o caminho não tivesse acabado. Que a mão ficasse. Que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse antes de ele ter de sair daquele carro e voltar a ser só um rapaz que desmaiou num casting.

— Por favor, o quê, anjo?

A voz de Leo era baixa, sem pressa nenhuma. Rafael não conseguiu olhar para ele.

— Nada. — Pôs a mão no puxador. — Obrigado pela boleia. E por… tudo.

Abriu a porta. Tinha um pé cá fora quando sentiu a mão de Leo largar-lhe o joelho e subir-lhe pelas costas até à nuca. Os dedos fecharam-se ali, com cuidado, e guiaram-lhe a cabeça, devagar, até ele ter de se virar.

Leo estava muito perto.

*Ele vai beijar-me*, pensou Rafael, e o pensamento encheu-lhe a cabeça inteira. *Ele vai beijar-me e eu nunca beijei ninguém e não sei como se faz.*

Leo inclinou-se.

E beijou-lhe a testa.

Um beijo demorado, quente, com a mão ainda na nuca dele. Depois desceu e beijou-lhe a face, ao pé do canto da boca. Não na boca. Ao pé.

Rafael fechou os olhos. Não conseguia fazer mais nada.

— Desculpa — murmurou Leo, junto ao ouvido dele. A voz saiu-lhe mais rouca do que antes. — Não te devia ter tocado assim. Hoje não. Estiveste mal, e és… — Parou. Recomeçou. — Da próxima vez, se houver uma próxima vez, e se tu quiseres, vou provar-te a boca. Mas só se quiseres.

Rafael abriu os olhos. Leo estava a olhar para ele com uma intensidade que lhe tirou o ar.

— Vai — disse Leo, e largou-lhe a nuca. — Vai, agora, enquanto eu ainda tenho juízo.

Rafael saiu do carro. Atravessou o pequeno jardim da frente sem sentir os pés no chão, abriu a porta de casa, fechou-a atrás de si e ficou encostado a ela, com as costas na madeira e o coração aos saltos, a ouvir o motor do Mercedes a ligar-se e a afastar-se rua abaixo.

Só então se lembrou de que não lhe tinha pedido o número.

🍃 🍃 🍃

A casa estava vazia. A mãe tinha ido às compras e o pai estava no clube de xadrez, como todas as segundas à tarde. Rafael agradeceu a todos os santos de que se lembrou.

Subiu para o quarto e fechou a porta.

— Merda — disse, para ninguém. — Merda, merda, merda.

Tinha a pele a arder. Onde Leo lhe tocara, no ombro, no joelho, na nuca, na testa, parecia que a marca ainda lá estava, quente, como se tivesse ficado impressa.

Foi tomar um duche frio, que não serviu de nada. Encostou a testa aos azulejos, fechou os olhos, e deixou que a imaginação fizesse aquilo que o corpo lhe pedia havia duas horas. Pensou na voz dele. Na mão na nuca. No *anjo*. Não demorou nada.

Quando acabou, ficou muito tempo debaixo da água, sem se mexer, mais confuso do que antes.

Nunca tinha beijado ninguém. Nunca tinha sequer querido muito. Os rapazes da escola falavam de raparigas, ele fingia que sim, e depois ia para casa e não pensava em ninguém. E agora havia um homem de trinta e dois anos que lhe dera de comer à boca e lhe beijara a testa, e Rafael queria que o primeiro beijo da sua vida fosse dele com uma força que lhe metia medo.

*Como será?*, pensou. *Vai achar que eu não sei beijar. Porque eu não sei.*

E depois, com um aperto no estômago: *Não tenho o número dele. Não tenho nada. Não tenho maneira nenhuma de lhe falar.*

O telemóvel vibrou em cima da cama.

Rafael atravessou o quarto em duas passadas, ainda a pingar, com o coração na garganta.

*Nuno.*

Ficou a olhar para o nome no ecrã durante três toques, a engolir a desilusão. Depois atendeu.

📞 — "Olá."

📞 — [Olá?! Só isso? Pela tua voz, correu mal. O que é que aconteceu?]

📞 — "Desmaiei."

📞 — [O QUÊ?]

📞 — "Hipoglicemia. Não comi de manhã, fiquei nervoso, pronto. Já estou bem."

📞 — [Rafa… E o casting?]

📞 — "Desisti. Não era para mim. Queria só saber se era capaz. Mas… conheci o teu tio."

Do outro lado, um silêncio.

📞 — [Conheceste o meu tio. E?]

📞 — "Foi ele que me levou para a sala de descanso quando eu desmaiei. Ao colo. E ficou comigo até eu comer. E depois trouxe-me a casa."

O grito do Nuno foi tão alto que Rafael teve de afastar o telemóvel da orelha.

📞 — [O MEU TIO FEZ O QUÊ?!]

📞 — "Não grites."

📞 — [Rafael. O meu tio Leo. O tio Leo que nos Natais está sentado ao canto a responder a e-mails. Que quando éramos pequenos e a minha mãe lhe pedia para ficar a olhar por nós meia hora, nos punha a ver televisão e ia para a varanda ao telefone. Esse tio Leo pegou em ti ao colo?]

📞 — "Pegou."

📞 — [Tu fizeste-lhe alguma coisa. Enfeitiçaste-o.]

📞 — "Não fiz nada! Ele foi só… simpático. Preocupou-se comigo."

Sentiu as orelhas arder outra vez.

📞 — [Esse não é o meu tio. Trocaram-no.] Uma pausa. [Rafa. Estás esquisito.]

📞 — "Não estou nada."

📞 — [Estás. Conheço-te desde o sétimo ano. Estás esquisito.]

Rafael olhou para o recorte de revista atrás do cartaz de Milão. Leo, de camisa branca, a olhar para qualquer coisa fora da fotografia.

📞 — "Amanhã conto-te. Hoje não consigo."

O Nuno, pela primeira vez desde que se conheciam, não insistiu.

📞 — [Está bem. Mas conta mesmo. E não te esqueças de comer, idiota.]

🍃 🍃 🍃

Ao jantar, a mãe tinha feito arroz de pato e o pai tinha trazido do xadrez uma derrota e um mau humor que lhe passou mal se sentou à mesa.

— Então? — perguntou a mãe, a servir-lhe o prato. — Como é que correu?

— Diferente. — Rafael pegou nos pauzinhos, que o pai insistia em pôr ao lado dos garfos desde que ele era pequeno. — Desisti a meio. Não me senti bem. E percebi que não era aquilo que queria.

O pai pousou os pauzinhos dele.

— Não te sentiste bem como?

— Uma quebra de açúcar. — Não olhou para ninguém. — Pequena. Já passou.

A mãe e o pai trocaram um daqueles olhares.

— Devias ter-nos ligado — disse ela.

— Eu sei. Mas havia lá um enfermeiro. Trataram bem de mim.

Não disse quem. Nem como. Nem o que acontecera depois, no carro, à porta de casa. Guardou isso num sítio dentro de si onde nunca tinha guardado nada, e ficou surpreendido por descobrir que esse sítio existia.

O pai ficou a olhar para ele um bocado. Depois disse, em chinês, devagar, como dizia sempre as coisas que queria que ficassem:

— 记得身体最重要.

*Lembra-te: a saúde primeiro.*

— Eu sei, pai.

E comeu o prato todo, sem ninguém lho mandar.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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