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06 – O Toque que Acalma

📞 — "Diz, Henrique."

📞 — [Preciso de ti cá em baixo. Agora. O rapaz desmaiou.]

Leo não perguntou que rapaz.

Já estava de pé antes de desligar. Do outro lado do vidro, a Luísa levantou a cabeça da pasta amarela e viu-o passar pela porta com uma cara que ela ainda não lhe conhecia.

— Tenho de descer — disse ele, sem parar. — Se alguém ligar, não estou.

Não esperou pelo elevador. Desceu as escadas de dois em dois degraus, seis andares, com a mão a escorregar no corrimão e o coração a bater-lhe nas têmporas.

🍃 🍃 🍃

À porta do salão, meia dúzia de candidatos esticava o pescoço para ver. Leo afastou-os sem pedir licença.

O rapaz estava no chão, a meio da passerelle, de lado, com um braço dobrado debaixo do corpo e a camisa colada às costas. A Sara estava ajoelhada ao lado dele, a segurar-lhe a cabeça. O Henrique falava ao telefone com a voz alta de quem já repetiu a mesma coisa três vezes.

— O que é que aconteceu?

— Não sei. — O Henrique desligou. — Estava a desfilar, ficou branco, começou a suar e caiu. Assim, de repente. O enfermeiro está a vir do outro edifício.

— Ele é diabético — disse a Sara, de repente. Todos olharam para ela. — Acho eu. Vi-lhe um estojo na mochila, daqueles das picas. O meu avô tem um igual.

Leo ajoelhou-se. Tocou-lhe no rosto: estava frio e húmido. As pestanas nem tremeram.

Metade de um croissant. E estás branco como a parede. Come.

Tinha-o visto. Tinha-o visto pálido, com as mãos a tremer, e tinha-lhe dado uma fatia de bolo e deixado ir, como se isso chegasse.

— Tragam-me a mochila dele — disse. — E vão buscar sumo. Açúcar, qualquer coisa com açúcar. Já.

Passou um braço por baixo das costas do rapaz e outro por baixo dos joelhos e levantou-o do chão. Pesava menos do que devia. Ninguém se meteu no caminho. Levou-o pelo corredor até à sala de descanso da escola, deitou-o no sofá com mais cuidado do que alguma vez pousara fosse o que fosse, e ajoelhou-se ao lado dele.

— Rafael. — Tocou-lhe no rosto outra vez. — Rafael, ouve-me.

Nada.

O Henrique entrou atrás dele com a mochila. Leo abriu o fecho, remexeu, encontrou o estojo preto. Lá dentro, um aparelho pequeno, tiras, uma caneta de insulina e uma caixinha laranja com uma etiqueta que dizia Glucagon. Leo ficou a olhar para ela sem saber o que fazer com as mãos.

Nunca se sentira tão inútil na vida.

— Leo. — O Henrique pousou-lhe a mão no ombro. — O enfermeiro está a chegar.

— Deixaste-os o dia todo sem comer.

Saiu-lhe como uma pedra. O Henrique não se defendeu. Olhou para o rapaz no sofá, depois para o amigo de joelhos no chão, e baixou os olhos.

— Deixei. Tens razão.

Leo fechou os olhos. Respirou.

— Desculpa. — Passou a mão pela cara. — Não é contigo. Ele estava assim de manhã, no bar. Eu vi. E não fiz nada.

O Henrique apertou-lhe o ombro com mais força.

— Se fosse o Mário ali deitado, eu estava pior do que tu.

Leo não respondeu. Mas não o corrigiu, também, e o Henrique reparou nisso.

🍃 🍃 🍃

O enfermeiro entrou quase a correr, um homem baixo de bata branca e maleta na mão. Viu o estojo aberto no chão e percebeu tudo num segundo.

— Diabético? Quanto tempo está assim?

— Uns dez minutos — disse o Henrique.

O enfermeiro picou o dedo do rapaz com o aparelho do estojo. O ecrã acendeu-se e mostrou um número que Leo não sabia ler, mas que fez o enfermeiro franzir a testa.

— Quarenta e um. Está muito baixo. — Pegou na caixinha laranja, abriu-a, preparou a seringa com a rapidez de quem já o fez muitas vezes e espetou-a na coxa do rapaz, por cima das calças de ganga. — Isto faz subir o açúcar depressa. Vai acordar em poucos minutos, e quando acordar tem de comer. Açúcar primeiro, depois comida a sério.

— Ele vai ficar bem? — perguntou Leo.

O enfermeiro olhou para ele, depois para a mão de Leo, que tinha voltado, sem que ele desse por isso, a pousar no ombro do rapaz.

— Vai. É um susto, mas isto acontece. Não comeu, estava nervoso, fez esforço. Somou tudo.

Alguém trouxe dois pacotes de sumo e um prato do refeitório: arroz, frango, uma fatia de bolo de chocolate. O Henrique pousou tudo na mesa baixa ao lado do sofá.

— Vou alimentar os outros antes que me caiam mais — disse. — Fica tu com ele.

Não era uma pergunta.

🍃 🍃 🍃

Rafael acordou devagar, como quem sobe do fundo de uma piscina.

Primeiro a luz. Depois um teto que não conhecia. Depois uma mão no ombro, quente e pesada. E depois, muito perto, a cara de Leo Mattos, a olhar para ele com uma expressão que Rafael nunca vira em nenhuma fotografia.

Medo, pensou, confuso. Ele está com medo.

E logo a seguir, como uma onda de água fria: Oh, não. Não, não, não.

— Calma. — Leo segurou-o quando ele tentou sentar-se. — Devagar. Estás bem.

— Eu… — A voz saiu-lhe rouca. — O que é que…

— Desmaiaste. Na passerelle. — Leo espetou a palhinha num pacote de sumo e pôs-lho na mão, fechando-lhe os dedos à volta dele. — Bebe isso primeiro. Tudo. Depois falamos.

Rafael bebeu. O sumo era demasiado doce e sabia-lhe a vergonha. Tinha desmaiado. À frente de toda a gente. À frente do Miguel. À frente dele.

— Não precisava de se incomodar — murmurou, quando acabou. — Eu estou bem. Posso ir…

— Não podes ir a lado nenhum. — Leo puxou uma cadeira, sentou-se à frente dele e pegou no prato. — O enfermeiro disse que tens de comer. Comida a sério.

— Eu como sozinho.

Leo olhou para a mão dele. Rafael olhou também. Tremia tanto que o garfo, se lho dessem, ia parar ao chão.

Leo não disse nada. Pegou numa garfada de arroz e esperou, com o garfo parado a meio caminho entre os dois.

— Anjo — disse, baixinho. — Abre a boca.

Rafael ficou a olhar para ele. Nunca ninguém lhe tinha chamado aquilo. Nunca ninguém lhe tinha falado naquele tom, meio ordem, meio pedido, como se as duas coisas fossem a mesma.

Abriu a boca.

Leo deu-lhe o arroz, e o frango, garfada a garfada, sem pressa. Não falava. Entre uma garfada e a seguinte, passava-lhe as costas da mão pela cara, devagar, como quem confirma que a cor está a voltar. Estava. Rafael sentia-a subir-lhe às faces a cada toque, e não sabia se era do açúcar ou da mão.

Quando o prato ficou vazio, Rafael olhou para o bolo de chocolate.

— Posso comer o bolo?

— Podes.

Hesitou. Sentiu as orelhas arder.

— Também me dá o bolo… assim?

Leo pousou o garfo.

— Queres que te dê?

Rafael baixou os olhos para as mãos.

— Olha para mim — pediu Leo. Não levantou a voz. Não era preciso. — E diz-me.

Rafael levantou os olhos. Custou-lhe mais do que desfilar.

— Quero — disse. — Por favor.

Alguma coisa se abriu na cara de Leo. Não foi um sorriso, ainda. Foi o sítio onde um sorriso começa, como de manhã no bar, mas maior.

Partiu o bolo em pedaços pequenos e deu-lhos um a um. A certa altura, sem pensar, Rafael inclinou a cabeça para a mão dele quando ela passou perto. Um movimento pequeno, de gato. Deu por isso logo a seguir e ficou vermelho até ao pescoço.

Leo tinha dado por isso também. Não disse nada. Mas quando acabou o bolo, em vez de retirar a mão, deixou-a subir devagar até ao cabelo dele e ficou ali, com os dedos enterrados nos caracóis louros, a mexer muito devagar.

Rafael fechou os olhos.

Não gostava que lhe mexessem no cabelo. Nunca gostara. A mãe desistira de tentar quando ele tinha seis anos.

— Gostas? — perguntou Leo, baixo.

— Só porque é o senhor.

— Leo.

— Só porque é o Leo.

🍃 🍃 🍃

Ficaram assim um bocado. Lá fora ouvia-se a música da passerelle a recomeçar, abafada pela porta.

Depois Leo tirou a mão, devagar, e sentou-se na borda da mesa baixa, de frente para ele, com os cotovelos nos joelhos.

— Porque é que não disseste nada? — Não havia zanga na voz. Havia outra coisa, pior. — De manhã, no bar. Estavas mal e eu vi. Podias ter-me dito.

Rafael olhou para o estojo preto, aberto no chão.

— Sou diabético desde os doze anos. Não costumo precisar de insulina, só quando o açúcar sobe muito. O que me acontece mais é isto, descer. Normalmente trago sempre bolachas. — Encolheu os ombros. — Hoje esqueci-me de tudo. Estava nervoso, não comi de manhã, e depois… — Parou. — Depois comecei a sentir-me mal outra vez, mas a mochila estava ao lado de um rapaz que passou a manhã a gozar comigo. E eu não queria que ele me visse a picar o dedo.

Leo ficou calado muito tempo.

— Por causa de um idiota qualquer — disse, por fim.

— Por causa de um idiota qualquer — concordou Rafael, baixinho. — Eu sei. Foi estúpido.

— Não foi estúpido. — Leo abanou a cabeça. — Foi humano. Mas assustaste-me, Rafael. Assustaste-me muito.

Rafael não soube o que responder a isso. Nunca tinha assustado ninguém que não fosse da família.

— Queres ir ao hospital?

— Não. Estou bem. Só quero ir para casa.

— E a seleção? Ainda falta a última prova.

Rafael pensou nisso. No Miguel. No salão cheio de olhos. No fotógrafo a dizer *faz outra vez isso*.

— Não — disse. — Já sei o que queria saber. Consegui fazer uma coisa que me metia medo. — Esboçou um sorriso cansado. — Não quero que seja a minha vida. Queria só saber se era capaz.

Leo acenou devagar, como se aquela resposta lhe tivesse agradado mais do que qualquer outra.

— Então eu levo-te a casa.

— Não é preciso, eu chamo um Uber.

Leo levantou uma sobrancelha. Não disse mais nada. Não foi preciso.

— Está bem — cedeu Rafael.

— Espera aqui. Vou buscar o casaco e o carro.

Quando voltou, dez minutos depois, encontrou-o de pé junto à porta, com a mochila ao ombro e o estojo preto bem fechado lá dentro.

Leo pousou-lhe a mão nas costas para o guiar pelo corredor. Uma mão aberta, leve, no meio das omoplatas.

Rafael não se afastou dela.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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