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05 – O Lugar de Cada Um

Leo saiu do elevador com a cabeça ainda no salão do primeiro andar e entrou no gabinete sem reparar que não estava vazio.

Só quando atirou o casaco para as costas da cadeira é que a viu.

Sentada numa das cadeiras de visitas, muito direita, com as mãos cruzadas no colo e uma mala de pano aos pés, estava uma rapariga ruiva que ele nunca tinha visto na vida.

— Quem é a senhora? — A voz saiu-lhe mais alta e mais dura do que queria. — O que é que está a fazer no meu gabinete?

Ela deu um pequeno salto na cadeira. Levantou-se tão depressa que a mala tombou.

— Desculpe. Disseram-me lá em baixo que podia esperar aqui dentro. Sou… venho da agência. A secretária de substituição.

Leo ficou um segundo parado, com a mão ainda no casaco.

Tinha-se esquecido. Tinha ligado para a agência havia pouco mais de uma hora e esquecera-se por completo, porque entretanto houvera um bar, um bolo de laranja e um rapaz louro a olhar para ele do fundo de um salão.

Olhou para ela com atenção pela primeira vez. Era baixa, de cara redonda e sardenta, olhos verdes muito abertos, uma saia azul-escura e uma blusa branca abotoada até ao pescoço, como quem se vestiu para uma entrevista e não para agradar. Tinha as orelhas vermelhas e os olhos húmidos. Estava a um triz de chorar, e a fazer um esforço enorme para não o fazer à frente dele.

Muito bem, Leo. Primeiro a Maria, agora esta. Excelente segunda-feira.

Soltou o casaco e respirou fundo.

— Desculpe. A sério. — Baixou a voz. — Hoje o dia não me está a correr bem, e a culpa não é sua. Não devia ter descontado em si. Esqueci-me de que tinha pedido alguém. Como se chama?

— Luísa.

— Leo. — Estendeu-lhe a mão. Ela apertou-a com a ponta dos dedos frios. — Que idade tem, Luísa?

— Vinte e dois.

— Parece mais nova. — Viu-a corar ainda mais e arrependeu-se. — Não é defeito. Tem experiência?

— Quase um ano como efetiva. — Fez uma pausa. — A empresa faliu. Desde então só tenho conseguido trabalhos temporários.

Disse-o sem pena de si própria, como quem diz as horas. Leo reparou nisso.

— Venha comigo. Vou mostrar-lhe onde fica.

🍃 🍃 🍃

A sala da secretária ficava ao lado do gabinete, separada por uma parede de vidro fosco e com uma porta também de vidro que dava para o átrio dos elevadores. Quem entrava no último andar passava forçosamente por ali.

Estava tudo como a Maria deixara. O bloco de notas. A caneca com o gato desenhado. O casaco de malha nas costas da cadeira.

A Luísa ficou parada à entrada, a olhar para aquilo, e depois olhou para ele. Não perguntou nada. Leo gostou disso também.

— A sua antecessora saiu hoje de manhã — disse ele. — Pode pôr as coisas dela numa caixa. Os Recursos Humanos tratam de lhas fazer chegar.

— Com certeza, Sr. Mattos.

— Sr. Leo chega.

Ela acenou. Pousou a mala de pano no chão, junto à secretária, e passou a mão pelo tampo, devagar, como quem toma conta de um sítio. Leo deixou-a ali e voltou para o gabinete.

Sentou-se. Abriu o computador. Não leu nada.

Rafael Cardoso Wei. Tinha-lhe dito o nome inteiro, como se fosse um exame oral. Leo deu por si a pensar se o rapaz teria comido mais alguma coisa, e depois irritou-se consigo por pensar nisso, e depois voltou a pensar.

🍃 🍃 🍃

Ao meio-dia e um quarto, alguém bateu à porta. Duas pancadas curtas, quase a pedir desculpa.

— Entre.

A Luísa espreitou.

— Desculpe incomodar, Sr. Leo. Preciso da palavra-passe do computador. E… — hesitou — …queria saber a que horas posso ir almoçar.

Leo olhou para o relógio e percebeu, com espanto, que tinha passado a manhã inteira sem fazer nada de útil.

— Desculpe, devia ter-lhe dado isso logo. — Escreveu a palavra-passe num papel e empurrou-o pela mesa. Depois levantou-se. — Venha. Mostro-lhe o refeitório. Também não comi nada hoje.

No elevador, explicou-lhe o essencial: quem subia sem marcação e quem não subia, as reuniões fixas das terças, a mania do diretor gráfico de mandar tudo em cima da hora. Ela ouvia com muita atenção, sem tirar notas, e Leo percebeu ao terceiro pormenor que não precisava de as tirar.

O refeitório estava cheio. Leo apresentou-a a meia dúzia de pessoas pelo caminho, a Luísa, que vai estar connosco uns tempos, e viu-a sorrir a cada uma com o mesmo cuidado, como quem guarda nomes numa gaveta. Sentaram-se numa mesa ao pé da janela.

— Posso fazer-lhe uma pergunta? — disse ele, a meio da sopa. — Tem vinte e dois anos e fala como quem já trabalha há dez. Não pensou em continuar a estudar?

A Luísa pousou a colher.

— Pensei. Queria ser enfermeira. — Encolheu os ombros, sem drama. — Mas não deu. Os meus pais morreram num acidente de carro quando eu tinha dezoito anos. A minha mãe estava grávida. A minha irmã nasceu nessa noite, no hospital. — Olhou para a janela. — Salvaram-na a ela. Aos meus pais não.

Leo não disse nada durante um momento.

— Então criou-a sozinha.

— Criei. Quer dizer, criámos. Há uma vizinha que me ajuda muito. — Sorriu pela primeira vez, um sorriso pequeno e verdadeiro. — Tem quatro anos. Chama-me mamã quando está com sono e Luísa quando está zangada comigo.

Leo sentiu uma coisa apertar-se-lhe no peito. Não sabia bem o quê. Talvez fosse a maneira como ela contava aquilo, sem pedir nada, como quem pousa um peso no chão só para mostrar que o carrega.

— Tem-me medo, Luísa?

Ela levantou os olhos, surpreendida.

— Não, senhor.

— Então porque é que não olha para mim quando fala?

A Luísa pensou antes de responder. Leo gostou também disso.

— Porque preciso deste trabalho — disse, muito simplesmente. — E tenho medo de o estragar.

Leo recostou-se na cadeira.

— Então vamos fazer assim. Faça o seu trabalho, e se eu estiver de mau humor, como hoje de manhã, lembre-se de que o problema é meu e não seu. Combinado?

Ela olhou para ele. Direto, desta vez.

— Combinado.

🍃 🍃 🍃

Voltaram ao último andar pouco depois da uma. Leo tinha acabado de se sentar quando a Luísa entrou com uma pasta de cartolina amarela nas mãos.

— Sr. Leo, desculpe. Estava a arrumar as gavetas e encontrei isto no fundo da de baixo. — Pousou a pasta na mesa. — São contratos. Acho que precisam da sua assinatura. E pelas datas… acho que já deviam ter saído há semanas.

Leo abriu a pasta. Leu a primeira folha, a segunda, a terceira. A contrariedade transformou-se em qualquer coisa mais fria.

Contratos com fotógrafos. A renovação de um patrocínio. Uma carta de uma agência de Milão, com três semanas, a pedir resposta urgente. Tudo metido no fundo de uma gaveta, por baixo de catálogos velhos, onde ninguém iria procurar.

Pensou na Maria sentada no sofá de manhã, de mala no colo. Agora estamos ligados, não é? Para sempre. Pensou nas vezes, nas últimas semanas, em que ela lhe dissera que estava tudo tratado. E deu por si a perguntar-se, com um amargo na boca, se aquela gaveta tinha sido descuido ou se tinha sido outra coisa.

Não gostou da pergunta. Não gostou de quem a fazia.

— Obrigado, Luísa. — Pegou na caneta. — Assino já. Sabe o que fazer com eles a seguir?

— Acho que sei. O que não souber, venho perguntar.

— Faça isso. — Assinou a primeira folha e olhou para ela por cima dos papéis. — E Luísa… foi um bom trabalho. Ninguém tinha dado por isto.

Ela corou até às orelhas, pegou na pasta e saiu sem dizer nada. Pela parede de vidro fosco, Leo viu a sombra dela sentar-se à secretária, abrir a pasta e alinhar as folhas uma a uma, com as duas mãos.

Temporária, pensou. Vamos ver quanto tempo.

O telemóvel vibrou em cima da mesa.

Era o Henrique.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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