Capítulo 5 — O Lugar de Cada Um
Leo estava absorto nos próprios pensamentos e demorou alguns segundos a perceber que não estava sozinho no gabinete. Só quando o silêncio se prolongou é que levantou o olhar.
Sentada numa das cadeiras estava uma jovem ruiva, o corpo ereto, as mãos entrelaçadas no colo. Parecia nervosa, com o olhar preso no chão, como se procurasse ali alguma âncora. A postura rígida denunciava desconforto naquele ambiente desconhecido.
Ao cruzar o olhar com Leo, sentiu um aperto no estômago — não de atração, mas de nervosismo puro, típico de quem teme falhar num primeiro dia. O rubor subiu-lhe ao rosto, denunciando a timidez e a insegurança que tentava esconder.
Por um instante, Leo limitou-se a observá-la, tentando perceber quem era e o que fazia ali. O silêncio prolongou-se, carregado de expectativa.
— Que faz no meu escritório? Quem é a senhorita? — perguntou, num tom mais brusco do que pretendia.
Luísa não tinha culpa de estar ali. Assim que chegou ao edifício e explicou o motivo da sua presença, encaminharam-na para o gabinete do patrão, dizendo-lhe que podia esperar. Obediente, entrou e aguardou, sem imaginar que pudesse estar a cometer algum erro.
A jovem, visivelmente nervosa, justificou-se:
— Disseram-me que podia esperar aqui dentro, senhor. Sou a secretária de substituição.
Leo piscou os olhos, surpreendido. Só então percebeu que tinha sido rude. O tom elevado assustou a jovem, que deu um pequeno salto na cadeira.
Ao observá-la melhor, Leo reparou numa rapariga ruiva, de rosto sardento e olhos verdes atentos. Era baixa, de formas suaves e aparência simples, com roupa discreta e uma timidez evidente. Não tinha o tipo de beleza padronizada que se vê nas capas — mas havia nela uma doçura tranquila e uma honestidade que se sentiam à distância.
Quando reparou que os olhos verdes dela estavam prestes a transbordar lágrimas, algo em Leo se desfez. O rosto intensamente vermelho, a respiração presa, a vulnerabilidade evidente — tudo aquilo lhe tocou o coração de forma inesperada. Sentiu-se imediatamente arrependido. Percebeu que, sem querer, estava a descarregar nela a frustração acumulada do dia, e isso trouxe-lhe um peso amargo de culpa.
A jovem estava tão perdida nos próprios pensamentos que quase não ouviu a voz rouca que a chamou de volta à realidade. O susto foi tal que o coração lhe falhou uma batida quando ergueu o olhar para o homem à sua frente — não por atração, mas por sobressalto e vergonha. A presença dele impressionava-a, não pela beleza, mas pela postura firme e pela intensidade do olhar, que a deixavam ainda mais consciente da própria timidez.
As lágrimas ameaçavam cair, mas Luísa esforçou-se por se controlar.
— Desculpe… hoje o dia não me está a correr bem — disse Leo, num tom mais brando. — Não devia ter descontado em si. Esqueci-me que tinha pedido uma substituta. Como se chama?
— Luísa, senhor— respondeu ela, tímida.
— E que idade tens?
— Vinte e dois.
Leo arqueou as sobrancelhas.
— Pareces mais nova. Tens experiência?
Luísa corou, desviando o olhar.
— Já estive como efetiva quase um ano…, mas a empresa faliu. Desde então só consegui trabalhos temporários.
Leo assentiu, compreendendo mais do que dizia.
— Bem-vinda. Vem comigo.
O tom agora era acolhedor. Queria reparar o erro, queria que ela se sentisse segura.
Mas Luísa estava nervosa, tensa, porque queria fazer tudo bem e não sabia se estava à altura.
A necessidade de manter o emprego era urgente. Os recursos estavam a escassear, e Luísa tinha contas para pagar — e uma irmã de quatro anos para criar. Depois do trágico acidente que vitimara os pais, quando a mãe ainda estava grávida, Luísa ficou sozinha com a bebé. Sem família, teve de aprender a sobreviver cedo demais.
Sonhava ter sido enfermeira, mas a vida obrigou-a a adiar esse sonho. Lutava diariamente para garantir o mínimo para si e para a irmã, agarrando-se a cada oportunidade que surgia.
Leo acompanhou-a até ao espaço que seria o seu local de trabalho durante o próximo mês. A sala era modesta, mas funcional: uma secretária simples, uma cadeira confortável, um computador e alguns armários compunham o ambiente. A luz natural entrava pela porta de vidro, permitindo-lhe ver quem entrava e saía do elevador e dando-lhe uma sensação de ligação ao restante escritório.
Com simpatia, Leo apresentou-lhe o novo espaço:
— Luísa, esta é a sua sala. Sinta-se à vontade. Creio que encontrará aqui tudo o que precisa. Se surgir alguma dúvida, fale comigo.
— Obrigada, senhor— respondeu ela, ainda um pouco nervosa perante a cordialidade inesperada.
Leo entrou sorridente na sala. Desde o primeiro momento, sentira respeito pela jovem ruiva de aparência simples e modos tímidos. O rosto salpicado de sardas, o rubor constante nas faces e a postura cuidadosa transmitiam-lhe uma sensação de honestidade rara. Havia algo genuíno em Luísa. Leo percebeu que, se ela se mostrasse competente, poderia recomendá-la para uma posição efetiva. O seu instinto dizia-lhe que aquela jovem não estava ali por conveniência, mas por necessidade — e isso despertava nele um sentido de responsabilidade.
Quando Luísa saiu do escritório, Leo ficou sozinho, envolto no silêncio dos próprios pensamentos. Sentia o coração inquieto, mas não por ela — era Rafael quem o desestabilizava, quem o fazia sentir vivo e exposto de uma forma que não sabia controlar.
Leo ficou sozinho, envolto no silêncio dos próprios pensamentos. Lutava apenas com um nome na cabeça:
Rafael.
🍃 🍃 🍃
A manhã passou num ápice para ambos. Leo tentava manter o foco no trabalho, mas a mente voava até Rafael; Luísa, empenhada em organizar as pendências, queria mostrar competência apesar da ansiedade que a invadia.
No meio desta azáfama silenciosa, Rafael também se concentrava nas provas, empenhado em corresponder às expectativas.
Absorvidos pelas novidades e pelo esforço de adaptação, nenhum deles deu conta da passagem das horas.
Luísa sentia a fome apertar, o estômago já a dar sinais claros da sua necessidade. Sabia que não podia adiar mais: teria de enfrentar de novo o patrão para pedir autorização para ir almoçar e solicitar o acesso ao computador.
Com alguma hesitação, bateu à porta do escritório. Do outro lado, ouviu a voz distraída de Leo:
— Entre.
Ao entrar, apresentou-se com um olhar tímido e talvez um pouco assustado.
— Senhor, desculpe incomodar, mas preciso que me diga como entrar no computador… e queria saber se posso ir comer qualquer coisa.
Leo ergueu lentamente os olhos e fixou-os nos dela. Um sorriso suave formou-se nos seus lábios, quebrando a expressão austera.
— Desculpa, Luísa. A senha é XXX-XXX… — disse, aproximando-se com gentileza.
Sem hesitar, sugeriu:
— Vamos. Mostro-lhe onde fica o refeitório dos funcionários. Como também qualquer coisa e conversamos um pouco.
No caminho até ao elevador, Leo manteve-se cordial e objetivo, explicando-lhe rapidamente rotinas básicas do escritório. Luísa, ainda nervosa, limitou-se a segui-lo, tentando não tropeçar no próprio receio de falhar.
No refeitório, Leo apresentou Luísa aos outros empregados, integrando-a no ambiente de forma natural e acolhedora. Depois de fazerem as suas escolhas, sentaram-se numa mesa mais tranquila para conversarem.
Leo, atento e respeitoso, perguntou:
— Luísa, desculpa a pergunta…, mas porque já não estudas? Ainda és tão nova.
Luísa respondeu com sinceridade, revelando que a vida a tinha obrigado a assumir responsabilidades cedo demais. A perda dos pais deixara-a com uma irmã para criar, tornando-se responsável pela casa e pelo bem-estar familiar.
Ao ouvir a história, Leo sentiu crescer dentro de si um instinto de proteção. As palavras dela, carregadas de vulnerabilidade, despertaram nele o desejo de cuidar, de compreender, de estar presente — não como homem, mas como ser humano.
Genuinamente interessado, perguntou:
— Que idade tem a tua irmã?
— Quatro anos.
Luísa explicou os detalhes dolorosos do que acontecera há quatro anos, emocionando-se ao recordar o acidente que vitimara os pais. Leo, tocado pe-la sinceridade dela, aproximou-se e, num gesto breve de encorajamento, pediu-lhe que respirasse fundo e erguesse a cabeça.
— Eu assusto-te, não é, Luísa?
— Não, senhor. Não assusta.
— Então porque não me olhas nos olhos?
— Vergonha… timidez…
Leo sentiu o peito apertar. A ternura que começava a crescer dentro dele surpreendia-o — uma ternura protetora, quase fraternal. Ainda assim, não conseguia evitar sentir empatia pela jovem ruiva, cuja vida tinha sido tão dura. E, no fundo, sabia: quem lhe ocupava a cabeça e o coração era Rafael.
Movido por curiosidade genuína, deixou escapar:
— Namoras, Luísa?
O impulso surpreendeu-o. Uma onda de autocrítica invadiu-lhe o pensamento. Porque queria saber aquilo? A resposta era simples: queria compreender melhor a vida dela, não por interesse romântico.
Luísa respondeu sem hesitar:
— Não, senhor. Entre o trabalho e a minha irmã, quase não tenho tempo para nada… — respondeu ela, encolhendo os ombros. — E, sinceramente, nunca foi uma prioridade.
A sinceridade dela revelou não só a sua situação sentimental, mas também a insegurança profunda que carregava. Leo, tocado por aquela auto-depreciação, apressou-se a contrariá-la:
— Prioridade ou não, não digas isso como se não tivesses valor. Tu és uma boa pessoa e tens muita força. E isso, para mim, conta mais do que qualquer outra coisa.— disse Leo, num tom firme, genuinamente encorajador.
As palavras dele tiveram impacto imediato. Luísa não respondeu, mas o rubor nas suas faces e o olhar fugidio denunciavam a vergonha e a falta de experiência.
Luísa baixou o olhar, envergonhada com o elogio. Leo percebeu apenas o peso da falta de confiança e decidiu não insistir em perguntas pessoais. A conversa, para ele, tinha um objetivo simples: que ela se sentisse respeitada e capaz.
De regresso ao escritório, Luísa dedicou-se às tarefas, esforçando-se por mostrar competência. Leo, por sua vez, mantinha-se atento ao trabalho e à urgência de não deixar nada acumular — e fez questão de que a adaptação dela fosse clara e objetiva. O ambiente entre ambos era de respeito, típico de quem ainda se está a ajustar a um novo ritmo.
🍃 🍃 🍃
No final da tarde, Luísa voltou ao gabinete para esclarecer uma dúvida. Entrou hesitante, carregando algumas pastas.
— Sr. Leo, desculpe incomodar, mas acho que tem aqui alguns papéis que deve assinar. E, se percebi bem, já deviam ter sido despachados.
Leo convidou-a a sentar-se ao seu lado. Pegou nos documentos e, à medida que os lia, o sorriso desapareceu.
— Luísa, onde encontraste isto? — perguntou, sério.
— No fundo de uma gaveta. Estava a explorar o escritório, a tentar perceber como a minha antecessora trabalhava… e vi isso. Vim logo ter consigo.
Leo sentiu uma pontada de raiva. Maria, afinal, não era assim tão boa secretária. A desorganização era evidente. E não conseguia evitar pensar que talvez o verdadeiro objetivo dela tivesse sido outro — quem sabe tornar-se “senhora Matos”. Mas falhara.
— Obrigado, Luísa. Vou ler e assinar. Depois sabes o que fazer com eles, não sabes?
— Acho que sim. O que não souber, venho perguntar.
Leo concentrou-se nos documentos, assinou o que era necessário e devolveu-lhe os papéis com um aceno breve.
— Isso mesmo. Não hesites em vir falar comigo. Fizeste um bom trabalho.
O momento foi abruptamente interrompido pelo toque do telefone.
Era Henrique.