47 – Anos Depois
O Tomás fez três anos em fevereiro.
Fez a festa em casa dos avós Wei, com dezoito pessoas, um bolo que a D. Clara passou dois dias a fazer e um balão que rebentou antes de se cantar os parabéns e que deu um drama de vinte minutos.
E, em julho, o Rafael acabou o curso.
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Nos bastidores do auditório, ajeitou a capa pela terceira vez.
— Se continuares a mexer nessa capa, ela foge — disse o Nuno, de braços cruzados ao lado dele.
— Não consigo.
— Deixa-a estar.
— Isto é grande demais, Nuno.
O Nuno virou-se para ele.
E não disse nenhuma das coisas que estava à espera de dizer, porque se lembrou de uma tarde de janeiro numa sala com os estores fechados, com um rapaz sentado num sofá a olhar para uma folha escrita com a mão errada.
— Rafa.
— Hum.
— Tu escreveste a tese toda com a mão esquerda.
O Rafael parou de mexer na capa.
— Escrevi.
— Pronto. — O Nuno encolheu os ombros. — Então já não há nada aí em cima que te faça mossa.
Ficaram os dois calados um bocado.
— Obrigado, mano.
— De nada. — O Nuno puxou a capa dele para baixo. — E se desmaiares lá em cima eu fico com o destaque todo, portanto aguenta-te.
Uma funcionária espreitou pela porta.
— São os próximos.
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O auditório estava cheio e barulhento, com as capas pretas alinhadas à frente e as famílias inteiras atrás, e aquele burburinho de sala grande em que ninguém consegue estar calado mais de trinta segundos.
Na terceira fila, o Leo estava sentado com o Tomás ao colo.
O miúdo balançava as pernas com impaciência, de camisa branca e sapatos novos que já não estavam novos, e tinha a cabeça virada para trás a contar as pessoas.
O Leo pôs-lhe a mão no joelho para ele parar de bater com o sapato na cadeira da frente.
E deu por si, como dava umas quantas vezes por ano sem aviso nenhum, a lembrar-se de uma manhã de sábado, de uma mulher de pé à porta de casa dele com um saco às costas, e de um segundo exato em que a coisa toda se decidiu.
Ele tinha estendido os braços e tinha ficado com aquela criança em cima, mal segura, a ajeitá-la duas vezes.
E o miúdo, que estava a decidir se valia a pena chorar, não chorou. Agarrou-se-lhe à gola da camisa com a mão inteira e encostou a cabeça ao ombro dele.
Foi nesse instante, e o Leo sempre soube dizer a hora exata, que ele percebeu que aquilo não era um favor que estava a fazer a ninguém.
— Papá.
— Diz.
— Quando é que o pai sobe ao palco?
— Já falta pouco. — Beijou-lhe o alto da cabeça. — E não bates com o sapato.
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À esquerda deles estavam o Lucca e a Luísa, de mãos dadas por cima do braço da cadeira, com um ar de gente que não precisa de dizer nada um ao outro em público.
Entre os dois ia a Ana, que já tinha oito anos e uma opinião sobre tudo.
E ao colo do Lucca ia a filha dos dois, com sete meses e o cabelo exatamente da cor do da mãe.
— Olha, olha! — A Ana puxou o braço do Lucca. — É o Nuno ali atrás! O Rafael é já a seguir? Posso gritar quando ele subir?
— Podes gritar. — O Lucca não tirou os olhos do palco. — Não me arranques o braço.
A Luísa encostou a cabeça ao ombro dele e não disse nada, e foi isso que disse tudo.
Do outro lado, o Henrique e o Mário falavam baixinho e riam-se de qualquer coisa que só eles perceberam.
Atrás, o Lorenzo e a Júlia. A Amélia entre eles, com uma bandeirinha de papel onde tinha escrito o nome do irmão com marcador, e uma mochila aos pés, porque ia apanhar um avião na quinta-feira e não tinha calado a boca sobre isso a semana inteira.
O Jorge estava ao lado da Inês, que tinha a barriga já bem visível e que lhe segurava o braço para o obrigar a estar quieto.
O Sr. Wei e a D. Clara estavam na primeira fila.
Ela com os óculos na ponta do nariz e o telemóvel na mão, a fotografar tudo e toda a gente, incluindo três pessoas que não conhecia.
E ele muito direito, de fato, com as mãos nos joelhos.
E o Luís, de fato também, no fim da fila, à espera de um nome que ainda não era o do irmão.
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O microfone chiou.
— Chamamos agora ao palco… Rafael Cardoso Wei.
A sala aplaudiu, e a Ana gritou tão alto que o Lucca se riu, e a D. Clara pôs-se de pé com o telemóvel.
E o Tomás saltou do colo do Leo.
— Papá! É o pai! É o pai!
— Espera, espera…
Não esperou nada.
O Leo levantou-se atrás dele e deixou-o ir pelo corredor lateral, e foi atrás com uma mão estendida e a cara de um homem de trinta e seis anos que, três anos antes, não sabia que se podia correr atrás de uma criança num auditório sem morrer de vergonha.
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O Rafael atravessou o palco.
Atravessou-o inteiro, de uma ponta à outra, com passo normal, sem ninguém a olhar para a perna dele, porque já não havia nada para ver.
Apertou a mão ao professor, pegou no diploma e virou-se para a sala.
E aí procurou.
Procurou a terceira fila, e não estava lá ninguém, e teve meio segundo de pânico.
E depois olhou para baixo.
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O Tomás vinha pelo corredor lateral a correr com aquela correria desengonçada dos três anos, com a camisa já a sair das calças, e a gritar uma palavra só.
— Pai!
O Rafael desceu as escadas do palco com o diploma numa mão.
Ajoelhou-se no chão, ali mesmo, à frente de duzentas pessoas, e abriu o outro braço.
E o miúdo bateu-lhe em cheio no peito e quase o deitou ao chão, e ele riu-se, e levantou-o ao colo, e rodou-o uma vez.
O Leo chegou três segundos depois, a arfar.
O Rafael estendeu-lhe a mão livre.
E ficaram os três ali, no fundo daquele auditório, com uma capa preta, um diploma, uma camisa a sair das calças e uma sala inteira a bater palmas, e nenhum deles fez a mais pequena ideia de quanto tempo esteve assim.
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Voltaram para os lugares com o Tomás ao colo do Rafael, que não o largou o resto da tarde.
E foi aí, quando se sentaram, que o Sr. Wei se inclinou para a frente por cima das costas da cadeira.
Pôs a mão no ombro do Leo.
E disse aquela frase.
Disse-a baixo, em chinês, com os olhos no neto, exatamente com as mesmas cinco palavras com que a tinha dito uma noite de julho, à mesa, num jantar em que havia um homem sentado ali que ainda não sabia onde é que se estava a meter.
O Leo não perguntou o que queria dizer.
Virou a cabeça e olhou para ele, e o Sr. Wei olhou para o Leo, e nenhum dos dois disse mais nada.
Porque já não era preciso.
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— E agora… Nuno Mattos.
Desta vez foi a Amélia que gritou, e gritou de uma maneira que fez o Lorenzo saltar na cadeira.
A Ana juntou-se, por solidariedade.
O Lucca tapou os ouvidos da filha, a rir-se.
E o Luís pôs-se de pé antes de toda a gente.
O Nuno apareceu no palco com aquele sorriso meio envergonhado, meio atrevido, a mexer na capa exatamente como tinha dito ao outro para não fazer.
Procurou na plateia.
Encontrou.
E abriu o sorriso todo.
Desceu as escadas e o Luís já estava a meio caminho, e bateram um contra o outro com a pressa dos dois.
— Conseguiste — disse o Luís, contra a orelha dele.
— Nós conseguimos.
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Ao fim da tarde, já com o auditório meio vazio e a família toda espalhada pelo átrio a tirar fotografias em combinações impossíveis, o Rafael foi sentar-se num degrau ao pé da porta.
O Tomás estava a dormir contra o ombro dele, derreado, com a boca aberta, pesado como só os miúdos adormecidos conseguem ser.
O Leo sentou-se ao lado, com o casaco no braço.
— Ele não aguentou.
— Ele resistiu até às cinco. Foi um feito.
Ficaram os dois a olhar para o átrio.
— Carinho.
— Hum.
— Sabes o que é que eu pensei quando estava lá em cima?
— Não.
O Rafael ajeitou o miúdo no ombro.
— Que eu não me lembro de um dia da minha vida.
O Leo virou a cabeça.
— Continuo sem me lembrar, e já não me vou lembrar nunca — continuou o Rafael. — E durante muito tempo isso deixou-me furioso. Um dia inteiro roubado, e logo aquele.
— E agora?
— E agora estive ali em cima a olhar para aquela sala. — Encolheu o ombro que estava livre. — E a única coisa que eu pensei foi que está tudo lá.
— O quê?
— As pessoas todas desse dia. — Olhou para ele. — O Nuno, o Luís, o teu irmão, os meus pais, tu. Não me falta uma. Eu perdi o dia, Leo. Não perdi ninguém.
O Leo ficou calado.
— Isso é uma coisa muito bem dita — conseguiu dizer, por fim.
— Eu sou licenciado desde as três da tarde.
— Pois é.
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Foram para casa às oito, com o miúdo a dormir na cadeirinha e a capa preta atirada para o banco de trás.
Em casa, o Rafael deitou-o sem lhe tirar a camisa, porque não valia a pena, e ficou um bocado à porta do quarto dele.
Na parede, por cima da secretária que já não era secretária nenhuma, continuava pregado um placard de cortiça.
Tinham-no mudado do quarto deles para ali no ano em que o Tomás se passou para a cama grande.
Estavam lá as fotografias todas as antigas: o Nuno a rir-se, os avós Wei numa praia, os irmãos, um rapaz de oito anos com um joelho ralado.
E, no canto de baixo à direita, mais uma.
Uma mulher de casaco escuro, sentada num banco de jardim, com um bebé de colo ao peito e a olhar para a máquina sem sorrir muito.
Tinha sido o Rafael que a lá tinha posto, no dia em que o miúdo fez dois anos.
Não se falava daquilo todos os dias.
Falava-se quando ele perguntava, e ele tinha começado a perguntar havia uns meses, e respondia-se-lhe a verdade ao tamanho dele.
Chama-se Maria. Foi ela que te fez. Não conseguiu tomar conta de ti e pediu-nos a nós, e isso foi uma coisa muito difícil de fazer e ela fê-la porque gostava muito de ti.
Um dia ia querer saber mais, e havia mais para lhe dar.
Naquele ano ainda chegava.
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O Leo apareceu à porta com dois copos.
— Ele está a dormir?
— Como uma pedra.
Ficaram os dois encostados ao batente a olhar para o quarto, em silêncio, da maneira parva como os pais fazem.
— Leo.
— Diz.
— Aquela frase que o meu pai te disse hoje.
— Hum.
— Tu já sabes o que quer dizer.
— Já.
— Desde quando?
O Leo pensou um bocado.
— Desde uma noite de dezembro, num corredor de hospital, sentado num banco. — Bebeu um gole. — Ele disse-ma e traduziu-ma, e depois explicou-me porque é que da primeira vez a tinha dito em chinês.
— Porquê?
— Para eu não perceber. — O Leo sorriu. — Nessa altura ele ainda não sabia se gostava de mim.
O Rafael riu-se baixinho, para não acordar o miúdo.
— E o que é que ela quer dizer?
O Leo olhou para o quarto, para a cama pequena, para a criança de três anos atravessada nela com uma camisa de auditório e os sapatos já tirados por outra pessoa.
E disse-a em português, que era a única língua em que ele a sabia dizer.
— Ele é o nosso tesouro.
O Rafael ficou a olhar para dentro do quarto.
— Ele estava a falar de mim, naquela noite de julho.
— Estava.
— E hoje?
O Leo pôs-lhe a mão na nuca, como fazia desde o primeiro verão.
— Hoje é mais gente.
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Fecharam a porta devagar, como se fecha uma porta quando há uma criança lá dentro, e ficaram no corredor.
— Amanhã há escola — disse o Rafael.
— Amanhã é sábado.
— Ainda bem.
E foram para a cozinha, porque não tinham jantado, e porque a vida tem estas coisas: acaba-se um curso, ganha-se um diploma, chora-se num auditório à frente de duzentas pessoas, e depois são oito e meia da noite e ainda é preciso pôr alguma coisa na mesa.
O Leo abriu o frigorífico.
O Rafael sentou-se no banco alto da bancada, como se sentava havia quatro anos, e ficou a vê-lo.
— Carinho.
— Diz.
— Eu tenho de te contar uma coisa.
O Leo virou-se com um pacote de ovos na mão.
— Diz.
— É boa.
— Ainda bem.
O Rafael pôs os cotovelos na bancada.
— A revista. — Fez uma pausa, de propósito, porque era uma coisa que ele fazia agora. — Aquele lugar de que tu falaste em janeiro. O do suplemento.
— Sim?
— A Luísa mandou-me o anúncio ontem. — Encolheu os ombros. — Eu concorri.
O Leo pousou os ovos na bancada.
— Tu concorreste ao meu jornal sem me dizer nada?
— Concorri à revista onde trabalham duzentas pessoas, que por acaso é tua. — O Rafael estava a tentar não se rir. — E não te disse nada de propósito, porque eu não quero que tu leias a minha candidatura. Quero que a leia quem lê as outras.
— Rafael…
— Se eu não prestar, não me chamam. — Encolheu os ombros outra vez. — E se me chamarem, foi porque prestei. Tu ensinaste-me isso.
O Leo ficou a olhar para ele.
E depois voltou-se para a bancada, partiu os ovos para dentro de uma tigela e não disse absolutamente nada durante um minuto inteiro, porque não conseguia.
— Estás a chorar?
— Estou a cortar cebola.
— Não há cebola nenhuma nessa bancada, Leo.
— Cala-te e põe a mesa.
O Rafael desceu do banco e foi pôr a mesa.
Três pratos, por hábito, e depois tirou um.
E, do outro lado da parede, numa cama pequena, um miúdo de três anos dormia de boca aberta, de sapatos tirados, debaixo de uma parede cheia de fotografias de gente que nenhum deles tinha escolhido e que era toda dele.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.