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46 – Sem Dizer Uma Palavra

O Jorge e a Inês casaram-se em maio, num sábado de sol, e o Rafael foi ao casamento do irmão sem muletas por uma questão de teimosia e pagou-a durante três dias.

Foi nesse mesmo mês que as deixou de vez.

Em junho fez a época especial e passou a tudo menos a uma cadeira, e ficou furioso com a que faltou durante três dias inteiros, o que o Leo achou o melhor sinal do ano.

Em julho foi à praia com o Nuno e não entrou na água por causa do sol na cicatriz, mas foi.

E, num sábado de setembro, à tarde, calçou uns ténis, saiu sozinho de casa sem dizer nada a ninguém, e correu quatrocentos metros pela rua acima antes de ter de parar com as mãos nos joelhos.

Quando voltou, entrou pela porta a rir-se e a chorar ao mesmo tempo, e não conseguiu explicar nada ao Leo durante cinco minutos.

A Sónia tinha dito setembro.

Foi setembro.

🍃 🍃 🍃

Da Maria não souberam nada.

Nem um telefonema, nem uma carta, nem um recado por interposta pessoa. Nada durante março, nada durante abril, nada durante o verão inteiro.

O Rafael perguntou por ela duas vezes.

Da primeira, em maio, o Leo respondeu que não sabia.

Da segunda, em agosto, respondeu a mesma coisa, e a seguir ficou com a frase na cabeça o resto do jantar.

🍃 🍃 🍃

Foi em outubro que a Luísa lhe bateu à porta do gabinete com aquela cara de quem traz uma coisa que não sabe onde pôr.

— Senhor Leo.

— Diga.

— Está aqui a senhora Maria Aires. — Fez uma pausa. — Sem marcação. E não trouxe o menino.

O Leo levantou a cabeça.

— Mande-a entrar.

🍃 🍃 🍃

Ela estava diferente.

Estava vestida de trabalho, com o cabelo apanhado em condições, e tinha ganho aquela postura que as pessoas ganham quando voltam a ter um horário.

Mas tinha a cara de quem não dorme.

— Boa tarde.

— Boa tarde, Maria. Sente-se.

Ela sentou-se na beira da cadeira, como quem não pensa ficar.

— Eu vim aqui dizer-te uma coisa e eu não a sei dizer — começou. — Eu tentei escrevê-la e saiu-me horrível, e eu tentei dizê-la à minha mãe e ela pôs-se a chorar e eu não consegui acabar.

— Diga-a como lhe sair.

Ela olhou para as mãos.

E disse-a como lhe saiu, que foi da pior maneira possível.

— Eu queria saber se tu ficavas com o Tomás.

🍃 🍃 🍃

O gabinete ficou em silêncio.

— Não é assim. — Ela levantou a cabeça depressa. — Espera, não é assim, deixa-me…

— Maria…

— Eu não o quero dar a ninguém como se fosse um gato. — Estava com os olhos cheios. — Deixa-me explicar-te, por favor, porque se tu me puseres na rua agora eu percebo, mas eu preciso de te explicar.

O Leo pousou a caneta.

— Ninguém a põe na rua nenhuma. Explique.

E ela explicou.

🍃 🍃 🍃

Disse que tinha arranjado trabalho em abril, à hora do almoço e ao jantar, num restaurante ao pé da estação, e que perdera esse em julho porque faltou três dias.

Disse que desde setembro estava a fazer limpezas em escritórios, de madrugada, das cinco às oito, porque era a essa hora que a mãe ainda estava em casa a dormir com o miúdo.

Disse que dormia quatro horas, e às vezes três.

Disse que a mãe tinha sessenta e oito anos e as pernas más, e que já não a olhava de lado, mas que ao fim de um dia inteiro com uma criança pequena ficava com uma cara que ela conhecia e da qual tinha medo.

Disse que, em agosto, o Tomás tinha tido uma febre de três dias, e que ela passou essas três noites acordada, não por causa da febre, mas a fazer contas ao que ia acontecer quando a febre seguinte chegasse.

E depois disse a parte que lhe custou.

— Eu não sou boa nisto.

— Maria.

— Não é falta de amor. — E aí a voz partiu-se-lhe toda. — Eu amo aquele miúdo de uma maneira que eu nem sabia que existia. Eu olho para ele a dormir e eu… — Parou. — Mas eu não sou boa nisto, Leo. Eu perco a paciência. Eu grito com um bebé de oito meses às quatro da manhã, e depois fico a odiar-me, e no dia seguinte volto a gritar.

— Isso acontece a toda a gente.

— Eu sei que acontece a toda a gente. — Limpou a cara com as costas da mão. — Mas às outras pessoas passa. A mim não está a passar. Já vai um ano.

🍃 🍃 🍃

O Leo ficou muito quieto.

— E porquê eu?

E ela deu-lhe a resposta que ele já sabia, porque já lha tinha dado uma vez, naquele mesmo gabinete, em março.

— Porque tu és uma pessoa decente.

— Eu não lhe dei nada, Maria.

— Eu sei que não. — E foi por aí que ela o apanhou. — Tu não me deste nada. Não me arranjaste emprego, não me deste dinheiro, não me foste buscar a lado nenhum. Eu saí daqui em março exatamente com o que trouxe.

— Então…

— Tu sentaste-me numa cadeira e disseste-me a verdade na cara. — Tinha os olhos fixos nele. — Toda a gente que eu conheço me disse alguma coisa este ano. A minha mãe disse-me que eu tinha feito a vida por mim. O meu irmão disse-me que eu me tinha metido nisto sozinha. E tu foste o único que tinha razões para me esmagar e que não me esmagou.

Ficaram os dois calados.

— Eu pensei nisto durante quatro meses — continuou ela. — Pensei em toda a gente que eu conheço, uma por uma. E não há mais ninguém.

— A senhora tem uma mãe e um irmão.

— A minha mãe tem sessenta e oito anos e não aguenta. E o meu irmão só me voltou a falar em julho. — Encolheu os ombros. — E nenhum dos dois olha para aquele miúdo como tu olhaste naquele dia.

— Eu não olhei para ele nenhum dia.

— Olhaste, sim. — Ela disse aquilo com uma certeza que o desarmou. — Tu não lhe pegaste. Mas tu não tiraste os olhos dele durante uma hora inteira.

🍃 🍃 🍃

O Leo não disse nada durante muito tempo.

E, quando falou, não foi nem que sim nem que não.

— Eu tenho de falar com uma pessoa.

— Eu sei.

— E ele tem dezanove anos, Maria. — Olhou para ela. — Isto não é uma coisa que eu possa decidir sozinho, e já uma vez decidi sozinho uma coisa que não me competia e quase me custou tudo.

A Maria assentiu.

— Eu percebo.

Levantou-se.

— Só te peço uma coisa.

— Diga.

— Se a resposta for não, diz-me depressa. — Pegou na mala. — Porque enquanto eu não souber, eu não consigo voltar a olhar para ele da mesma maneira, e ele não tem culpa disso.

🍃 🍃 🍃

Nessa noite, o Leo não conseguiu contar.

Jantaram, falaram da semana, viram meio filme, e ele não conseguiu.

Só quando já estavam deitados, com a luz apagada, é que disse ao teto:

— Anjo.

— Hum.

— A Maria esteve hoje no escritório.

O Rafael acendeu o candeeiro.

🍃 🍃 🍃

O Leo contou-lhe tudo, do princípio ao fim, sem tirar nem pôr, e demorou vinte minutos porque teve de parar duas vezes.

E, quando acabou, o Rafael não disse nada durante um bocado.

— Tu queres.

— Eu não disse isso.

— Tu não precisas de dizer nada. — O Rafael estava sentado na cama, de pernas cruzadas. — Eu conheço-te a cara toda, Leo. Tu queres.

O Leo ficou a olhar para as mãos.

E depois disse a coisa que nunca tinha dito em voz alta a ninguém, nem ao Henrique, nem ao irmão, nem à mãe quando a mãe ainda podia ouvir.

— Eu passei sete anos a dizer a mim próprio que não queria.

O Rafael esperou.

— Eu tinha vinte e cinco anos e um médico disse-me uma coisa, e eu saí daquela consulta e decidi ali, no corredor, que aquilo não me fazia falta nenhuma. — Passou a mão pela cara. — E eu andei sete anos a dizer isso, e disse-o tão bem que acabei por acreditar.

— E hoje?

— E hoje uma mulher entrou no meu escritório e perguntou-me aquilo, e eu percebi que estive sete anos a mentir a mim próprio.

🍃 🍃 🍃

O Rafael levantou-se da cama.

Foi à cozinha, e voltou com dois copos de água, e deu-lhe um, e sentou-se outra vez.

— Agora ouve-me tu.

— Rafa…

— Não. Agora falo eu, e tu não me interrompes, porque eu vou dizer uma coisa que vai parecer má e não é.

O Leo calou-se.

— Eu tenho dezanove anos.

— Eu sei.

— Eu ainda tenho curso para acabar. Eu ainda ando a dormir com uma perna que dói quando chove. E há um ano eu não conseguia apanhar um garfo do chão. — Estava a falar devagar, a escolher tudo. — Se nós ficarmos com aquele miúdo, a minha vida acaba como ela é hoje. Não há viagens baratas, não há noites fora, não há nada disso. E toda a gente vai dizer que eu era novo demais.

— Eu sei. É por isso que eu…

— Eu não acabei. — O Rafael levantou a mão. — Eu disse que ia parecer má.

O Leo fechou a boca.

— Eu pensei nisto tudo em três minutos, e sabes o que é que eu percebi? — Olhou para ele. — Que não me interessa nada.

— Rafael.

— Eu tive uma pessoa sentada ao pé da minha cama dezanove dias. — A voz dele estava perfeitamente calma. — Eu tive uma pessoa que me vestiu, que me lavou, que me escreveu os trabalhos todos com a letra dela e que se pôs no meio de uma estrada para eu poder atravessar. Aos dezanove anos.

— Isso é diferente.

— Não é nada diferente. — Chegou-se à frente. — Ninguém te perguntou se tu eras novo demais para isso. Tu fizeste.

🍃 🍃 🍃

Ficaram os dois sentados na cama, às onze e meia da noite, com dois copos de água e uma coisa enorme no meio deles.

— Mas eu quero três coisas — disse o Rafael.

— Diz.

— Primeira: nós vamos falar disto com os meus pais, com os teus irmãos e com o Jorge. Todos. E se alguém tiver alguma coisa a dizer, diz na nossa cara e nós ouvimos até ao fim.

— Combinado.

— Segunda: aquele miúdo vai saber sempre quem é a mãe dele. Sempre. Desde pequeno, com o nome e com a cara. Eu não quero que ele descubra aos catorze anos por causa de um papel.

O Leo assentiu.

— E a terceira?

O Rafael olhou para ele.

— A terceira é que eu não vou ser tio de ninguém.

— O quê?

— Se eu entrar nisto, eu entro a sério. — Encolheu um ombro. — Eu não quero ser o rapaz que vive com o pai dele. Ou sou pai daquele miúdo ou não faço isto, e digo-te já que a segunda hipótese me parece uma parvoíce, mas é uma coisa que tu tens de querer.

O Leo levou a mão à boca.

E ficou assim um bocado, a olhar para aquele rapaz sentado na cama dele de pernas cruzadas, com uma cicatriz na testa e outra na perna, a dizer aquilo com a naturalidade de quem pede sal.

— Anjo.

— Diz.

— Isso não é uma parvoíce.

— Pois não.

🍃 🍃 🍃

Não foi rápido, e ainda bem.

Houve uma advogada, que explicou tudo três vezes e que usou uma palavra que nenhum dos dois conhecia. Houve papéis, e houve um tribunal, e houve uma senhora da segurança social que veio a casa duas vezes, viu os quartos, perguntou quem tratava das refeições e ficou meia hora a falar sozinha com o Rafael na cozinha.

Houve um relatório.

Houve quatro meses de espera em que ninguém dormiu bem.

E houve, pelo meio, um domingo em que se sentaram os dois à mesa em casa dos pais do Rafael e contaram aquilo à família toda ao mesmo tempo.

A D. Clara pôs as mãos na boca e não disse nada durante um minuto inteiro.

O Lorenzo perguntou três coisas práticas, uma a seguir à outra, como quem faz uma lista.

O Lucca não perguntou nada e ficou a olhar para o irmão com uma cara esquisita.

E o Jorge, que era de quem eles tinham mais medo, ouviu tudo até ao fim de braços cruzados, e depois disse:

— Tu tens dezanove anos, Rafael.

— Tenho.

— E tu tens trinta e três.

— Tenho — disse o Leo.

O Jorge ficou calado uns segundos.

— Está bem. — Descruzou os braços e tirou o telemóvel do bolso. — Manda-me as medidas do quarto.

— O quê?

— As medidas do quarto, Rafael. — Já estava a abrir uma nota. — Aquela casa não tem sítio para pôr uma cama de grades sem tapar a janela, e eu não vou lá a correr em janeiro com um metro na mão.

E foi só isso o que ele disse sobre o assunto, e foi a coisa mais bonita que disse na vida.

🍃 🍃 🍃

Combinou-se tudo para um sábado de manhã, em fevereiro, três dias depois de o Tomás fazer um ano.

Não havia nada para tratar nesse dia. Estava tudo tratado havia semanas: as roupas, os papéis, o quarto, a cadeirinha do carro que o Sr. Wei tinha instalado ele próprio e depois voltado a instalar porque não tinha ficado a seu gosto.

Combinou-se para as dez.

Às dez menos cinco, o Leo estava de pé no meio da sala sem saber o que fazer com as mãos, e o Rafael estava à janela.

— Ela vem?

— Vem.

— E se não vier?

— Vem, Leo.

🍃 🍃 🍃

Veio a pé, da paragem, com o miúdo ao colo e um saco às costas.

Subiu a rampa que o Sr. Wei tinha feito.

E, quando o Leo abriu a porta, viu logo, pela cara dela, que ela não ia conseguir falar.

Tinha os olhos inchados de uma noite inteira e a boca a tremer, e estava a segurar o filho com as duas mãos de uma maneira que ninguém segura uma criança a não ser na última vez.

— Maria.

Ela abanou a cabeça.

Não como quem diz que não. Como quem pede que não lhe peçam nada.

E deu um passo à frente, e estendeu-lhe o miúdo.

🍃 🍃 🍃

O Leo não deu o passo atrás.

Pegou-lhe.

Pegou-lhe com as duas mãos e com um jeito que não tinha, e teve de o ajeitar duas vezes, e o Tomás olhou para ele com aquela cara séria de quem está a decidir se vale a pena chorar.

Não chorou.

Agarrou-se à gola da camisa dele com a mão inteira, como fazem, e encostou a cabeça ao ombro dele, e ficou quieto.

E o Leo, que tinha passado sete anos a dizer a si próprio que não queria, ficou parado à porta de sua casa com uma criança ao colo e sem ter absolutamente nada para dizer.

🍃 🍃 🍃

A Maria ficou a olhar.

Depois pousou o saco no chão, com cuidado, e endireitou-se.

O Rafael, que estava atrás do Leo, deu um passo para a frente e abriu a boca.

E ela abanou outra vez a cabeça, e ele calou-se.

Ficaram os três assim, à porta, durante uns segundos que nenhum deles conseguiu medir.

E depois ela virou-se e foi-se embora.

Não disse uma única palavra em toda a manhã.

🍃 🍃 🍃

Chegou ao portão.

E ali, com a mão no ferro, parou.

Não se virou para trás. Ficou só parada, de costas, durante o tempo que foi preciso, com os ombros a subir e a descer.

E foi o Rafael que gritou.

— Maria!

Ela parou.

— Domingo, às três.

Ela virou a cabeça meia volta, sem o olhar de frente.

— O quê?

— Domingo, às três da tarde, aqui em casa. — O Rafael tinha a mão no batente da porta. — E no domingo a seguir. E no outro.

A Maria ficou parada.

— Eu não sei se consigo.

— Então não vem. — Ele encolheu os ombros. — Mas a porta fica aberta às três, todos os domingos, e nós não vamos deixar de a pôr na mesa.

Ela ficou ali mais um bocado.

E depois foi-se embora sem responder, o que não era um não.

🍃 🍃 🍃

Fecharam a porta.

Ficaram os dois no corredor, com um saco no chão, uma criança de um ano ao colo do Leo e um silêncio completamente novo naquela casa.

— Carinho.

— Hum.

— Tu estás a tremer.

— Estou.

O Rafael chegou-se e pôs a mão nas costas do miúdo, que já estava meio a dormir com a cara na camisa do outro.

— Eu também.

E ficaram assim os três no corredor durante muito tempo, porque nenhum dos dois soube o que é que se faz a seguir.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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