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45 – A Maria

Foi a Luísa que tratou de tudo, porque foi ao Leo que lhe custou.

Ligou-lhe de um número da empresa, numa terça-feira à tarde, e disse-lhe exatamente o que lhe tinham mandado dizer: que o Sr. Mattos estava disponível para a receber, que era na quinta-feira às seis, depois do fecho, e que a conversa ia ter mais uma pessoa presente.

Do outro lado houve um silêncio comprido.

— Mais uma pessoa.

— Sim.

— Um advogado?

— Não, minha senhora. — A Luísa olhou para a porta fechada do gabinete. — Não é um advogado.

🍃 🍃 🍃

Chegou às seis menos cinco.

O Leo ouviu o elevador e pôs-se de pé, e foi só quando a porta se abriu que percebeu uma coisa em que não tinha pensado uma única vez em três meses.

A Maria vinha com o filho ao colo.

Vinha com um casaco escuro, os cabelos apanhados à pressa, olheiras de um mês inteiro e um bebé enrolado numa manta amarela, encostado ao ombro esquerdo.

O Leo ficou parado atrás da secretária.

— Boa tarde — disse ela.

— Boa tarde. Entre.

E ela entrou naquele gabinete, oito meses depois de ter saído dele aos gritos.

🍃 🍃 🍃

O Rafael estava sentado na cadeira do canto, com as muletas encostadas à parede ao lado.

Ela viu-o e parou.

— Este é o Rafael — disse o Leo.

— Eu sei quem ele é.

Ficaram os três em silêncio.

— Eu pedi para estar aqui — disse o Rafael. — Se a senhora não quiser, eu saio agora e não me ofendo.

A Maria olhou para ele.

Olhou para as muletas encostadas à parede, e para a cicatriz na testa dele, e para a maneira como ele estava sentado com a perna direita esticada.

— Foste tu.

— Fui eu.

— Eu li nos jornais. — Ela ajeitou o filho no ombro. — Vinha lá o nome da faculdade e não vinha o teu. Mas eu sabia que eras tu.

— Pois.

Ela ficou mais um bocado parada à porta.

Depois sentou-se.

🍃 🍃 🍃

— Chama-se Tomás — disse, sem ninguém lhe ter perguntado. — Tem cinco semanas.

— Parabéns — disse o Rafael.

— Obrigada.

O Leo não disse nada, e a Maria reparou nisso.

— Eu já sei o que é que tu vais dizer.

— Maria…

— Não. — Levantou a mão livre. — Deixa-me dizer a minha parte primeiro, porque eu ensaiei isto no autocarro e se tu falares eu perco-me toda.

O Leo calou-se.

E ela disse a parte dela.

🍃 🍃 🍃

Disse que tinha ficado sem trabalho em julho e que não tinha arranjado outro, porque ninguém contrata uma mulher grávida. Disse que tinha voltado para casa da mãe, em Almada, e que a mãe não lhe falava. Disse que as contas do médico as tinha pago o irmão, e que o irmão também já não lhe falava.

Disse que tinha vindo àquela porta em janeiro dois dias seguidos, e que tinha ficado à espera lá fora, e que ele não tinha descido.

— Eu não vim aqui pedir dinheiro — disse.

— Então veio pedir o quê?

E ela olhou para ele com uma cara que o Leo nunca lhe tinha visto, nem no dia em que a despediu.

— Eu vim pedir-te que o reconheças.

🍃 🍃 🍃

O gabinete ficou muito calado.

— Eu não quero nada teu, Leo. Nem pensão, nem casa, nem que tu lhe pegues ao colo. — Estava a falar depressa. — Eu quero que ele tenha um pai no papel. Uma linha no assento de nascimento. Para quando ele crescer e perguntar.

— Maria.

— Eu sei que tu não querias. Eu sei que foi uma noite e que tu me disseste que não querias nada comigo, e eu não te estou a acusar de nada…

— Maria.

— E eu também não fui bem tratada nem bem pensada, e eu sei disso! — A voz dela subiu, e o bebé mexeu-se ao ombro dela, e ela voltou a baixá-la logo a seguir. — Mas ele não tem culpa nenhuma. Ele não tem culpa nenhuma, Leo.

O Leo esperou.

Esperou até ela acabar, e até respirar, e até perceber que tinha acabado.

E depois abriu a gaveta.

🍃 🍃 🍃

Tirou de lá uma pasta de cartão, fina, com quatro folhas dentro.

Pousou-a em cima da secretária e empurrou-a para ela.

— Eu não posso reconhecer o seu filho — disse.

— Leo…

— Não é que eu não queira. — Pôs a mão em cima da pasta. — É que eu não posso, e é isso que eu lhe vim dizer há oito meses e que a senhora não ouviu.

A Maria olhou para a pasta e não lhe tocou.

— O que é isso?

— São exames. — Ele afastou a mão. — Três são de anos diferentes, feitos por médicos diferentes. O mais recente é de dezembro passado, e esse fui eu fazer de propósito por causa disto.

Ela continuou a não tocar.

— Eu tive um cancro aos vinte e cinco anos, Maria. — O Leo disse aquilo devagar, e não olhou para o lado, e não desviou os olhos. — Fui operado, fiz quimioterapia e radioterapia durante um ano. E fiquei estéril.

O silêncio que se seguiu a essa frase foi diferente de todos os outros daquela tarde.

— Eu não posso ter filhos. — Continuou. — Não é uma questão de probabilidade, nem de ser difícil. É zero. Está escrito nessas folhas por médicos diferentes, em anos diferentes.

A Maria ficou a olhar para a pasta.

— Isso é mentira.

— Abra.

— Isso é mentira, Leo.

— Abra, Maria.

E ela abriu.

🍃 🍃 🍃

Leu a primeira folha inteira, com o filho ao colo, com o dedo a passar pelas linhas como se estivesse a procurar a palavra que a ia safar.

Depois leu a segunda.

Na terceira já não estava a ler.

E, a meio da quarta, pousou os papéis em cima dos joelhos e ficou com a mão na boca.

— Eu disse-lhe isto em julho — disse o Leo, e disse-o sem dureza nenhuma. — Disse-lho no corredor, à porta daquela sala, com quarenta pessoas a ouvir. Foi a pior maneira de dizer uma coisa dessas e a culpa disso é minha.

— Eu não ouvi.

— Eu sei que não ouviu.

— Eu estava a gritar. — Ela tinha a cara a desfazer-se. — Eu estava a gritar e tu estavas a gritar e eu só ouvi que estava despedida.

🍃 🍃 🍃

Foi o Rafael que se levantou.

Levou mais tempo do que teria levado antes, com a mão no braço da cadeira e a perna direita a fazer o que podia, e atravessou o gabinete sem muletas, com uma mão na parede, e foi buscar a caixa de lenços que estava em cima do armário.

Pô-la em cima da secretária ao lado dela.

E, como ela não a via, tirou um lenço e estendeu-lho.

— Obrigada.

— De nada.

— Tu não devias estar a ser simpático comigo.

— Eu sei — disse o Rafael, e voltou para a cadeira. — Mas a senhora tem aí uma criança de cinco semanas e está a chorar num escritório, e a mim isso chega.

🍃 🍃 🍃

Ela chorou durante um bocado sem fazer barulho, por causa do filho.

E, quando conseguiu falar, foi para dizer a coisa mais difícil de todas.

— Então eu não sei.

— Como assim?

— Eu não sei quem é o pai dele. — Levantou a cabeça. — Eu tinha a certeza. Eu fiz as contas cem vezes e dava-me sempre a mesma coisa, e eu tinha a certeza absoluta, e agora não tenho nada.

O Leo não disse nada.

— Houve outra pessoa em abril — disse ela. — E eu descartei-a. Descartei-a porque não me dava jeito nenhum que fosse ele, e porque eu preferia que fosses tu.

— Porquê eu?

E ela olhou para ele com uma franqueza que lhe custou a vida.

— Porque tu és uma pessoa decente.

🍃 🍃 🍃

Ficaram os três naquele gabinete sem saber o que fazer com aquilo.

O Leo não lhe ofereceu nada.

Não lhe ofereceu dinheiro, nem um contacto, nem uma daquelas frases que as pessoas dizem para encher um silêncio, e a Maria percebeu isso e não pediu.

Ao fim de um bocado, levantou-se.

— Obrigada por me teres recebido.

— Não tem de agradecer.

— Tenho. — Ajeitou o filho no ombro. — Tu não tinhas de me abrir esta porta. Ninguém me abre portas nenhumas há um ano.

🍃 🍃 🍃

Levantou-se para a acompanhar à porta, e foi aí que o Tomás acordou.

Acordou como acordam os bebés dessa idade, com um som pequeno e a cabeça a mexer-se à procura de qualquer coisa, e a Maria endireitou-o no ombro com um gesto que já era automático ao fim de cinco semanas.

E aí, no corredor, aconteceu uma coisa que durou dois segundos.

A mala dela escorregou-lhe do ombro e ela travou-a com o cotovelo, e ficou com as duas coisas mal seguras ao mesmo tempo, e fez o que qualquer pessoa faria: estendeu a criança um bocadinho na direção da pessoa que estava mais perto.

O Leo deu um passo atrás.

Não foi um gesto feio. Foi um gesto de quem não estava à espera e não soube.

A Maria puxou o filho outra vez para si sem dizer nada, e ajeitou a mala sozinha, e ninguém comentou aquilo.

Mas o Rafael, encostado ao batente da porta do gabinete, viu.

E ficou com aquilo na cabeça durante muito tempo.

🍃 🍃 🍃

À porta do elevador, ela virou-se para trás.

— Leo.

— Diga.

— Desculpa.

Foi tudo o que ela disse.

O Leo abanou a cabeça devagar.

— Boa sorte, Maria.

As portas fecharam-se.

🍃 🍃 🍃

Ficaram os dois no corredor do sétimo andar, com as luzes já em modo de noite e o edifício inteiro vazio.

— Tu estás bem? — perguntou o Rafael.

— Não sei.

— Queres sentar-te?

— Quero.

Sentaram-se os dois no chão, encostados à parede, entre o gabinete e o elevador, um homem de fato e um rapaz com a perna direita esticada à frente.

— Ela pediu-me para eu mentir — disse o Leo, ao fim de um bocado.

— Não pediu nada.

— Pediu.

— Ela pediu-te para assinares um papel. — O Rafael encostou a cabeça à parede. — Tu é que não podias. É diferente.

O Leo ficou calado.

— E se eu pudesse? — perguntou.

— O quê?

— Se eu não tivesse tido aquela doença, e não houvesse exame nenhum, e ela aparecesse aqui com aquela criança a dizer que era meu. — Virou a cabeça. — O que é que tu achas que eu fazia?

O Rafael pensou.

— Eu acho que tu fazias um teste — disse. — E depois, se desse que não, acho que tu fazias exatamente o que fizeste hoje.

— Achas?

— Acho. — Encolheu os ombros. — Tu és chato assim.

O Leo riu-se, e foi um riso cansado.

🍃 🍃 🍃

— Carinho.

— Hum.

— Posso dizer-te uma coisa que se calhar não te vai agradar nada?

— Diz.

O Rafael ficou a olhar para o chão do corredor.

— Eu passei três meses a pensar naquela mulher — disse. — Desde janeiro. Desde o dia em que tu me disseste que ela estava lá em baixo e que tu não tinhas descido.

— E?

— E eu percebi uma coisa sobre ti que me assustou um bocadinho. — Virou a cara para ele. — Tu és capaz de fechar uma porta e não voltar a abri-la. A sério, mesmo. Fechaste-a a ela em julho, fechaste-a à Beatriz, e há um pedaço da tua cabeça que fecha assim as coisas todas.

O Leo não disse nada.

— E foi isso que tu quase fizeste comigo em novembro — continuou o Rafael. — Não me fechaste a porta. Fechaste a porta do que estava a acontecer, e resolveste sozinho lá dentro.

— Rafael…

— Não estou a acusar-te. — Pôs-lhe a mão no joelho. — Estou a dizer-te que hoje tu abriste uma porta que já estava fechada há oito meses, e que estiveste ali sentado a ouvir uma pessoa de quem não gostas nada. — Apertou-lhe o joelho uma vez. — E eu não te disse nada quando tu estavas a fazer isso, porque não era a altura. Mas estou a dizer-to agora.

O Leo ficou com a cabeça encostada à parede.

— Foi a coisa mais difícil que eu fiz este ano.

— Eu sei.

— E eu só o fiz porque tu me pediste.

— Eu sei disso também.

🍃 🍃 🍃

Ficaram os dois calados um bocado, com o corredor às escuras à frente deles.

— Eu tenho pena dela — disse o Rafael.

O Leo virou a cabeça.

— Tens?

— Tenho. — Encolheu os ombros. — Aquela mulher passou nove meses convencida de que aquele miúdo era teu. Nove meses, Leo. Ela deitou-se todas as noites com aquilo na cabeça e fez planos e imaginou coisas, e hoje, às seis e meia da tarde, alguém abriu uma pasta e tirou-lhe tudo de uma vez.

— Ela não devia ter tido a certeza.

— Não devia. Mas teve. — O Rafael estava a olhar em frente. — E hoje saiu daqui a saber menos do que quando entrou.

O Leo não respondeu.

— Nós podíamos ajudar.

E aí o Leo virou-se mesmo.

— Ajudar como?

— Não sei. — O Rafael disse-o com honestidade. — Alguma coisa. Ela não tem trabalho, Leo, e tem um miúdo de cinco semanas.

— Não.

Foi rápido, e foi seco, e o Rafael não estava à espera daquilo.

— Assim sem pensar?

— Eu já pensei nisso enquanto ela estava sentada ali dentro. — O Leo endireitou-se. — E a resposta é não, e eu vou dizer-te porquê, e depois tu dizes-me se estou errado.

— Diz.

— Eu não devo nada àquela mulher. — Levantou a mão antes que o outro falasse. — Ouvi-la devia. Dizer-lhe a verdade devia, e devia há oito meses. Isso já está feito.

— E?

— E se eu lhe der dinheiro este mês, ela vai precisar outra vez em maio. E em setembro. E eu não vou conseguir dizer que não em setembro, porque em maio disse que sim. — Passou a mão pela cara. — E daqui a três anos aquela mulher depende de mim, e eu passo a ser uma coisa na vida dela que eu não quero ser.

O Rafael ficou a pensar.

— Isso é um argumento bom.

— Obrigado.

— É bom e é frio.

— É as duas coisas. — O Leo encostou outra vez a cabeça à parede. — Quase tudo o que presta é as duas coisas.

Ficaram calados.

— Está bem — disse o Rafael, por fim. — Eu não vou insistir.

— Rafa…

— Não, a sério. Tu tens razão e eu percebo. — Levantou-se com esforço, e ficou de pé à frente dele, e estendeu-lhe a mão. — Só te digo uma coisa, e depois calo-me.

— Diz.

O Rafael olhou para o corredor vazio.

— A criança não tem culpa nenhuma.

O Leo ficou a olhar para a mão estendida.

E depois pegou-lhe, e deixou-se levantar por um rapaz que quatro meses antes não conseguia apanhar um garfo do chão.

E não respondeu àquilo.

Nem nessa noite, nem nas semanas a seguir.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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