44 đ â O Limiar da Confiança
đ Este capĂtulo contĂ©m conteĂșdo para leitores adultos.
Havia quatro meses que dormiam na mesma cama sem se tocarem.
NĂŁo era uma decisĂŁo. Nunca ninguĂ©m tinha dito nada. Simplesmente, a partir de dezembro, a cama passou a ser um sĂtio onde se dormia, e depois, quando deixou de haver razĂŁo nenhuma para isso, jĂĄ havia o hĂĄbito.
O Rafael pensava naquilo quase todas as noites.
E o Leo, que dormia a dois palmos dele com uma mão em cima do lençol, também.
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Foi num såbado de março, com a televisão ligada e ninguém a ver.
Estavam os dois no sofĂĄ. O Rafael tinha a perna direita esticada com uma almofada por baixo do joelho, como tinha todas as noites, e estava encostado ao ombro dele.
â Este filme Ă© uma seca.
â Foste tu que escolheste.
â Tinha bom aspeto no tĂtulo.
O Leo riu-se baixinho, e o Rafael sentiu o riso nas costas antes de o ouvir.
E ficou a olhar para o perfil dele Ă luz da televisĂŁo, e foi aĂ que decidiu.
Chegou-se à frente e encostou-lhe a boca ao pescoço.
NĂŁo foi um beijo. Foi sĂł pousar ali os lĂĄbios e ficar.
O Leo não se mexeu, mas a respiração dele mudou, e o Rafael sentiu essa mudança contra a boca.
â Rafael.
â Hum.
â Rafael.
â Estou a ver televisĂŁo.
O Leo virou a cabeça.
E na cara do Rafael nĂŁo havia televisĂŁo nenhuma.
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â AnjoâŠ
â NĂŁo.
â Eu nem disse nada.
â Ias dizer. â O Rafael endireitou-se no sofĂĄ, com esforço, e virou-se para ele. â Ias dizer o mesmo que dizes hĂĄ quatro meses.
â Eu nĂŁo digo nada hĂĄ quatro meses.
â Pois nĂŁo. â E foi essa a frase que abriu a coisa toda. â NĂŁo dizes nada. Nunca. Tu nĂŁo me dizes que nĂŁo, Leo. Tu afastas-te dois centĂmetros e mudas de assunto, e eu tenho de fingir que nĂŁo dei por isso.
O Leo abriu a boca e fechou-a.
â Eu nĂŁo estou zangado â continuou o Rafael. â Eu sei porque Ă© que tu fazes isso. Mas eu preciso de te dizer uma coisa e tu tens de me deixar dizĂȘ-la atĂ© ao fim.
â Diz.
O Rafael respirou.
â Desde novembro que toda a gente me toca.
O Leo olhou para ele.
â A SĂłnia mexe-me na perna uma hora por dia. A enfermeira mexeu-me no braço. O teu irmĂŁo mexe-me na cabeça e nas costelas quando lhe apetece. E tu⊠â Parou. â Tu ajudas-me a levantar. Ajudas-me a tomar banho. PĂ”es-me a almofada por baixo do joelho todas as noites.
â RafaâŠ
â Toda a gente me trata bem. â A voz dele estava a ficar mais baixa. â E hĂĄ quatro meses que ninguĂ©m me toca por me querer.
O Leo fechou os olhos.
â E Ă© isso que me falta. NĂŁo Ă© o sexo. â O Rafael pĂŽs-lhe a mĂŁo no peito. â Ă que eu jĂĄ sei que tu me amas. Isso eu vi no hospital, vi na rampa, vi na quinta-feira passada no meio daquela estrada. Eu quero que tu me queiras.
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O Leo demorou muito tempo a responder.
E, quando respondeu, foi a verdade, que era o que ele tinha aprendido a fazer nos Ășltimos meses, e que continuava a custar-lhe igual.
â Eu quero-te.
â EntĂŁoâŠ
â Deixa-me acabar, que isto Ă© a Ășnica vez que eu vou conseguir dizer isto assim. â Virou-se para ele no sofĂĄ. â Eu quero-te todos os dias. Eu quero-te quando tu sais do duche com a toalha Ă volta da cintura e me pedes ajuda para chegar Ă prateleira de cima, e isso faz-me sentir uma pessoa horrĂvel.
â Leo.
â Eu vi-te naquela cama, Rafael.
O Rafael calou-se.
â Eu vi-te cinco dias com um tubo no nariz e uma coisa na perna, e vi-te a gritar de dor quando te viraram na segunda-feira a seguir Ă operação, e eu nĂŁo consigo tirar isso de dentro dos olhos. â Tinha a voz rouca. â E depois olho para ti no sofĂĄ e desejo-te, e a seguir sinto que estou a fazer uma coisa errada.
â NĂŁo estĂĄs.
â Eu sei que nĂŁo estou. â Passou a mĂŁo pela cara. â Mas hĂĄ uma coisa pior, e essa Ă© que me trava mesmo.
â Qual?
O Leo olhou para ele.
â Eu tenho medo de ser eu.
â De ser tu o quĂȘ?
â De ser eu a fazer-te doer. â Disse-o baixo. â Toda a gente te fez doer, este inverno. A SĂłnia, os mĂ©dicos, a fisioterapia. Toda a gente te magoou para te fazer bem. E eu fui a Ășnica pessoa nesta casa que nunca te fez doer, e nĂŁo quero perder isso.
O Rafael ficou a olhar para ele.
E depois fez uma coisa muito simples: pegou-lhe na mĂŁo e pousou-lha em cima da coxa direita, por cima da cicatriz.
â Sente.
O Leo nĂŁo tirou a mĂŁo.
â Isto jĂĄ nĂŁo dĂłi â disse o Rafael. â DĂłi mexer, dĂłi ao fim do dia, dĂłi quando chove. Tocar nĂŁo dĂłi nada.
â RafaâŠ
â Eu conheço o meu corpo, Leo. Melhor do que tu, e melhor do que a SĂłnia, e melhor do que o teu irmĂŁo. â Manteve a mĂŁo dele em cima da dele. â Eu ando com este corpo hĂĄ quatro meses a aprender exatamente o que Ă© que ele aguenta. Confia em mim como eu confiei em ti este inverno todo.
O Leo ficou com a mĂŁo em cima da cicatriz.
E o Rafael sentiu-lha ficar quente.
â Se doerâŠ
â Eu digo.
â Imediatamente.
â Imediatamente. â O Rafael sorriu. â E tu nĂŁo te ofendes, e nĂŁo fazes disso um drama, e nĂŁo deixas de me tocar durante mais quatro meses.
â Isso Ă© muita condição.
â Ă pega ou larga.
O Leo riu-se, e foi um riso desfeito, e levantou-se.
â Anda.
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Foi preciso pensar, e foi essa a parte que nenhum dos dois estava Ă espera.
No quarto, com a luz baixa, ficaram os dois parados um bocado, e foi o Rafael que disse:
â Eu nĂŁo me consigo pĂŽr de joelhos.
â Eu sei.
â E nĂŁo posso ficar por baixo com a perna dobrada.
â Eu sei disso tambĂ©m. â O Leo estava a olhar para a cama com uma cara de quem estĂĄ a resolver um problema. â Podes ficar de costas com a perna esticada?
â Posso.
â Com a almofada?
â Com a almofada.
E, no meio daquilo tudo, o Rafael começou a rir-se.
â O que Ă© que foi?
â Nada. â Estava com a mĂŁo na boca. â Ă que eu imaginei isto de muitas maneiras nos Ășltimos quatro meses e em nenhuma delas nĂłs estĂĄvamos a falar de almofadas.
O Leo olhou para ele.
E também se riu.
E foi aquele riso, mais do que tudo o que tinham dito na sala, que deitou abaixo o que ainda faltava deitar abaixo.
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Despiram-se devagar, e foi o Leo que lhe tirou a camisola, com os braços dele levantados como uma criança, e teve de a passar com cuidado por cima do ombro esquerdo, que ainda não subia todo.
E depois ficou a olhar.
O Rafael tinha o peito mais magro do que em novembro. Tinha uma cicatriz na testa, a subir para o cabelo, jĂĄ pĂĄlida. Tinha o braço esquerdo mais fino do que o direito. E tinha, do lado de fora da coxa direita, uma linha comprida e rosada com as marcas dos pontos ainda visĂveis dos dois lados.
O Leo pĂŽs-lhe a mĂŁo em cima.
â NĂŁo Ă© bonito â disse o Rafael.
â Ă.
â Leo.
â Ă. â Levantou os olhos. â Isso Ă© o sĂtio por onde eles te puseram outra vez de pĂ©.
E baixou-se, e beijou-lhe a cicatriz da perna.
O Rafael fechou os olhos e nĂŁo disse mais nada durante um bom bocado.
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Foi tudo mais devagar do que alguma vez tinha sido entre os dois.
NĂŁo por medo, dessa vez, mas porque nĂŁo havia outra maneira, e porque a lentidĂŁo obrigada acabou por lhes dar uma coisa que a pressa nunca lhes tinha dado.
O Leo demorou-se em cada sĂtio.
Beijou-lhe a clavĂcula, e o esterno, e a barriga, e passou muito tempo num mamilo, com a mĂŁo espalmada nas costelas dele, atĂ© o Rafael começar a mexer-se e a parar a meio do movimento por causa da perna, e a rir-se disso.
â EstĂĄ a doer?
â NĂŁo. EstĂĄ a irritar-me.
â Ă diferente?
â Ă muito diferente.
O Leo subiu a boca até ao pescoço dele.
â Diz-me o que Ă© que queres.
â Isso.
â Isso o quĂȘ?
â Isso. â O Rafael agarrou-lhe a nuca com a mĂŁo boa. â Continua a perguntar-me. NinguĂ©m me pergunta nada hĂĄ quatro meses. Toda a gente decide sobre este corpo Ă minha frente e ninguĂ©m me pergunta.
â EntĂŁo eu pergunto. â O Leo encostou a boca Ă orelha dele. â Queres que eu te toque?
â Quero.
â Onde?
E o Rafael disse-lhe.
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A mĂŁo do Leo desceu, e foi a primeira vez em quatro meses que aquela mĂŁo o tocou por aquela razĂŁo, e o Rafael arqueou as costas e teve de travar o movimento a meio, e dessa vez nĂŁo se riu.
â Espera.
O Leo parou de imediato.
â DĂłi?
â NĂŁo. â Estava a arfar. â NĂŁo pares. Só⊠espera um segundo.
O Leo esperou.
Ficou ali, com a testa encostada Ă do Rafael e a mĂŁo parada onde estava, sem tirar nem continuar, durante o tempo que foi preciso.
â Pronto â disse o Rafael.
â Pronto?
â Pronto.
E foi assim a noite inteira: ele pedia, o Leo fazia, ele dizia espera, o Leo esperava.
Ninguém se ofendeu. Ninguém fez disso um drama.
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Quando chegaram ali, foi o Rafael que o disse em voz alta, porque sabia que o Leo nunca o ia pedir.
â Eu quero-te dentro de mim.
O Leo levantou a cabeça.
â RafaâŠ
â Eu sei o que Ă© que estou a dizer. â Tinha os olhos abertos e a voz firme. â Eu fico de costas, com a perna esticada em cima da almofada, e tu vais devagar, e eu digo se for preciso parar.
â E se for preciso parar a meio?
â EntĂŁo paramos a meio. â O Rafael pĂŽs-lhe a mĂŁo na cara. â E isso nĂŁo Ă© um fracasso, Leo. Ă sĂł uma coisa que nĂŁo deu hoje.
O Leo fechou os olhos.
â EstĂĄ bem.
â Diz outra vez.
â EstĂĄ bem.
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Foi devagar, e foi cuidadoso de uma maneira que nĂŁo tinha nada a ver com medo.
O Leo preparou-o com paciĂȘncia, com os dedos, e demorou o tempo que quis, e foi perguntando, e o Rafael foi respondendo com palavras enquanto conseguiu e com sons quando jĂĄ nĂŁo conseguia.
A perna aguentou.
Doeu uma vez, a meio, quando ele tentou levantar a anca por instinto, e o Rafael disse espera e o Leo parou tĂŁo depressa que ficaram os dois quietos no meio daquilo, a respirar.
â Queres que eu saia?
â NĂŁo. â O Rafael tinha a mĂŁo nas costas dele. â Fica assim. SĂł nĂŁo te mexas.
Ficaram.
Trinta segundos, talvez, e a dor passou como uma onda que vai embora.
â Pronto.
â De certeza?
â Carinho.
â Diz.
â Se eu quisesse parar, eu parava. â O Rafael abriu os olhos. â Foi isso que eu aprendi este inverno todo. Eu digo quando quero parar.
E o Leo voltou a mexer-se, devagar.
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O que houve a seguir nĂŁo foi a noite mais intensa que eles tinham tido.
Foi outra coisa, e nenhum dos dois soube dizer o quĂȘ nessa noite.
O Rafael manteve os olhos abertos quase o tempo todo, o que nĂŁo costumava fazer, e o Leo percebeu porquĂȘ Ă terceira vez que ele o fez: ele queria ver-lhe a cara.
Queria ver naquela cara a coisa que lhe tinha faltado o inverno inteiro, que nĂŁo era amor.
E estava lĂĄ.
E, quando o Rafael acabou, com a mão do Leo em cima dele e a boca do Leo no pescoço dele, disse uma coisa que não fazia sentido nenhum e que fazia todo o sentido do mundo.
â Estou inteiro.
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Depois ficaram muito tempo calados.
O Leo levantou-se, foi buscar ĂĄgua e um pano quente, e limpou-o com a mesma naturalidade com que lhe tinha limpado a cara no hospital, e nĂŁo havia nada de estranho nisso.
Voltou com o estojo preto na mĂŁo.
â Agora nĂŁo â disse o Rafael.
â Agora sim.
â Leo.
â Cento e vinte segundos e eu deixo-te em paz.
O Rafael estendeu o dedo com uma cara de mĂĄrtir.
Oitenta e nove.
â EstĂĄs bom.
â Eu sei que estou bom.
â EntĂŁo bebe metade disto na mesma.
O Rafael bebeu metade daquilo na mesma, e depois pousou o copo no chĂŁo e encostou-se a ele.
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â Leo.
â Hum.
â Obrigado.
â PorquĂȘ?
O Rafael demorou a responder.
â Porque tu podias ter continuado a tratar de mim.
O Leo virou a cabeça.
â O quĂȘ?
â Era mais fĂĄcil. â Tinha a cara no ombro dele. â Era muito mais fĂĄcil continuares a ser a pessoa que me pĂ”e a almofada e me apanha os garfos. Isso nĂŁo tem risco nenhum.
â Rafa.
â E hoje tu arriscaste fazer-me doer. â Chegou-se mais. â NĂŁo hĂĄ muita gente que faça isso por alguĂ©m.
O Leo ficou a olhar para o teto durante um bocado.
â Doeu?
â Uma vez. Doze segundos.
â Tu contaste?
â Eu conto tudo agora. â O Rafael bocejou. â Ă um defeito novo.
E adormeceu ali, com a perna esticada em cima de uma almofada, com o braço mais fino em cima do peito do outro homem, e com a cara de quem dormiu bem pela primeira vez em muito tempo.
O Leo ficou acordado mais um bocado.
Mas, dessa vez, nĂŁo foi por causa de nenhum nĂșmero.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.