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43 – A Primeira Rua

O gesso saiu a três de fevereiro, numa sala com luz de néon e uma serra elétrica que fazia um barulho de fim do mundo.

Quando lho tiraram, o Rafael ficou a olhar para o próprio braço como quem olha para uma coisa que lhe emprestaram.

Estava mais fino do que o outro. Tinha a pele branca, seca e com uma marca do gesso a toda a volta, e os pelos tinham crescido esquisitos.

— Isso é normal — disse o Lucca.

— Está horrível.

— Está. — O Lucca pegou-lhe na mão e dobrou-lhe o pulso devagar. — Mexe os dedos para mim.

O Rafael mexeu os dedos.

Mexeram-se pouco, e mexeram-se mal, e doeram.

— Também é normal?

— Também.

— Vocês dizem que é tudo normal.

— É tudo normal. — O Lucca largou-lhe a mão. — Isso é o problema desta fase. Está tudo normal e não há nada que se possa fazer depressa.

🍃 🍃 🍃

A fisioterapeuta chamava-se Sónia, tinha uns cinquenta anos e não era nada simpática, e foi a melhor coisa que aconteceu ao Rafael naquele inverno.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Vamos deixar já uma coisa esclarecida. — Ela pôs-lhe a mão na perna e dobrou-a trinta graus, e ele viu estrelas. — Isto vai doer todos os dias durante muito tempo, e a dor não quer dizer que esteja mal. Se eu lhe perguntar se dói e o senhor me disser que não, eu não acredito e faço mais.

— Ótimo.

— E não me venha para aqui com heroísmos, que eu já tive aqui muito rapaz de dezoito anos a querer correr em março e a ficar com a perna torta para a vida toda.

— Eu queria correr em março.

— Pois é. — Ela dobrou-lhe mais dez graus. — E vai correr em setembro.

O Leo, sentado numa cadeira encostada à parede, com o casaco no colo, não disse uma palavra durante a hora inteira.

🍃 🍃 🍃

As muletas chegaram a meio de fevereiro.

O primeiro passo com carga foi dentro daquela sala, entre duas barras, com a Sónia à frente dele e o Leo encostado à parede, e demorou onze segundos.

Onze segundos, e ele estava a suar.

Ao fim de duas semanas já atravessava a sala.

Ao fim de três já andava pela casa toda, devagar, com as muletas a bater no chão de madeira num ritmo que o Leo passou a ouvir mesmo quando estava no escritório com a porta fechada, e que passou a ser o som mais bonito daquela casa.

🍃 🍃 🍃

As pazes fizeram-se assim, aos bocados, sem ninguém ter dito nada.

Não houve conversa nenhuma. Não houve pedido de desculpa nenhum, porque já tinham sido feitos todos e nenhum tinha servido de nada.

Houve, isso sim, um sábado à tarde em que o Leo começou a dobrar a roupa mal e o Rafael se riu dele.

Houve uma noite em que discutiram sobre um filme durante quarenta minutos, com uma raiva desproporcionada e nenhuma importância, e foram os dois dormir com um bom humor que já não tinham desde novembro.

Houve uma manhã em que o Rafael derrubou um copo com a muleta, disse uma palavra que a mãe dele não gostaria de ouvir, e deixou o Leo apanhar os cacos sem drama nenhum.

E, a dezoito de fevereiro, uma quarta-feira, o Rafael disse-lhe da cozinha:

— Carinho, sabes onde é que está o meu carregador?

O Leo, que estava no corredor, parou.

Não era assim tão importante.

Era só que ele não lhe chamava aquilo desde a noite de dois de janeiro, e que tinha passado sete semanas a reparar todos os dias que não lhe chamava.

— Está na tomada da sala.

— Obrigado.

E foi isso.

O Leo ficou parado no corredor mais dez segundos, com a mão na parede, e depois foi trabalhar.

🍃 🍃 🍃

Foi numa quinta-feira do fim de fevereiro.

O Leo estava a vestir o casaco às sete da tarde, como fazia todas as quintas-feiras havia quatro anos, e o Rafael apareceu à porta da sala com as muletas.

— Eu vou contigo.

O Leo virou-se.

— Ao lar?

— Ao lar.

— Rafa, isso é meia hora de carro e depois é o corredor todo até ao quarto dela.

— Eu sei.

— E há três degraus à entrada.

— Eu sei, tu disseste-me isso em julho. — O Rafael encostou-se ao batente. — Eu já ando pela casa toda há três semanas e a Sónia disse que eu já podia sair.

— A Sónia disse isso?

— Disse.

— A Sónia disse mesmo isso, ou tu perguntaste-lhe de maneira a ela dizer isso?

— Vai buscar as chaves, Leo.

🍃 🍃 🍃

Correu tudo bem até à rua.

Sair de casa correu bem. Descer a rampa que o pai dele tinha feito correu bem. Entrar no carro levou dois minutos em vez de quatro, o que foi motivo de comemoração.

Estacionaram a uns cinquenta metros do portão do lar, porque não havia lugar mais perto, e o Leo deu a volta ao carro, abriu-lhe a porta, deu-lhe as muletas e esperou.

O Rafael pôs-se de pé no passeio.

E ficou.

Entre eles e o portão havia uma passadeira.

Não era nada de especial. Era uma rua estreita, de sentido único, com carros estacionados dos dois lados, um sinal de peões e umas listas brancas meio apagadas no alcatrão.

O Rafael olhou para aquilo.

— Anjo.

— Espera.

— Está bem.

O Rafael ficou parado no passeio, com as duas muletas no chão, a olhar para quatro metros de rua vazia.

Não passava um carro havia dois minutos.

— Eu não me lembro de nada — disse, e a voz saiu-lhe esquisita. — Eu não me lembro daquele dia, Leo. Eu não devia ter medo disto.

— Pois não.

— Então porque é que eu tenho?

— Eu não sei. — O Leo tinha as mãos nos bolsos, e não lhe tocou. — Mas o teu corpo esteve lá, e ele lembra-se, e ele não te pediu licença.

O Rafael ficou a olhar para as listas brancas.

Passou um carro, devagar, e ele deu meio passo para trás sem dar por isso, e isso irritou-o de uma maneira que não tinha palavras.

— Eu tenho muletas, Leo. Eu não consigo correr.

— Não.

— Se vier um carro eu não consigo fazer nada.

— Não consegues.

— Tu podias mentir-me um bocadinho.

— Podia. — O Leo encolheu os ombros. — Mas depois tu não voltavas a acreditar em mim, e eu já gastei essa margem toda.

O Rafael riu-se, e foi um riso curto e feio, e ajudou.

— Diz-me o que é que eu faço.

— Queres mesmo que eu te diga?

— Quero.

— Então olha para mim.

O Rafael olhou.

— Eu vou para o meio da estrada — disse o Leo. — Vou ficar ali de pé, entre ti e o lado de onde vêm os carros, e não saio de lá. Tu atravessas ao teu tempo. Se demorares dez minutos, demoras dez minutos. Se não conseguires hoje, entramos no carro e vimos na quinta que vem.

— E se vier um carro?

— Então o carro trava, porque eu estou lá no meio e sou muito maior do que tu.

O Rafael ficou a olhar para ele.

— Isso é a coisa mais estúpida que eu já te ouvi dizer.

— É. — O Leo desceu o passeio. — E é o que eu vou fazer.

🍃 🍃 🍃

Demorou um minuto e quarenta segundos.

O Leo ficou no meio da rua, virado para o lado de onde vinham os carros, com as mãos nos bolsos, sem olhar para trás nem uma vez, porque percebeu que se olhasse para trás estragava tudo.

O Rafael atravessou.

Dois metros de cada vez, com as muletas a bater no alcatrão, com o coração a bater-lhe no pescoço e com uma vontade enorme de chorar que ele não deixou sair ali.

Quando chegou ao outro lado, encostou-se ao muro do lar e fechou os olhos.

O Leo atravessou atrás dele e ficou ao lado, sem lhe tocar.

— Pronto — disse o Rafael, ao fim de um bocado.

— Pronto.

— Isto vai ser assim sempre?

— Não sei.

— Vais ter de fazer isto todas as vezes?

— Se for preciso, faço. — O Leo olhou para a rua. — Mas eu acho que não vai ser preciso muitas.

— Porquê?

— Porque tu acabaste de atravessar uma rua que te mete medo. — Virou-se para ele. — E agora já sabes que consegues. Isso não se desaprende.

🍃 🍃 🍃

O lar cheirava ao mesmo. A sopa e a lixívia e àquele ambientador de baunilha que não engana ninguém.

A enfermeira da receção conhecia o Leo de cor e não lhe perguntou nada, mas olhou para o Rafael e para as muletas com uma cara que ele já tinha aprendido a identificar à distância.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

O corredor era comprido e ele fez o corredor todo, e teve de parar uma vez a meio a fingir que estava a ver uma fotografia na parede.

O Leo esperou e não disse nada.

🍃 🍃 🍃

A D. Laura estava sentada na cadeira ao pé da janela, com um casaco de malha abotoado até acima e as mãos no colo.

Estava a olhar para fora, para um jardim onde não havia nada.

— Olá, mãe.

Ela virou a cabeça devagar.

E olhou para o filho com aquela cara educada e bem-disposta que ela tinha para toda a gente, e que era a pior coisa do mundo.

— Boa tarde.

— Trouxe-lhe a escova.

O Leo tirou-a do bolso do casaco, sentou-se no banco ao lado dela e começou a pentear-lhe o cabelo, com cuidado, uma mecha de cada vez, a segurar a raiz com a outra mão para não puxar.

A D. Laura fechou os olhos.

Era a única coisa daquele quarto que ela ainda sabia fazer sem pensar: fechar os olhos quando alguém lhe penteava o cabelo.

O Rafael ficou à porta, apoiado nas muletas, a olhar para aquilo.

Já o tinha visto uma vez, no verão.

E tinha-lhe parecido bonito, na altura.

Agora, com aquele homem de trinta e dois anos sentado num banco de plástico a pentear o cabelo a uma senhora que não sabia quem ele era, parecia-lhe outra coisa, e ele não tinha nome nenhum para ela.

🍃 🍃 🍃

Quando acabou, o Leo pousou a escova no colo e disse:

— Mãe, eu trouxe cá uma pessoa.

Ela olhou para a porta.

— Ah.

— Entra, anjo.

O Rafael entrou, e foi até à cama, e sentou-se na beira dela porque já não se aguentava de pé.

— Este é o Rafael.

A D. Laura olhou para ele com a mesma cara educada, e o Rafael sorriu-lhe.

— Boa tarde, minha senhora.

— Boa tarde.

E então o Leo endireitou-se no banco.

— Mãe.

Ela virou-se para o filho.

— Eu quero que a senhora saiba uma coisa.

E disse-o.

Disse-o de uma vez, sem lhe tremer a voz, com as mãos nos joelhos e os olhos nos dela.

— Este rapaz é o amor da minha vida.

O quarto ficou em silêncio.

A D. Laura olhou para ele, e depois olhou para o Rafael, e depois voltou a olhar para a janela, porque tinha passado um pássaro.

— Que bonito — disse.

E não disse mais nada.

🍃 🍃 🍃

Ficaram lá mais vinte minutos.

A certa altura ela pegou na mão do Rafael, sem razão nenhuma, e ficou com ela na dela, e falou durante um bocado sobre uma vizinha que tinha tido um filho, e ninguém percebeu de quem é que ela estava a falar, e ninguém a interrompeu.

E, quando eles se levantaram para ir embora, ela abriu a gaveta da mesa de cabeceira, tirou de lá um rebuçado de mentol de papel às riscas e estendeu-o ao Rafael.

— Leve isto para o caminho.

O Rafael pegou no rebuçado.

— Obrigado.

Tinha um igual guardado numa gaveta em casa dos pais desde julho.

🍃 🍃 🍃

Fizeram o corredor de volta devagar.

Já no carro, com o cinto posto e as muletas atrás, o Rafael ficou um bocado calado.

— Leo.

— Diz.

— Ela não vai lembrar-se.

— Não.

— Amanhã já não sabe que eu lá estive.

— Não sabe. — O Leo pôs o carro a trabalhar e não arrancou. — Ela já não sabe que eu lá estive, e eu vou lá todas as quintas-feiras há quatro anos.

— Então porque é que disseste?

E o Leo ficou com as mãos no volante, a olhar para o portão do lar.

— Porque eu nunca disse uma coisa dessas à minha mãe — respondeu. — Nunca. Nem quando ela era capaz de a ouvir. Namorei dois anos com uma mulher e nunca lha apresentei, e a minha mãe morreu aos bocados durante seis anos sem nunca me ter ouvido dizer que eu amava alguém.

O Rafael não disse nada.

— Aquilo não foi para ela guardar — continuou o Leo. — Foi para eu ter dito, em voz alta, dentro daquele quarto, à frente dela. Com ela viva.

Arrancou.

— E se ela não se lembra, eu volto para a semana e digo outra vez.

🍃 🍃 🍃

Chegaram a casa às nove e meia.

O Rafael atravessou a sala com as muletas, sentou-se no sofá com um alívio audível e ficou com a cabeça encostada para trás e os olhos fechados.

O Leo foi buscar o medidor, porque era a hora.

Noventa e sete.

— Estás bom.

— Estou estoirado.

— Isso também.

O Rafael abriu um olho.

— Leo.

— Hum.

— Na quinta que vem eu vou outra vez.

O Leo parou com o estojo na mão.

— Vais?

— Vou. — Voltou a fechar os olhos. — E daqui a umas semanas sou eu a penteá-la, que tu fazes isso muito mal.

E, no bolso do casaco, ainda tinha o rebuçado de mentol.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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