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42 – A Verdade

Os sonhos foram ficando mais compridos em janeiro.

Ao princípio era só o barulho. Depois passou a haver a voz, e a voz passou a ter uma divisão à volta, e a divisão passou a ter luz.

E, numa noite por volta do dia dez, o Rafael acordou às duas da manhã com uma coisa a mais.

— Leo.

— Hum.

— Leo, acorda.

O Leo sentou-se de repente.

— O que é? Estás a sentir-te mal?

— Não. — O Rafael estava sentado na cama, direito, com a mão boa apoiada no colchão. — Nós temos uma televisão na sala.

— Temos.

— Ela desliga-se e fica a refletir a sala toda, como um espelho preto.

O Leo ficou muito quieto.

— Fica.

— Eu vi aquilo hoje. — O Rafael estava a falar devagar, a tentar segurar uma coisa que lhe estava a fugir entre os dedos. — Eu vi a televisão desligada e havia duas pessoas no reflexo, de pé, afastadas uma da outra. E havia um caderno aberto no chão.

Não estava a olhar para o Leo. Estava a olhar para a parede.

— Era um caderno meu.

🍃 🍃 🍃

O Leo acendeu o candeeiro.

Ficou sentado na cama, com as costas apoiadas à cabeceira, a olhar para as mãos.

— Rafael.

— Diz.

— Eu tenho uma coisa para te contar e vou contá-la hoje.

O Rafael virou-se para ele.

— Agora? São duas da manhã.

— Eu sei que horas são. — O Leo levantou a cabeça. — E eu já adiei isto trinta e sete dias, e se eu adiar mais uma noite vou adiar mais uma semana, porque é isso que eu faço.

— Leo…

— Deixa-me só dizer-te uma coisa antes. — Respirou. — Eu não vou decidir por ti o que é que tu aguentas ouvir. Tu decides. Se quiseres que eu pare a meio, eu paro a meio e continuo amanhã.

O Rafael ficou a olhar para ele.

E, pela primeira vez desde que tinha acordado no hospital, sentiu uma coisa fria no estômago que não tinha nada a ver com açúcar.

— Está bem.

🍃 🍃 🍃

Contou tudo.

Começou no princípio, que não era outubro, era maio, num clube onde ele tinha ido umas vezes antes de conhecer o Rafael, e onde tinha falado com uma mulher três ou quatro vezes sem lhe saber o apelido.

Contou o telefonema do Henrique, no primeiro domingo de outubro, naquela manhã em que o Rafael estava encostado a ele de camisa emprestada. Contou que ela tinha ido ao Refúgio e perguntado se o rapaz era dele. Contou que tinha desligado o telefone, tinha posto a mão na nuca dele e lhe tinha dito que eram contas e fornecedores.

Contou as rosas brancas. Contou as mensagens, quarenta e uma, de sete números.

Contou o carro à porta da casa dos pais dele, que o Sr. Wei tinha comentado à mesa entre a sopa e o resto. Contou o carro à porta do lar, à quinta-feira à noite.

Contou a noite em que abriu a boca para lhe dizer e disse nada.

Contou o encontro com o Henrique no Refúgio, na última sexta-feira de novembro, e o que o Henrique lhe tinha respondido.

E então chegou ao domingo.

🍃 🍃 🍃

— Nós discutimos.

O Rafael não disse nada.

— Foi na sala. Tu estavas sentado no chão encostado ao sofá, com um caderno nos joelhos, e disseste-me que andavas com a sensação de que alguém andava a olhar para ti. — O Leo estava a olhar para as mãos. — E eu perguntei-te se ela era morena.

— Tu perguntaste o quê?

— Perguntei sem pensar. Foi isso que me entregou. — Levantou os olhos. — E tu levantaste-te do chão, sentaste-te à minha frente e não me largaste até eu contar tudo.

O Rafael tinha a respiração alterada.

— E eu fiquei zangado.

— Ficaste.

— Quanto?

— Muito. — O Leo disse aquilo sem tirar nada. — Disseste-me que o pior não era a mulher. Disseste-me que o pior era eu ter decidido sozinho durante dois meses o que é que tu aguentavas saber. Disseste-me que eu tinha feito exatamente aquilo que o teu pai me tinha dito para não fazer, e que eu tinha quebrado uma coisa que eu próprio te tinha dito na noite do primeiro beijo.

— E depois?

— E depois foste dormir a casa dos teus pais.

O Rafael levou a mão à boca.

— Eu fui-me embora?

— Foste de autocarro. Eu fui atrás, três carros para trás, e fiquei ao fundo da rua até a luz do teu quarto se acender.

— E na segunda-feira?

— Na segunda-feira de manhã eu liguei-te às oito e vinte. — E foi só aqui que a voz do Leo se partiu, ao fim de vinte minutos a aguentar-se. — Eu pedi para te ir buscar ao fim do dia e tu disseste que hoje não. Disseste amanhã.

O quarto ficou muito calado.

— E a última coisa que eu te disse foi para tu comeres qualquer coisa às onze.

🍃 🍃 🍃

O Rafael ficou sentado na cama muito tempo, sem dizer nada.

Depois disse:

— Tu contaste isto a quem?

— A toda a gente. Em dezembro. — O Leo não desviou os olhos. — Contei aos teus pais, ao teu irmão, ao meu irmão, à polícia. Fiquei de pé na sala de espera do hospital e contei tudo por ordem, e o teu irmão Jorge disse-me na cara o que eu merecia ouvir.

— O Jorge sabe.

— Sabe.

— A minha mãe sabe.

— Sabe.

— E ninguém me disse nada. — O Rafael tinha a voz muito calma, e o Leo já conhecia aquela calma dele, e já sabia o que é que ela queria dizer. — Vocês estiveram todos à volta desta cama durante um mês e meio a saber uma coisa sobre a minha vida que eu não sabia.

— Fui eu que lhes pedi.

— E eles disseram que sim.

— Disseram porque eu pedi para ser eu a contar-te.

— E porque é que não contaste?

O Leo não tinha resposta boa para aquela, e não inventou nenhuma.

— Porque tinhas acordado há dois dias. E depois porque foste operado. E depois porque tinhas dores de cabeça todas as tardes. E depois porque foi Natal. — Passou a mão pela cara. — E depois porque já tinha passado um mês e já não havia maneira nenhuma de dizer aquilo que não fosse esta.

🍃 🍃 🍃

E foi ali que o Rafael se zangou a sério.

— Outra vez.

— Rafael…

— Tu fizeste outra vez! — E gritou, e a cabeça doeu-lhe, e ele gritou na mesma. — Tu decidiste outra vez. Em outubro decidiste que eu não aguentava saber de uma mulher, e em dezembro decidiste que eu não aguentava saber do que tinha acontecido na minha própria vida!

— Eu sei.

— Não me digas que sabes! Tu dizes sempre que sabes!

— Porque é verdade.

— Isso não serve de nada! — O Rafael tentou levantar-se e não conseguiu, e isso fê-lo bater com a mão boa no colchão com toda a força que tinha. — Isso não serve de nada, Leo.

E depois ficou quieto.

Ficou quieto com a mão pousada no colchão, a olhar para a perna imobilizada por cima do lençol.

E disse a coisa que o Leo ia levar consigo muito tempo.

— E eu nem me posso ir embora.

O Leo fechou os olhos.

— Da outra vez eu peguei na mochila e fui-me embora. — A voz dele estava a partir-se agora, e não era de raiva. — Eu peguei nas minhas coisas, disse-te que ia dormir a minha casa e fui. Eu podia fazer isso.

— Rafael.

— E agora não posso sair desta cama sem ti. — Olhou para ele. — Tu tens de me levar à casa de banho, Leo. Tu tens de me apanhar os garfos do chão. Como é que eu me zango contigo?

O Leo não se aproximou.

Foi a única coisa inteligente que ele fez naquela noite: não se aproximou.

— Não sei — disse. — Mas eu não vou a lado nenhum, e tu podes estar zangado comigo o tempo que precisares. Não tens de escolher entre as duas coisas.

— Isso é fácil de dizer.

— É facílimo de dizer. — O Leo encostou a cabeça à cabeceira. — E é a única coisa que eu tenho para te dar esta noite.

🍃 🍃 🍃

Ficaram acordados até às quatro.

A certa altura o Rafael disse, do outro lado da cama, para o teto:

— Eu gritei contigo?

— Gritaste.

— Muito?

— Uma vez. — O Leo virou a cabeça. — Uma vez só, e tinhas razão.

E o Rafael ficou calado durante tanto tempo que o Leo pensou que ele tinha adormecido.

— Era essa a voz.

— O quê?

— No sonho. — O Rafael continuava a olhar para o teto. — Eu ouço sempre uma voz de homem zangada e acordo com medo, e tenho andado este tempo todo a pensar que era a tua.

Sentou-se.

— Não era só a tua. — Estava com os olhos muito abertos no escuro. — Havia duas pessoas naquela sala, Leo. Eu vi-as no reflexo da televisão.

O Leo percebeu antes de ele acabar, e não disse nada, porque aquilo não era coisa que se dissesse a ninguém.

— Eu nunca me tinha ouvido assim — disse o Rafael. — Eu nunca gritei com ninguém na minha vida.

— Rafa.

— E a última coisa que eu fiz antes de aquilo me acontecer foi gritar contigo.

E começou a chorar, finalmente, ao fim de uma hora e meia, e não foi por causa da Vera nem por causa da perna.

🍃 🍃 🍃

Dormiram os dois de madrugada, de costas um para o outro, na mesma cama, que é uma coisa que só acontece quando duas pessoas não se querem ir embora.

De manhã, o Leo levantou-se às sete como sempre, fez o pequeno-almoço como sempre, ajudou-o como sempre.

Não falaram do assunto.

E, à tarde, quando o Leo foi ao escritório duas horas, o Rafael ficou sozinho em casa pela primeira vez em muito tempo.

🍃 🍃 🍃

Pegou no telemóvel por causa de uma coisa parva.

Queria saber a que horas é que tinha sido.

Toda a gente lhe tinha dito à hora de almoço e na segunda-feira, e ele percebeu, a meio da tarde, que tinha ali no bolso um aparelho que sabia a hora exata de tudo o que ele tinha feito naquele dia.

Abriu o telemóvel.

Foi às fotografias e não havia nenhuma desse dia. Foi ao registo de chamadas e viu uma chamada recebida às 8h21, com duração de quatro minutos e onze segundos.

Ficou a olhar para aquilo.

Quatro minutos e onze segundos, e ele não se lembrava de um único segundo.

E depois, porque tinha de ser, abriu a conversa dos dois.

🍃 🍃 🍃

Leu de baixo para cima.

Viu as mensagens todas do Leo desde o acidente, escritas para alguém que não as podia ler. Uma de segunda-feira à tarde. Uma de terça. Duas de quarta. Depois nada durante muito tempo, e depois, a dezoito de dezembro, às três da manhã, uma que dizia só "hoje disseste-me uma coisa engraçada e eu ri-me".

E subiu.

E chegou à última mensagem que ele próprio tinha enviado, que era de domingo à tarde e que era sobre gelado.

E, por baixo dela, na caixa de escrever, por enviar, com o cursor ainda lá dentro, estavam três palavras.

<Comi às onze.>

🍃 🍃 🍃

O Leo chegou a casa às sete menos um quarto.

Encontrou-o sentado na cadeira, ao pé da janela, com o telemóvel virado para baixo em cima da perna boa e a cara de quem esteve a chorar e já parou.

— Anjo?

— Anda cá.

O Leo largou a pasta no chão e atravessou a sala.

— O que é que foi?

O Rafael virou o telemóvel e estendeu-lho.

E o Leo pegou nele, e olhou, e ficou a olhar durante muito tempo, e depois teve de se sentar no braço do sofá porque as pernas lhe disseram que sim.

— Isto é de quando?

— Das onze e meia e sete. — O Rafael tinha a voz rouca. — Eu escrevi aquilo e não enviei.

O Leo não conseguiu dizer nada.

— Eu não me lembro de a ter escrito, Leo. Eu não me lembro de nada daquele dia. — Estava a falar baixo, sem tirar os olhos dele. — Mas eu escrevi aquilo, e não a enviei, e eu conheço-me: eu não a enviei porque queria dizer-to na cara no dia seguinte, para ver a tua reação.

O Leo tinha a mão na boca.

— E eu comi — disse o Rafael. — Tu pediste-me e eu comi.

Ficaram os dois assim, sem dizer nada, na sala que se refletia numa televisão desligada.

E foi o Rafael que falou primeiro.

— Isto não é um perdão.

— Eu sei.

— Eu ainda estou zangado contigo e vou estar durante um bocado, e não sei quanto. — Estendeu a mão boa e pegou na dele. — Só não quero que tu passes mais um dia a achar que eu fui para aquela passadeira zangado contigo.

O Leo desfez-se.

Ajoelhou-se no chão ao pé da cadeira, com a cara no colo dele, e o Rafael pôs-lhe a mão na cabeça e deixou-o estar.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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