41 – Os Dias Parados
Ninguém avisa que a parte pior não é o hospital.
No hospital há gente a entrar de hora a hora, há aparelhos a apitar, há exames e resultados e decisões, e toda a gente à volta trata aquilo como uma coisa grave, que é o que é.
Em casa não há nada disso.
Em casa há uma sala com boa luz, um sofá confortável, um rapaz de dezoito anos sentado nele às dez e meia da manhã de uma terça-feira, e um dia inteiro pela frente que não tem absolutamente nada dentro.
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As dores de cabeça vinham sempre ao meio da tarde.
Não eram as piores que ele tinha tido. Eram as mais chatas: uma coisa surda atrás do olho direito que não passava com nada e que o obrigava a fechar os estores e a ficar quieto no escuro durante uma hora, e às vezes duas.
O Lucca tinha-lhe dito que era normal e que ia diminuindo.
Foi diminuindo.
Mas em dezembro ainda vinha quase todos os dias, e o Rafael passou a conhecer a casa pelos sons: o frigorífico a arrancar, o portão do vizinho, a máquina de lavar a mudar de programa, o ruído do computador do Leo no escritório ao fundo do corredor.
Descobriu que se ficasse mesmo quieto ouvia o Leo a escrever.
E descobriu, com uma vergonha que não disse a ninguém, que às vezes fingia dormir mais um bocado só para ele não sair do escritório.
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O Nuno apareceu com os apontamentos à quarta-feira.
Trazia uma pasta de argolas cheia, três canetas e uma cara de quem tinha ensaiado no carro.
— Isto é tudo o que deste até agora e mais o que veio depois. Eu passei tudo a limpo.
O Rafael pegou na pasta.
— Tu passaste isto tudo a limpo?
— A minha letra é horrível.
— A tua letra é horrível.
— Foi por isso que passei a limpo. — O Nuno sentou-se no chão, encostado ao sofá, como fazia desde os doze anos. — E falei com a professora do sotaque.
— E?
— Ela disse que tu fazes as frequências em época especial e que não te preocupes com isso agora. — O Nuno encolheu os ombros. — E depois esteve um bocado calada e disse que espera que tu voltes depressa. Eu acho que ela gosta de ti, Rafa.
— Ninguém gosta de mim, eu discuto com ela todas as aulas.
— Pois. — O Nuno olhou para o teto. — Se calhar é por isso.
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Ficaram os dois a trabalhar a tarde toda, e correu bem, e foi a melhor tarde que o Rafael tinha tido desde novembro.
Até ao momento em que o Nuno se levantou para ir embora e disse, sem maldade nenhuma:
— Ah, e faz o resumo do capítulo quatro que eu no sábado levo.
O Rafael olhou para a pasta.
E depois para a mão esquerda, engessada até acima do cotovelo, apoiada numa almofada.
O Nuno percebeu meio segundo tarde demais.
— Rafa…
— Está tudo bem.
— Eu faço o resumo.
— Eu disse que está tudo bem.
O Nuno saiu com a sensação de ter partido uma coisa e sem perceber muito bem o quê.
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Naquela noite, o Leo encontrou-o à mesa da cozinha com uma caneta na mão direita.
Tinha uma folha à frente e tinha escrito três linhas.
As três linhas pareciam ter sido escritas por uma criança de seis anos, e ele estava a olhar para elas com uma cara que o Leo não lhe conhecia.
— Anjo.
— Eu sou canhoto.
— Eu sei.
— Eu sempre fui canhoto. Desde sempre. — Pousou a caneta. — Eu não consigo escrever, Leo. Eu tirei um curso onde se escreve o dia inteiro e eu não consigo escrever o meu próprio nome.
— Mais seis semanas.
— Eu sei quantas semanas são. — E a voz saiu-lhe alta, e ele não a travou. — Toda a gente me diz quantas semanas são. Eu sei as semanas de cor. A minha mãe diz-me as semanas, tu dizes-me as semanas, o teu irmão diz-me as semanas. Ninguém me pergunta como é que são os dias.
O Leo puxou uma cadeira e sentou-se.
— Então como é que são os dias?
O Rafael ficou a olhar para a folha.
— São compridos.
E foi a única coisa que ele conseguiu dizer nessa noite.
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A partir daí fizeram assim, e foi ideia dele, não do Leo.
O Rafael lia em voz alta e falava, e o Leo escrevia.
Ao princípio custou aos dois, por razões diferentes. O Rafael sentia-se ridículo a ditar como um velhote e o Leo, que tinha tirado o mesmo curso dezasseis anos antes e que não se lembrava de metade, tinha de perguntar como é que se escrevia meia dúzia de nomes.
Depois começou a funcionar.
E depois começou a ser bom.
— Não escrevas isso assim.
— Foi o que tu disseste.
— Foi o que eu disse, mas não é o que eu quero dizer. — O Rafael tinha os olhos fechados no sofá. — Escreve: o autor não está a defender a ideia, está a mostrá-la a funcionar mal de propósito.
O Leo parou de escrever.
— Isso é bom.
— É?
— É muito bom. — Voltou a escrever. — Isso não vem no livro, pois não?
— Não.
— Foste tu que pensaste.
— Fui.
O Leo acabou a frase e ficou a olhar para a folha.
— Tu vais dar um jornalista muito chato.
— Obrigado.
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O açúcar começou a descontrolar-se na segunda semana de dezembro.
Não foi um susto. Foi pior: foi uma coisa lenta, que ninguém conseguia explicar e que ninguém conseguia agarrar.
O corpo dele estava parado. Não andava, não subia escadas, não corria atrás de autocarros. Tinha dores, e a dor faz subir o açúcar. Dormia mal por causa dos pesadelos, e dormir mal faz subir o açúcar. E tinha os dias todos em casa, à mão de semear de uma cozinha inteira, o que também não ajudava nada.
Os números começaram a andar de um lado para o outro sem fazer sentido.
Duzentos e trinta a meio da tarde.
Cinquenta e oito às quatro da manhã.
Cento e noventa depois de um jantar que na semana anterior lhe tinha dado cento e dez.
O médico dele mudou-lhe as doses duas vezes em nove dias.
E o Leo passou a acordar de noite.
Não era de propósito. Era o corpo dele que o punha acordado às três e qualquer coisa, e ele estendia a mão para a mesa de cabeceira, acendia o ecrã e olhava.
Se estivesse bom, pousava o telemóvel e ficava acordado mais um bocado na mesma.
Se estivesse a descer, levantava-se sem fazer barulho, ia buscar sumo à cozinha e acordava-o com a mão no peito, devagar, sempre com as mesmas palavras, para não o assustar.
Anjo. Sou eu. Bebe isto.
Ao fim de duas semanas o Rafael já bebia a dormir.
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Foi numa dessas noites que discutiram a sério pela primeira vez desde o hospital.
Eram três e vinte da manhã e o Rafael acordou com a luz do ecrã na cara.
— O que é que estás a fazer?
— Nada.
— Tu estás a ver a aplicação.
— Estou a ver as horas.
— Leo.
O Leo pousou o telemóvel.
— Estava a ver a aplicação.
O Rafael sentou-se na cama com esforço, e foi essa a parte que o irritou mais, o esforço.
— Tu não dormes.
— Eu durmo.
— Tu não dormes há um mês. Eu acordo e tu estás acordado. Eu acordo às cinco e tu estás acordado. — Passou a mão pela cara. — E depois levantas-te às sete e vais trabalhar, e voltas, e ficas a escrever os meus resumos.
— E?
— E eu não quero isto! — E gritou, e a seguir teve de ficar quieto, porque gritar ainda lhe dava dor de cabeça. — Eu não quero ser a coisa que te está a dar cabo da vida.
O Leo ficou calado um bocado.
— Já acabaste?
— Não te faças engraçado.
— Não estou a fazer-me engraçado nenhum. — Sentou-se na cama, de frente para ele. — Estou a perguntar se já acabaste, porque agora quero eu falar.
O Rafael calou-se.
— Eu acordo de noite porque tenho medo. — O Leo disse aquilo com uma simplicidade que não lhe dava nenhum jeito. — Não é por ti. É por mim. Eu acordo, olho para um número e volto a poder respirar. É um vício e eu sei que é um vício.
— Então…
— Deixa-me acabar. — Respirou. — E, se tu me quiseres tirar o telemóvel da mão, tira. Eu entrego-to. Mas depois não me peças para eu fingir que estou descansado, porque eu não estou.
Ficaram os dois sentados na cama, às três e vinte da manhã, sem saber o que fazer com aquilo.
— Deixa-me ver a mim — disse o Rafael, por fim.
— O quê?
— O meu açúcar. Deixa-me ser eu a ver, de noite. Eu ponho um alarme. — Olhou para ele. — Tu não tens de tomar conta de tudo, Leo. Já tens uma revista.
O Leo abriu a boca para dizer que não.
E não disse, porque se lembrou de uma coisa que um rapaz lhe tinha dito na sala dele, numa noite de domingo em novembro, com a coluna direita, e que ele já não podia dar-se ao luxo de esquecer.
— Está bem.
— Está bem?
— Está bem. — Deitou-se. — Mas deixa o alarme com som.
— Deixo.
— E se eu acordar na mesma…
— Se acordares na mesma, acordas. — O Rafael voltou a deitar-se com cuidado. — Só não quero que aches que tens de o fazer às escondidas.
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Passaram o Natal em casa deles.
A D. Clara decidiu isso sozinha, em novembro, e comunicou a decisão como quem lê um edital: eles não se põem em cima de um carro em dezembro com aquela perna, portanto vai lá toda a gente.
Foram catorze pessoas.
A Amélia chegou primeiro, como sempre, e tratou o Rafael por aleijadinhocom uma naturalidade tão brutal que ele se riu pela primeira vez em quatro dias. O Jorge trouxe uma garrafa e a Inês trouxe três tabuleiros. O Mário trouxe o Henrique, e foi a primeira vez que os dois estiveram àquela mesa juntos, e ninguém fez disso nada, que foi exatamente como o Mário quis.
O Sr. Wei examinou a rampa que tinha feito, com as mãos atrás das costas, e declarou que estava boa.
Ao fim da noite, o Rafael estava tão cansado que adormeceu no sofá, com a perna esticada, no meio da conversa toda.
E o Leo, de pé na porta da cozinha com um pano na mão, ficou a olhar para aquela sala.
Um ano antes tinha passado o Natal sentado ao canto da casa do Lorenzo a responder a e-mails.
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A Maria apareceu a três de janeiro.
Não à porta de casa. À porta da L&L, ao fim da tarde, com um casaco que já não fechava e as mãos apoiadas nos rins, como fazem as mulheres naquele ponto.
A Luísa viu-a da receção e não disse nada a ninguém, porque já tinha aprendido.
Ficou lá vinte minutos e foi-se embora.
E, no dia seguinte, voltou.
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O Leo contou ao Rafael nessa noite, à mesa, e contou-lhe sem preparação nenhuma, que era a maneira nova dele de fazer as coisas.
— A Maria apareceu à porta do escritório ontem e hoje.
O Rafael pousou o garfo.
— A Maria da fotografia?
— A Maria que eu despedi em julho.
— E o que é que ela queria?
— Falar comigo. — O Leo encheu o copo dele de água sem lhe perguntar. — Não entrou. Ficou lá fora nos dois dias.
— E tu?
— Eu não desci.
O Rafael ficou a olhar para ele.
— Porquê?
— Porque aquilo está resolvido, Rafael. Eu fiz exames, eu tenho um papel, aquele filho não é meu e não pode ser meu. — Disse aquilo sem levantar a voz. — E eu não tenho nada para lhe dizer.
— Ela sabe que não é teu?
— Ela sabe o que eu lhe disse em julho.
— Isso não é a mesma coisa.
O Leo parou.
— Como assim?
O Rafael empurrou o prato um bocadinho para a frente, com a mão boa, e falou devagar, porque lhe apetecia dizer aquilo com jeito.
— Tu disseste-lhe que não podias ter filhos, no dia em que a despediste, à frente de toda a gente naquele corredor. — Levantou os olhos. — Ela estava aos gritos. Achas que ela ouviu alguma coisa?
O Leo não respondeu.
— Ela anda há meses com uma coisa na cabeça — continuou o Rafael. — Se calhar mentiu. Se calhar acredita mesmo. Se calhar sabe que não é teu e está em pânico porque não tem mais ninguém. Eu não faço ideia, e tu também não, porque nunca lhe perguntaste.
— Rafael, aquela mulher tentou…
— Aquela mulher está grávida de oito meses e vai ter um filho sozinha. — E aí a voz dele ficou mais baixa, e foi pior. — E anda há dois dias à porta de um prédio à espera de um homem que não desce.
Ficaram os dois calados.
— Porque é que não a ouves? — perguntou o Rafael.
— Tu estás a pedir-me para eu falar com a Maria.
— Eu estou a pedir-te para a ouvires. — Encostou-se para trás. — Ouvir não é dizer que sim.
O Leo olhou para o rapaz que estava sentado à mesa dele, com um gesso, uma perna imobilizada e uma cicatriz nova na testa.
— Onde é que tu foste buscar isso?
— Ao meu pai.
— Pois.
— E a ti. — O Rafael pegou outra vez no garfo. — Tu é que me ensinaste que não se decide sobre as pessoas sem falar com elas. Ensinaste-me a fazer o contrário do que tu fazes, mas ensinaste.
E o Leo ficou com aquilo em cima da mesa a noite toda.
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O pesadelo dessa noite foi diferente.
Continuava a não haver imagem nenhuma. Continuava a haver o barulho.
Mas, dessa vez, antes do barulho, houve uma coisa que não estava lá nas outras.
Houve uma voz.
Não dizia nada que se percebesse e não era de ninguém que ele conseguisse pôr uma cara. Era a voz de um homem, dentro de uma casa, e estava zangada.
E havia mais alguém a responder-lhe.
O Rafael acordou de um salto às cinco menos dez, com a mão boa a agarrar o lençol, e demorou muito tempo a perceber onde é que estava.
O Leo acendeu o candeeiro.
— Outra vez?
— Outra vez.
— O barulho?
— Sim. — O Rafael estava a arfar. — E mais uma coisa.
— O quê?
E o Rafael ficou a olhar para ele no escuro, com o cabelo colado à testa, a tentar alcançar uma coisa que lhe tinha fugido entre acordar e falar.
— Não sei — disse. — Já me fugiu.
O Leo apagou a luz.
E ficou deitado de costas, a olhar para um teto que não se via, com o coração a bater-lhe nos ouvidos.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.